
Fagulhas Contidas
O som da respiração descompassada ecoava pelo quarto quase escuro de Keisuke Baji. A única luz vinha da fresta da cortina entreaberta, desenhando uma linha dourada pelo chão de tatame até alcançar a ponta dos pés descalços de Alice.
Ele estava sobre ela, os braços firmes apoiados de cada lado dos ombros da garota, sustentando o próprio peso com um esforço que fazia suas veias saltarem no pescoço. O beijo havia começado calmo, como sempre começava, mas Baji não era um homem de calmaria. Havia um incêndio constante correndo em suas veias, e cada vez que os lábios macios de Alice se abriam sob os seus, aquele fogo exigia mais combustível.
Ele aprofundou o beijo, deslizando a língua com uma urgência crua, sentindo o gosto doce do brilho labial de cereja misturado ao calor inebriante da boca dela. A mão de Baji desceu lentamente, espalmando a cintura de Alice, puxando-a para mais perto até que o tecido áspero de sua calça jeans roçasse no tecido leve do vestido dela.
Alice suspirou contra a boca dele, as mãos pequenas segurando os fios negros e longos do rapaz, puxando-os de leve. Aquele toque desarmava e, ao mesmo tempo, enlouquecia Keisuke. O coração dele parecia um motor de motocicleta prestes a fundir. Ele desceu os beijos para a mandíbula dela, mordiscando suavemente a pele macia do pescoço, sentindo o pulso acelerado de Alice sob seus lábios. Suas presas afiadas roçaram a clavícula dela, e ele sentiu um arrepio violento percorrer o corpo feminino.
Era o momento. Tinha que ser.
Com os dedos trêmulos de pura antecipação, Baji deslizou a mão pela coxa de Alice, subindo pela barra do vestido. A pele dela ardia sob o toque dele. Mas, no segundo em que seus dedos ameaçaram subir além da metade da coxa, Alice estremeceu de uma forma diferente. Não foi um tremor de prazer; foi uma hesitação quase imperceptível. O corpo dela enrijeceu por uma fração de segundo, e suas mãos se apoiaram no peito largo de Baji, não para puxá-lo, mas para manter a distância.
Aquele pequeno gesto foi como um balde de água congelada sobre a fogueira.
Baji parou imediatamente. A respiração dele saía pesada, quase dolorosa, enquanto ele olhava nos olhos castanhos e arregalados de Alice. Havia carinho ali, havia desejo, mas havia também uma trava invisível, um abismo de silêncio que os separava há exatamente dois anos.
Dois anos de namoro. Dois anos de mãos dadas, de caronas velozes na moto, de tardes dividindo yakisoba e de beijos intensos no chão do quarto. E, ainda assim, eles nunca haviam passado daquilo. Nunca haviam tirado uma única peça de roupa.
— Keisuke... — sussurrou ela, com a voz embargada e as bochechas coradas. — Desculpa...
Aquele pedido de desculpas o destruía por dentro. Baji cerrou a mandíbula com tanta força que os dentes rangeram. Ele não estava com raiva dela; estava furioso com a situação, consigo mesmo, com a porra da barreira invisível que ele não conseguia derrubar sem ter medo de estilhaçar a garota que amava.
— Tá tudo bem — mentiu ele, a voz rouca e falha.
Ele se afastou, rolando para o lado e sentando-se na beirada do colchão. Baji passou as mãos pelo rosto, puxando o próprio cabelo para trás enquanto tentava forçar o ar a entrar em seus pulmões em chamas. Seu corpo inteiro pulsava de necessidade, uma frustração física e psicológica tão profunda que fazia seus punhos tremerem.
— Você tá bravo? — perguntou Alice, sentando-se logo atrás dele, ajeitando o vestido com as mãos nervosas.
— Não tô bravo, Alice — respondeu ele, encarando a parede vazia para não demonstrar o tormento estampado em seus olhos. — Só... preciso de um ar.
Sem esperar por uma resposta, ele se levantou, calçou os coturnos de qualquer jeito e saiu do quarto, deixando para trás o perfume doce de cereja que ainda parecia impregnado em sua pele.
No dia seguinte, a frustração de Baji não havia diminuído; pelo contrário, havia se transformado em uma névoa densa de irritação. Ele estava sentado no muro baixo de uma praça movimentada em Shibuya, chutando pedrinhas com violência enquanto observava o movimento dos pedestres. A jaqueta da Toman estava aberta, e a fumaça de seu cigarro subia em espirais cinzentas para o céu nublado.
— Se você continuar com essa cara, vai acabar quebrando a própria mandíbula antes do final da tarde.
A voz preguiçosa e aguda veio de cima. Baji olhou de soslaio e viu Ranpo sentado em um galho da árvore logo atrás do muro. Ele balançava as pernas despreocupadamente, vestindo sua habitual capa marrom e um boné ligeiramente torto, concentrado em desenrolar um pirulito de morango.
Ranpo era uma figura peculiar que Baji conhecera meses atrás. Ele não pertencia a nenhuma gangue, não sabia lutar sequer um soco decente, mas possuía um cérebro assustadoramente brilhante. Era o tipo de pessoa que olhava para a sola do seu sapato e dizia exatamente onde você esteve nas últimas vinte e quatro horas e qual era o seu maior arrependimento da semana.
— Vai se foder, Ranpo — rosnou Baji, tragando o cigarro com força. — Não tô com paciência pra você hoje.
— Ah, isso é óbvio — disse Ranpo, enfiando o doce na boca e semicerrando os olhos verdes, que faiscavam com uma inteligência mordaz. — Você exala mau humor a três quarteirões de distância. O modo como seus ombros estão curvados, a maneira obsessiva como você fuma esse cigarro barato como se quisesse queimar os próprios pulmões... É patético, na verdade.
— Repete isso pra você ver se eu não te quebro no meio — ameaçou Baji, virando o rosto na direção dele, as presas à mostra em uma expressão verdadeiramente feroz.
Ranpo nem sequer piscou. Ele apenas deu de ombros, mastigando o doce.
— Bater em mim não vai fazer você transar com a sua namorada, Baji.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. O cigarro escapou dos dedos de Baji e caiu no chão. O delinquente congelou por um instante, o sangue sumindo de seu rosto antes de retornar com uma onda violenta de calor e fúria.
— Como você... quem te contou isso?! — rugiu Baji, levantando-se de um salto e agarrando Ranpo pela gola da capa, puxando-o para baixo da árvore com facilidade. — Você andou falando com a Alice?!
— Ninguém precisa me contar nada, seu idiota — disse Ranpo calmamente, sem tentar lutar contra o aperto mortal de Baji, ajeitando os óculos imaginários no nariz com uma expressão de tédio superior. — Está escrito na sua testa com letras garrafais.
— Larga de palhaçada!
— É dedução pura e simples — continuou Ranpo, a voz analítica cortando o ar. — Você está com a mesma garota há dois anos. Você a ama obsessivamente, qualquer um percebe isso pela forma como você compra doces que claramente não come e guarda fotos minúsculas na carteira. No entanto, há meses você anda mais agressivo nas brigas, dorme mal e, ontem à noite, você comprou preservativos na loja de conveniência perto da sua casa às sete da noite, mas hoje de manhã a sua postura não é de alívio; é de frustração acumulada. Seus punhos estão ralados porque você provavelmente socou a parede do seu quarto de madrugada.
Baji soltou a gola de Ranpo, dando um passo para trás como se tivesse levado um soco invisível no estômago.
— Você é um desgraçado insuportável — murmurou Baji, passando a mão pelos cabelos revoltos.
— Sou um gênio, é diferente — corrigiu Ranpo, limpando o pó da jaqueta com petelecos elegantes. — E o seu problema é tão ridículo que me dá dor de cabeça só de pensar. Você é um predador que age como um cão adestrado perto dela. Você quer consumir a garota, mas morre de medo de que a sua natureza quebre a porcelana delicada que você inventou na sua cabeça.
— Você não sabe de nada sobre nós — rebateu Baji, a voz saindo mais baixa, vulnerável contra sua própria vontade. — Eu a amo. Não quero forçar nada. A gente se beija, a gente fica junto, mas... toda vez que as coisas esquentam, parece que ela congela. E eu recuo. Sempre. Eu não sou um monstro pra passar por cima da vontade dela.
Ranpo suspirou profundamente, como um professor exausto lidando com um aluno que não conseguia aprender o básico de matemática.
— É exatamente isso que eu estou dizendo. Você acha que a Alice é feita de vidro, e ela provavelmente acha que você a vê como intocável, ou pior, que você não tem paciência para a hesitação dela. Garotas não são equações lineares, Baji, mas são compreensíveis se você parar de pensar com os punhos ou com o que está no meio das suas pernas por cinco minutos.
— Eu já esperei dois anos, porra! — explodiu Baji, a frustração acumulada finalmente transbordando. — Dois anos segurando essa merda! Toda vez que eu toco nela, sinto que vou enlouquecer de vontade. Quero beijar cada centímetro daquele corpo, quero ela inteira pra mim! Mas aí ela hesita, pede desculpas, e eu sinto como se fosse o maior lixo do mundo por querer algo a mais!
Ranpo encarou Baji por longos segundos. O olhar outrora zombeteiro do garoto mais jovem agora carregava uma seriedade afiada.
— Ela não está hesitando por falta de desejo, Baji. Ela está com medo. Medo de não saber o que fazer, medo de não corresponder à sua intensidade, medo de que, se vocês cruzarem essa linha, algo mude para pior. Você é bruto, impulsivo e avassalador. Ela gosta disso em você, mas na hora da intimidade, a incerteza dela fala mais alto. E o que você faz? Você se fecha, fica calado e vai socar paredes.
Baji franziu o cenho, o cérebro girando em torno daquelas palavras duras.
— Eu não me fecho.
— Fecha, sim. Você não fala sobre isso com ela. Vocês apenas se beijam até que a tensão fique insuportável, alguém trava, e vocês fingem que nada aconteceu no dia seguinte. Dois anos desse ciclo idiota. — Ranpo apontou o palito do pirulito na direção de Baji. — Se você quer que isso mude, precisa parar de tratá-la como um troféu que não pode ser tocado e começar a tratá-la como uma mulher que precisa de segurança, não de silêncio. Conversar resolve noventa por cento dos problemas humanos. O resto eu resolvo com dedução.
Ranpo virou as costas, colocando as mãos nos bolsos e começando a se afastar pela calçada.
— Ei, Ranpo! — chamou Baji, hesitante.
O garoto inteligente parou e olhou por cima do ombro.
— O quê?
— ...Obrigado. Acho.
Ranpo deu um sorriso presunçoso e infantil.
— Da próxima vez, me pague com uma caixa de doces finos. Agora vá logo resolver isso, você está estragando a minha tarde com essa sua energia caótica.
A noite caiu fria sobre a cidade quando Baji parou sua moto em frente à casa de Alice. O vento gélido da corrida havia clareado seus pensamentos, mas seu coração batia com uma força implacável contra as costelas.
Ele tocou a campainha. Segundos depois, a porta se abriu, revelando Alice vestindo um moletom oversized que pertencia a ele, os cabelos presos em um coque frouxo. Os olhos dela se iluminaram ao vê-lo, mas uma sombra de preocupação logo surgiu em seu rosto.
— Keisuke? O que você está fazendo aqui a essa hora?
Baji não respondeu de imediato. Ele apenas a encarou, notando pela primeira vez a ponta dos dedos dela puxando a manga do casaco — um tique nervoso clássico que ele sempre ignorava. As palavras de Ranpo ressoavam como sinos em sua mente. Ela está com medo. Vocês fingem que nada aconteceu.
— Posso entrar? — pediu ele, a voz firme, mas despida de qualquer agressividade.
Alice assentiu e deu espaço. A casa estava vazia; os pais dela viajavam a trabalho com frequência. Eles subiram para o quarto dela, um espaço quente e acolhedor, iluminado por um abajur de luz amarela suave.
Alice sentou-se na beirada da cama, encolhendo os ombros.
— Se for sobre ontem... — começou ela, a voz frágil. — Eu sinto muito de verdade, Keisuke. Eu sei que você ficou irritado, e você tem todo o direito...
Baji deu dois passos rápidos e se ajoelhou no chão, bem na frente dela. Ele pegou as mãos pequenas de Alice entre as suas, que eram calejadas e ásperas, impedindo que ela continuasse a se culpar.
— Para, Alice. Não pede desculpa.
Ela arregalou os olhos, surpresa com a proximidade e com o tom incrivelmente terno na voz daquele delinquente temido por metade de Tóquio.
— Eu não tô irritado com você — continuou Baji, engolindo em seco, sentindo as bochechas esquentarem ao admitir algo tão cru. — Eu fico louco porque eu quero você. Eu te amo pra caralho, Alice. Tem dois anos que eu durmo e acordo pensando em como seria ter você de verdade. Mas toda vez que a gente tenta, você parece assustada... e eu não sei o que fazer a não ser me afastar pra não te machucar.
Lágrimas tênues começaram a brilhar nos olhos de Alice.
— Eu não tenho medo de você, Keisuke — sussurrou ela, apertando os dedos dele. — Eu nunca teria medo de você.
— Então por que você sempre recua? — perguntou ele, os olhos cor de âmbar queimando com uma sinceridade dolorosa. — Fala comigo, por favor. Eu tô cansado de adivinhar. Eu tô cansado de ir embora frustrado achando que o problema sou eu.
Alice mordeu o lábio inferior, hesitando, mas o olhar vulnerável de Baji deu a ela a coragem que nunca tivera antes.
— Eu tenho vergonha — confessou ela em um fio de voz, as lágrimas finalmente rolando pelo rosto. — Eu nunca fiz isso antes. Com ninguém. E você... você é tão seguro de si, tão intenso. Eu fico com medo de fazer tudo errado, de não ser bonita o suficiente quando a gente tirar a roupa, de você se arrepender... E aí, toda vez que as coisas vão rápido demais, meu corpo simplesmente trava de ansiedade.
Baji sentiu o peito arder. Como ele pôde ser tão cego? Aquele garoto idiota de boné estava completamente certo. Ele estivera tão focado no próprio desejo e no medo de ser um monstro que não percebeu a insegurança silenciosa que a sufocava.
Ele soltou as mãos dela e levou as suas ao rosto de Alice, limpando suavemente as lágrimas com os polegares.
— Você é idiota? — murmurou ele, com um sorriso quase imperceptível surgindo no canto dos lábios. — Não tem nada em você que precise mudar. Você é a garota mais linda que eu já vi na minha vida. Eu não dou a mínima se você nunca fez isso antes. Eu só quero que seja com você.
— Jura? — perguntou ela, a respiração falha.
— Juro pela minha vida — disse Baji, a intensidade voltando à sua voz, mas dessa vez com uma calma profunda. — A gente não precisa ir rápido. A gente vai no seu tempo. Se você quiser parar no meio, a gente para. Se quiser só tirar a camisa hoje, a gente só tira a camisa. Mas eu não quero mais fingir que essa barreira existe. Não quero distância de você.
Alice soltou o ar que parecia estar preso em seu peito há meses. O peso invisível que pairava sobre os dois desmoronou em cinzas.
Ela levou as mãos ao pescoço dele, inclinando-se para a frente até que suas testas se tocassem.
— Eu não quero parar — disse ela com firmeza, os olhos brilhando com uma nova determinação. — Eu quero você, Keisuke. Só... fica comigo. Não vai embora hoje.
Baji não precisou ouvir duas vezes. Ele subiu para a cama, envolvendo a cintura dela com os braços e puxando-a para o seu colo. Quando seus lábios se encontraram novamente, o beijo não tinha o desespero caótico da noite anterior; tinha propósito, ternura e uma paixão renovada.
As mãos de Baji deslizaram pelas costas dela, subindo por baixo do tecido macio do moletom. A pele dela estava quente, arrepiando-se ao contato de seus dedos calosos. Dessa vez, Alice não recuou. Em vez disso, ela arqueou as costas contra o peito dele, deixando escapar um suspiro suave que fez Baji estremecer dos pés à cabeça.
Ele quebrou o beijo por um instante, apenas para encarar os olhos dela, pedindo permissão em silêncio. Alice sorriu timidamente, assentindo com a cabeça enquanto suas mãos desciam para a barra da camiseta preta de Baji, ajudando-o a puxá-la pela cabeça e revelando o torso forte, marcado por cicatrizes de brigas antigas.
— Você é perfeito — murmurou ela, maravilhada ao tocar a pele dele.
— Você que é — respondeu Baji com a voz rouca, o coração batendo em uníssono com o dela.
Ele desfez o laço do próprio cabelo, deixando os longos fios negros caírem em cascata ao redor dos ombros, criando uma cortina íntima que isolava os dois do resto do mundo. Não havia mais pressa, não havia mais fúria cega ou silêncios pesados. Apenas a certeza de que, após dois longos anos de espera, aquela chama finalmente encontraria o seu caminho, queimando doce e livre na escuridão do quarto.
