
Juno, haley
Fandom: stardew valley
Criado: 02/11/2026
Tags
Óleo de Coco, Saltos Altos e Outros Desastres Matinais
Existem manhãs em que o universo conspira a seu favor. O sol brilha no ângulo certo, o café passado pela vovó Evelyn tem gosto de abraço e você acorda se sentindo a dona do mundo.
Aquela manhã de sábado, contudo, não foi uma dessas. Nem de longe.
Eu acordei com o som ensurdecedor de uma buzina de caminhão cortando a costumeira calmaria da Vila Pelicanos, seguido pelos latidos histéricos de Dusty no quintal. Minha cabeça parecia pesar o dobro do normal, consequência direta de ter passado a noite de sexta-feira tentando explicar para o meu irmão Alex que ele não poderia simplesmente usar o charme dele para passar na prova de trigonometria da Evergreen High. Spoiler: ele ainda achava que sim.
Arrastando os pés pelo chão de madeira fria, empurrei as cobertas com um resmungo que não conteria palavras humanas nem se fosse submetido a uma perícia. Meus cabelos castanhos ondulados, que costumam cooperar com certa relutância, deviam estar parecendo um ninho de corvos particularmente estressados. Eu usava uma calça de flanela xadrez desbotada que tecnicamente já fora do Alex há três anos e uma camiseta cinza folgada com a frase "Café Primeiro, Questões Depois".
Era a definição visual de alguém que ainda não havia ativado o módulo social.
Passei pela cozinha como um zumbi guiado pelo faro, apenas para encontrar a bancada vazia. O vovô George estava acomodado em sua cadeira de rodas perto da janela, resmungando sobre o barulho na rua, e a vovó Evelyn regava suas begônias na varanda com uma animação matinal que beirava a ilegalidade.
— Sidy, querida! Que bom que acordou — cantarolou a vovó assim que empurrei a porta de tela, deixando escapar um bocejo que quase deslocou minha mandíbula. — Olhe só para aquilo. Parece que os novos vizinhos finalmente chegaram da Cidade de Zuzu.
Esfreguei os olhos com as costas das mãos, tentando forçar minha visão a focar através do embaçado do sono.
Vila Pelicanos era o tipo de lugar onde a mudança de uma folha de outono rendia três dias de conversa fiada no armazém do Pierre. Desde o outono passado, quando meus pais decidiram que transformar nosso lar em um campo de batalha diário era um ótimo passatempo, eu e Alex tínhamos nos mudado para a casa dos nossos avós. Eu achava que conhecia cada fofoca daquele vilarejo rural. E a grande notícia das últimas três semanas era que a casa vazia da Rua Willow, número 2 — bem do outro lado da nossa —, finalmente receberia novos ocupantes. A prefeita Lewis não falava de outra coisa.
Mas, na minha cabeça sonolenta, eu esperava... sei lá, um casal de aposentados com oito gatos ou uma família tradicional de agricultores com filhos catarrentos.
Não aquilo.
Parado diante da cerca branca, um enorme caminhão de mudanças manobrava de ré, soltando aquele bip-bip irritante. Descendo de uma caminhonete menor logo atrás, surgiram duas figuras. E nenhuma delas parecia carregar oito gatos.
A primeira que saiu do carro era uma garota com um cabelo azul elétrico que parecia desafiar a física e o bom senso campestre. Ela vestia uma túnica tingida de forma artesanal e já gesticulava alegremente para o motorista do caminhão como se o conhecesse desde a infância. Emily. Lembrei-me do nome mencionado pela fofoca local: ela vinha trabalhar meio período no Saloon da Fruta Estelar.
A segunda garota, no entanto, desceu do banco do passageiro com a lentidão calculada de quem estava pisando em uma terra devastada por radiação.
Pisquei uma, duas vezes, coçando a ponta do nariz onde as minhas sardas se concentravam.
A garota era loira. Um loiro dourado, perfeitamente alinhado, que brilhava contra a luz fraca da manhã de um jeito quase ofensivo para alguém que estava de pijamas amassados. Ela usava óculos escuros grandes demais para uma cidadezinha onde o maior perigo era levar uma bicada de galinha, uma jaqueta jeans cropped e... botas de cano curto com saltos que faziam um barulho afiado contra o asfalto.
— Ah, céus — murmurei, apoiando os cotovelos no parapeito da varanda. — Quem é que viaja de mudança com sapatos de salto?
— Ela parece uma mocinha muito distinta — comentou a vovó Evelyn, com aquela pureza que só as avós conseguem manter diante do perigo iminente.
— Ela parece que errou o caminho para a passarela de Zuzu e foi parar no fim do mundo — corrigi, semicerrando os olhos.
A loira parou no meio do caminho de cascalho. Com um gesto teatral, ela ergueu os óculos escuros, pousando-os no topo da cabeça, e olhou ao redor. A expressão no rosto dela era uma mistura fascinante de horror estético e puro tédio aristocrático. Ela olhou para a lama perto do canteiro, olhou para a casinha de cachorro de Dusty e fez uma careta que eu quase podia jurar que expressava: "Onde estão os empregados para pavimentar isso com mármore?".
Foi então que um redemoinho passou por mim.
Alex surgiu na varanda como um raio, sem camisa, segurando uma bola de futebol americano debaixo do braço e com o cabelo milimetricamente espetado com gel. Ele tinha aquela habilidade irritante de parecer pronto para um comercial de desodorante às oito da manhã.
— E aí, quem são as gatinhas? — perguntou ele, apoiando-se ao meu lado e já exibindo aquele sorriso de capitão do time que geralmente funcionava com as garotas mais ingênuas de Evergreen.
— Irmãs — respondi, sem desviar os olhos do outro lado da rua. — E guarde esse peitoral antes que o vovô George mande você calçar sapatos.
— Relaxa, Sidy. Essa é a comitiva de boas-vindas do melhor zagueiro da região. — Ele deu uma piscadela e girou a bola nos dedos.
Bufei, sentindo aquela mania incontrolável de cutucar a cutícula do polegar quando algo começava a me deixar inquieta. Eu não sabia por que, mas ver Alex agir como um pavão perto daquela garota nova me deu uma pontada estranha de antecipação. E a postura da loira... havia algo nela que já atiçava cada terminação nervosa do meu corpo.
Ela não era apenas bonita de um jeito padrão de revista. Ela tinha a mesma altura que eu — algo que notei quando ela deu dois passos em direção à cerca para evitar uma poça d'água. Ombros eretos, queixo levemente empinado, uma presença física que simplesmente exigia que o espaço ao redor dela se ajustasse.
A loira deu um suspiro audível até da nossa varanda, abanando o ar como se a brisa pura do campo estivesse impregnada de toxinas. Foi nesse movimento que uma lufada de vento soprou na nossa direção, trazendo um cheiro absurdamente doce, floral e tropical.
— Que cheiro é esse? — Alex franziu o nariz, confuso. — Ela caiu dentro de uma fábrica de protetor solar?
— Óleo de coco — identifiquei imediatamente, revirando os olhos. — Daquele caro. O tipo de coisa que você passa quando quer fingir que acabou de voltar de um resort nas ilhas Fern.
Como se tivesse ouvido meu pensamento cáustico a trinta metros de distância, a loira congelou.
Ela virou o rosto na nossa direção.
Primeiro, seu olhar bateu em Alex. Ele aproveitou a deixa para jogar a bola de futebol para o alto e pegá-la no ar com uma mão só, ostentando um bíceps tenso. A garota olhou para a demonstração atlética com a mesma empolgação de quem assiste a uma barata voar perto da parede. Ela literalmente piscou em câmera lenta, revirando os olhos azuis de um jeito tão descarado que eu tive que conter uma risada.
Ponto para a loira: um a zero contra o ego inflado do meu irmão.
Mas aí o olhar dela continuou a varredura e colidiu diretamente com o meu.
Eu congelei.
Houve um segundo interminável em que tudo ao redor pareceu sumir: os resmungos de vovô George lá dentro, a tagarelice de Emily com os carregadores, até o latido distante de Dusty. A garota me avaliou. Seus olhos desceram da minha cabeça despenteada para a camiseta larga, desceram mais um pouco pelas calças de flanela cafonas e voltaram para o meu rosto, detendo-se nas minhas bochechas salpicadas de sardas.
Eu deveria ter me sentido desconfortável. Deveria ter entrado correndo para trocar de roupa e colocar algo que me fizesse parecer a vice-líder de torcida confiante que eu costumava ser nos corredores da Evergreen High. Mas o desafio silencioso no jeito que ela me encarava travou meus pés no chão de tábua da varanda.
Ergui o queixo, sustentando o olhar. Cruzei os braços sobre o peito, deixando clara a minha mensagem não verbal: Olhe o quanto quiser, madame. Não vou desviar primeiro.
A loira pareceu registrar a minha petulância. Seus lábios bem desenhados e cobertos de gloss brilhante curvaram-se milimetricamente. Não foi um sorriso caloroso de vizinha simpática. Foi um sorriso torto, de lado, carregado de pura provocação. Uma faísca nítida brilhou naqueles olhos azuis claros, como se ela tivesse acabado de encontrar o brinquedo mais interessante de uma loja entediante.
Ela sustentou meu olhar por mais um batimento cardíaco, deu uma meia-volta ensaiada, balançando os cabelos loiros sobre os ombros com uma perfeição cinematográfica, e gritou em direção à irmã:
— Emily! Se alguma daquelas caixas de maquiagem cair na terra, eu juro que volto para Zuzu a pé!
Minhas bochechas subitamente começaram a queimar.
Um calor súbito e absurdo subiu pelo meu pescoço, tingindo minha pele bronzeada de um vermelho vivo que eu não consegui controlar de jeito nenhum. Apertei a madeira do parapeito, abaixando a cabeça imediatamente para tentar esconder o rubor com as ondas do meu cabelo.
O que diabos tinha acabado de acontecer?
— Ih, Sidy — Alex riu, cutucando minha costela com o cotovelo. — Parece que a princesinha não gostou do seu estilo despojado de quem acabou de sobreviver a um furacão. Por que você tá tão vermelha? Ficou brava?
— Cala a boca, Alex — rosnei, puxando o ar com força e empurrando o braço dele para longe. Minha voz saiu um pouco mais aguda do que o habitual, denunciando a bagunça que aquele maldito sorriso torto tinha armado na minha cabeça. — Eu tô com sono. E o sol tá forte.
— O sol nem saiu de trás da montanha direito, maninha.
— Eu mandei calar a boca!
Entrei marchando de volta para a cozinha, batendo a porta de tela com uma força desnecessária que fez os pratos da cristaleira da vovó chacoalharem.
— Cuidado com a tela, Sidy! — ralhou vovô George lá do canto, sem tirar os olhos do jornal. — E quem são aqueles malucos lá fora fazendo esse barulho todo?
— Não são malucos, vovô. É só mais uma patricinha mimada da cidade grande que provavelmente vai chorar na primeira vez que vir uma joaninha — respondi entre dentes, indo até a geladeira e pegando a jarra de suco com uma agressividade desmedida.
— Haley — a vovó Evelyn disse, entrando atrás de mim com uma cesta de roupas limpas. — A loira se chama Haley Graham. O prefeito Lewis me contou ontem à noite. Disse que a família delas comprou a casa como uma espécie de refúgio. Parece que os pais viajam muito pelo exterior.
— Haley — repeti o nome mentalmente, sentindo um gosto amargo e estranhamente elétrico na ponta da língua.
Graham. A rainha do óleo de coco e dos saltos agulha no cascalho.
Apoiei as mãos na bancada de fórmica da cozinha e respirei fundo, tentando me recompor. Eu tinha quinze anos e uma lista razoável de problemas para lidar: a adaptação em uma cidade minúscula, a separação caótica dos meus pais que eu tentava fingir que não me afetava, os treinos exaustivos da torcida, as notas do Alex que eu precisava salvar para ele não ser expulso do time. Eu não precisava de uma loira arrogante zombando das minhas roupas de dormir antes do café da manhã.
E, definitivamente, eu não deveria ter ficado vermelha com um mísero arquear de lábios.
Foi raiva, decidi com firmeza. Tinha sido pura e simples raiva por ter sido julgada por alguém que parecia uma boneca de porcelana ambulante. Era o meu instinto competitivo reagindo a uma ameaça à minha paz de espírito. Só isso.
— Ei, vice-líder — Alex chamou, entrando na cozinha e abrindo um pacote de torradas com a boca enquanto tentava calçar um tênis. — Segunda-feira as duas começam em Evergreen. Lewis comentou com o treinador. Haley vai ficar na nossa turma.
Engoli o gole de suco de laranja quase a seco, sentindo a acidez queimar no fundo da garganta.
— Na nossa turma?
— É. Aquele nosso segundo ano acabou de ficar bem mais interessante. — Ele deu aquela risadinha confiante e idiota. — Ela pode ter bancado a difícil agora, mas garanto que até o baile de outono eu consigo pelo menos uma dança.
Virei-me para o meu irmão, olhando-o de cima a baixo com um sorriso sarcástico que eu usei a vida inteira como escudo.
— Alex, querido — disse eu, com a voz mais doce e letal que consegui conjurar. — Aquela garota olhou para os seus músculos com a mesma consideração que eu olho para uma casca de banana no chão. Se você acha que vai dobrar a senhorita Graham com uma bola de futebol e um sorriso colgate, é melhor começar a rezar para Yoba agora mesmo.
— Quer apostar? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Eu não aposto em tragédias anunciadas. Mas vou adorar assistir ao show de camarote.
Caminhei em direção ao corredor para ir até o banheiro tomar um banho e colocar algo decente — meu clássico uniforme verde e branco de treino que, querendo ou não, sempre me dava uma blindagem extra de confiança. Mas antes de entrar no quarto, parei diante da janela da sala que dava para a Rua Willow.
Lá fora, Haley estava de pé ao lado da caminhonete. Ela segurava uma câmera fotográfica vintage agora, apontando para o céu como se procurasse um ângulo melhor, completamente alheia ao caos dos homens descarregando os móveis pesados. Por um instante, a luz da manhã bateu diretamente nela, fazendo o tecido da sua jaqueta brilhar e o dourado do seu cabelo parecer quase incandescente.
Ela baixou a câmera devagar.
Nossos olhares não se cruzaram de novo — ela estava focada em algo na direção da floresta —, mas uma estranha certeza se instalou no fundo do meu estômago, daquelas que fazem a ponta dos dedos formigarem.
Vila Pelicanos era pequena demais para duas pessoas que se recusavam a baixar a cabeça. Aquela garota tinha chegado trazendo suas malas cheias de perfumes caros, sua audácia desmedida e um sarcasmo afiado que eu já conseguia antecipar a quilômetros de distância. Ela achava que era dona do jogo só porque tinha vindo da cidade grande.
Puxei a cortina da janela devagar, sentindo um sorriso escapar involuntariamente dos meus próprios lábios.
— Pode vir com tudo, Haley Graham — murmurei para a poeira dançando no raio de sol da sala. — Vamos ver quem perde o controle primeiro.
