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Fandom: Stranger Things
Criado: 03/11/2026
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Ecos de Rocha e Sangue
O ar dentro da cabana parecia denso demais para ser respirado, saturado com o cheiro metálico de ozônio e a poeira estática que fazia os pelos dos braços se arrepiearem. As lâmpadas amarelas presas ao teto oscilavam em um ritmo frenético e doentio, quase como se o próprio coração da casa estivesse falhando.
No centro da sala, sentado em uma cadeira de madeira desgastada, Will Byers tremia violentamente.
Clara estava ajoelhada ao lado dele. Suas mãos, quentes e macias, envolviam os dedos gélidos do garoto. Ela tinha um corpo curvilíneo, os ombros largos e o peso acolhedor de seus oitenta e cinco quilos distribuídos em seu um metro e sessenta e oito de altura, uma presença que costumava trazer conforto a qualquer um que se aproximasse. Mas, naquele momento, seu próprio peito arfava sob a blusa de lã grossa. Seus olhos castanhos, marcados por sombras de noites insones e fantasmas que nunca a deixavam em paz, estavam fixos na palidez cadavérica de Will.
— Will... querido, respire — sussurrou ela, com a voz embargada pelo carinho instintivo que sempre devotava aos mais jovens. — Não vá muito fundo. Fique aqui comigo.
Mas o menino não ouvia. Sua respiração vinha em arquejos curtos e sibilantes. A cabeça de Will pendia para trás, os olhos completamente revirados, exibindo apenas o branco opaco, enquanto as veias de seu pescoço saltavam como cordas tensas prestes a arrebentar.
— Mãe... — balbuciou Will de repente, uma voz que não parecia totalmente sua, arranhada, vinda do fundo de um abismo distante. — Tá muito escuro... O chão... o chão tá úmido...
Joyce Byers deu um passo à frente, as mãos crispadas contra o peito, os nós dos dedos brancos de tanto desespero. Jim Hopper a segurou firmemente pelos ombros, impedindo que ela se jogasse sobre o filho.
— O que ele tá vendo, Clara? — perguntou Joyce, a voz quebrando em puro pânico. — O que tá acontecendo com ele?
Clara não respondeu de imediato. Ela aproximou o rosto do de Will, sentindo a temperatura da pele dele cair drasticamente. Uma gota espessa e escura de sangue começava a escorrer pela narina esquerda do garoto.
— O túnel... — murmurou Will, as palavras saindo trêmulas entre dentes cerrados. — A terra vermelha... fede a enxofre... tem... tem uma coisa brilhando no meio da lama... uma pedra...
O ar pareceu congelar nos pulmões de Clara. O tempo parou.
Ela conhecia aquele lugar. Conhecia aquelas palavras com uma precisão cirúrgica e dolorosa. Não porque já tivesse estado lá em carne e osso, mas porque a memória havia sido sussurrada contra o seu ouvido em noites intermináveis, quando o mundo ao redor deles se resumia às paredes frias e brancas do Laboratório de Hawkins.
“Eu tinha oito anos, Clara”, a voz aveludada, suave e assustadoramente calma de Peter — de Henry — ecoou em sua mente como se ele estivesse parado atrás dela. “Eu rastejei para dentro daquele buraco sob a terra. Não havia luz, apenas o som dos insetos. E então eu a vi. A pedra. Ela não pertencia ao nosso mundo. Ela pulsava. Foi quando eu percebi que a nossa realidade era uma mentira construída por mentes fracas.”
Henry nunca havia contado aquela história a ninguém. Nem a Brenner. Nem às outras crianças numeradas. Apenas a ela.
Naqueles anos cinzentos de confinamento, onde Clara era tratada como um espécime defeituoso, sujeita a choques e testes que arruinavam seu sistema nervoso e deixavam seu corpo à beira do colapso, Henry fora o único refúgio. Ele cuidava de seus ferimentos em segredo. Ele limpava o sangue de seu nariz com lenços imaculados. Ele a abraçava no escuro quando os tremores a impediam de ficar de pé, sussurrando promessas de um mundo onde ninguém jamais a machucaria novamente.
Ele a amava com uma intensidade doentia, obsessiva e desesperada. E ela o havia amado de volta, com a ingenuidade de quem encontra ternura no inferno.
— Ele tá no túnel... — Clara falou em um sopro, os olhos arregalados, a mão cobrindo a própria boca. — Não é uma ilusão qualquer. Will entrou na mente dele, mas foi puxado para a raiz de tudo. É a lembrança primordial. O momento em que ele encontrou a pedra do Mundo Invertido.
— Do que você tá falando?! — Joyce gritou, avançando mais um passo. — Tira ele de lá! Acorda ele! Will! Will, olhe para mim!
Will soltou um grito abafado, o corpo se arqueando na cadeira como se estivesse recebendo uma descarga elétrica invisível. Os vasos sanguíneos de seus olhos começaram a estourar em minúsculas manchas vermelhas.
— Henry tá quebrando a mente dele — disse Clara, a voz subindo de tom, a adrenalina limpando a névoa de pavor que a paralisava. — O Will não tem como se defender lá dentro. Aquele túnel é o santuário da infância do Henry. Ninguém entra lá sem que ele destrua a alma do invasor.
— Então o que a gente faz? — Hopper interveio, a voz grave e autoritária, embora o medo nítido transparecesse em seus olhos. — Você disse que a gente precisava saber o que ele estava planejando!
— Will não vai sobreviver para contar — declarou Clara com uma frieza súbita que assustou a todos na sala. Ela se levantou, afastando as mechas de cabelo que grudavam em sua testa suada. Ela olhou para Joyce, os olhos cheios de uma resolução que beirava a insanidade. — Eu vou entrar.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, quebrado apenas pelos espasmos dolorosos de Will.
Joyce olhou para Clara como se ela tivesse acabado de falar em outra língua. Depois, a expressão da mãe se contorceu em terror.
— Não. Não, Clara, você não vai! — disparou Joyce, balançando a cabeça com veemência. — Você ficou louca? Você não pode!
— Joyce, escuta...
— Não! — Joyce cortou, a voz rasgada. — Você não escutou o que os médicos disseram? Você quase morreu na última vez em que tentou mover aquela droga de carro! Seu coração quase parou! Você fica de cama por semanas, você sangra por todos os lados! Você não tem a força que aquelas crianças tinham, o seu corpo não aguenta!
— Eu sou a única que conhece o caminho naquele túnel! — Clara rebateu, dando um passo à frente, sua presença sólida e maternal enfrentando o desespero de Joyce. — Ele contou para mim, Joyce! Cada detalhe, cada fenda daquela pedra, o cheiro da terra, o sentimento exato que ele teve quando tocou nela! O Will tá cego lá dentro. Se eu não for até lá para puxar o Will de volta, seu filho vai ter morte cerebral em menos de cinco minutos!
— E se você fizer isso, nós dois morremos! — Joyce avançou, segurando os braços de Clara com força, quase suplicando. — Você sabe muito bem o que ele disse! Ele falou com todas as letras através das vinhas daquela torre! Ele mandou o recado!
O lembrete pairou sobre a sala como uma forca invisível.
Todos ali se lembravam da mensagem transmitida há duas semanas. Henry, através de um dos garotos possuídos temporariamente, havia olhado diretamente nos olhos de Hopper e Joyce e deixado um aviso que fez até o xerife endurecido tremer:
“Deixem-na em paz. Se Clara sangrar mais uma vez por causa das suas guerras idiotas... se vocês a forçarem a usar a mente dela de novo, eu não vou esperar os portões se abrirem. Eu vou rasgar a carne de cada um de vocês enquanto ela assiste. Ela é minha. E ai de quem colocar a vida dela em risco.”
Ele não se importava com Eleven da mesma forma. Eleven era sua rival, seu espelho quebrado, o objeto de seu ódio e desafio. Mas Clara... Clara era a única relíquia viva de sua humanidade distorcida. Ele a venerava como a uma deusa que ele pretendia trancar em uma gaiola de ouro assim que o mundo queimasse. A simples ideia de que o grupo pudesse usá-la como arma ou escudo provocava no monstro uma fúria apocalíptica.
— Ele vai nos matar se souber que você entrou lá — murmurou Joyce, lágrimas grossas descendo por suas bochechas cansadas. — Ele vai achar que nós forçamos você. Ele vai descer sobre esta casa e não vai sobrar nada do Will, nem de mim, nem de você!
— Henry não vai matar ninguém se eu estiver lá para segurar a mão dele — respondeu Clara em voz baixa, quase inaudível, mas carregada de uma dor tão antiga quanto o próprio laboratório.
— Clara, por favor... — Hopper tentou intervir, a mão pesada pousando no ombro da mulher. — Deve haver outro jeito. O rádio, a música do Will...
— Não há tempo para música! Olha para ele!
Hopper e Joyce olharam. Will começara a engasgar com a própria saliva. O sangue agora escorria de ambas as narinas, traçando linhas vermelhas grossas sobre os lábios pálidos. Seus dedos se contorciam em ângulos não naturais, as unhas cravadas nos braços da cadeira até que a madeira começasse a estalar.
— Will! — Joyce gritou, tentando segurar a cabeça do filho.
Clara fechou os olhos por um segundo. O trauma do laboratório, as agulhas, o som das portas de aço batendo, o riso frio do Dr. Brenner... tudo aquilo ainda vivia em seus ossos. Toda vez que ela alcançava o vazio escuro de sua mente para despertar o dom que Brenner havia cultivado à força, ela sentia como se pedaços de sua própria alma fossem arrancados. Seu corpo, pesado e cansado, pagava um pedágio brutal. Seus vasos estouravam, sua pressão despencava, a dor de cabeça a cegava por dias.
E, no entanto, ela não podia deixar o menino morrer. Henry a havia protegido tantas vezes do sofrimento; agora, ironicamente, ela teria que desafiar a vontade dele para proteger uma criança inocente.
— Peguem panos limpos — ordenou Clara, a voz firme, destituída de qualquer hesitação. — E Joyce... segure a mão dele. Não solte por nada.
— Clara... — Joyce soluçou, paralisada pela escolha impossível diante de si. Salvar seu filho significava assinar a sentença de Clara e, muito provavelmente, convocar a ira do demônio sobre suas cabeças.
— Me deixe fazer isso — pediu Clara, tocando o rosto de Joyce com infinita doçura. — Eu cuido dele. Eu sempre cuido.
Sem esperar por mais objeções, Clara puxou a outra cadeira e a posicionou exatamente em frente a Will. Seus joelhos roçaram nos dele. Ela estendeu as mãos trêmulas e segurou o rosto gelado do garoto entre as palmas quentes.
— Estou indo, Henry — murmurou ela, encarando o vazio dos olhos brancos de Will. — Não o machuque.
Clara respirou fundo, enchendo os pulmões de ar, e fechou os olhos.
A dor começou quase instantaneamente, como uma agulha em brasa sendo empurrada por trás de suas órbitas oculares. Seu coração deu um solavanco violento no peito, batendo descompassado, e um gosto quente e ferroso inundou o fundo de sua garganta. Ela sentiu o filete de sangue escorrer quente pela sua narina, manchando seu lábio superior, mas ela não parou.
Ela forçou sua consciência a afundar, rompendo as barreiras frágeis de sua própria fraqueza física, rasgando o véu entre a realidade e o abismo.
O som da sala de estar — os soluços de Joyce, os palavrões tensos de Hopper, o ranger da madeira — começou a desaparecer, abafado como se ela estivesse mergulhando em água profunda e gelada.
E então veio a escuridão.
Segundos depois, o impacto da transição a atingiu. Clara abriu os olhos no plano mental.
Ela não estava na cabana. Não havia paredes de madeira, nem lâmpadas tremeluzentes.
O ar era sufocante, com cheiro de mofo, terra molhada e um odor acre de ferrugem. O chão sob seus pés era lama pura, fria e pegajosa. Acima dela, o teto era baixo, feito de raízes retorcidas e rocha escura que pingava uma água espessa. Era um túnel estreito, claustrofóbico, iluminado apenas por uma luminescência escarlate e doentia que parecia emanar das próprias paredes.
Mais à frente, encolhido contra uma parede de terra, estava Will. O garoto aparentava ter não mais que dez anos ali dentro, a imagem de sua mente regredindo ao terror mais puro, abraçando os próprios joelhos enquanto chorava em silêncio.
E a poucos metros dele, de costas para Clara, estava uma figura esguia.
Não era o monstro retorcido, coberto de vinhas e carne exposta que assombrava Hawkins.
Era ele.
Ele usava as roupas brancas e imaculadas de ordenança do laboratório, o cabelo loiro claro perfeitamente penteado, a postura ereta e elegante que ela conhecia tão bem. O jovem Henry Creel. O Peter dela.
Ele estava de joelhos diante de uma fenda profunda na rocha. Suas mãos pálidas seguravam algo que pulsava com uma luz negra e vermelha, uma pedra de formato bizarro que parecia devorar a própria luz ao redor.
Ao ouvir o som dos passos de Clara na lama, a figura parou.
O silêncio do túnel se tornou absoluto. Nem mesmo os soluços de Will podiam ser ouvidos.
Lentamente, com a graciosidade quase mecânica que sempre o caracterizou, Henry virou a cabeça por sobre o ombro. Seus olhos azuis, outrora tão claros e serenos, faiscavam com uma mistura aterrorizante de loucura antiga e um lampejo súbito, desesperado, de ternura humana.
Ele olhou para ela. Depois, seu olhar desceu para o lábio dela, onde o sangue mental espelhava o sangue físico que escorria em seu corpo no mundo real.
A expressão de Henry se obscureceu, tornando-se uma tempestade de fúria silenciosa.
— Clara... — a voz dele ecoou pelas paredes do túnel, ressoando não apenas no ar, mas diretamente nos ossos dela, carregada de amor, repreensão e uma promessa aterrorizante. — O que foi que eles fizeram com você?
