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Você se quer saber q eu existo?

Fandom: Alien stage

Criado: 01/11/2026

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Distâncias Milimétricas

O corredor do terceiro ano cheirava a uma mistura insuportável de café requentado da cafeteria, cera de assoalho barata e desodorante aerosol masculino aplicado em excesso. Às sete e quarenta da manhã, o barulho metálico dos armários batendo soava como uma sequência de tiros abafados.

Mizi bocejou com tanta vontade que os olhos dourados chegaram a lacrimejar.

— Se você abrir a boca desse jeito de novo, vai engolir um calouro inteiro — comentou Chloe, ajeitando a alça da mochila no ombro enquanto mascava um chiclete de canela com uma lentidão irritante.

— Se eu engolir, pelo menos ganho proteína — rebateu Mizi, a voz rouca pelo sono não totalmente dissipado. — Quem foi o desgraçado que inventou que ser humano precisa estar consciente antes das oito?

— A sociedade ocidental, amiga. Culpa do capitalismo — disse Nina, rindo baixinho enquanto olhava as próprias unhas descascadas. Ela deu uma cotovelada de leve nas costelas de Mizi. — Mas ó, tenta fingir que tá viva. Tem uns três idiotas do time de futebol ali na curva do bebedouro quase babando no chão só de olhar pra você.

Mizi nem se deu ao trabalho de virar a cabeça. Puxou uma mecha longa do cabelo rosa, com as pontas azul-bebê caindo sobre o blusão cinza largo que ela tinha surrupiado de algum lugar semanas atrás, e deu de ombros.

— Deixa babar. Se chegar perto, eu mordo.

— Você não morde, você espanca. Tem uma diferença jurídica considerável — sussurrou Nina, com um sorrisinho maldoso.

As três viraram o corredor principal e deram de cara justamente com a pessoa que tornava aquela piada desconfortavelmente real.

Luka vinha na direção contrária, carregando uma pilha de pastas plásticas contra o peito. Os óculos de armação fina estavam levemente tortos no nariz pálido, e o cabelo loiro caía sobre a testa com um desleixo estudado. Quando os olhos amarelo-claros dele cruzaram com os de Mizi, a postura do garoto endureceu imediatamente. A boca fina se contorceu num esgar de puro desdém ácido.

Mizi não desviou o olhar. Pelo contrário: sustentou o encarar com uma frieza quase entediada, os olhos semicerrados em um aviso mudo. Dá um pio, a postura dela dizia sem precisar de uma única palavra, dá um pio pra ver se você não come o chão de novo.

Luka bufou, deu um passo para a direita abrindo uma distância exageradamente calculada e passou pelas três sem dizer uma palavra, a mandíbula tão travada que parecia prestes a quebrar os dentes.

— Ai, o clima chega a cair cinco graus — murmurou Chloe, soltando uma risadinha abafada assim que ele se distanciou. — Acho que as costelas dele ainda doem só de ouvir seu nome.

— Ele mereceu — Mizi respondeu secamente, embora por dentro ainda sentisse um leve eco daquela raiva cega que a dominara no mês passado. Ela odiava gente que achava que podia falar o que quisesse sem arcar com a porrada em seguida. — Cara insuportável do caralho.

Mais adiante, encostado no armário vermelho número 114, o motivo indireto daquela confusão antiga conversava como se o mundo fosse seu quintal particular.

Ivan parecia ter saído de um catálogo imbecil de roupas colegiais. Alto, com o cabelo preto perfeitamente alinhado num corte social que nenhum garoto daquela idade conseguia manter sem esforço, ele vestia a jaqueta do time da escola com as mangas puxadas até os antebraços. Sorria com aquele ar costumeiro de deboche elegante, segurando uma garrafa térmica com uma das mãos enquanto gesticulava com a outra na direção de Till.

— Eu só tô dizendo que seu arremesso de três pontos é uma ofensa à geometria, Till — dizia Ivan, o tom macio e pontilhado de veneno disfarçado de camaradagem. — Você joga a bola como se estivesse tentando acertar um pombo no teto da quadra.

— Vai se foder, Ivan! — Till quase gritou, a voz saindo naquele tom arranhado e estressado de sempre. O cabelo cinza estava mais bagunçado que o normal, e ele puxou os fones de ouvido pretos para pendurá-los no pescoço antes de fechar a porta do próprio armário com um estrondo desnecessário. — Pelo menos eu jogo com as mãos, não fico correndo atrás de um ovo de couro pra ser esmagado por cinco armários de carne no gramado.

— O nome do ovo de couro é bola, caso sua memória curta tenha esquecido — Ivan rebateu, rindo pelo nariz. Havia uma faísca diferente no olhar dele, um brilho insistente que ficava ainda mais aceso toda vez que Till parecia prestes a explodir de raiva. — E o meu time ganha campeonatos. O seu não passa da fase regional desde que a gente tava na sétima série.

— Eu vou enfiar essa garrafa na sua garganta.

— Tenta a sorte. Você mal alcança meu queixo.

A poucos metros dali, alheia à discussão quase diária entre os dois, Sua mantinha as costas coladas à parede fria.

Ela segurava uma edição gasta de bolso, com as páginas amareladas, tentando ignorar a movimentação e focar nas linhas pretas à sua frente. Sua era pequena, de pele muito branca, com o cabelo curto e escuro emoldurando o rosto calmo e melancólico. A franja fina caía quase sobre os olhos roxos, que vez ou outra se desviavam do papel para observar o vaivém dos alunos.

— Oi, Sua! — Uma menina loira do segundo ano parou na frente dela, acompanhada de duas amigas que sorriam com uma ansiedade patética. — Tudo bem? A gente tava pensando se você não quer sentar com a gente no intervalo. Disseram que seus pais vão dar aquela recepção de primavera no clube semana que vem, né? Minha mãe comentou com o seu pai na festa beneficente e...

— Não vai rolar — Sua interrompeu, a voz baixa, neutra, mas com uma barreira invisível tão sólida que fez a garota travar no meio da frase. — Eu costumo ficar na biblioteca. Com licença.

As garotas trocaram olhares desajeitados, murmuraram algo sobre "falar depois" e se afastaram em passos rápidos.

Sua soltou um suspiro pesado, fechando o livro com um estalo suave. Era sempre a mesma merda. Ninguém queria saber do que ela gostava, do que lia ou do que sentia quando acordava no meio da noite com aquela sensação sufocante de vazio no peito. As pessoas só queriam o sobrenome dela. Queriam um convite para os jantares chatos da família, queriam se associar à linhagem quase aristocrática que ela e Ivan carregavam como um carimbo na testa.

Ivan usava isso a favor dele, surfando na onda da popularidade com a maior facilidade do mundo. Sua odiava cada segundo daquilo.

E então, erguendo os olhos roxos por puro reflexo, ela viu.

Mizi estava vindo pelo corredor. Não andava rápido nem devagar; tinha aquele jeito largado de quem não dava a mínima para a primeira aula de Literatura Inglesa. O cabelo dela, com aquele contraste ridículo entre o rosa forte e o azul suave, parecia brilhar sob as lâmpadas fluorescentes horríveis da escola.

Ela era absurdamente bonita. Do tipo que fazia até os professores gaguejarem de vez em quando. E, como sempre, vinha rindo de alguma coisa que Nina dizia ao seu lado.

Quando se aproximou do grupo perto do armário 114, Mizi desacelerou o passo e parou a dois passos de Ivan.

— Ei — disse ela, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha para o rapaz alto.

Ivan se virou, abandonando temporariamente o prazer de infernizar a vida de Till. Um sorriso fácil surgiu em seu rosto.

— Olha só quem resolveu aparecer. Achei que tinha entrado em coma dessa vez.

— Quase entrei. A culpa é sua, que ficou me mandando mensagem às onze da noite perguntando sobre a porra daquela lista de História — Mizi rebateu, sem um pingo de cerimônia. — E a propósito: me disseram hoje de manhã que a gente vai casar no final do ano letivo. Falaram que eu já escolhi até o vestido.

Till, que ainda estava de cara amarrada, paralisou no mesmo instante. Os olhos verdes dele correram rapidamente de Ivan para Mizi, fixando-se no rosto dela por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Ele limpou a garganta, desconfortável, e desviou o olhar para o chão, ajustando a jaqueta preta de moletom como se estivesse ocupado demais para prestar atenção.

Ivan deu uma risada curta, jogando a cabeça para trás.

— Casar? Que fofoca sem imaginação. Pelo menos podiam inventar que eu te comprei uma ilha particular. Combina mais com a minha reputação.

— Se você comprasse uma ilha, eu ia pra lá e te jogava no mar pros tubarões — Mizi retrucou com um sorrisinho cínico nos lábios bem desenhados. — Só vim devolver isso aqui antes que você chore.

Ela tirou uma caneta prata do bolso do casaco e jogou na direção dele. Ivan pegou no ar com reflexo de atleta, girando o objeto entre os dedos com destreza.

— Obrigado pela consideração, Mizi. Sua delicadeza me emociona.

— Que se foda a sua emoção — ela disse, já dando meia-volta para continuar seu caminho em direção à sala de aula. — Vamos, meninas. Se eu me atrasar mais dois minutos, o senhor Davies me faz limpar o laboratório de novo.

— Até mais, garota-problema — Ivan provocou, acenando de leve.

Enquanto isso, a poucos passos dali, Sua observava tudo.

Ela sentiu o estômago dar um nó estranho, apertado e desconfortável.

Mizi passara a menos de um metro de onde Sua estava parada. E, como em todos os outros dias daquele ano, e do ano anterior, e do anterior àquele, ela simplesmente não olhou. Nem um milímetro de curiosidade. Nem um aceno de cabeça. Nem a porra de um "oi" protocolar para a irmã do garoto com quem acabara de conversar.

Sua cerrou os punhos ao redor do livro de bolso. As unhas curtas afundaram na capa de papelão.

Por que caralhos ela faz isso?

A pergunta ecoava na mente de Sua com uma insistência irritante, quase dolorosa. Praticamente toda garota daquela escola tentava puxar assunto com ela. Algumas fingiam gostar de poesia clássica só para ter um pretexto; outras elogiavam suas roupas ou tentavam ser legais nos trabalhos em grupo para descolar uma carona ou uma visita à casa de campo da família nos feriados. Era sufocante, era falso, e Sua desprezava cada uma delas.

Mas Mizi não fazia nada disso.

Mizi andava pelos corredores como se o sobrenome dos irmãos simplesmente não significasse absolutamente nada. Ela falava com Ivan como se ele fosse um idiota qualquer que sentava perto dela na aula de biologia, mas com Sua... nada. Absoluto nada. Uma indiferença tão cristalina, tão impermeável, que beirava a afronta.

Eu não ligo, Sua tentou dizer a si mesma, sentindo o peito arder de um jeito tolo. Eu prefiro que me deixem em paz. Eu odeio bajulação.

Então por que diabos a falta de atenção daquela garota de cabelo rosa parecia uma alfinetada constante na sua pele? Por que Sua se pegava procurando aqueles olhos dourados no meio do refeitório barulhento, apenas para desviar a cara furiosa quando percebia o que estava fazendo? Não fazia sentido nenhum. Era ilógico. Era patético.

— Ei, tampinha — a voz arrastada de Hyuna cortou seus pensamentos.

Hyuna surgiu como um furacão, jogando um braço largo sobre os ombros de Sua com uma familiaridade que pouquíssimas pessoas tinham coragem de demonstrar. Trazia o cabelo castanho amarrado num rabo de cavalo frouxo, o sorriso fácil e a jaqueta de couro surrada que ela se recusava a tirar mesmo nos dias mais quentes.

— Bom dia pra você também, Hyuna — Sua murmurou, ajeitando a postura e tentando dissipar a tensão dos ombros.

— Dormiu lendo aquelas tragédias russas de novo, né? Tá com uma cara de enterro que dá gosto — Hyuna brincou, dando um tapinha leve na bochecha pálida de Sua antes de olhar para o grupo ao lado. — E aí, cambada de inúteis. O sinal já vai bater.

Luka, que havia retornado e parado perto do armário de Ivan enquanto fingia ignorar a existência de Till, mudou visivelmente de postura quando Hyuna chegou. Os ombros dele desceram cerca de dois centímetros, a expressão amarga se suavizou em algo quase tolerável, e ele ajeitou os óculos com uma mão que parecia subitamente incerta.

— Você está atrasada — disse ele, a voz perdendo todo o veneno ácido com que costumava disparar contra os outros, restando apenas um tom contido e quase defensivo. — O trabalho de Química é hoje. Eu passei a noite inteira revisando os gráficos porque a sua caligrafia é ilegível.

Hyuna revirou os olhos azuis, abrindo um sorriso largo e desarmado que fez Luka desviar o olhar por uma fração de segundo.

— Ah, para de choramingar, quatro-olhos. Você ama organizar as coisas, aposto que teve um orgasmo arrumando aquelas tabelas em ordem alfabética.

— Não use termos vulgares no corredor — resmungou Luka, mas não havia raiva nenhuma ali. Pelo contrário: as pontas das orelhas dele estavam levemente avermelhadas.

Till soltou um grunhido de desespero ao lado deles.

— Eu odeio essa escola. Eu odeio todo mundo aqui. Eu odeio segunda-feira.

— Que novidade, Till — Ivan provocou, passando um braço pesado pelos ombros do garoto de cabelo cinza, ignorando o empurrão imediato que recebeu em resposta. — Guarda esse ódio todo pro jogo de sexta, quem sabe assim você acerta a cesta pelo menos uma vez.

— Tira essa mão imunda de mim, seu projeto de astro de cinema falido!

Sua observou a cena ao seu redor. A dinâmica barulhenta, o atrito constante entre Luka e o restante do mundo (exceto Hyuna), as provocações disfarçadas de Ivan sobre um Till cada vez mais à beira de um ataque de nervos, a risada despreocupada de Hyuna. Era o grupo dela. Era a bolha social onde ela supostamente pertencia.

E ainda assim, os olhos de Sua se moveram sozinhos.

Lá na frente, quase virando o corredor que dava acesso às salas de Ciências Humanas, Mizi estava rindo. Uma mecha azul balançava com o movimento de sua cabeça enquanto Nina fazia alguma mímica absurda com as mãos. Por uma fração mínima de segundo, no meio daquela risada despreocupada, Mizi olhou para trás.

Não foi para procurar Ivan. Não foi para zombar de Luka.

Foi apenas um relance casual, disperso, daqueles que qualquer um dá em um espaço lotado. Mas durante aquele milésimo de tempo suspenso, os olhos dourados dela cruzaram em linha reta com os olhos roxos de Sua.

O ar sumiu da garganta de Sua. O coração dela tropeçou uma batida feia no peito.

Mizi piscou uma vez. Nenhuma faísca de reconhecimento social. Nenhum sorriso falso. Nenhuma reverência velada ao sobrenome imponente da família mais rica daquele lado da cidade. Apenas a constatação preguiçosa de que alguém a estava encarando.

E então, sem pressa alguma, Mizi virou o rosto para frente e continuou andando, sumindo na curva do corredor como se Sua fosse apenas parte da alvenaria da escola.

O sinal tocou, um zumbido estridente e ensurdecedor que fez o chão vibrar sob a sola dos tênis de todos os alunos.

— Vamos, Sua? — Hyuna chamou, já puxando a manga do casaco dela com um sorriso afetuado. — Se a senhora Thompson pegar a gente no corredor depois do sinal, ela faz a gente cantar o hino nacional na frente da turma.

— ... Vamos — Sua conseguiu responder, a voz saindo um pouco mais baixa do que o normal.

Ela apertou o livro contra o peito, deu as costas para o corredor vazio e seguiu o grupo, sentindo uma raiva surda, silenciosa e totalmente inexplicável queimar bem no fundo do peito.

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