
A Viúva de Prata
Fandom: original
Criado: 04/11/2026
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A Engrenagem de Vidro e Óleo
O sol de Dallas nunca era verdadeiramente dourado em 1946; era um ocre doentio, filtrado por uma névoa perpétua de fuligem e vapores de diesel que emanavam do distrito industrial. Giselle Mercier abriu os olhos no sótão da Rua Elm, onde o calor já começava a se acumular sob as telhas de zinco. Através da pequena janela redonda, que parecia a escotilha de um submersível, ela observou o horizonte. As chaminés das fábricas de munição convertidas em refinarias cuspiam fumaça negra contra o céu amarelo, e o som rítmico dos bondes elétricos rangendo nos trilhos era o despertador que ela aprendera a odiar.
Giselle sentou-se na cama estreita, sentindo o peso do ressentimento como uma camada de poeira sobre a pele. Ela era uma intrusa de cor em uma casa que se desintegrava em pretensões. Seus dedos, manchados de grafite e de uma saudade que não tinha nome, traçaram o contorno de um pequeno caderno de esboços escondido sob o colchão.
— Giselle! — O grito de Tia Val subiu pelas escadas, carregado daquela polidez cortante que era pior do que um insulto direto. — O café não vai se organizar sozinho, querida. E certifique-se de que a prataria esteja brilhando. Não queremos parecer negligentes, não é?
Giselle suspirou. Ela desceu as escadas rangentes, passando pelos papéis de parede descascados que os quadros pesados tentavam, sem sucesso, esconder. Na sala de jantar, a grande mesa de carvalho permanecia como um monumento a uma glória passada. A madeira estava opaca, e as cadeiras tinham estofados gastos que Val insistia em cobrir com rendas baratas para disfarçar os buracos. Era uma casa de fantasmas e dívidas, onde o cheiro de óleo queimado vindo da rua se misturava ao aroma de lavanda mofada.
Com movimentos mecânicos, Giselle dispôs os pratos de porcelana lascada. Ela ouviu os passos pesados de Tio James antes de vê-lo. Ele entrou no recinto ajustando o nó da gravata, o terno de lã cinza brilhando nos cotovelos de tanto ser passado. O bigode grisalho estava impecavelmente aparado, uma máscara de dignidade sobre um rosto devastado pela ansiedade financeira.
— Bill chegará a qualquer momento — murmurou James, sem olhar para Giselle. — Lembre-se, se ele perguntar pela governanta, diga que a Sra. Higgins está de folga para cuidar da irmã doente. Não suporto a ideia de um Jenkins pensar que estamos reduzidos a... isso.
Giselle sentiu um nó na garganta, mas apenas assentiu. Momentos depois, Vivienne desceu as escadas. Aos dezenove anos, a prima de Giselle era uma visão de porcelana e egoísmo. Usava um vestido de seda azul-claro que claramente custara mais do que a comida daquela semana. Seus olhos azuis percorreram a mesa com desdém antes de ela se sentar, as costas retas como uma régua.
Bill Jenkins chegou com o estrondo de um motor potente estacionando do lado de fora. Ele entrou na casa exalando autoconfiança e colônia cara. Era o arquétipo do herói americano do pós-guerra: queixo quadrado, sorriso fácil e uma arrogância que sugeria que o mundo lhe devia favores.
— Bom dia, família Moretti! — exclamou Bill, sentando-se à mesa, estrategicamente posicionado entre Vivienne e Giselle. Ele lançou um olhar de soslaio para Giselle, um olhar que ela não conseguia decifrar, mas que a fazia querer se encolher. — O ar lá fora está especialmente pesado hoje, não acham? O progresso tem um cheiro forte em Dallas.
— É o cheiro da prosperidade, Bill — disse James, forçando um sorriso enquanto servia o café frio.
A conversa seguiu um curso monótono: o preço do aço, as novas rotas de bonde e as festas de debutantes que os Moretti já não podiam frequentar. Giselle, mantendo os olhos baixos, aproveitou um breve silêncio para falar.
— Eu estava pensando... — sua voz soou estranha aos seus próprios ouvidos — ...que se pudéssemos abrir o sótão para a claridade, ou talvez trocar as cortinas pesadas do escritório, eu teria um lugar iluminado para pintar. A luz da tarde é perfeita para capturar as cores da fuligem no vidro.
Tia Val parou com a xícara a meio caminho da boca. O silêncio que se seguiu foi gélido.
— Pintar, Giselle? — Val deu uma risadinha seca. — Que ideia mais... pitoresca. Temos assuntos muito mais urgentes do que suas inclinações artísticas. Além disso, a luz excessiva estraga os tapetes.
Vivienne soltou um suspiro dramático, revirando os olhos.
— Por favor, Giselle, não comece com seus devaneios. Eu tenho problemas reais. Minha modista diz que não pode terminar meu vestido de baile a menos que paguemos o adiantamento. Como vou encontrar um marido se pareço uma camponesa?
Bill Jenkins deu um tapinha condescendente na mão de Vivienne, mas seus olhos voltaram-se para Giselle por um segundo a mais do que o necessário. James limpou a garganta, encerrando o assunto com um olhar severo.
A tarde trouxe consigo um calor abafado. Enquanto Val e Vivienne se acomodavam na sala de estar com suas cestas de costura, Giselle foi encarregada de limpar as estantes da biblioteca, um cômodo escuro que cheirava a couro velho e segredos.
— É simplesmente injusto! — Vivienne exclamou, jogando um pedaço de linho no chão. — Duas temporadas em Dallas e nenhum pedido de casamento sério. Mary Lou já está grávida e eu nem sequer tenho um anel de noivado para exibir no clube!
Giselle, do alto de uma escada de mão, observava a cena. A birra de Vivienne era quase cômica; a garota parecia uma criança de cinco anos presa no corpo de uma mulher, chutando o ar com seus sapatos de salto.
— Sossegue, Vivienne — disse Val, sem levantar os olhos do bordado. — Você terá seu momento. Mas precisamos ser estratégicos. Bill Jenkins é a nossa chave, mas ele é um homem que precisa de... equilíbrio.
Val olhou para cima, fixando os olhos em Giselle, que parara de espanar os livros.
— Giselle é fleumática — continuou Val, usando a palavra como se fosse um diagnóstico médico. — Ela tem essa natureza contida, quase invisível. Bill é um rapaz impetuoso, um bon-vivant. Ele precisa de uma esposa que não brilhe mais que ele, alguém que cuide de seus bens e de sua herança com a passividade de uma sombra. É por isso que ele deve se casar com ela.
Giselle sentiu o sangue fugir do rosto. Casar-se com Bill? O pensamento era um pesadelo revestido de verniz social. Ela voltou a limpar os livros com pressa, querendo desaparecer entre as páginas. Foi então que seus dedos tocaram algo frio e metálico, escondido atrás de uma coleção encadernada de enciclopédias.
Ela puxou o objeto. Era um cilindro de latão e vidro, com engrenagens tão finas quanto cabelos humanos e um núcleo que parecia pulsar com uma luz residual. Era um protótipo de seu pai. Ela se lembrava de tê-lo visto no laboratório antes da explosão "acidental" que o matara. O pai de Giselle não era apenas um inventor; ele era o gênio por trás das patentes que James Moretti agora tentava desesperadamente vender.
Giselle escondeu o objeto sob o avental, o coração martelando contra as costelas.
O som da campainha interrompeu seus pensamentos. O carteiro entregara uma correspondência com o selo oficial de uma empresa petrolífera de Houston. Val pegou o envelope e sua expressão mudou instantaneamente para uma máscara de urgência.
— Leve isso ao gabinete do seu tio agora, Giselle — ordenou Val. — E não se atreva a demorar.
Giselle caminhou pelo corredor sombrio. Ao chegar à porta entreaberta do gabinete de James, ela ouviu vozes alteradas. O instinto de sobrevivência, aguçado por anos de negligência, a fez recuar para trás de um grande armário de carvalho no corredor, onde as sombras eram mais densas.
— Eu não posso fazer isso, James! — Era a voz de Bill, despojada de sua arrogância habitual e cheia de uma irritação nervosa. — As pessoas me veem com Vivienne. O que a vizinhança vai dizer se eu me casar com a... com a sobrinha negra? Minha moral no clube vai despencar.
— Deixe de ser tolo, Bill! — James rebateu, e Giselle pôde ouvir o som de um copo de cristal batendo na mesa. — Você está afundado em dívidas de jogo tanto quanto eu estou em hipotecas. O protótipo final do Mercier está nesta casa. Eu sei que está! Mas o testamento é claro: as patentes só podem ser acessadas pelo marido de Giselle no momento em que ela atingir a maioridade ou se casar. Você quer o dinheiro da petroleira ou quer manter as aparências com uma garota mimada que não tem um centavo no nome?
Houve um silêncio tenso. Giselle mal ousava respirar.
— Casar com ela para pegar o protótipo... — Bill murmurou, parecendo considerar a ideia. — E depois? Vou ficar amarrado a ela pelo resto da vida?
A voz de James baixou de tom, tornando-se algo sombrio e rastejante, como o óleo que escorria pelas sarjetas de Dallas.
— Não seja dramático. Casem-se, garantam a transferência legal das propriedades e do protótipo. Depois de alguns meses, quando a poeira baixar e o dinheiro estiver no banco... bem, você pode resolver aquela questão.
Giselle sentiu um frio paralisante percorrer sua espinha.
— Resolver a questão? — Bill perguntou, sua voz falhando levemente.
— Um acidente doméstico, uma doença súbita... — James disse com uma frieza clínica. — O mundo é um lugar perigoso para garotas frágeis, Bill. Especialmente aquelas que não têm mais ninguém por elas.
Bill Jenkins saiu do gabinete momentos depois, batendo a porta com força, o rosto vermelho de uma mistura de raiva e cobiça. Ele passou pelo corredor sem ver Giselle, que permanecia encolhida na escuridão, a mão apertando o protótipo do pai contra o peito. As palavras do tio ecoavam em sua mente, transformando o ar pesado de Dallas em algo sufocante e letal.
"Resolver aquela questão."
