
Além dos Holofotes
O silêncio do apartamento no 16º arrondissement contrastava brutalmente com as últimas quatro horas de sua vida.
Nátaly fechou a pesada porta de madeira maciça atrás de si, deixando escapar um longo suspiro que pareceu drenar metade do cansaço acumulado. Ela jogou a pequena bolsa de grife sobre o aparador de mármore e, sem a menor cerimônia, livrou-se dos saltos agulha. Seus pés agradeceram instantaneamente o toque frio do piso polido.
Ela ainda estava impecável, mesmo que a energia estivesse no limite. O vestido de cetim terracota abraçava com precisão cirúrgica suas curvas generosas, delineando o quadril largo e o busto farto de uma mulher que conhecia perfeitamente o próprio corpo e não pedia desculpas por ocupá-lo com tanta presença. Os cachos escuros e volumosos, que haviam sido admirados por dezenas de fotógrafos e convidados no jantar de gala da semana de moda, caíam sobre os ombros nus como uma moldura viva e indomável para seus traços marcantes.
A luz indireta da sala revelava que ela não estava sozinha.
Uma taça de cristal com água com gás e limão descansava na bancada da cozinha, e o aroma característico de perfume amadeirado misturado ao frescor de um banho recém-tomado preenchia o ar. Désiré Doué estava encostado na sacada de vidro, contemplando as luzes distantes da Torre Eiffel.
Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta básica de algodão, que caía com perfeição sobre o peito largo e os ombros atléticos. O cabelo impecavelmente cortado, a pele morena e luminosa sob a penumbra, e aquela postura naturalmente despojada de quem sabia exatamente o poder que exercia sobre os gramados e fora deles. Havia nele a energia vibrante dos grandes palcos, mas temperada por uma calma profunda, quase predatória, quando as câmeras se apagavam.
Ao ouvir o clique suave dos sapatos no chão, Désiré virou-se devagar. Os lábios desenhados se curvaram em um meio sorriso que carregava todo o charme parisiense e a audácia de um camisa 14 que acabara de decidir uma partida difícil no Parc des Princes.
— Você demorou — disse ele, com a voz grave e aveludada, dando dois passos lentos em direção a ela. — Pensei que teria que ir buscar você naquele tapete vermelho.
Nátaly arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, cruzando os braços sob o busto, o que apenas acentuou o decote generoso do vestido.
— A noite era beneficente, meu bem, mas as pessoas adoram falar quando veem uma mulher que sabe fazer negócios — respondeu ela, caminhando até ele com a cadência lenta e segura que lhe era natural. — Além disso, eu precisei assistir aos seus últimos vinte minutos de jogo pelo celular no caminho. Belo gol, aliás.
Désiré riu baixo, um som rouco que vibrou no peito, encurtando a distância final entre eles. Seus olhos castanhos, intensos e seguros, percorreram o corpo de Nátaly sem pressa alguma, absorvendo cada detalhe com a fome de quem havia passado a noite inteira focado em uma bola de futebol, mas com a mente vagando para o que o esperava em casa.
— Belo gol? Só isso? — Ele parou a poucos centímetros dela, o calor de seu corpo irradiando através do tecido leve de suas roupas. — Eu driblei dois defensores no limite da área, Nátaly.
— Eu vi. Muito plástico. Quase digno de você — provocou ela, erguendo o queixo para encará-lo nos olhos, recusando-se a ceder um milímetro de espaço.
— Quase? — Désiré levou as mãos à cintura dela, os dedos longos e firmes se espalhando pelas laterais de seu quadril, puxando-a suavemente para mais perto. — Você é exigente demais.
— Eu apenas não dou pontos fáceis para quem já tem o ego do tamanho da França — retrucou ela, sentindo o ar rarefeito pela proximidade. Suas mãos subiram até o peito dele, sentindo as batidas firmes e regulares de um atleta de elite por baixo do algodão macio. — Mas você jogou muito. De verdade. O estádio veio abaixo.
— A única plateia que me importava ver aplaudir não estava lá — murmurou ele, a voz caindo para um sussurro perigoso. Désiré deslizou a mão direita pelas costas de Nátaly, os dedos roçando o tecido sedoso até encontrar a base da coluna, onde o vestido revelava parte da pele morena e quente. — Você está deslumbrante. Essa cor... faz você parecer intocável.
— E eu sou intocável, Doué — rebateu ela com um sorriso maduro, saboreando a tensão que crescia entre eles como uma faísca em palha seca. — Para a maioria das pessoas, pelo menos.
— Ainda bem que eu não sou a maioria das pessoas.
Sem esperar por uma réplica, Désiré inclinou a cabeça e capturou os lábios dela. Foi um beijo que começou firme, confiante, marcando território, mas que rapidamente se aprofundou quando Nátaly entreabriu a boca para recebê-lo. Ela não era uma espectadora passiva; correspondia à intensidade dele na mesma moeda. Seus dedos se enroscaram na nuca dele, sentindo a pele lisa e quente, puxando-o contra si enquanto a boca dele explorava a sua com uma mistura perfeita de fome e técnica refinada.
O sabor dele era familiar e inebriante: menta, adrenalina e o calor puro de um homem no ápice de sua força. Quando Désiré se afastou apenas o suficiente para respirar, sua respiração estava entrecortada, os olhos fixos nos lábios dela, que agora brilhavam úmidos e levemente avermelhados.
— Você tem ideia do quanto eu pensei nisso durante o segundo tempo? — sussurrou ele, os lábios roçando a mandíbula dela antes de descerem para a curva do pescoço.
Nátaly soltou um suspiro trêmulo quando ele encontrou aquele ponto sensível logo abaixo de sua orelha, onde o perfume floral com toques de baunilha estava mais concentrado. Sua cabeça tombou ligeiramente para o lado, cedendo ao toque, mas mantendo a mente lúcida o suficiente para contra-atacar.
— Pensei que profissionais mantivessem a cabeça no jogo, garoto prodígio — disse ela, a voz ligeiramente embargada pelo prazer.
— E mantive — ele respondeu contra a pele dela, depositando um beijo demorado ali —, até o apito final. Depois disso, meu único foco era saber se você ainda estaria acordada quando eu chegasse.
— Eu quase dormi no carro — confessou ela, as mãos descendo pelos ombros largos dele, traçando as linhas dos braços musculosos. — Aqueles saltos são uma tortura disfarçada de elegância.
Désiré ergueu a cabeça e a encarou, um brilho de determinação e ternura surgindo em seu olhar. Ele não disse nada de imediato; apenas segurou a mão dela e a conduziu suavemente em direção ao grande sofá de couro que dominava o centro da sala.
— Sente-se — pediu ele, a autoridade em seu tom sendo suavizada por um carinho implícito.
— Désiré, eu só preciso tirar esse vestido e...
— Sente-se, Nátaly — repetiu ele, com um sorriso de canto que tornava qualquer resistência inútil. — Deixe-me cuidar disso.
Ela o olhou por um instante, avaliando o homem diante de si. Havia em Désiré uma maturidade fascinante que ia muito além de seus anos de vida; uma confiança serena que não precisava de gritos nem de arrogância vazia para se fazer respeitada. Nátaly permitiu-se relaxar no couro macio do sofá, apoiando as costas e esticando as pernas cansadas.
Désiré ajoelhou-se à frente dela no tapete felpudo. A cena em si já era carregada de uma sensualidade absurda: um dos jogadores mais cobiçados da Europa, prostrado aos pés de uma mulher que o olhava de cima com a dignidade de uma rainha moderna. Ele pegou o pé direito dela, apoiando-o em sua coxa, e começou a massagear a sola e o calcanhar com uma pressão firme, precisa.
Nátaly soltou um gemido baixo, fechando os olhos por um segundo antes de voltar a encará-lo.
— Isso é jogo sujo — murmurou ela.
— É apenas reconhecimento pelo esforço — ele retrucou, subindo os polegares para a curva do tornozelo, aliviando a tensão acumulada de horas em pé sobre saltos vertiginosos. — Você comanda metade daquelas marcas naquele evento e ainda tem que sorrir para gente que não entende nada do que você faz. Eu sei como é carregar expectativas.
As palavras dele tocaram um lugar além da superfície. Era exatamente isso que a mantinha tão fascinada por ele. Não era apenas a beleza evidente, os músculos esculpidos ou o prestígio da camisa que ele vestia; era a capacidade dele de enxergá-la em sua plenitude, compreendendo as pressões que ambos compartilhavam, vindos de mundos onde o erro raramente era perdoado.
— Às vezes é exaustivo — admitiu ela, sua voz soando mais suave, despindo-se da armadura de negócios. — Todo mundo quer um pedaço, uma assinatura, um sorriso.
— Mas aqui não — disse Désiré, trocando de pé e repetindo o movimento com a mesma dedicação minuciosa. Seus olhos subiram lentamente pela perna torneada dela, onde a fenda generosa do vestido deixava à mostra a coxa morena e firme. — Aqui você só precisa ser você.
A massagem, que começou como um alívio terapêutico, rapidamente começou a mudar de temperatura. As mãos dele agora subiam pela panturrilha de Nátaly, os dedos quentes traçando círculos lentos, avançando pela coxa exposta até pararem pouco abaixo da bainha do vestido. O olhar de Désiré era um desafio velado, carregado de uma segurança magnética que fez o estômago dela revirar com uma deliciosa onda de calor.
Nátaly inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, quebrando a distância entre seus rostos. Ela estendeu a mão e afundou os dedos na textura espessa e bem cuidada do cabelo dele, puxando-o levemente para cima.
— Você é muito perigoso quando quer ser gentil — disse ela, a respiração batendo contra os lábios dele.
— Eu não estou sendo gentil — respondeu ele, a voz ríspida de desejo, levantando-se gradualmente até ficar de pé entre as pernas dela, forçando-a a se encostar novamente no sofá. — Eu estou sendo paciente. Mas a minha paciência tem limites bem claros, Nátaly.
Ele levou as mãos aos ombros dela, deslizando as alças finas do vestido terracota. O tecido escorregou suavemente, revelando a curva generosa de seu decote e a pele dourada, que reagiu instantaneamente ao contato do ar fresco e ao calor dos olhos dele. Désiré deu a volta por trás do sofá, inclinando-se sobre ela. Suas mãos alcançaram o fecho oculto nas costas do vestido.
— Posso? — perguntou ele, os lábios a milímetros da orelha dela, uma provocação direta ao controle que ela tanto prezava.
— Se demorar mais um segundo, eu mesma rasgo — respondeu Nátaly, girando levemente o pescoço para encará-lo com um olhar que misturava arrogância e rendição.
Um som baixo e satisfeito escapou da garganta dele enquanto o zíper descia com um deslize suave, abrindo a peça até a linha da cintura. O cetim caiu frouxo, e as mãos de Désiré finalmente encontraram a pele nua de suas costas. O contraste das mãos ásperas de atleta contra a maciez aveludada do corpo dela arrancou um arrepio involuntário da espinha de Nátaly.
Ele a ajudou a se levantar do sofá. Nátaly deixou o vestido cair aos seus pés como uma poça de seda líquida, restando apenas uma lingerie de renda preta que acentuava cada centímetro de suas formas exuberantes: a cintura bem delineada, as coxas fartas e o busto farto contido pelo sutiã estruturado.
Désiré deu um passo para trás, apenas o bastante para contemplá-la por inteiro. Não havia pressa em seus movimentos, apenas a certeza absoluta de quem dominava a situação.
— Você é um espetáculo — murmurou ele, com uma admiração genuína e crua na voz. — Nenhuma daquelas passarelas tem nada parecido com isso.
— E você fala muito bem para alguém que passa noventa minutos correndo atrás de uma bola — rebateu ela, avançando um passo e enganchando os polegares no cós da camiseta dele. Com um movimento ágil e experiente, ela puxou a peça para cima, obrigando-o a erguer os braços para que ela a retirasse e a jogasse no chão, sobre o vestido.
O torso dele era uma obra-prima de definição funcional: músculos desenhados pelo treinamento rigoroso, o abdômen trincado sob a pele morena e lisa, e os ombros que pareciam carregar o peso de um clube inteiro sem vacilar. Nátaly deslizou as unhas cuidadosamente esmaltadas pelo peito dele, sentindo a pele arrepiar sob seu toque e a respiração dele se aprofundar.
— Menos conversa, Doué — provocou ela, a voz baixa, arrastada, cheia de intenção. — Mostre o que você aprendeu com essa confiança toda.
Désiré sorriu, aquele sorriso predador que seus adversários temiam em campo, mas que aqui pertencia exclusivamente a ela. Em um movimento rápido e firme, ele passou os braços por baixo das coxas dela e a ergueu do chão com uma facilidade desconcertante. Nátaly soltou uma risada surpresa, que rapidamente se transformou em um suspiro quando suas pernas se fecharam em volta da cintura dele por instinto.
Ele a levou em direção ao quarto principal, sem nunca quebrar o contato visual. O quarto estava banhado pela penumbra das cortinas semiabertas, com a silhueta da cidade de Paris se estendendo lá fora através das imensas janelas que iam do teto ao chão.
Désiré a deitou no centro da cama king-size com uma delicadeza que contrastava com a força de seus movimentos anteriores. Ele ajeitou os cachos escuros dela sobre os travesseiros brancos, espalhando-os como uma coroa selvagem.
— Você pensa que está no controle — sussurrou ele, subindo na cama e cobrindo o corpo dela com o seu, mantendo a maior parte do peso sobre os cotovelos para não sufocá-la, mas garantindo que ela sentisse cada centímetro de sua presença.
— Eu sempre estou no controle, meu bem — respondeu ela, mesmo enquanto arqueava as costas ao sentir o toque quente dos lábios dele em sua clavícula.
— Vamos ver até quando você consegue sustentar essa teoria — disse ele, a voz rouca, antes de capturar a boca dela em um beijo devastador.
Desta vez, não havia qualquer resquício de hesitação. Désiré usava as mãos com precisão calculada, acariciando os quadris largos, traçando a curva macia de sua cintura e subindo até os seios, aplicando a pressão exata para fazê-la perder a compostura. Nátaly arranhou as costas dele, puxando-o com urgência, suas pernas apertando os flancos do jogador enquanto a fricção entre seus corpos tornava o ar insuportavelmente denso.
Ela o conhecia bem o suficiente para saber quando ceder e quando puxar as rédeas. Quando a boca dele desceu pelo seu abdômen, beijando cada centímetro com uma reverência lasciva, Nátaly enfiou os dedos no cabelo dele, inclinando a cabeça para trás contra os travesseiros, incapaz de conter os suspiros que ecoavam pelo quarto silencioso.
— Désiré... — o nome dele escapou como uma prece involuntária.
Ele ergueu o olhar, encontrando os olhos brilhantes dela na penumbra, um sorriso triunfante e quente nos lábios.
— Diga de novo — pediu ele, a voz quase inaudível, mas carregada de uma autoridade sensual que a desarmava por completo.
— Você sabe o quanto é insuportável? — murmurou ela, puxando-o de volta para cima pelos ombros, buscando sua boca com um desespero que ela raramente permitia que alguém visse. — Venha aqui.
Quando ele finalmente desfez as últimas barreiras de tecido que os separavam e uniu seus corpos, o mundo exterior — os flashes das câmeras, os gritos das arquibancadas, os contratos milionários e os holofotes impiedosos — simplesmente evaporou. Restava apenas o ritmo constante, maduro e apaixonado que compartilhavam; um compasso perfeito entre força e entrega.
Désiré movia-se com a cadência ritmada e intensa de quem conhecia os limites físicos do próprio corpo, mas com a sensibilidade de quem colocava o prazer dela em primeiro plano. Cada investida profunda trazia à tona uma resposta gutural de Nátaly, que envolvia seus ombros e costas com pernas e braços, acolhendo-o por inteiro, recusando-se a deixá-lo escapar de sua órbita.
Eles eram dois adultos no topo de suas carreiras, seguros de si, mas ali, entre lençóis amarrotados e respirações sincronizadas, nada importava além daquela conexão crua e inegável. Nátaly mordeu o lábio inferior dele quando o clímax começou a se aproximar, uma onda avassaladora que fez seus músculos se contraírem em uníssono. Désiré enterrou o rosto na curva do pescoço dela, seu corpo tensionando-se rigidamente enquanto descarregava toda a adrenalina da noite nela, soltando um gemido rouco e abafado contra a pele úmida de perfume e suor.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som compassado de duas respirações recuperando o fôlego.
Désiré rolou para o lado, mas não a soltou. Ele a puxou para seu peito, passando um braço protetor em volta de seus ombros nus. Nátaly acomodou a cabeça na curva do pescoço dele, um braço descansando sobre o abdômen ainda tenso do atleta, os dedos traçando distraídos as linhas de sua pele.
Os cachos volumosos dela cobriam parte do peito dele, e Désiré passava os dedos por eles com uma lentidão pacífica, visivelmente relaxado, como raramente se permitia ficar diante do público.
— Então — começou ele, a voz quebrando o silêncio com uma ponta de provocação risonha —, quem estava no controle afinal?
Nátaly riu baixo, erguendo o queixo para encará-lo com seus olhos escuros e afiados, que não haviam perdido um pingo de sua dignidade habitual.
— Eu permiti que você pensasse que estava. Faz bem para a sua recuperação muscular.
Désiré balançou a cabeça, soltando uma gargalhada genuína que ecoou pelo quarto, beijando a testa dela logo em seguida com uma doçura desarmante.
— Você não perde uma, Nátaly.
— Nunca, meu bem — respondeu ela, fechando os olhos e se aconchegando mais contra o calor estável dele. — Agora fique quieto e durma. Amanhã você tem treino e eu tenho uma reunião ao meio-dia.
Désiré apertou o abraço, acomodando o queixo no topo da cabeça dela, sentindo o aroma inconfundível que era só dela.
— Sim, senhora — murmurou ele, com um sorriso satisfeito desenhado no rosto enquanto Paris brilhava, silenciosa e distante, do outro lado do vidro.
