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Just one Kiss

Fandom: Diário de um Banana

Criado: 04/11/2026

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Volume Máximo Atrás da Porta Trancada

O sinal estridente do intervalo ecoou pelos corredores da escola com a sutileza de uma britadeira. Em questão de segundos, as portas das salas se escancararam, cuspindo uma torrente de adolescentes barulhentos, passos apressados e o cheiro indefectível de pizza requentada da cantina. Para a maioria, aqueles vinte minutos eram a glória da liberdade. Para Loyd, eram apenas vinte minutos a mais em que ele precisava existir sob olhares alheios.

Ele estava encostado na fileira de armários metálicos verdes e amassados, com o capuz do moletom cinza puxado até quase cobrir os olhos. Seus fones de ouvido surrados estavam no volume máximo, despejando uma guitarra ruidosa e distorcida diretamente em seu cérebro, abafando as risadas idiotas e os passos de basquete rangendo na quadra próxima. O skate, coberto de adesivos gastos nas bordas lascadas, descansava entre seus pés cobertos por tênis surrados. Loyd mantinha os polegares enfiados nos bolsos, puxando as mangas compridas bem para baixo, cobrindo os pulsos com uma determinação quase desesperada.

Ele suspirou, sentindo aquele peso costumeiro afundar em seu peito. A carência e o cansaço sempre vinham juntos, como uma ressaca de sentimentos ruins que ele não sabia como expurgar sem se machucar.

De repente, uma mecha vermelha e brilhante invadiu seu campo de visão.

Antes que Loyd pudesse processar o borrão escarlate, uma mão quente e decidida agarrou seu pulso — com cuidado para não apertar demais — e o puxou com uma força surpreendente. O skate quase ficou para trás, mas ele conseguiu prendê-lo sob o braço no último segundo por puro reflexo.

— Ei! O que... — balbuciou Loyd, tirando um dos lados do fone.

Yhuna não respondeu de imediato. Ela apenas virou o rosto para trás, abrindo um sorriso largo, daqueles que faziam o estômago de Loyd dar cambalhotas ridículas. O cabelo vermelho liso dela balançava como uma bandeira enquanto ela desviava com agilidade de um grupo de garotos que quase derrubavam seus lanches no chão.

— Menos perguntas e mais pernas, meu skatista favorito — disparou ela, a voz transbordando uma energia que contrastava brutalmente com a apatia dele.

Ela não o soltou. Puxou-o pelo corredor secundário, onde ficavam as salas de artes e os armários dos professores, até parar bruscamente em frente a uma das portas metálicas menos movimentadas: o banheiro individual no final do bloco B. Com um movimento rápido e ensaiado, Yhuna girou a maçaneta, empurrou Loyd para dentro e entrou logo atrás, batendo a porta.

O som do trinco girando ecoou pelo espaço pequeno e revestido de azulejos brancos.

Clack.

O silêncio caiu sobre eles quase instantaneamente, quebrado apenas pela respiração ofegante de Loyd e o murmúrio elétrico que ainda vazava do fone pendurado em seu pescoço.

Loyd piscou, atordoado, encostando as costas na parede fria enquanto segurava o skate contra o peito como se fosse um escudo.

— Yhuna... você pirou de vez? — perguntou ele, a voz quebrando um pouco no final. — A gente tá trancado no banheiro da escola. No meio do intervalo. Se o inspetor passar aqui...

Yhuna ignorou o pânico dele com a maior naturalidade do mundo. Ela deu um passo à frente, cruzando os braços e inclinando a cabeça para o lado. Os olhos castanhos dela brilhavam com pura travessura e um carinho quase palpável.

— Se o inspetor passar, ele vai ter que esperar a vez dele — retrucou ela, dando um sorriso de canto que fez as bochechas de Loyd arderem instantaneamente. — E além do mais, quem resiste a ficar trancado num cubículo com um garoto tão bonito quanto você? Eu é que não sou boba.

Loyd sentiu o calor subir pelo pescoço até as pontas das orelhas. Ele baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar dela, e engoliu em seco. Fazia meses que namoravam, mas ele ainda era uma tragédia absoluta quando se tratava de receber flertes. O cérebro simplesmente entrava em curto-circuito.

— Para com isso... — murmurou ele, fitando o chão manchado de desinfetante. — Não começa.

— Não começo o quê, meu bem? — Ela deu mais um passo, diminuindo o espaço minúsculo entre eles. — Dizer a verdade? Admirar a minha obra de arte preferida? Você fica uma gracinha quando tá vermelho, sabia? Parece um moranguinho emburrado.

— Yhuna, por favor... — Ele tentou usar um tom severo, mas saiu como um suspiro fraco.

Com a delicadeza de quem desarmava uma bomba, Yhuna estendeu as mãos e retirou o skate do braço dele, apoiando a tábua de madeira contra a parede. Em seguida, tocou no fone de ouvido que ainda tocava baixo no pescoço dele, puxando o fio com suavidade e colocando o aparelho sobre a pia de mármore.

— Chega de barulho por dez minutos, amor — sussurrou ela, e o tom brincalhão de repente deu lugar a algo infinitamente mais suave. — Você passou a manhã inteira encolhido naquele canto. Achei que você fosse evaporar se eu não viesse te resgatar.

Loyd estremeceu com a proximidade. A carência que ele tentava sufocar desde a primeira aula pareceu explodir de uma vez em seu peito, deixando-o desarmado. Ele olhou para ela por debaixo da franja escura, com os lábios entreabertos, mas as palavras simplesmente não vinham.

Yhuna ergueu a mão e tocou seu rosto, os dedos mornos acariciando a pele macia da bochecha. Loyd fechou os olhos contra a vontade, inclinando a cabeça instintivamente em direção ao toque dela, como uma planta buscando o sol.

— Eu vi suas olheiras hoje cedo — continuou ela, o polegar deslizando suavemente pela linha do maxilar dele. — E conheço essa carinha de quem passou a noite em claro brigando com os próprios pensamentos. Por que você não me mandou mensagem, Loyd?

— Eu... não queria te incomodar — respondeu ele, a voz abafada. — Você já faz tanta coisa por mim. Vive me arrastando pra fora de casa, me obrigando a ver a luz do dia...

— Eu não te arrasto, bobo. Eu te convido a ser feliz comigo. É diferente — corrigiu ela, aproximando o rosto um pouco mais, o suficiente para que a respiração dela fizesse cócegas no nariz dele. — E você nunca me incomoda. Quantas vezes vou ter que repetir isso até entrar nessa sua cabeça teimosa?

Loyd deu um meio sorriso triste, abrindo os olhos para encará-la.

— Umas mil, talvez.

— Então eu falo duas mil — rebateu ela sem hesitar. — Falo até você cansar de ouvir que é o melhor namorado desse colégio inteiro. E o mais estiloso. Nenhum daqueles idiotas lá fora sabe dar um kickflip direito, pra começo de conversa.

Ele soltou uma risada curta e genuína, o peso sobre os ombros diminuindo uma fração de grama.

— Aquilo não foi um kickflip decente ontem, Yhuna. Eu caí de bunda no asfalto.

— Mas caiu com elegância — afirmou ela com seriedade teatral, antes de rir também.

O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas não era mais desconfortável. O eco distante de risadas no pátio e o barulho de água correndo em algum cano velho eram os únicos lembretes de que o resto da escola ainda existia do outro lado da porta trancada.

Yhuna deu um passo mais perto, colando o corpo ao dele de maneira confortável. Ela envolveu os braços ao redor da cintura de Loyd, repousando a cabeça contra o peito do garoto, bem em cima do moletom folgado. Loyd congelou por um milésimo de segundo antes de relaxar completamente, enterrando os dedos nos fios vermelhos e sedosos do cabelo dela, inalando o cheiro familiar de xampu de maçã.

Por baixo do tecido grosso do moletom, Loyd usava seu binder. Às vezes, o aperto no peito parecia sufocante, somado à disforia constante que transformava seu próprio corpo em um território hostil. Mas quando Yhuna o abraçava daquele jeito — sem hesitação, tratando-o com uma reverência tão pura —, o ar parecia entrar um pouco mais fácil em seus pulmões.

— Você tá muito quieto hoje, garoto misterioso — murmurou ela contra o tecido da blusa dele. — Tá tudo bem aqui dentro?

Ela deu dois toques suaves com o nó dos dedos no peito dele.

Loyd engoliu em seco. Ele sentiu a pontada da culpa, misturada com uma dor surda que ainda latejava sob a manga esquerda.

— Só... os dias ruins de sempre — disse ele, tentando soar indiferente, mas falhando miseravelmente. — A cabeça não para. Parece que tem um rádio velho chiando sem parar lá dentro.

Yhuna se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. O olhar dela desceu involuntariamente para as mãos de Loyd. Os punhos do moletom estavam tão esticados que apenas as pontas dos dedos pálidos dele apareciam.

Com uma lentidão deliberada, Yhuna segurou a mão esquerda dele.

Loyd tentou recuar por instinto, puxando o braço de volta, mas ela não permitiu. Não com força bruta, mas com uma firmeza calma e inegociável.

— Loyd — chamou ela baixinho.

— Yhuna, não... não precisa olhar — pediu ele, a voz trêmula, o pânico voltando a subir como uma maré amarga. — Tá tudo bem, sério.

— Não tá tudo bem, meu amor. E tá tudo bem não estar tudo bem — disse ela, mantendo os olhos fixos nos dele, transmitindo uma segurança quase inabalável. — Me deixa cuidar de você. Por favor.

Com movimentos calculados e incrivelmente gentis, Yhuna começou a puxar o tecido grosso da manga cinza para cima. Loyd virou o rosto para o lado, sentindo uma vergonha corrosiva queimar seu estômago. Ele odiava que ela visse aquilo. Odiava a própria fraqueza estampada em cortes avermelhados, alguns já cicatrizando em linhas pálidas, outros mais recentes, doía admitir que tinham sido feitos na noite anterior.

Yhuna não soltou nenhum suspiro de decepção. Ela não fez nenhum sermão moralista, nem ameaçou chamar ninguém. Ela apenas olhou para o braço dele como se olhasse para algo frágil e infinitamente precioso.

Com cuidado para não pressionar a pele ferida, ela levou o pulso dele até os lábios.

E depositou um beijo suave bem ali, na parte limpa da pele, logo acima das marcas.

O choque daquele gesto fez Loyd tremer da cabeça aos pés. Uma lágrima teimosa escapou do canto de seu olho, traçando um caminho quente pela bochecha fria.

— Você não precisa passar por isso sozinho no escuro do seu quarto, Loyd — disse ela, mantendo os lábios perto do pulso dele, falando baixo, quase como uma prece. — Eu tô aqui. Eu sempre vou estar aqui pra segurar a sua mão quando o chão parecer que tá sumindo. Você me ouviu?

— Ouvi — respondeu ele, a voz falhando enquanto as lágrimas começavam a escorrer mais rápido. — É só que... dói tanto às vezes. Parece que eu nunca vou ser suficiente. Nem pra mim, nem pro mundo, nem...

— Shhh. Nem termine essa frase — interrompeu ela com firmeza carinhosa. Ela usou a manga da própria blusa para secar as lágrimas no rosto dele, os olhos dela brilhando com uma intensidade feroz. — Você é o menino mais incrível, doce e corajoso que eu já conheci. Você é o meu menino. E eu não trocaria você por nada nem ninguém nesse colégio idiota. Nem nesse planeta inteiro.

Loyd soluçou baixinho, escondendo o rosto na curvatura do pescoço dela. Os braços dele a apertaram com força, descarregando ali toda a carência reprimida, todo o medo de não pertencer a lugar nenhum. Yhuna o acolheu sem hesitar, passando as mãos pelas costas dele em movimentos circulares, reconfortantes, ancorando-o na realidade.

— Tá tudo bem, meu principezinho — ela sussurrava baixinho contra o cabelo escuro dele. — Chora. Deixa sair. Eu seguro você.

Eles ficaram assim por vários minutos. O choro de Loyd, inicialmente silencioso e sufocado, foi se transformando em respirações entrecortadas, até que finalmente se acalmou. O calor do abraço de Yhuna era como um casaco pesado em um dia de nevasca; não impedia o frio lá fora de existir, mas impedia que ele congelasse até a morte.

Quando ele finalmente se afastou, sentindo-se um pouco tonto e com o nariz vermelho, Yhuna ainda estava sorrindo para ele. Era aquele mesmo sorriso radiante, mas agora temperado com uma ternura infinita.

— Melhor? — perguntou ela.

Loyd assentiu devagar, limpando o resto da umidade dos olhos com as costas da mão boa.

— Melhor. Obrigado.

— Não precisa agradecer, bobão — disse ela, puxando a manga dele de volta com cuidado para cobrir o braço e ajeitando o tecido com carinho. — Mas agora, tem uma taxa que você precisa pagar por usar o serviço de apoio emocional exclusivo da Yhuna.

Loyd franziu a testa, confuso.

— Taxa?

— Um beijo — declarou ela, erguendo um dedo com um ar de extrema seriedade comercial. — E dos bons. Caso contrário, eu não destranco essa porta e a gente perde a aula de biologia do senhor Underwood.

O rubor voltou com força total ao rosto de Loyd, mas dessa vez, não havia angústia ali. Apenas a vergonha tímida e boba que ela sempre conseguia arrancar dele.

— Você é inacreditável — murmurou ele, sem conseguir conter um sorriso nos lábios trêmulos.

— Eu sei. É uma das minhas melhores qualidades — respondeu ela, piscando para ele.

Yhuna não esperou que ele tomasse a iniciativa, sabendo perfeitamente que a timidez dele o faria hesitar por mais dez minutos. Ela segurou suavemente a gola do moletom dele e o puxou para baixo, selando os lábios nos dele.

O beijo começou calmo, doce e reconfortante, como um pedido silencioso de calma. Mas logo Yhuna aprofundou o toque, arrancando dele um suspiro baixo que fez o coração de Loyd bater num ritmo alucinado contra a caixa torácica. Ele apoiou as mãos na cintura dela, sentindo-se seguro de uma forma que poucas coisas no mundo conseguiam proporcionar. Era quente, vivo e real.

Quando se separaram, ambos estavam levemente sem fôlego. Os olhos de Yhuna brilhavam de um jeito que fez Loyd desviar o olhar mais uma vez, coçando a nuca sem graça.

— É... acho que isso cobre a taxa — gaguejou ele.

— Hm, cobriu só metade — provocou ela, rindo baixinho da reação dele. — O resto você paga mais tarde na pista de skate, quando a gente sair daqui. Eu já combinei comigo mesma que vou te tirar de casa hoje, quer você queira, quer não.

— Você não tem jeito, né?

— Nenhum. Você teve azar de se apaixonar por uma garota persistente, senhor Loyd.

O sinal tocou novamente lá fora, estridente e repentino, anunciando o fim do intervalo e o retorno inevitável à rotina arrastada da escola. Sons de passos apressados e portas batendo voltaram a preencher o corredor do lado de fora.

Yhuna se virou para a porta, mas antes de destravar a maçaneta, ela pegou os fones de ouvido dele na pia e os colocou de volta ao redor do pescoço dele, ajeitando a fita com cuidado. Em seguida, pegou o skate e o entregou em suas mãos.

— Prontinho. Meu skatista tá pronto pra enfrentar o resto do dia — disse ela, olhando-o de cima a baixo com orgulho genuíno.

Loyd respirou fundo. O peso no peito ainda estava ali, em algum lugar no fundo, mas já não parecia esmagador. Não parecia algo que ele precisava enfrentar sozinho com lâminas e silêncio.

— Obrigado, Yhuna. De verdade.

Ela girou a chave do trinco com um estalo seco.

— Sempre, meu bem — respondeu ela, abrindo uma fresta da porta para espiar o corredor antes de se virar para ele uma última vez com um sorriso maroto. — Agora vem, antes que o Underwood ache que a gente fugiu pro México. Mas se a gente fugisse, convenhamos... seria com muito estilo.

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