
Doci x batatinha
Fandom: Turma da batatinha
Criado: 31/10/2026
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Entre Laços de Cetim e Espinhos de Vidro
O ar no planeta isolado era denso, carregado com o cheiro de ozônio e da vegetação exótica que Sunny, a garota água-viva, insistia em cultivar. Dentro da base improvisada, o silêncio era uma raridade, geralmente quebrado pelas traquinagens de Kode com seus patos ou pelos murmúrios enigmáticos de Yuyu. No entanto, naquele corredor específico, o silêncio era pesado, quase sólido.
Doci ajustou as luvas brancas de seda, alisando as dobras do seu vestido rosa estilo lolita. Cada babado estava perfeitamente alinhado, cada detalhe amarelo claro brilhava sob a luz artificial. Ela se olhou no reflexo de uma placa de metal, ajeitando o laço rosa em sua cintura e o grande laço atrás do rabo de cavalo alto. Seus olhos, de um rosa escuro profundo, pareciam cansados, apesar da fachada de porcelana que ela insistia em manter.
Ela odiava aquele lugar. Odiava a sujeira, a falta de criados e a forma como o chão frio castigava suas sapatilhas de bailarina. Mas, acima de tudo, ela odiava o fato de que aquele era o único lugar no universo onde se sentia minimamente segura. Longe do pai. Longe do trono que cheirava a sangue e decepção.
— O que você está fazendo parada aí, Doci? Planejando como vai me esfaquear pelas costas enquanto eu durmo? — A voz era ríspida, carregada de um sarcasmo que já se tornara o novo normal.
Batatinha estava encostada no batente da porta, segurando seu cajado mágico com uma força desnecessária. Seu terno vermelho carmesim estava impecável, e as marias-chiquinhas presas com as presilhas de batatinhas davam a ela um ar infantil que contrastava violentamente com o olhar endurecido e as olheiras de quem carregava o peso de uma guerra perdida.
Doci deu um sorriso pequeno e ácido, cruzando os braços delicadamente.
— Ora, Batatinha... Se eu quisesse te matar, teria escolhido um método muito mais elegante do que uma facada. Sangue faz uma bagunça terrível no meu vestido, sabia?
Batatinha estreitou os olhos vermelhos. A tensão entre elas era um fio de navalha.
— Engraçado. Da última vez que te vi, você estava implorando ao papai para que ele me executasse. O que mudou? O castelo ficou entediante sem alguém para você torturar psicologicamente?
Doci sentiu uma pontada no peito, uma mistura de culpa genuína e o velho instinto de manipulação. Ela deu um passo à frente, fazendo seus movimentos parecerem uma coreografia de balé, leve e calculada.
— Eu fugi, Batatinha. Eu deixei tudo. Você acha que é a única que tem cicatrizes daquele homem? — Doci suavizou a voz, aproximando-se o suficiente para ver o reflexo de sua própria ansiedade nos olhos da irmã. — Eu tentei agradá-lo. Eu tentei ser a filha perfeita para que ele não descontasse em você... mas você fugiu e me deixou lá. Sozinha com ele.
— Eu fugi porque ele ia me matar! — Batatinha explodiu, batendo a base do cajado no chão, faíscas mágicas saltando do cristal. — E você ia ajudar! Você me visitava naquele calabouço, me dava esperança, e depois ia rir de mim no salão real!
— Eu estava sobrevivendo! — rebateu Doci, a voz subindo um tom, perdendo a compostura de princesa. — Eu sou manipuladora, Batatinha? Talvez. Mas eu aprendi com o melhor. Eu tive que mentir para que ele não me trancasse em uma cela ao seu lado. Eu queria te tirar de lá, mas eu tive medo.
Houve um silêncio longo. Batatinha desviou o olhar, o peito arfando. Ela odiava o quanto Doci ainda conseguia mexer com suas emoções. Ela queria odiá-la puramente, sem nuances, mas a visão da irmã ali, tão frágil em seu vestido rosa e, ao mesmo tempo, tão afiada em suas palavras, a confundia.
— Você não pode ficar aqui para sempre agindo como se fosse a dona do lugar — disse Batatinha, a voz agora mais baixa, quase um sussurro. — Sunny e os outros não confiam em você. Eu não confio em você.
— Eu não me importo com aquela garota-peixe ou com o menino dos patos — Doci disse, voltando à sua postura altiva, embora seus dedos tremessem dentro das luvas. — Eu só me importo com você.
Batatinha soltou uma risada amarga.
— Comigo? Desde quando?
— Desde sempre. Mesmo quando eu estava sendo horrível. — Doci deu mais um passo, desta vez invadindo o espaço pessoal de Batatinha. Ela estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar o rosto da irmã. — Você é a única coisa real que sobrou daquela casa maldita.
Batatinha não recuou, mas seus olhos brilharam com uma mistura de raiva e uma vulnerabilidade que ela tentava esconder a todo custo.
— Se você quer mesmo recomeçar, Doci... pare de tentar me controlar. Pare de usar o que aconteceu na guerra contra mim.
Doci sentiu um nó na garganta. Ela queria confessar. Queria dizer que, durante as noites em que Batatinha estava presa, ela não conseguia dormir. Queria dizer que a admiração que sentia pela força da irmã tinha se transformado em algo muito mais profundo, algo que a assustava porque parecia errado, proibido, e ao mesmo tempo a única coisa que fazia sentido. Ela amava Batatinha. Não apenas como a irmã que ela traiu, mas como a única pessoa que realmente a conhecia. Mas como confessar isso para alguém que tinha todos os motivos do mundo para sentir nojo dela?
— Eu vou tentar — prometeu Doci, sua voz falhando por um breve segundo. — Mas você sabe que a delicadeza é minha única arma. Sem ela, o que me resta?
— Resta ser você mesma — Batatinha respondeu, finalmente encontrando os olhos rosa da irmã. — Sem os jogos. Sem o papai sussurrando no seu ouvido.
— Isso vai ser difícil — Doci brincou, tentando aliviar a tensão com seu tom ácido costumeiro. — Especialmente porque você fica tão adorável quando está brava, Batatinha. Suas bochechas ficam vermelhas como o seu terno. Quase dá vontade de esquecer que você tem um cajado capaz de destruir um continente.
Batatinha bufou, virando o rosto para esconder um leve rubor que não era de raiva.
— Você é impossível. Vá para o seu quarto. Sunny preparou o jantar e, se você reclamar da comida de novo, eu mesma te jogo no vácuo do espaço.
— Oh, que medo da grande imperatriz — Doci fez uma reverência teatral, os babados de seu vestido balançando graciosamente. — Eu irei, minha querida irmã. Mas só porque estou com fome, não porque você mandou.
Enquanto Doci se afastava pelo corredor, seus passos de bailarina fazendo um som rítmico no metal, Batatinha permaneceu parada, apertando o cajado. Ela sentia o coração acelerado. Havia uma toxicidade no ar sempre que Doci estava por perto, uma dependência mútua que nascera do trauma e da solidão. Batatinha sabia que deveria mandá-la embora, que Doci era perigosa para sua saúde mental, mas, ao mesmo tempo, a presença da irmã trazia uma cor que aquele planeta desolado não tinha.
Doci, por outro lado, parou ao virar a esquina, encostando-se na parede fria. Ela levou a mão enluvada ao coração.
— Eu quase disse — sussurrou para si mesma, fechando os olhos. — Quase disse que você é a única razão pela qual eu ainda respiro.
Ela sabia que o caminho para a redenção seria longo. Sabia que Batatinha tinha estresse pós-traumático e que cada brincadeira ácida sua poderia desencadear uma crise. Doci precisava aprender a ser gentil de verdade, não apenas a fingir gentileza para manipular os outros ao redor de sua irmã. Ela queria ser digna de estar ao lado de Batatinha, não como uma sombra do passado, mas como algo novo.
Mais tarde, durante o jantar, o clima era estranho. Kode tentava alimentar um de seus patos com migalhas, enquanto Sunny explicava a Yuyu sobre os ciclos das marés em seu planeta natal. Batatinha estava na cabeceira, em silêncio, observando a todos.
Doci sentou-se ao lado de Batatinha. Ela não disse nada agressivo. Em vez disso, ela estendeu a mão e, com uma delicadeza que raramente mostrava, ajeitou uma mecha do cabelo vermelho de Batatinha que havia escapado da maria-chiquinha.
Batatinha congelou. O garfo parou no meio do caminho. Ela olhou para Doci, esperando o insulto, a manipulação, o veneno.
Mas Doci apenas sorriu. Um sorriso suave, sem segundas intenções aparentes, embora seus olhos brilhassem com aquele segredo que ela ainda não tinha coragem de revelar.
— Seu cabelo está bagunçado — disse Doci baixinho. — Uma líder não pode parecer desleixada diante de seus subordinados.
Batatinha relaxou os ombros, apenas um milímetro.
— Cale a boca, Doci. E coma sua comida.
— Sim, majestade — respondeu Doci, sua voz carregada de um carinho que Batatinha fingiu não notar, mas que fez seu coração errar uma batida.
Naquela noite, as duas irmãs de trauma dormiram sob o mesmo teto, separadas por paredes de metal e anos de traição, mas unidas por um fio invisível que, apesar de desgastado e cheio de nós, recusava-se a romper. Doci olhou para o teto de seu quarto improvisado, sonhando com o dia em que não teria medo da rejeição, e Batatinha, em seu próprio quarto, segurou a presilha de batatinha que Doci lhe dera anos atrás, antes de tudo dar errado, permitindo-se, pela primeira vez em muito tempo, acreditar que talvez, apenas talvez, ela não estivesse mais sozinha.
