
Brhrufgh
Fandom: Crepusculo
Criado: 05/11/2026
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Alianças Ocultas no Refeitório
O céu sobre Forks mantinha o seu habitual tom de chumbo, derramando uma névoa fria que cobria as árvores gigantescas e o asfalto úmido do estacionamento da escola secundária. Para qualquer humano comum, aquele era apenas mais um dia entediante de terça-feira. Mas para Clara Cullen, era mais um capítulo de uma farsa que se estendia por décadas a fio e que exigia dela uma paciência quase sobre-humana — algo irônico para quem já caminhava sobre a Terra há mais de dois séculos.
Clara caminhava pelo corredor principal ao lado de Edward, ouvindo o burburinho ensurdecedor de centenas de mentes e corações batendo no ritmo acelerado da juventude. Ela tinha um metro e sessenta e oito de altura e um corpo voluptuoso, com curvas generosas e firmes distribuídas em seus oitenta e cinco quilos de puro mármore frio. Sua silhueta se destacava com nobreza entre as adolescentes esguias da cidadezinha, transmitindo uma presença que misturava a jovialidade de seus traços aos dezessete anos com a maturidade inegável de quem carregava duzentos e trinta e sete anos de existência.
O grande fardo de Clara não era a sede ou a monotonia, mas sim a necessidade imperiosa de esconder quem realmente era. Congelada para sempre na flor da juventude por veneno e amor, ela não podia carregar publicamente o sobrenome do marido como esposa. Para a sociedade humana, para a polícia, para as autoridades fiscais e para os fofoqueiros de plantão, ela era apenas mais uma órfã adotada. Esme assumira o papel de companheira pública do respeitável doutor do hospital, enquanto Clara precisava se contentar em sentar no banco de trás do carro e frequentar o terceiro ano pela milionésima vez.
— Tente relaxar um pouco os ombros — murmurou Edward em tom tão baixo que nenhum ouvido biológico poderia captar. Um sorriso sarcástico despontava nos lábios perfeitos dele. — Se você continuar com essa expressão fechada, vão achar que você pretende incendiar o refeitório inteiro só com a força do pensamento.
— Eu não quero incendiar o refeitório, Edward — respondeu Clara em um sussurro aveludado, embora o estresse latente transparecesse no timbre. — Eu só não aguento mais ter que ouvir explicações sobre a Guerra Civil Espanhola dadas por um homem de cinquenta anos que sabe menos da história do que eu, que literalmente estava lá. E para completar, hoje estou sem paciência.
— Você sempre fica sem paciência nas terças-feiras — zombou ele, abrindo a porta dupla do refeitório.
O cheiro de comida processada, queijo derretido e suor adolescente atingiu os dois imediatamente. O salão estava cheio, e como sempre acontecia quando os Cullen entravam em um ambiente, as conversas diminuíram de volume por uma fração de segundo, abafadas pelo magnetismo inescapável que a família exercia sobre os mortais.
Longe dali, sentada a uma mesa perto da janela ao lado da recém-chegada aluna de cabelos castanhos, Jessica Stanley operava em sua potência máxima de intrigas. Clara e Edward, mesmo a mais de quinze metros de distância, captaram cada vibração da voz esganiçada da garota.
— ...e aqueles dois que acabaram de entrar — disse Jessica para Bella Swan, apontando de forma disfarçada com um garfo de plástico —, são a Clara e o Edward Cullen.
Bella virou a cabeça sutilmente para olhar na direção da porta.
— Eles também estão juntos? — perguntou a novata, com a curiosidade brilhando em seus olhos castanhos.
— Não, que nada! — respondeu Jessica quase rindo, ansiosa para compartilhar o boato. — Esses dois aí são os únicos filhos do doutor que ainda são solteiros. Mas, francamente, não perca o seu tempo. O Edward não acha ninguém bom o suficiente para ele, parece que nenhuma garota da cidade existe. E a Clara... bem, a Clara é linda, mas parece que vive em outro planeta. Nem olha para ninguém. São os únicos solteiros da casa, mas é como se nem estivessem no mercado.
Edward parou no meio do caminho, soltando uma risada curta e genuína. Ele olhou de soslaio para Clara, cujos olhos dourados faiscaram com uma mistura de humor e incredulidade.
— Solteira — zombou Edward mentalmente, deixando seus pensamentos livres para que a mente de Clara sentisse o eco do divertimento dele. — Ouviu isso? Você é uma jovem solteira e desimpedida, Clara.
Clara levou a mão discretamente ao decote do suéter escuro que vestia, sentindo o relevo da grossa corrente de ouro escondida sob o tecido, onde repousava a aliança de casamento que ela só podia usar abertamente dentro das paredes isoladas da mansão na floresta.
— Não me provoque, garoto — murmurou Clara entre dentes, rindo por baixo da respiração contida enquanto desviavam das bandejas de plástico. — Se eu fosse solteira de verdade, não teria que aguentar o Emmett me zoando toda manhã antes das sete.
Eles atravessaram o mar de mesas humanas em direção ao canto mais isolado e iluminado pela janela, onde o resto do clã já os aguardava.
Rosalie Hale, com sua deslumbrante beleza clássica, estava recostada na cadeira plástica com o desdém de sempre estampado no rosto perfeito. No entanto, no instante em que seus olhos encontraram os de Clara, a expressão dura da loira se desfez por completo. Um sorriso caloroso, reservado para pouquíssimas pessoas em todo o mundo, iluminou os traços de Rosalie. Alice, sentada ao lado de Jasper, acenava com entusiasmo contido, parecendo um passarinho elétrico.
— Demoraram — comentou Jasper com sua costumeira calma sulista, inclinando a cabeça em cumprimento.
— A Clara estava decidindo se jogava o livro de história pela janela ou na cabeça do professor — explicou Edward, puxando uma cadeira para se sentar.
— Não seja dramático — respondeu Clara, puxando a cadeira ao lado de Rosalie.
Assim que se sentou, Rosalie estendeu a mão pálida sobre a mesa e tocou o braço de Clara de forma afetuosa, demonstrando uma intimidade rara e preciosa. Rosalie não era de fazer amigos, desprezava a maioria dos humanos e mantinha uma barreira intransponível com quase todos ao seu redor, mas com Clara era diferente. Clara era a rocha de sensatez feminina da casa, a matriarca secreta que a entendia sem fazer perguntas estúpidas. Elas dividiam séculos de confidências, opiniões sobre moda de épocas que os humanos nem sonhavam em recriar e um ódio compartilhado pela vida no ensino médio.
— Você está bem, querida? — perguntou Rosalie em um sussurro melodioso, os olhos dourados cheios de carinho sincero. — O dia foi muito chato hoje?
— A mesma rotina de sempre, Rose — suspirou Clara, permitindo-se relaxar sob o toque cúmplice da loira. — Mas ouvir que eu sou uma "jovem solteira à procura" quase me fez engasgar sem ter ar nos pulmões.
Foi a deixa perfeita para Emmett Cullen.
Sentado em frente a elas, Emmett tinha os braços cruzados sobre o peito maciço. Ao ouvir o desabafo de Clara, um sorriso enorme e travesso se espalhou por seu rosto robusto. Seus olhos brilharam com o tipo de alegria caótica que sempre prenunciava uma catástrofe ou uma provocação impiedosa.
— Ora, ora, ora... — começou Emmett, apoiando os cotovelos na mesa e inclinando-se para a frente, diminuindo a voz apenas o suficiente para os humanos não ouvirem. — Então a garotinha de dezessete anos tá livre na pista? Cadê o doutorzão, Clara? Hein? O que será que o senhor cirurgião-chefe vai achar de saber que você tá solteiríssima aqui no refeitório?
Clara fechou os olhos por um segundo, respirando fundo o oxigênio sem utilidade para tentar acalmar o temperamento.
— Emmett, cale essa boca antes que eu quebre a sua mandíbula de pedra — avisou ela, embora houvesse um traço de riso no canto dos lábios.
— Não me ameace, donzela indefesa! — zombou Emmett, rindo abafado com gosto. — Eu só tô preocupado com a honra da família! Imagina se um daqueles garotos do time de futebol vem aqui te chamar pro baile de primavera? O que você vai dizer? "Desculpa, garoto, mas meu marido tá no hospital operando apêndices e a gente tá casado há quase duzentos anos"?
— Emmett Cullen! — sibilou Rosalie imediatamente, assumindo sua habitual postura protetora e fuzilando o próprio parceiro com um olhar cortante que teria congelado um oceano. — Deixe a Clara em paz. Você sabe o quanto toda essa encenação é desgastante para ela. Se você disser mais uma palavra idiota, eu faço você dormir na garagem pelas próximas três décadas.
Emmett ergueu as mãos em sinal de rendição falsa, piscando para a esposa.
— Calma, meu amor. Eu só tô admirando a juventude da vovó aqui.
Clara não resistiu. Com uma velocidade imperceptível aos olhos mortais ao redor, esticou a perna por baixo da mesa e acertou uma bicuda certeira na canela de Emmett. O impacto surdo de pedra contra pedra reverberou abafado no concreto do chão. Emmett fez uma careta fingida de dor, segurando a perna enquanto tentava conter uma gargalhada escandalosa.
— Ai! Carinho de esposa é fogo... — reclamou ele baixinho, piscando para Clara.
— Você mereceu cada milímetro dessa canelada — declarou Alice, cruzando as pernas e sorrindo com delicadeza. — E você sabe perfeitamente que o Carlisle quase não conseguiu se concentrar no primeiro procedimento da manhã de tanta saudade que estava dela. Eu vi, antes de virmos para cá. Ele passou no escritório só para olhar o retrato antigo de vocês.
Ao ouvir o nome de Carlisle e a lembrança de seu afeto silencioso, a tensão de Clara se desfez como névoa ao sol da manhã. Uma onda quente de carinho preencheu seu peito imortal. Carlisle. O homem que a salvara da morte certa na Europa em 1788, quando a febre consumia seus últimos suspiros com apenas dezessete anos de idade. Ele a transformara para que vivessem a eternidade lado a lado, dando-lhe uma vida plena de conhecimento, amor e estabilidade. Ele a amava exatamente daquela forma: forte, imponente, doce em sua essência, mas feroz quando desafiada.
O amor dos dois era indestrutível, mesmo que o mundo moderno os forçasse a manter aquela comédia farsesca de pai e filha adotiva diante das câmeras e da burocracia. Carlisle sempre a tratava com reverência inabalável no refúgio do lar, compensando a distância pública com uma devoção que só o tempo e a imortalidade podiam forjar.
— Ele não toma jeito — disse Clara, com um meio sorriso terno, brincando com a garrafa de limonada intocada sobre a mesa. — Vive me dizendo que eu preciso ser paciente, mas é o primeiro a suspirar pelos cantos.
— Porque ele é louco por você, e você sabe disso — disse Rosalie, pegando na mão fria de Clara e apertando-a com ternura. — Ninguém suportaria o que você suporta, Clara. Ter que ver outra mulher usando o papel de esposa dele lá fora, fingir que é uma adolescente boba... Você é mais forte do que todos nós juntos. Por isso que eu não permito que ninguém encha a sua paciência.
— Obrigada, Rose — respondeu Clara, olhando nos olhos dourados da amiga. A cumplicidade entre as duas era uma das coisas mais valiosas que o clã possuía. Onde muitos viam em Rosalie apenas uma frieza inalcançável e egoísta, Clara enxergava as feridas abertas e a lealdade inabalável de uma irmã de alma.
— Mas convenhamos — intrometeu-se Jasper, com a voz suave modulando as emoções da mesa para um estado de serenidade controlada —, a história da Jessica foi no mínimo irônica.
— Irônica é apelido — resmungou Clara. — A garota me olha como se eu fosse um enfeite de prateleira intocável. Se ela soubesse que enquanto ela está preocupada em beijar garotos com cheiro de desodorante barato na arquibancada, eu já vi impérios desmoronarem...
— E já cozinhou com ervas em fogueiras durante o século dezoito — emendou Emmett, voltando à carga com um sorriso atrevido.
— Emmett, eu juro que se você falar da minha idade de novo, eu conto para o Carlisle que você quebrou a mesa de mogno do século XIX durante aquela disputa de braço de ferro na semana passada — ameaçou Clara com uma calma perigosa.
O sorriso de Emmett vacilou instantaneamente. Os olhos dele se arregalaram em pânico fingido.
— Golpe baixo, Clara! O doutorzão ama aquela mesa! Isso é jogo sujo!
Todos na mesa riram com discrição, até mesmo Jasper, que balançava a cabeça em concordância silenciosa.
Do outro lado do refeitório, Bella Swan continuava a observar os Cullen. Ela não conseguia desviar o olhar do grupo no canto da sala. Notou como Clara, com sua beleza singular e marcante, desviava de todos os padrões frágeis da sociedade humana. Havia uma imponência régia nela, algo antigo e sereno, que parecia manter aquela família unida em um laço invisível, porém indestrutível. Bella reparou em como Rosalie, que parecia detestar o resto do universo, inclinava o corpo na direção de Clara com um respeito quase reverente, e como Edward a olhava não como uma irmã mais nova ou uma pretendente, mas como uma igual, uma figura de autoridade mascarada pela juventude dos traços.
O sinal tocou estridente, rompendo a atmosfera do refeitório.
O barulho ensurdecedor de cadeiras se arrastando e passos apressados encheu o salão enquanto os humanos começavam a se dispersar para as aulas do período da tarde.
Clara se levantou com a elegância fluida natural de sua espécie. Jogou a maçã intocada na lixeira mais próxima e ajeitou o suéter sobre as curvas do corpo, sentindo o peso confortador do metal oculto em seu peito bater suavemente contra a pele.
Rosalie se posicionou ao lado dela, entrelaçando o braço no de Clara sem a menor cerimônia, ignorando completamente os olhares curiosos que recebiam de outros alunos pelo corredor.
— Aula de literatura agora? — perguntou Rosalie enquanto caminhavam em perfeito sincronismo.
— Infelizmente — respondeu Clara, soltando um suspiro resignado, embora o brilho bem-humorado ainda estivesse em seus olhos. — Espero que não me peçam para analisar Romeu e Julieta de novo. Da última vez quase tive que me segurar para não dizer que Shakespeare era muito mais dramático pessoalmente do que nos livros.
Rosalie soltou uma risada cristalina que atraiu a atenção de pelo menos meia dúzia de garotos que quase tropeçaram nas próprias mochilas ao vê-la rir.
— Se você disser isso, eles vão achar que você enlouqueceu.
— Deixe que achem — respondeu Clara com um sorriso calmo e altivo, olhando além da porta de vidro para as montanhas cinzentas de Forks. — No final das contas, quando o dia terminar, eu vou para casa, onde o meu verdadeiro lugar me espera.
E com a lealdade de sua família a cercando e a certeza inabalável do amor de Carlisle a guiando através dos séculos, fingir ser apenas uma garota de dezessete anos era um preço pequeno demais a pagar diante da grandiosidade de sua própria eternidade.
