
Abbie x Fen!
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 04/11/2026
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Além das Folhas e da Carne
O som metálico e ensurdecedor da ponta de compasso arranhando as paredes brancas e pretas ecoava pelos corredores vazios. Era um rangido agudo, violento, capaz de fazer os dentes vibrarem na mandíbula de qualquer aluno incauto.
Abbie corria desesperado, com o coração batendo com tanta força que parecia querer rasgar o próprio peito. Em suas mãos pequenas e trêmulas, amassada até virar uma bola quase irreconhecível, estava a folha de teste. Uma única letra, desenhada em vermelho berrante e furioso, selava o seu destino: F. Reprovado. Fracassado. Sentenciado.
Atrás dele, a sombra descomunal de Miss Circle se projetava contra o piso geométrico, acompanhada por risadas guturais e o barulho pesado de passos que não pertenciam a nada humano. Ela não perdoava notas baixas. Não havia recuperação, não havia conversa amigável na sala dos professores; na Paper School, o castigo pela ignorância era a carne retalhada.
— Abbie! — a voz cortante da professora retumbou, fazendo o reboco do teto se soltar em pequenos pedaços. — Venha aqui aceitar sua correção!
Ele não respondeu. Suas pernas finas se moviam em um ritmo frenético, quase desgovernado. Seus olhos brancos com pupilas pretas em fenda estavam arregalados, marejados pelo terror absoluto. Ele já tinha visto o que acontecia com os colegas que ficavam para trás, e não pretendia virar rascunho de giz no chão da sala de aula.
À frente, no final do corredor oeste, uma porta pesada de saída de emergência reluzia sob a luz fraca de uma lâmpada fluorescente que piscava sem parar. Era estritamente proibido ultrapassar aquele limiar. As regras do colégio eram claras como tinta preta no papel almaço: os alunos deviam permanecer no campus. O lado de fora não era seguro. O lado de fora não tinha regras.
Mas Miss Circle estava a meros metros de distância. O compasso gigante cortou o ar logo acima de seu coque de maçã, arrancando alguns fios de seu cabelo escuro com um zunido assustador.
Sem pensar duas vezes, Abbie se lançou para a frente com todo o peso do seu corpo magro. Suas mãos espalmadas bateram contra a barra antipânico da porta, forçando as dobradiças enferrujadas a cederem com um estalo violento.
Uma rajada de vento forte e úmido o atingiu em cheio. Ele rolou para fora, caindo de joelhos sobre a terra batida e a grama orvalhada, enquanto as portas batiam com força atrás de si, trancando o eco das ameaças da professora no interior do prédio cinzento.
Abbie ficou deitado no chão por alguns instantes, ofegante, com a garganta ardendo pelo ar gélido.
Gradualmente, contudo, uma sensação estranha e avassaladora começou a percorrer seu corpo. Uma queimação suave, como se água quente estivesse sendo derramada sob sua pele. Ele olhou para baixo, ainda trêmulo, e soltou um gemido sufocado de pura confusão.
As linhas nítidas, monocromáticas e bidimensionais que definiam sua existência estavam se dissolvendo.
Sua pele de papel, antes imaculadamente branca e plana, ganhava relevo, textura, calor e um tom suave e rosado de pele humana verdadeira. Ele ergueu as mãos diante dos olhos e pôde ver os poros, as veias azuladas pulsando suavemente sob os pulsos e a curvatura real dos dedos. O colete preto sem costuras e a camisa branca de mangas curtas perderam a rigidez geométrica, transformando-se em tecidos pesados, com tramas de algodão perceptíveis ao toque, cobrindo um tronco que agora possuía músculos, costelas e uma respiração tridimensional profunda.
Ele tocou o topo da cabeça. O caule com folha de maçã ainda estava ali, mas agora parecia incrivelmente biológico, flexível e vivo, ancorado em cabelos negros e sedosos que caíam pelos seus ombros com peso natural. Seus olhos não eram mais fendas desenhadas; possuíam escleras úmidas, íris detalhadas e pupilas que se dilatavam diante da luz ambiente.
— O-o que... o que é isso? — murmurou ele, a própria voz soando mais cheia, rouca pelo pavor e pelo espanto. — Onde... onde eu estou?
Ele havia chegado aos limites da Floresta Primavera. O ar cheirava a pinho, terra molhada e flores silvestres, mas havia algo profundamente errado com aquela calmaria. Uma névoa tênue rastejava entre os troncos tortuosos das árvores, e o silêncio da mata não era pacífico; era um silêncio de predadores à espreita.
Abbie se apoiou na parede externa de tijolos da Paper School, tentando se levantar. Suas pernas tremiam tanto que ele mal conseguia se equilibrar em seus novos sapatos de couro.
Foi então que um galho estalou na escuridão entre as árvores.
O som foi seco, quase casual, mas carregado de uma intenção assassina.
Abbie congelou. O medo que acabara de dissipar com a fuga da professora voltou com força redobrada, fazendo seu estômago se contorcer. Ele virou o pescoço lentamente, os olhos marejados se fixando na vegetação fechada.
De dentro das sombras alongadas da floresta, uma figura começou a emergir.
Ela era colossal. A aura que a envolvia era sufocante, carregada de pura malevolência e de uma irritação palpável, como se o simples fato de respirar ali naquele momento a estivesse enfurecendo.
Era Fen.
A vilã demônio da Floresta Primavera avançava com passos lentos, mas estranhamente silenciosos. Suas pernas eram incrivelmente longas, finas e pontiagudas como agulhas mortais, cobertas por uma calça jeans azul rasgada com faixas pretas e ataduras enroladas nas articulações. Seus pés e mãos eram de uma escuridão total, contrastando brutalmente com a pele clara e gélida de seus braços esticados, que terminavam em garras afiadas capazes de partir carvalho ao meio.
O cabelo loiro-avermelhado dela era um espetáculo caótico e selvagem: espetado, volumoso e tão absurdamente comprido que se arrastava pelo chão, passando de suas pernas longas, formando um rastro dourado na vegetação. No topo da cabeça, uma mecha peculiar se curvava de forma rígida, quase quadrada. Um dos lados do rosto dela estava completamente coberto por aquela cascata de fios ruivos, mas o olho visível brilhava com um tom predatório, acompanhado por um sorriso sinistro que revelava dentes triangulares e afiados como serras, por onde uma língua comprida e serpentina escapava vez ou outra.
Em uma das garras, ela segurava casualmente uma picareta de mineração manchada de ferrugem e terra, com um peso que parecia insignificante para seus braços alongados.
— Que barulheira dos infernos... — a voz de Fen ressoou grave, arrastada, com uma rouquidão aveludada que fez os pelos da nuca de Abbie se arrepiarem de imediato. — Quem foi o merdinha que quebrou o meu silêncio logo na fronteira da escola?
Abbie quis correr. Ele ordenou às suas pernas que se movessem, que o levassem de volta para qualquer lugar, até mesmo para a sala de aula de Miss Circle, mas seu corpo humano recém-adquirido parecia feito de chumbo fundido. Ele apenas conseguiu recuar um passo, colando as costas na parede de pedra fria do colégio.
Fen parou a cerca de dois passos dele, inclinando a cabeça de maneira animalesca. Ela o fitou de cima a baixo com seu único olho visível, semicerrando a pálpebra em puro desprezo.
— Ah. Um fedelho de uniforme — rosnou ela, apoiando a picareta pesada sobre o ombro ossudo. — Fugiu do castigo, pirralho? Veio parar no meu território achando que aqui fora as coisas são mais mansas? Eu deveria picar você em pedacinhos e usar seus restos como adubo para a primavera...
Abbie tremia dos pés à cabeça, os olhos arregalados, a respiração curta e entrecortada.
— P-por favor... eu... eu só... — gaguejou ele, quase sem ar.
Mas enquanto tentava levantar as mãos em um gesto de rendição, o olhar dele, impulsionado pelo pânico e pela proximidade avassaladora da criatura, desceu involuntariamente do rosto ameaçador dela para o restante de seu corpo.
Foi impossível não notar.
A camiseta preta justa que Fen usava parecia estar lutando uma batalha perdida contra o próprio tecido. O busto da demônio era monumental. Eram seios inacreditavelmente grandes, volumosos e redondos, que desafiavam a lógica de sua silhueta alta e pontiaguda, preenchendo a blusa de maneira absurda, com um decote esticado que exibia uma pele alva e farta a cada movimento de sua respiração pesada. Naquela nova forma tridimensional e repleta de sentidos vivos, Abbie sentiu o impacto da visão como um soco no estômago.
O sangue subiu pelo pescoço do rapaz com uma velocidade devastadora.
As bochechas humanas de Abbie queimaram em um tom escarlate brilhante. O terror ainda dominava sua mente, mas a biologia recém-conquistada reagiu de forma imediata e humilhante. Seus olhos se arregalaram ainda mais, ficando completamente presos na curva generosa daquele peito colossal, a meros centímetros de seu rosto.
Fen, que continuava a encará-lo com a intenção de esmagá-lo, franziu o cenho ao perceber a súbita paralisação do garoto. Ela notou que o olhar dele não estava mais em suas garras, nem na ponta ameaçadora da picareta, e muito menos em seus dentes cerrados.
O garoto estava encarando o seu peito. Diretamente. Sem conseguir desviar.
O olho visível de Fen se abriu um pouco mais, surpreso.
— Ei... — ela rosnou, o tom descendo uma oitava, tornando-se tenso. — Para onde raios você está olhando, seu verme?
Abbie pareceu despertar de um transe em choque absoluto.
— N-nada! Eu... e-eu não estava...! M-me desculpe! — gritou ele, cobrindo o rosto com as duas mãos, o rubor agora se espalhando pelas orelhas e pela testa, transformando seu rosto inteiro em um tomate maduro.
Fen olhou para baixo, baixando o queixo pontudo em direção à própria camiseta esticada. Ela fitou o volume avantajado de seus próprios seios, comprimidos pelo algodão escuro, balançando de leve com a respiração.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Por um segundo, a raiva da demônio pareceu prestes a explodir em violência física. No entanto, o rubor intenso que tingia a pele vulnerável do garoto e o tremor desesperado daquele pequeno corpo humano despertaram algo completamente diferente na mente distorcida da predadora.
Uma sombra de rubor também cruzou as maçãs do rosto pálido de Fen. O canto de sua boca cheia de presas começou a se curvar. O ódio frio deu lugar a uma expressão terrivelmente maliciosa, carregada de uma súbita e perversa diversão. A língua comprida dela saiu da boca, lambendo os lábios afiados de um jeito lento e sugestivo.
— Ah... — murmurou ela, a voz pingando puro deboche e veneno adocicado. — Então é isso, garotinho?
Ela deu mais um passo à frente, fechando o pouco espaço que restava entre os dois. A sombra dela engoliu Abbie completamente.
— É isso que chamou sua atenção? — continuou Fen, inclinando o tronco para a frente, fazendo com que seu busto colossal ficasse praticamente colado ao nariz do rapaz. — Os meus peitos? Esses meus grandes melões aqui na sua cara? Minhas tetas enormes de vaca leiteira, é isso que você não consegue parar de secar, seu pirralho tarado?
Abbie sentiu as pernas virarem geleia. Ele se encolheu o máximo que pôde contra os tijolos ásperos da parede, soltando um gemido abafado de vergonha e choque.
— N-não! E-eu juro que não queria...! E-eu sou apenas um aluno, eu reprovei, eu... eu só estava com medo!
— Com medo? — Fen riu, um som rouco, cavernoso e estranhamente excitado que fez o ar tremer.
Com um movimento rápido e brutal, ela arremessou a picareta pesada no chão de terra, onde ela se cravou profundamente com um baque surdo. Em seguida, os braços longos e pretos de Fen se ergueram, e as garras afiadas estalaram contra a parede de pedra em ambos os lados da cabeça de Abbie, prendendo-o em uma jaula viva de membros demoníacos.
O estalo do impacto das garras nos tijolos arrancou faíscas e pó de pedra.
Abbie prendeu a respiração, colando a nuca no muro, sentindo o calor e o cheiro almiscarado e perigoso do corpo da vilã invadirem completamente seus sentidos. Fen estava a centímetros de distância. As pontas de seus cabelos dourados caíam sobre os ombros do menino como cordas sedosas, prendendo-o ainda mais.
— Olhe para você... — Fen sussurrou, aproximando o rosto a ponto de seu hálito quente bater na bochecha vermelha dele. — Todo de carne agora. Macio. Corado. Com esses olhinhos brilhantes e assustados... Você fugiu de uma professora para cair direto no colo do pior demônio desta floresta.
O olho dourado dela brilhava com uma paixão doentia e predatória. Ela flexionou os joelhos, rebaixando a postura apenas para alinhar perfeitamente seu decote generoso com a linha de visão do rapaz trêmulo.
— Agora você vai olhar direito — ordenou ela, num tom que não admitia recusa, um misto de ameaça e carícia perversa. — Já que teve a ousadia de cobiçar o corpo da Fen, não ouse desviar a porra da cara. Diga o que achou... Anda! Diga o quanto você gostou dos meus melões antes que eu decida arrancar esse seu coquezinho de maçã junto com o resto da sua cabeça!
Abbie abriu a boca, mas nenhum som articulado saiu. As lágrimas de puro desespero e constrangimento finalmente transbordaram por seus olhos humanos, escorrendo por suas bochechas em chamas.
A Paper School era um inferno de réguas, compassos e provas mortais. Mas ali, encurralado na floresta, preso sob o peso, as garras e as curvas sufocantes da demônio de cabelos dourados, Abbie percebeu com absoluto terror que o mundo exterior era infinitamente mais perigoso. E ele não tinha para onde escapar.
