
AFTER THE END
Fandom: The Walking dead
Criado: 30/10/2026
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O Peso do Silêncio e o Cheiro de Pólvora
O asfalto da Interestadual 85 estava quente o suficiente para derreter a sola de um sapato barato, mas Ethan não tinha o luxo de se preocupar com seus pés. O que o preocupava era o silêncio. No antigo mundo, o silêncio era um refúgio, um momento de paz entre as aulas da faculdade e o barulho incessante da cidade. Agora, o silêncio era um predador. Era o som de algo que parou de respirar, mas não parou de andar.
Ethan ajeitou a alça da mochila pesada, sentindo o suor escorrer pela nuca e se perder entre os fios densos de seu cabelo afro. Ele estava sozinho há três semanas. Três semanas desde que o dormitório da universidade se transformou em um necrotério e ele teve que pular uma janela do segundo andar para não virar o jantar de seu colega de quarto.
— Ótimo — sussurrou ele para si mesmo, a voz rouca pela falta de uso. — Mais um quilômetro de nada. Se eu encontrar um posto de gasolina vazio, juro que escrevo uma carta de reclamação para o governo.
Ele sabia que não havia governo. Sabia que não havia ninguém para ler cartas. O sarcasmo era a única coisa que impedia sua mente de colapsar sob o peso da solidão.
Ao longe, o brilho de metal sob o sol de Atlanta chamou sua atenção. Não era um carro abandonado, mas um acampamento improvisado em uma pedreira. Ele parou, apertando os olhos castanhos contra a claridade. Havia fumaça. Fumaça significava fogo, e fogo significava pessoas.
Pessoas eram perigosas. Mas a alternativa era morrer de sede em uma vala qualquer.
Ethan se aproximou com cautela, movendo-se entre as árvores que flanqueavam a estrada. Seus passos eram leves, uma habilidade que ele sempre teve, mas que o apocalipse refinou em um instinto de sobrevivência. Quando chegou perto o suficiente para ouvir vozes, ele se agachou atrás de um arbusto de amoreira.
— Eu estou dizendo, Merle não vai gostar nada disso — disse uma voz masculina, carregada de nervosismo.
— Merle não está aqui, Morales. E se ele estivesse, eu diria a mesma coisa na cara dele — respondeu outra voz, mais jovem e firme.
Ethan observou. Havia um grupo. Um homem coreano com um boné de beisebol, uma mulher loira segurando uma arma de forma desajeitada e um homem que parecia ter saído de um cartaz de recrutamento de xerifes, com o uniforme cáqui ainda impecavelmente limpo, apesar da poeira.
Ethan deu um passo em falso, e um galho seco estalou sob sua bota. O som, no silêncio da pedreira, pareceu um tiro de canhão.
Em um segundo, o homem de uniforme — Rick Grimes, embora Ethan ainda não soubesse seu nome — sacou o revólver e apontou na direção do arbusto.
— Saia daí! Com as mãos onde eu possa ver! — ordenou Rick.
Ethan suspirou, fechando os olhos por um breve momento. Ele odiava ser pego. Lentamente, ele se levantou, erguendo as mãos vazias. A luz do sol bateu em sua pele negra, e ele manteve o rosto impassível, embora seu coração martelasse contra as costelas.
— Calma, xerife — disse Ethan, o tom de voz carregado de uma indiferença fingida. — A menos que você planeje me dar um sermão sobre invasão de propriedade, acho que podemos baixar o tom.
Rick não baixou a arma, mas seus olhos azuis suavizaram-se minimamente ao ver que se tratava de um jovem, pouco mais que um garoto, com o rosto cansado e os olhos inteligentes.
— Você está sozinho? — perguntou Rick.
— Depende — respondeu Ethan, inclinando a cabeça. — Se você for do tipo que rouba andarilhos, eu tenho um exército de ninjas escondidos naquelas árvores. Se for do tipo que tem água potável, sou só eu e minha mochila cheia de meias sujas.
Glenn, o rapaz de boné, soltou uma risada nervosa, ganhando um olhar de reprovação da mulher loira, Andrea.
— Ele é só um garoto, Rick — disse Glenn, dando um passo à frente. — Olhe para ele. Está exausto.
— Eu tenho vinte anos — corrigiu Ethan, finalmente abaixando as mãos, embora permanecesse tenso. — E "exaurido" é um eufemismo. Eu preferiria "estatisticamente improvável de estar vivo".
Rick abaixou a arma lentamente, mas não a guardou no coldre.
— Como se chama?
— Ethan.
— Eu sou Rick. Esse é o Glenn, Andrea, Morales e Amy. Você tem armas?
Ethan abriu a jaqueta, revelando uma faca de caça presa ao cinto e um martelo de carpinteiro enfiado no bolso lateral da mochila.
— Nada que use balas. Elas fazem muito barulho e eu prefiro não anunciar minha localização para os vizinhos que gostam de morder.
— Ele é esperto — comentou Glenn, aproximando-se com uma garrafa de água. — Toma. Você parece que não bebe nada há dias.
Ethan hesitou. Sua mente analítica gritava que aceitar qualquer coisa de estranhos era um risco. Mas a sede era uma dor física que ele não podia mais ignorar. Ele pegou a garrafa, os dedos roçando brevemente nos de Glenn. O toque humano, por mais fugaz que fosse, enviou um choque pelo seu sistema. Fazia tanto tempo que ele não sentia o calor de outra pessoa.
— Obrigado — disse Ethan, a voz perdendo um pouco do sarcasmo. Ele bebeu metade da garrafa em um único gole longo. — Então, este é o comitê de boas-vindas do fim do mundo? Esperava mais serpentinas.
— Você tem um senso de humor peculiar para alguém que quase levou um tiro — observou Rick, guardando o revólver. — Venha. Vamos levá-lo para o acampamento principal. Mas se tentar qualquer coisa...
— Eu sei, eu sei. O xerife me coloca na cadeia — interrompeu Ethan com um meio sorriso. — Ah, espera. As cadeias estão cheias de mortos-vivos. Que dilema ético para você.
O caminho até o acampamento foi preenchido pelo falatório entusiasmado de Glenn, que parecia aliviado por ter alguém de sua idade por perto. Ethan apenas ouvia, processando as informações. Ele descobriu que Rick tinha acabado de chegar de Atlanta, que havia um grupo maior e que a tensão era alta.
Quando chegaram ao topo da colina, Ethan viu o restante do grupo. Mulheres lavando roupas, crianças brincando na terra como se o mundo não tivesse acabado, e um homem sentado em uma caminhonete, limpando uma besta com uma precisão quase religiosa.
O homem da besta levantou o olhar. Seus olhos eram pequenos, frios e carregados de uma desconfiança selvagem. Ele não disse nada, apenas observou Ethan como um lobo observa um intruso em seu território.
— Quem é o projeto de modelo da Vogue? — perguntou uma voz áspera.
Era Daryl Dixon.
Ethan parou, sustentando o olhar de Daryl. Ele sentiu uma pressão estranha no peito, uma mistura de medo e uma curiosidade que ele não conseguia explicar. Daryl exalava perigo, mas também uma solidão que Ethan reconhecia em si mesmo.
— Ethan — respondeu o jovem, cruzando os braços. — E você deve ser o cara responsável por manter a média de higiene do grupo baixa. Prazer em conhecer.
Um silêncio tenso caiu sobre o acampamento. Shane, que estava por perto, soltou uma gargalhada curta e seca. Daryl apertou os lábios, levantando-se da caminhonete com a besta em mãos. Ele caminhou até Ethan, parando a poucos centímetros de distância. O cheiro de cigarro, suor e mato inundou os sentidos de Ethan.
— Você é muito engraçadinho, não é? — rosnou Daryl, a voz baixa e ameaçadora. — Vamos ver se você ainda vai estar fazendo piada quando eu te deixar lá fora para os bichos te comerem.
Ethan não recuou. Ele inclinou o rosto levemente para cima, já que Daryl era um pouco mais alto.
— Se os "bichos" tiverem o mesmo hálito que você, eu provavelmente morro antes deles morderem. Intoxicação por nicotina é coisa séria.
Daryl estreitou os olhos, e por um momento, todos acharam que ele ia desferir um golpe. Em vez disso, ele soltou um bufo de desdém e deu as costas.
— Mais uma boca para alimentar — resmungou Daryl, voltando para sua caminhonete. — Rick, você só traz lixo para cá.
Rick suspirou, colocando a mão no ombro de Ethan para guiá-lo para longe.
— Não liga para o Daryl. Ele é... complicado.
— Complicado é física quântica, Rick — disse Ethan, embora seus olhos seguissem Daryl por um segundo a mais do que o necessário. — Ele é só um ranzinza com uma arma legal.
A noite caiu sobre a pedreira trazendo um frio que entrava nos ossos. Ethan foi acomodado perto da fogueira, recebendo uma tigela de ensopado de coelho que, segundo Glenn, Daryl havia caçado.
Ethan comia em silêncio, observando as dinâmicas do grupo. Ele viu como Rick olhava para a esposa, Lori, com uma mistura de adoração e culpa. Viu como Shane observava Rick com um ressentimento mal disfarçado. E viu Glenn, que parecia tentar ser o fio condutor que mantinha todos unidos.
Glenn sentou-se ao lado de Ethan, oferecendo um pedaço de pão amanhecido.
— Ele não é tão ruim — disse Glenn, referindo-se a Daryl. — Ele só não sabe como lidar com pessoas.
— E eu não sei como lidar com o apocalipse, mas não saio por aí rosnando para todo mundo — rebateu Ethan, embora tenha aceitado o pão. — Por que vocês ficam com ele?
— Porque ele sobrevive. E ele nos ajuda a sobreviver. Neste mundo, isso vale mais do que boas maneiras.
Ethan olhou para as chamas. Ele pensou em seus pais, que ficaram para trás em Maryland. Pensou em como ele sempre foi o "garoto quieto e inteligente" que ninguém notava. Ali, naquele círculo de fogo, ele sentia que cada palavra e cada gesto tinham um peso imenso.
— Você era o quê? Antes disso tudo? — perguntou Glenn com curiosidade genuína.
— Estudante de arquitetura — respondeu Ethan. — Eu gostava de projetar coisas que durassem. Estruturas que aguentassem o tempo. Irônico, não acha? Agora tudo o que eu faço é ver as coisas desmoronarem.
Glenn sorriu tristemente.
— Eu entregava pizzas. Eu conhecia cada atalho de Atlanta. Agora, esses atalhos são armadilhas mortais.
— Pelo menos você conhece o terreno. Eu só conheço a teoria de como construir um prédio que não caia. Não serve de muito contra mortos-vivos.
— Serve sim — disse uma voz vinda das sombras.
Era Rick. Ele se aproximou da fogueira, sentando-se com eles.
— Precisamos de pessoas que saibam pensar, Ethan. Força bruta nós temos de sobra. Mas alguém que saiba analisar um lugar, ver as fraquezas... isso é o que vai nos manter vivos a longo prazo.
Ethan olhou para Rick. Havia algo no xerife que o atraía — uma integridade que parecia deslocada naquele mundo novo. Era perigoso confiar em alguém assim. Pessoas boas morriam primeiro.
— Não me dê um emprego ainda, Rick — disse Ethan, voltando ao seu tom sarcástico. — Eu ainda não decidi se vou ficar. Posso acordar amanhã e decidir que prefiro a companhia dos zumbis. Eles não reclamam do meu sarcasmo.
— Você vai ficar — disse Daryl, passando por eles para ir dormir em sua caminhonete. Ele não parou, mas jogou uma manta dobrada na direção de Ethan. A manta atingiu o peito do jovem com um baque surdo. — O chão é frio. Não quero você tremendo e fazendo barulho a noite toda.
Daryl desapareceu na escuridão antes que Ethan pudesse responder.
Ethan segurou a manta. Ela cheirava a fumaça e óleo de motor. Era áspera, mas quente. Ele a apertou entre os dedos, sentindo uma pontada de algo que ele tentava esconder profundamente: afeto.
— Viu? — sussurrou Glenn com um sorriso cúmplice. — Ele gosta de você.
— Ele jogou um pano em mim, Glenn. Não vamos escrever um romance sobre isso — resmungou Ethan, mas ele se enrolou na manta assim que se deitou na terra dura.
O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo estalar da madeira na fogueira e pelos sons distantes da floresta. Ethan olhou para as estrelas, que pareciam mais brilhantes agora que as luzes das cidades estavam apagadas.
Ele estava em um lugar perigoso, cercado por estranhos, no meio de um pesadelo que não tinha fim. Ele tinha Rick, que queria ser seu líder. Tinha Glenn, que queria ser seu amigo. E tinha Daryl, que parecia querer ser seu maior problema.
Ethan fechou os olhos, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios antes do sono o levar.
— É — murmurou ele. — Vai ser um desastre absoluto. Mal posso esperar.
Ele sabia que o "slow burn" de sua nova vida estava apenas começando. As chamas da fogueira podiam apagar, mas a tensão que sentia em relação aos homens daquele acampamento estava apenas começando a queimar. E num mundo onde tudo morria, aquela centelha de conexão parecia a coisa mais aterrorizante e vital que ele já havia encontrado.
