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Fandom: Imperio dos vampiros
Criado: 01/11/2026
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Ecos do Sangue e da Tinta
O cheiro de suor, terra batida e ferro do pátio de treinos de São Michon evaporou em um único piscar de olhos, substituído pelo aroma frio de cinzas, cera de vela e pedra antiga.
Gabriel de León caiu de joelhos. A espada de treino de madeira escapou de seus dedos calejados, batendo contra um piso de mármore polido tão escuro quanto um céu sem estrelas. Ele tinha apenas dezessete anos, os músculos ainda doloridos das horas intermináveis sob o sol pálido de diasam, o corpo jovem abrigando uma fúria que ele mal compreendia e um sangue amaldiçoado que ele odiava com todas as fibras de seu ser.
— Pelos Sete Infernos... — praguejou Gabriel, levantando-se de um salto e buscando a adaga na cintura por puro reflexo.
— Guarde as garras, rapaz — rosnou uma voz áspera logo atrás dele.
Gabriel virou-se depressa. Mão Cinzenta já estava de pé, a postura impecável e a mão calejada repousando sobre o cabo de sua lâmina de prata legítima. Ao lado do veterano mestre de armas, outros irmãos da Ordem se erguiam da penumbra. Chloe sacudia os cabelos curtos com uma expressão de puro desgosto; o jovem Rafael piscava, atordoado; o bondoso irmão Aaron já murmurava uma prece suave sob a respiração; e, mais afastado, envolto em sua habitual aura de autoridade implacável, estava o Alto Preceptor Jean-François, cujos olhos cinzentos varriam o ambiente como lâminas prontas para sangrar uma heresia.
— Onde estamos? — perguntou Chloe, desembainhando sua espada curta com um sibilo metálico límpido. — Estávamos no claustro leste. Se isso for obra de algum truque de sangue daqueles malditos vampótios...
— Não sinto cheiro de sangue-frio aqui — disse Aaron em voz baixa, tocando a cruz de prata em seu peito. — Mas o ar... é pesado. Como uma cripta selada há séculos.
A sala era ampla, circular e destituída de janelas ou portas visíveis. Nas paredes, nichos cavados na pedra abrigavam tochas de chamas prateadas que não soltavam fumaça, iluminando poltronas de veludo escuro e, no centro exato do aposento, uma mesa de carvalho negro. Sobre ela repousava um único objeto: um tomo colossal, encadernado em couro negro gasto, com cantoneiras de prata entalhada e folhas grossas cujas bordas reluziam como cinzas prensadas.
— Olhem para a mesa — apontou Rafael, a voz vacilando ligeiramente.
Jean-François deu um passo à frente, sua capa branca ondulando. A imponência do líder dos Santos de Prata fazia até os mais ousados hesitarem. Ele se aproximou do móvel, ignorando a prudência de guerreiro e encarando o tomo. Havia uma inscrição gravada na madeira diante do livro.
— “A verdade não pede perdão, tampouco a história poupa os santos. Leiam o que foi e o que será, ou permaneçam cegos na noite eterna” — leu Jean-François em voz alta, o timbre grave ressoando pelas pedras.
— Um enigma? — desdenhou Chloe, aproximando-se com passos cautelosos. — Bruxaria. Devemos queimar essa porcaria.
— Livros não sangram, irmã — rebateu Gabriel, cruzando os braços e tentando disfarçar o tremor sutil em seus pulsos. Ele ainda se sentia um intruso entre eles, um bastardo meio-vampiro tolerado apenas pela utilidade de sua espada. — Mas o que quer que nos tenha trazido aqui tem poder suficiente para nos arrancar do próprio monastério. Não acho que queimar vá adiantar.
Mão Cinzenta bufou, dando um tapa na nuca de Gabriel que quase fez o jovem perder o equilíbrio.
— Menos arrogância, garoto. Você ainda cheira a leite e leite azedo.
O mestre de armas aproximou-se da mesa e inclinou-se para ver a capa do livro. Seus olhos endureceram.
— Tem um nome aqui.
— De quem? — perguntou Aaron.
— Império dos Vampiros — leu Mão Cinzenta, semicerrando os olhos. — E abaixo do título... A Crônica de Gabriel de León.
Um silêncio sepulcral engoliu a sala.
Gabriel sentiu o ar sumir dos pulmões, como se tivesse levado um golpe de maça direto no peito. Todos os olhares se voltaram para ele — choque nos olhos de Rafael, ceticismo cortante no rosto de Chloe, uma compaixão cautelosa na postura de Aaron e uma desconfiança gélida na expressão de Jean-François.
— Uma crônica? — Chloe riu, mas o som saiu oco, desprovido de humor verdadeiro. — De León? Ele mal consegue passar um dia inteiro sem tropeçar nos próprios pés ou quase decepar a orelha de alguém durante as formas de espada! Que tipo de piada doentia é essa?
— Não é piada — declarou Jean-François, com a rigidez de um inquisidor. O Alto Preceptor estendeu a mão enluvada e abriu o pesado fecho de prata do livro. As páginas emitiram um rangido seco, como ossos estalando. — Se nossos nomes e nosso destino estão atados a isso, a Fé exige que enfrentemos as palavras. Sentem-se. Todos vocês.
Ninguém ousou desobedecer ao Preceptor. Eles puxaram as cadeiras de veludo em um semicírculo ao redor da mesa. Gabriel permaneceu na ponta, afundando-se no assento e engolindo em seco. Seu coração batia acelerado contra as costelas, o ritmo monstruoso que ele tanto se esforçava para silenciar nos treinos.
Jean-François virou as primeiras páginas de guarda até encontrar o início do texto. Pigarreou, a voz cortando o silêncio da câmara como um cutelo.
— “É uma regra não escrita do universo que os homens que mais desejam governar são os menos qualificados para isso...”
Chloe arqueou uma sobrancelha, trocando um olhar rápido com Rafael, mas manteve a boca fechada. Jean-François continuou, seus olhos cinzentos devorando as linhas com precisão clínica até chegar à descrição do cenário inicial.
— “A masmorra era fria, cheirando a mofo, a séculos de sofrimento e ao fedor pungente de sangue velho. Nas profundezas da fortaleza dos Chastain...”
— Chastain? — interrompeu Mão Cinzenta, a voz subindo uma oitava. O velho guerreiro endireitou as costas. — A linhagem de sangue puro? O ninho daquela vadia da Margot?
— Silêncio, irmão — ordenou Jean-François com autoridade fria, embora uma veia pulsasse em sua têmpora. Ele continuou a leitura:
— “Ele estava acorrentado à parede como um animal no matadouro, com ferro fundido prendendo-lhe os pulsos e prata suficiente queimando sua carne para manter qualquer criatura da noite em agonia perpétua. As cicatrizes cobriam cada centímetro visível de sua pele, um mapa de batalhas perdidas e promessas quebradas. Seus cabelos, outrora escuros como a meia-noite, agora eram brancos como a mortalha de um defunto.”
— Cabelos brancos? — Rafael franziu a testa, olhando para Gabriel. O garoto à mesa ainda exibia uma cabeleira negra e revolta, típica dos jovens de seu vilarejo natal. — Gabriel, quantos anos você tem nessa história?
— Como diabos eu vou saber? — retrucou Gabriel, os dentes cerrados. Suas unhas cravavam-se no veludo dos braços da poltrona. Ele sentia um calafrio estranho, uma pontada de dor fantasma nos pulsos, como se o ferro descrito na página já estivesse pressionando sua carne.
Jean-François não parou. Seu tom tornou-se mais sombrio, quase fúnebre.
— “O cronista sentou-se diante dele, com tinta e pergaminho prontos. ‘Eles o chamam de muitos nomes’, disse o vampiro Jean-Baptiste, ajeitando as mangas de seda fina. ‘O Ceifador de Deus. O Espadachim Negro. O Assassino do Rei Prateado. Mas acima de tudo... chamam-no de O Último Santo de Prata’.”
A frase pairou no ar, densa e asfixiante como fumaça de incêndio.
Aaron engasgou, levando as duas mãos à boca. Rafael empalideceu a ponto de parecer um cadáver. Chloe congelou, os olhos arregalados fitando Jean-François como se o homem tivesse acabado de cometer a mais terrível das blasfêmias.
— O... o quê? — murmurou Chloe, a voz quase inaudível.
Mão Cinzenta levantou-se tão abruptamente que sua cadeira rangeu contra o piso de mármore.
— O Último? — rugiu o veterano, o rosto ficando vermelho de cólera. — O que essa merda quer dizer com O Último?! Nós somos centenas em São Michon! Somos a muralha contra as trevas! A Ordem da Prata não cai!
— Acalme-se, Mão Cinzenta — ordenou Jean-François, mas até a voz de aço do Preceptor vacilou. Havia uma rigidez terrível em seus ombros. — É um livro. Palavras em tinta.
— Palavras que nos arrancaram do monastério e nos trancaram em uma tumba mágica! — esbravejou Chloe, apontando o dedo na direção de Gabriel. — E você! O que você fez, seu meio-sangue desgraçado? Como você sobreviveu e todos nós morremos?!
Gabriel empalideceu, o choque o impedindo até de revidar a ofensa.
— Eu... eu não sei de nada! — defendeu-se Gabriel, com a voz embargada pelo pânico juvenil. — Eu estou aqui com vocês! Eu nem terminei meu noviciado, pelo amor dos Sete! Eu não quero nada disso!
— Não o culpem pelo que ainda não aconteceu — interveio Aaron, colocando-se suavemente entre Gabriel e os outros, sua aura pacífica servindo de escudo. — Se este livro mostra o futuro, é um aviso. Um chamado da Fé para mudarmos nossos caminhos.
— Ou uma profecia da nossa ruína — murmurou Rafael, encarando as próprias mãos que tremiam sobre o colo.
— Chega de histeria — cortou Jean-François, batendo com a palma da mão na mesa. O impacto ecoou como um trovão. — Nós somos guerreiros da luz. Não nos acovardamos diante de sombras. Se formos condenados, enfrentaremos a condenação de pé. Eu continuarei lendo.
O Preceptor baixou os olhos para a página novamente, pigarreando para clarear a garganta seca.
— “‘O Último Santo de Prata’, repetiu Jean-Baptiste, com um sorriso pontiagudo que revelava presas imaculadas. ‘Diga-me, Gabriel... onde está a sua espada agora? Onde está o seu Santo Graal? Onde estão todos aqueles que você jurou proteger?’”
Gabriel fechou os olhos com força. As palavras atingiam sua mente como flechas incendiárias. O Santo Graal? Proteger quem? Ele pensou em sua mãe, já morta em seu passado recente; pensou em sua irmãzinha, cujo rosto ainda assombrava seus pesadelos a cada vez que ele fechava os olhos. Será que ele falharia novamente? No futuro, ele seria um fracasso completo, acorrentado na lama?
Jean-François prosseguiu, a voz carregada de uma solenidade fúnebre:
— “Gabriel de León levantou a cabeça. Seus olhos, outrora brilhantes como o dia, estavam opacos e manchados de sangue, as pupilas dilatadas pelo vício em sanctus. Ele cuspiu uma mistura de sangue e catarro nos sapatos brilhantes do historiador. ‘Você quer a história?’, disse o Santo com a voz rouca como cascalho sendo moído. ‘Quer saber como o Santo Graal nos condenou a todos e como eu ajudei a queimar o mundo? Muito bem, sanguessuga. Pegue sua pena e comece a escrever. Pois esta não é uma canção de redenção. É uma canção de sangue’.”
Jean-François parou de ler. A respiração do líder da Ordem saía pesada.
O silêncio que se seguiu foi quase violento.
— Viciado em sanctus... — sussurrou Mão Cinzenta, encarando Gabriel não com raiva, mas com uma tristeza amarga que cortou o rapaz mais fundo do que qualquer espada. O sanctus, a substância sagrada e proibida usada para purificar o sangue da Ordem, quando consumida em excesso destruía a mente e o corpo dos homens. — Gabriel... rapaz... o que fizeram com você?
— Eu... eu nunca tocaria nisso além da dose do ritual — gaguejou Gabriel, as lágrimas ardendo no canto dos olhos. Ele tentava sustentar o olhar duro de Jean-François, mas a vergonha e o terror o consumiam. — Senhor, por favor, eu juro pela Luz Sagrada, eu nunca trairia meus votos!
— O livro diz que você não traiu — apontou Aaron, a voz embargada pela emoção, apontando suavemente para a página. — Diz que você lutou. Que você os chamou de monstros até o fim. Mas... a que custo, meu Deus? A que custo?
Chloe cruzou os braços com força, enterrando as unhas nas mangas de seu gibão de couro. Ela olhava para o chão de pedra, a petulância habitual completamente drenada de sua postura.
— Nós perdemos — disse ela, as palavras saindo quebradas. — A Ordem inteira... todos nós viramos cinzas. E a única coisa que sobrou para contar a história foi ele. Um garoto quebrado em uma masmorra vampírica.
— Não — disse Gabriel, sua voz subindo, ganhando um tom áspero que surpreendeu a todos na sala. Ele se levantou, batendo com os nós dos dedos na mesa. Seus olhos castanhos brilharam com um reflexo perigoso, uma centelha do predador que habitava seu sangue e da ferocidade do guerreiro que ele viria a ser. — Não digam isso!
Jean-François ergueu o rosto, encarando o novato com severidade.
— O que disse, León?
— Nós ainda estamos respirando! — exclamou Gabriel, o peito arfando. — Eu estou aqui! Vocês estão aqui! Esse livro... essa maldita profecia... ela está nos mostrando o final antes do começo! Se o meu futuro é apodrecer naquela jaula depois de ver vocês morrerem, então que se danem os Sete Infernos, eu vou ler cada maldita linha dessa desgraça até descobrir onde nós erramos!
Mão Cinzenta soltou uma risada rouca, um som áspero que quebrou a tensão opressiva.
— Olhem só para ele. O fedelho tem dentes affinal.
— Modere a língua, Gabriel — advertiu Jean-François, embora pela primeira vez houvesse uma centelha de respeito nos olhos austeros do Preceptor. O homem passou os dedos longos sobre a página seguinte, virando a folha com um sussurro solene. — Mas ele está certo. O desespero é a arma predileta dos ímpios. Se a história do fim foi posta em nossas mãos, é nosso dever de soldados da Fé testemunhá-la do começo ao fim.
O Preceptor ajeitou-se na cadeira, fixando o olhar no topo do primeiro capítulo oficial da crônica.
— Vamos ouvir o relato da sua infância, Gabriel. Do dia em que a sua maldição começou.
Gabriel engoliu a bile que subiu à sua garganta, lembrando-se do cheiro de fumaça de sua aldeia e do sabor metálico do primeiro sangue que manchou seus lábios. Ele puxou a cadeira para mais perto da mesa e sentou-se novamente, os punhos cerrados sobre os joelhos.
— Leia, senhor — pediu o rapaz, com a voz firme. — Não deixe passar uma única palavra.
