
AMOR PIRATA
Fandom: stardew valley
Criado: 02/11/2026
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Salitre e Neon
O porão de Sebastian era, no mínimo, claustrofóbico. Haley gostava de festas, gostava de ser o centro das atenções e, definitivamente, gostava de música que não soasse como um liquidificador triturando parafusos, mas cinco latas de cerveja barata haviam mudado sua percepção de "diversão". O ar úmido da Vila Pelicano, que geralmente a fazia reclamar do frizz no cabelo, agora parecia um alívio bem-vindo enquanto ela tropeçava — com elegância, ela insistia mentalmente — pelas ruas de paralelepípedos em direção à praia.
Seus chinelos faziam um som ritmado contra o chão, e o tilintar de suas pulseiras de concha acompanhava o movimento errático de seus braços. Haley queria ver o mar. Não o mar cinzento e monótono do dia a dia, mas o oceano sob a luz da lua, aquele que parecia um lençol de diamantes líquidos.
Ao chegar na areia, ela torceu o nariz. O cheiro de peixe vindo da cabana do Willy era insuportável, mesmo com a brisa noturna. Ela desviou o caminho, caminhando em direção ao cais mais afastado, aquele que ficava quase escondido pelas rochas, onde o cheiro de salitre era puro e não interrompido por iscas apodrecidas.
Foi então que ela a viu.
Uma silhueta estava sentada na ponta da madeira envelhecida, as pernas balançando sobre o abismo escuro da água. Haley parou, apertando os olhos azuis para focar a visão levemente turva. Não era o Sebastian, nem o Sam, e certamente não era a Leah. Era alguém novo. E Haley conhecia todo mundo naquela cidade minúscula.
— Ei! — Haley exclamou, sua voz saindo um pouco mais alta e arrastada do que pretendia. — Esse é o meu lugar de pensar. Você está invadindo.
A figura se virou lentamente. Sob a luz prateada da lua, Haley notou a pele bronzeada, o brilho de um pequeno piercing de bolinha no nariz e uma bandana preta com detalhes brancos que prendia o cabelo de forma rebelde. A garota usava calças largas e uma camiseta branca justa que contrastava com a escuridão ao redor. Ela parecia... diferente.
— Seu lugar de pensar? — A garota repetiu. Sua voz tinha um sotaque leve, algo que Haley não conseguiu identificar de imediato, mas que soava como o balanço de um barco. — Não vi nenhuma placa com o nome "Barbie" escrita nela.
Haley bufou, cruzando os braços sobre a blusinha branca de praia. O álcool lhe dava uma coragem ácida.
— É Haley. E eu moro aqui. Você é o quê? Uma turista perdida que se vestiu para um filme de piratas?
A desconhecida soltou uma risada curta e seca, mas não desprovida de humor. Ela se inclinou para trás, apoiando-se nos cotovelos, e observou Haley de cima a baixo.
— Pirata? — A garota sorriu, revelando dentes brancos. — Talvez. Ou talvez eu só saiba o que é funcional para não cair do barco do velho Willy enquanto ele tenta não naufragar.
Haley deu alguns passos à frente, o equilíbrio vacilando por um segundo antes de se recuperar. Ela se sentou a uma distância segura da garota, mas perto o suficiente para sentir o cheiro de maresia e algo que lembrava óleo de motor emanando dela.
— Você conhece o Willy? — perguntou Haley, tentando manter o tom de superioridade apesar da curiosidade óbvia.
— Digamos que ele me deve alguns favores. E eu devo a ele algumas lições de como não deixar o motor morrer no meio de uma tempestade — a garota respondeu, voltando a olhar para o horizonte. — Sou Kiara. Mas pode me chamar de Kie, se conseguir pronunciar sem tropeçar na própria língua.
— Eu não estou bêbada — mentiu Haley, embora seus olhos estivessem fixos no perfil de Kiara.
A luz da lua era generosa com a desconhecida. As linhas de seu rosto eram fortes, e havia uma espécie de magnetismo rústico nela que Haley, em sua bolha de moda e fotografia, raramente encontrava. Era irritante. E fascinante.
— Claro que não — Kie ironizou, o sotaque ficando mais evidente na palavra "claro". — E eu sou a Rainha do Festival do Ovo.
— Você é muito atrevida para alguém que acabou de chegar — Haley rebateu, cutucando a areia imaginária em seu short jeans. — O que uma "aspirante a pirata" faz aqui à meia-noite?
— O mesmo que uma loira de catálogo de verão, eu suponho — Kie virou o rosto, e seus olhos encontraram os de Haley. — Observando o abismo. Às vezes o abismo é mais interessante que as pessoas da cidade.
Houve um silêncio súbito, preenchido apenas pelo som das ondas quebrando nos pilares do cais. Haley sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com a brisa marítima. A química ali era estranha, quase tátil, como a eletricidade antes de um temporal de verão. Ela percebeu que Kiara a observava com uma intensidade que a fazia querer ajeitar o cabelo ou tirar uma foto, mas ela apenas sustentou o olhar.
— Você tem olhos bonitos — Kiara disse de repente, o sarcasmo desaparecendo por um breve segundo. — Parecem o mar em um dia de sol. Pena que estão meio vidrados agora.
Haley sentiu o rosto esquentar.
— É a luz. A iluminação aqui é ótima para fotografia — Haley tentou recuperar a compostura. — E você... você tem um sotaque estranho. É fofo, eu acho. De um jeito meio... rústico.
Kiara soltou uma gargalhada genuína desta vez, jogando a cabeça para trás.
— "Fofo"? Cuidado, loira. Se o Willy ouve você dizendo que alguém da tripulação dele é fofo, ele te joga para os caranguejos.
— Tripulação? — Haley arqueou uma sobrancelha. — Você realmente se leva a sério com essa coisa de mar, não é?
— O mar é a única coisa que nunca mente para você — Kie respondeu, sua expressão tornando-se sutilmente séria novamente. — Ele te diz exatamente o quão pequena você é. Às vezes, as pessoas nesta vila esquecem disso.
Haley olhou para as próprias mãos, cheias de anéis e pulseiras. Ela sempre se sentiu grande na Vila Pelicano. A mais bonita, a mais estilosa, a que todos notavam. Mas ali, sentada ao lado daquela garota que parecia pertencer às profundezas escuras do oceano, ela se sentiu, pela primeira vez, apenas uma garota em um cais.
— Vai ter uma fogueira na praia amanhã — Haley disse, a frase saindo antes que ela pudesse processar o convite. — Perto da torre do mago. O pessoal costuma ir. Você deveria aparecer. Eu poderia te apresentar pessoas que não cheiram a peixe.
Kiara deu um meio sorriso, um tanto enigmático. Ela se levantou em um movimento fluido, ajeitando a bandana preta na cabeça. As botas pesadas ecoaram na madeira enquanto ela dava um passo para trás, preparando-se para sair.
— Eu não sou muito de festas em terra firme, Haley. O chão parado me dá vertigem.
— É só uma fogueira — Haley insistiu, levantando-se também, embora com um pouco menos de graça. — Eu vou estar lá.
Kiara parou e olhou por cima do ombro. Seus olhos brilharam com um desafio silencioso.
— O oceano é grande, loira. E eu tenho muito trabalho a fazer no barco antes do sol nascer. Não conte com isso.
— Eu não conto com nada — Haley mentiu, cruzando os braços. — Só achei que você precisasse de amigos que não fossem crustáceos.
Kiara soltou um assobio baixo, uma melodia curta que parecia um chamado de marinheiro, e começou a caminhar em direção à escuridão da trilha que levava à cabana de Willy.
— A gente se vê por aí... ou não — a voz de Kie flutuou de volta, carregada daquele sotaque que Haley agora admitia internamente ser absolutamente adorável.
Haley ficou parada no cais por um longo tempo, observando a silhueta de Kiara desaparecer. O efeito da cerveja estava passando, dando lugar a uma clareza incômoda. Ela olhou para o mar, o mesmo mar que Kiara disse ser a única coisa que não mentia.
A loira tocou o próprio colar de conchas, sentindo o coração bater um pouco mais rápido do que o normal. Ela sabia que, independentemente do que Kiara tivesse dito, ela passaria o dia seguinte inteiro escolhendo a roupa perfeita para aquela fogueira.
E, pela primeira vez em muito tempo, não seria para tirar uma selfie.
— Pirata idiota — Haley murmurou para o vento, um sorriso involuntário brincando em seus lábios enquanto ela iniciava o caminho de volta para casa, sentindo que a sexta-feira à noite tinha acabado de se tornar o início de algo que ela não conseguia, e talvez não quisesse, explicar.
