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um amor proibido

Fandom: the last of us

Criado: 01/11/2026

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Pós-ApocalípticoDramaAngústiaDor/ConfortoRomanceSobrevivênciaMorte de PersonagemDistopia
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Cinzas Sob a Neve

O som da respiração de Ellie sempre foi o único metrônomo capaz de acalmar o caos dentro da minha cabeça.

Mesmo quando éramos apenas duas crianças correndo pelas vielas enlameadas, roubando maçãs do celeiro comunitário ou nos escondendo nos telhados de Jackson para atirar pedrinhas nos infectados presos além da cerca, Ellie tinha essa capacidade quase milagrosa de existir com força suficiente para nós duas. Ela sempre foi faísca, desafio e teimosia. Seus olhos castanhos, atentos a qualquer ameaça sob o céu cinzento de Wyoming, carregavam uma ferocidade que mantinha o resto do mundo a uma distância segura.

Mas para mim, Ellie nunca ergueu barreiras.

Eu me lembrava com clareza dolorosa de quando tínhamos catorze anos. Passávamos horas sentadas no chão de madeira da garagem dela, cercadas por ferramentas enferrujadas e pilhas de gibis empoeirados. Ela afinava o violão com uma paciência que não demonstrava com mais ninguém, os dedos calejados deslizando devagar sobre as cordas de aço. Seus lábios se curvavam num meio sorriso torto e sarcástico sempre que eu errava o acorde de uma música boba que ela tentava me ensinar.

— Você tem a coordenação motora de um estalador bêbado — zombava ela, empurrando meu ombro de leve, os olhos brilhando com uma afeição que ela raramente admitia em voz alta.

— Pelo menos eu não canto parecendo uma gralha engasgada — eu respondia, rindo enquanto tentava me esquivar.

Naquela época, achávamos que as piores dores já haviam passado. O mundo já havia acabado, afinal; o fungo já havia devorado quase tudo. Tínhamos Jackson. Tínhamos muralhas, comida quente e a inocente ilusão de que poderíamos simplesmente envelhecer.

Mas o mundo lá fora nunca para de cobrar seu preço em sangue. E o meu tributo foi arrancado da pior forma imaginável.

Aconteceu no início do último inverno, quando a neve caiu densa e pesada demais, transformando as trilhas de patrulha em labirintos brancos e cegos. Meus pais haviam assumido o turno no posto avançado perto da ravina sul. Era uma rota simples, uma daquelas que fazíamos centenas de vezes sem disparar um único tiro. Mas eles não voltaram no horário combinado.

Quando o sinal de socorro piscou fraco no rádio da guarita, não esperei autorização de Tommy ou de qualquer outro patrulheiro. Peguei meu casaco, meu rifle e saí montada a cavalo, rasgando a nevasca.

A cena que encontrei no casebre de madeira da ravina nunca vai deixar minha memória. O cheiro de ferro do sangue quente misturado ao ar gélido ainda me sufoca durante as madrugadas.

A porta da cabana tinha sido arrancada das dobradiças. Meus pais estavam caídos perto da lareira apagada, sem vida, os corpos rasgados não por garras de infectados, mas pela frieza cirúrgica de armas humanas. E lá, parada no meio do rastro carmesim que manchava a madeira, estava ela.

Uma mulher com ombros largos como os de um soldado, o cabelo loiro-escuro preso em uma trança grossa e impecável, jaqueta militar desgastada. Seus braços tinham uma musculatura pesada, quase assustadora para uma sobrevivente. Ela segurava uma pistola ainda fumegante. Ao lado dela, outras figuras armadas remexiam os suprimentos do posto.

— Abby, temos que ir — disse um homem de capuz, a voz urgente abafada pelo vento. — Se esse sinal disparou, outros virão de Jackson.

A mulher — Abby — olhou para os corpos caídos aos seus pés com uma indiferença que congelou meu estômago. Não havia prazer sádico em seu rosto; havia apenas uma frieza metódica, como se eliminar a minha família tivesse sido nada além de uma tarefa desagradável para limpar o caminho.

Quando seus olhos cinzentos e impiedosos encontraram os meus parados na soleira da porta, o mundo parou. Meu dedo tremeu sobre o gatilho, mas o choque paralisou meus pulmões. O sangue da minha mãe ainda escorria lentamente pelo tabuado.

— Deixe — ordenou Abby ao homem que apontou o fuzil na minha direção. — Já temos o que precisamos. Não desperdice munição com quem não pode nos seguir nessa nevasca.

Eles se foram como fantasmas na tempestade, engolidos pela brancura voraz da serra.

Eu não chorei naquele momento. Apenas me arrastei até os corpos dos meus pais, caindo de joelhos, sentindo o calor residual se esvair de suas peles enquanto tentava, em vão, fechar as feridas abertas no peito do meu pai. Quando Tommy e Ellie chegaram seguindo meu rastro horas depois, me encontraram congelando, com as mãos manchadas de vermelho e os olhos vazios, incapaz de dizer uma única palavra.

Os dias seguintes foram uma mancha cinzenta e sufocante. O enterro comunitário, as palavras de condolências dos vizinhos, o olhar pesaroso de Maria... nada disso conseguia penetrar a muralha de chumbo que havia se erguido dentro do meu peito. A dor não era apenas uma tristeza; era um buraco negro que engolia qualquer resquício de quem eu costumava ser. Eu não comia. Não dormia. Apenas olhava para as tábuas do chão do meu quarto vazio, esperando que o ar acabasse de vez.

Mas Ellie não me deixou desaparecer.

Ela não fez discursos grandiosos sobre seguir em frente, nem me disse que o tempo curaria tudo. Ellie conhecia a perda de um jeito íntimo demais para mentir para mim. Ela conhecia o peso de enterrar pedaços da própria alma.

Na terceira noite após o funeral, a porta do meu quarto rangeu baixinho. Ellie entrou com uma tigela de sopa de lebre ainda quente e duas mantas grossas de lã. Ela não pediu licença. Fechou a porta com o pé, puxou a cadeira de madeira para perto da minha cama e se sentou.

— Toma — disse ela, empurrando a tigela para minhas mãos.

— Não estou com fome, Ellie — minha voz saiu rouca, irreconhecível até para mim.

— Eu não perguntei se estava com fome — retrucou ela, a voz firme, mas com uma doçura rara nos olhos. — Eu disse para comer. Você não vai definhar nessa cama. Não enquanto eu estiver respirando.

Engoli duas colheres, apenas para que ela parasse de me encarar com aquela determinação inabalável. Quando empurrei a tigela de volta, Ellie a colocou sobre a mesinha de cabeceira. Ela respirou fundo, os nós dos dedos esfregando a cicatriz perto da têmpora.

— Eu vi as marcas lá fora — começou ela, a voz baixando de tom, tornando-se áspera. — Não foram estaladores. Tommy acha que foi um grupo nômade bem armado. Mas você viu quem fez isso, não viu?

Meu corpo inteiro estremeceu com a lembrança da trança, dos ombros largos e dos olhos sem piedade.

— O nome dela é Abby — sussurrei, sentindo o gosto metálico da bile na garganta. — Eles falaram o nome dela. Ela atirou neles como se eles fossem apenas lixo no caminho. Como se... como se a vida deles não valesse nada.

Ellie cerrou os punhos sobre os joelhos com tanta força que os nós ficaram brancos. Uma sombra escura cruzou seu rosto, uma raiva tão densa e visceral que parecia capaz de queimar o próprio gelo lá fora.

— Um dia — murmurou ela, as palavras pesadas como sentenças —, as pessoas que fazem esse tipo de coisa pagam. De um jeito ou de outro.

— Isso não vai trazer eles de volta — falei, e pela primeira vez a barragem rompeu. A primeira lágrima queimou minha bochecha congelada, seguida por um soluço seco e desesperado que sacudiu meu peito. — Acabou, Ellie. Não sobrou nada. Eu estou sozinha.

— Não fala essa merda — cortou ela, movendo-se com rapidez.

Antes que eu pudesse recuar, Ellie subiu na cama e me envolveu em seus braços.

O abraço dela não era delicado; era forte, desesperado, uma âncora fincada no meio do meu naufrágio. O cheiro dela — madeira cortada, óleo de arma e o sabão de lavanda barato de Jackson — inundou meus sentidos. Ellie escondeu o rosto na curva do meu pescoço, segurando a parte de trás do meu casaco como se temesse que, se afrouxasse o aperto, eu me desfaria em poeira.

— Você nunca mais repete isso — sussurrou ela contra a minha pele, a voz falhando ligeiramente. — Você me ouviu? Você tem a mim. Sempre teve. Eu não vou a lugar nenhum.

Chorei por horas nos braços dela. Chorei até não ter mais lágrimas, até meus músculos doerem, até o vazio começar a dar lugar a uma exaustão anestesiante. E durante todo esse tempo, Ellie não se moveu. Ela continuou ali, os dedos longos acariciando meus cabelos com uma ternura quase reverente, murmurando palavras sem sentido para espantar os meus fantasmas.

Foi ali, nas semanas que se seguiram, no silêncio daquela casa vazia que Ellie insistia em ocupar, que as coisas mudaram entre nós.

A amizade de infância não desapareceu; ela se transformou em algo muito mais profundo, algo que não precisava de rótulos para existir. Estava nos pequenos gestos. Estava no jeito como Ellie trazia o café da manhã todas as manhãs sem que eu precisasse pedir, ou na maneira como ela limpava meu rifle com o dela antes de cada patrulha. Estava nos olhares demorados que trocávamos quando Jesse ou Dina tentavam nos animar no refeitório, olhares que diziam mais do que qualquer conversa.

Certa noite, quando a neve finalmente parou de cair e o céu abriu em uma tapeçaria infinita de estrelas geladas, fomos até o mirante do moinho de vento. A cidade dormia sob uma camada cintilante de geada, calma e alheia ao resto do mundo arruinado.

Estávamos encostadas na grade de madeira, ombro a ombro, o vapor de nossas respirações se misturando no ar noturno. Ellie estava quieta, os olhos fixos na linha negra do horizonte.

— Às vezes — disse ela de repente, sem me olhar —, eu sinto que tudo o que eu toco acaba apodrecendo. Todo mundo que eu já amei... morreu ou me deixou.

Virei o rosto para ela. A luz prateada da lua destacava as sardas que salpicavam seu nariz e as cicatrizes que contavam a história de sua vida dura.

— Eu não vou te deixar, Ellie — falei com firmeza. — Mesmo que você queira.

Ellie soltou uma risada fraca e sem humor, mas quando virou os olhos para mim, vi neles uma vulnerabilidade tão nua que meu coração apertou. Ela tirou a luva grossa da mão direita e, devagar, quase com medo de que eu me esquivasse, tocou minha bochecha.

A pele de seus dedos era áspera pelo trabalho e pelas cordas do violão, mas o toque foi a coisa mais suave que já senti em toda a minha existência.

— Eu não quero que você me deixe — sussurrou ela, inclinando-se ligeiramente. — Eu não conseguiria aguentar se perdesse você também.

O espaço entre nós simplesmente evaporou.

Quando nossos lábios se tocaram, não houve pressa, nem o calor febril da paixão desenfreada. Foi um beijo delicado, nascido do luto e da sobrevivência, um juramento silencioso selado sob o frio cortante do inverno. Era a promessa de que, mesmo quando a escuridão tentasse engolir tudo, seríamos a chama uma da outra. A dor pela morte dos meus pais não sumiu — nunca sumiria —, mas naquele instante, com o calor da respiração de Ellie contra a minha boca, percebi que ela não precisava me matar. Eu podia carregar o peso, desde que Ellie estivesse segurando a minha mão.

— Você é uma idiota por gostar de mim — murmurou Ellie quando se afastou milímetros, a testa encostada na minha, um sorriso genuíno finalmente quebrando a dureza de sua expressão.

— Provavelmente — respondi, rindo baixo enquanto entrelaçava meus dedos nos dela. — Mas agora é tarde demais para você se livrar de mim.

Ellie apertou minha mão com força, os olhos brilhando.

— É. Acho que é mesmo.

Agora, meses depois, os dias começavam a esquentar ligeiramente à medida que a primavera tentava timidamente romper a carcaça de gelo de Wyoming. A rotina em Jackson parecia ter voltado ao normal para a maioria das pessoas. Jesse liderava os grupos de patrulha com sua eficiência habitual, sempre com um sorriso sarcástico nos lábios; Dina iluminava qualquer ambiente em que entrava com sua energia vibrante e suas provocações afiadas, tornando os jantares comunitários menos cinzentos.

Mas eu sabia, e Ellie sabia, que a paz era uma farsa frágil.

O mundo lá fora continuava infestado. Os corredores e estaladores vagavam pelas florestas, escutando qualquer galho quebrado, e monstros piores — os que andavam sobre duas pernas e tinham sangue frio nas veias — ainda respiravam o mesmo ar que nós.

Eu ainda acordava no meio da noite com o som de tiros ecoando na minha cabeça. Ainda via o rosto implacável de Abby nos meus piores pesadelos, sua trança loira e seus olhos impassíveis enquanto tirava tudo de mim. Mas agora, quando eu acordava sufocada e suando frio no escuro, eu não estava mais sozinha na ravina.

Ellie estava ao meu lado, enrolada nos cobertores, o braço pesado e protetor jogado sobre a minha cintura, o ritmo constante de seu coração batendo contra as minhas costas.

Ela era meu refúgio, meu porto seguro na tempestade. E enquanto limpávamos nossas armas naquela manhã, nos preparando para mais um dia longo de patrulha nos limites da floresta, eu sabia que qualquer perigo que cruzasse nosso caminho — fossem hordas de infectados ou os fantasmas do meu passado que certamente voltariam para cobrar sua dívida — teria que nos enfrentar juntas.

E nós éramos muito boas em sobreviver.

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