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antes de amanhã

Fandom: Carrossel

Criado: 05/11/2026

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Fumaça e Silêncios

A Escola Mundial não parecia ter mudado muito nos últimos sete anos, embora os corredores agora parecessem estreitos demais para os corpos que haviam crescido. O sol da tarde batia nas janelas da sala do terceiro ano do ensino médio, iluminando a poeira que dançava no ar enquanto o sinal do intervalo ecoava, estridente e familiar.

Mário Ayala foi um dos primeiros a sair. Ele não correu como costumava fazer quando era criança; em vez disso, caminhava com uma preguiça calculada, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans e a mochila pendurada em um ombro só. O rosto, agora com traços mais marcados e o maxilar definido, mantinha a mesma expressão de poucos amigos que o acompanhava desde a infância.

Ele atravessou o pátio, ignorando os gritos de Jaime Palillo, que tentava organizar uma partida de futebol improvisada, e as risadas agudas de Valéria Ferreira, que discutia algum detalhe irrelevante sobre a festa de formatura com uma Maria Joaquina cada vez mais impaciente. Mário buscava o isolamento. Ele contornou o prédio da biblioteca e se dirigiu a um canto mal iluminado, perto do muro dos fundos, onde a vigilância da Diretora Olívia era, teoricamente, menos rigorosa.

Ele olhou para os lados. O pátio estava cheio, mas ali, entre as sombras, ele estava sozinho. Ou quase. Mário tateou o bolso interno da jaqueta e tirou um maço de cigarros amassado. Com um movimento mecânico e habilidoso, acendeu um. A primeira tragada trouxe aquele alívio imediato e amargo que ele aprendera a usar como escudo.

A morte de sua mãe ainda era um buraco negro em seu peito. Mesmo depois de tanto tempo, mesmo com a presença de Natália tentando, à sua maneira rígida, manter a casa em ordem, e a pequena Diana correndo pelos corredores, Mário sentia que faltava o ar. O cigarro era o que o impedia de sufocar.

— Você sabe que a Olívia vai te expulsar se te pegar aqui, não sabe?

Mário não se sobressaltou. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo. Era suave, mas tinha uma firmeza que parecia nova. Ele soltou a fumaça lentamente antes de se virar.

Marcelina Guerra estava parada a poucos metros de distância. Ela tinha dezoito anos agora, e embora continuasse sendo a "pequena" Marcelina para a maioria, havia uma maturidade em seu olhar que Mário achava perturbadora. Os cabelos castanhos caíam em ondas sobre os ombros e ela segurava alguns livros contra o peito, observando-o com uma mistura de preocupação e reprovação.

— A Olívia está ocupada demais dando bronca no Jaime porque ele derrubou suco na camisa — Mário respondeu, a voz rouca. — O que você está fazendo aqui, Marce? Esse lugar é sujo.

— Eu estava te procurando — ela deu um passo à frente, ignorando o cheiro de tabaco que ele tentava dissipar soprando para o lado oposto. — O Paulo disse que você tinha "sumido no triângulo das bermudas" de novo. Ele queria falar sobre o jogo de sábado.

Mário soltou uma risada seca.

— O Paulo só quer alguém para culpar se o time perder.

— Mário... — ela se aproximou mais, diminuindo a distância até que ele pudesse ver as pequenas sardas no nariz dela. — Por que você ainda faz isso? Você disse que ia parar.

Mário olhou para o cigarro entre os dedos, sentindo um súbito desconforto.

— Eu não disse que ia parar. Eu disse que ia pensar em parar. É diferente.

— É a mesma coisa para quem se importa com você — Marcelina rebateu, os olhos brilhando com uma sinceridade que o desarmava. — Isso faz mal, Mário. E você fede a fumaça o resto do dia. A professora Helena já comentou comigo que está preocupada com o seu rendimento.

— A Helena se preocupa com todo mundo. É o trabalho dela — ele deu outra tragada, mas desta vez o gosto pareceu cinza. — E você não deveria se preocupar. Eu estou bem.

— Não, você não está — ela disse, baixando o tom de voz. — Você faz isso quando está pensando nela, não é? Na sua mãe.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Mário desviou o olhar para o muro de tijolos aparentes. Ninguém mais ousava tocar naquele assunto com ele. Nem Paulo, seu melhor amigo, nem seu pai, Germano, que preferia passar semanas na estrada para não ter que encarar o luto dentro de casa. Mas Marcelina... ela sempre tinha essa habilidade de enfiar a mão dentro da armadura dele e tocar na ferida.

— Não é da sua conta, Marcelina — ele disse, embora sem agressividade. Era apenas uma defesa automática.

— Tudo o que te machuca é da minha conta — ela respondeu com uma coragem que o surpreendeu.

Mário jogou o cigarro no chão e o esmagou com a ponta do tênis. Ele deu um passo em direção a ela, invadindo o espaço pessoal da garota. Marcelina não recuou. Ela era baixa comparada a ele, precisando inclinar a cabeça para encará-lo, mas não vacilou.

— Por que você é assim? — ele perguntou, a voz agora um sussurro tenso. — Por que você perde seu tempo comigo quando podia estar lá fora com o Daniel, ou com qualquer outro cara que não seja um desastre ambulante?

Marcelina sentiu o coração acelerar. Ela podia sentir o calor que emanava dele, o cheiro de fumaça misturado com o perfume amadeirado que ele sempre usava.

— Talvez porque eu goste de desastres — ela brincou, tentando aliviar a tensão, mas seus olhos diziam outra coisa. — Ou talvez porque eu saiba que, por trás desse cigarro e dessa cara de mau, ainda existe o menino que salvou o Rabito e que cuida da Diana como se ela fosse de cristal.

Mário sentiu um nó na garganta. Ele estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de afastar uma mecha de cabelo do rosto dela. O toque foi breve, quase imperceptível, mas eletrizou ambos.

— Você é muito teimosa, Guerra.

— E você é muito cabeça dura, Ayala.

Eles ficaram ali, suspensos em um momento que parecia durar uma eternidade, até que um grito estridente quebrou o feitiço.

— MÁRIO AYALA! MARCELINA GUERRA!

Os dois se afastaram bruscamente. A Diretora Olívia vinha marchando em direção a eles, o rosto vermelho e o dedo em riste. Atrás dela, Graça tentava, sem sucesso, acalmá-la, enquanto Firmino observava de longe com um olhar de "eu avisei".

— Mas o que significa isso? — Olívia bradou, parando diante deles e farejando o ar como um cão de caça. — Que cheiro é esse? Mário, você está fumando nas dependências desta instituição de ensino?

— Cheiro de quê, diretora? — Mário perguntou com o cinismo mais puro que conseguiu reunir. — Deve ser o caminhão de lixo passando lá fora.

— Não tente me fazer de idiota! — ela gritou, a voz alcançando notas agudas. — E você, Marcelina? Uma aluna exemplar, filha de um homem tão distinto como o senhor Roberto Guerra, escondida neste antro de perdição com este... este meliante!

— Diretora, não é nada disso — Marcelina tentou intervir, a voz trêmula. — Eu só estava... dando um recado para o Mário.

— Um recado que cheira a tabaco? — Olívia cruzou os braços. — Os dois para a minha sala. Agora! Graça, chame os pais desses jovens. Eu não vou tolerar esse tipo de comportamento na Escola Mundial.

— Ah, dona Olívia, não seja tão dura — Firmino se aproximou, tirando o boné e coçando a cabeça. — São jovens, a senhora sabe como é... a idade da flor da pele.

— Firmino, volte para os seus afazeres! — Olívia ordenou. — E vocês dois, andem!

Mário revirou os olhos e começou a caminhar, mas parou ao ver que Marcelina parecia prestes a chorar. A ideia do pai, Roberto, recebendo uma ligação da escola era aterrorizante para ela. Roberto Guerra era um homem de princípios rígidos, que esperava perfeição de seus filhos, especialmente de Marcelina.

Mário deu um passo atrás e parou ao lado dela. Discretamente, sua mão roçou a dela, um sinal silencioso de apoio.

— Relaxa — ele sussurrou. — Eu assumo a culpa. Digo que te obriguei a vir aqui.

— Não, Mário, você já tem problemas demais — ela murmurou de volta, limpando o canto do olho.

— Eu já estou acostumado com o fundo do poço, Marce. Você não.

Enquanto caminhavam em direção à diretoria, passaram pelo grupo da Turma Mundial. Paulo Guerra, que estava sentado em um banco dividindo um sanduíche com Kokimoto, parou de mastigar imediatamente ao ver a cena. Ele olhou para Mário, depois para a irmã, e depois para a Diretora Olívia que bufava à frente deles.

— Ih, a casa caiu — Kokimoto comentou, ajustando a faixa na cabeça.

Paulo se levantou, a expressão de deboche dando lugar a uma careta de preocupação. Ele conhecia o olhar de Mário. E conhecia o medo da irmã.

— O que você fez agora, Mário? — Paulo perguntou enquanto eles passavam.

— O de sempre, Paulo. Existindo — Mário respondeu sem parar.

Paulo ficou parado, observando-os entrar no prédio principal. Ele notou como Mário caminhava um pouco mais perto de Marcelina do que o necessário para uma simples "conversa de amigos". Ele notou como a irmã buscava o olhar do melhor amigo dele em busca de segurança.

— Koki... — Paulo disse, pensativo.

— Fala, japa.

— Acho que o Mário está querendo entrar para a família Guerra de um jeito que meu pai não vai gostar nem um pouco.


Dentro da diretoria, o ar estava carregado. Olívia estava sentada atrás de sua mesa maciça, tamborilando os dedos enquanto esperava as ligações serem completadas. Mário estava largado em uma cadeira, a perna balançando impacientemente, enquanto Marcelina estava sentada na ponta do assento, as mãos entrelaçadas no colo.

— A senhora sabe que ligar para o meu pai é perda de tempo, né? — Mário disse, quebrando o silêncio. — Ele está em algum lugar entre Minas e Bahia. Não vai atender o celular.

— Então falaremos com a sua madrasta, a senhora Natália — Olívia rebateu com um sorriso vitorioso. — Tenho certeza de que ela ficará encantada em saber que você está gastando o dinheiro do seu pai com vícios.

Mário sentiu uma pontada de raiva, mas permaneceu calado. Ele odiava quando usavam Natália contra ele. Não porque ele a amasse, mas porque odiava dar a ela o direito de lhe dar sermões.

— E quanto a você, Marcelina — a diretora continuou, suavizando um pouco o tom, mas mantendo a severidade —, estou profundamente decepcionada. Sua mãe, Lílian, sempre foi tão cuidadosa com a sua educação. O que ela diria se soubesse que você está acobertando um fumante nos fundos da escola?

— Eu não estava acobertando, diretora — Marcelina disse, a voz ganhando um pouco de força. — Eu estava tentando convencê-lo a parar.

— Uma tarefa nobre, porém inútil — Olívia sentenciou.

Nesse momento, a porta se abriu e a Professora Helena entrou. Ela parecia ter vindo às pressas, com alguns fios de cabelo fora do lugar e uma expressão de genuína preocupação.

— Olívia, por favor, eu soube do que aconteceu — Helena disse, aproximando-se dos alunos. Ela colocou uma mão no ombro de Marcelina e olhou profundamente para Mário. — Podemos conversar antes de tomar medidas drásticas?

— Helena, as regras são claras! — Olívia exclamou. — Cigarros são proibidos! Má influência é proibida!

— Eu sei, Olívia. Mas Mário está passando por um momento difícil. Todos sabemos que as datas próximas ao aniversário da mãe dele são gatilhos para esse tipo de comportamento rebelde — Helena falou com aquela calma que só ela possuía, a mesma que acalmava a turma quando eles tinham sete anos.

Mário sentiu um aperto no peito. Ele odiava ser "lido" tão facilmente.

— E a Marcelina só estava tentando ajudar — Helena continuou. — Ela é uma menina de ouro. Não vamos manchar o histórico dela por causa de um mal-entendido. Mário, você sabe que o que fez é errado. Não apenas pelas regras, mas pela sua saúde.

Mário olhou para Helena. Ele ainda a respeitava mais do que qualquer outro adulto naquela escola.

— Eu sei, professora.

— Então, Olívia — Helena sugeriu —, que tal se dermos uma suspensão de dois dias para o Mário, para que ele reflita em casa, e uma advertência verbal para a Marcelina? Sem ligações para os pais por enquanto. Eu mesma me comprometo a conversar com o senhor Germano quando ele retornar de viagem.

Olívia pareceu ponderar. Ela adorava punir, mas odiava discutir com Helena, principalmente porque a professora sempre tinha a razão moral da situação.

— Está bem — Olívia cedeu, relutante. — Mas Mário, se eu sentir o cheiro de um fósforo queimado que seja vindo de você, a expulsão será imediata. E Marcelina, afaste-se de más companhias.

Eles foram dispensados. Ao saírem da sala, o corredor estava vazio, pois as aulas já haviam recomeçado. O silêncio era interrompido apenas pelo som dos seus passos no piso encerado.

— Obrigado — Marcelina disse baixinho quando estavam longe da porta da diretoria.

— Pelo quê? Eu quase te ferrei.

— Por ter dito que ia assumir a culpa. Eu sei que você faria isso.

Mário parou de caminhar e se encostou em um dos armários azuis.

— Eu faria qualquer coisa para você não chorar, Marce. Você fica horrível quando chora. O nariz fica vermelho e você começa a soluçar igual a uma criança de cinco anos.

Marcelina deu um tapa leve no braço dele, rindo entre as lágrimas que ainda ameaçavam cair.

— Você é um idiota, Mário Ayala.

— É, eu sou — ele concordou, a expressão ficando séria novamente. Ele olhou para as mãos, sentindo a falta do cigarro, mas então olhou para Marcelina e sentiu que, talvez, houvesse outras formas de preencher o vazio. — Eu vou tentar.

— Tentar o quê?

— Parar. Com essa porcaria — ele apontou para o bolso da jaqueta. — Não prometo que vou conseguir de primeira. Mas vou tentar. Por você.

Marcelina sorriu, e foi como se o sol tivesse entrado no corredor escuro. Ela se aproximou e, desta vez, foi ela quem quebrou a barreira. Ela ficou na ponta dos pés e beijou a bochecha dele, perto do canto da boca.

— Isso é um bom começo — ela sussurrou antes de se virar e caminhar em direção à sala de aula, deixando Mário parado ali, com o coração batendo mais rápido do que qualquer nicotina jamais fora capaz de provocar.

Ele ficou observando-a ir, sentindo o peso da promessa que acabara de fazer. Mário sabia que os próximos dias seriam difíceis. O luto não ia embora, a vontade de fumar não desapareceria magicamente e os problemas em casa continuariam lá. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que tinha um motivo para lutar contra a própria escuridão.

Enquanto caminhava para a saída da escola para cumprir sua suspensão, ele cruzou com Firmino no portão. O velho zelador sorriu para ele, um sorriso cheio de sabedoria.

— Vai para casa, Mário. E lembre-se: a fumaça passa, mas o que é verdadeiro permanece.

Mário acenou com a cabeça, um gesto de respeito. Ele saiu pelos portões da Escola Mundial, sentindo o vento fresco no rosto. Ele não sabia o que o futuro reservava — não sabia do acidente que mudaria a vida de Marcelina, não sabia da gravidez que os uniria para sempre, nem das batalhas que teriam que lutar juntos.

Naquele momento, ele apenas sabia que precisava chegar em casa, dar um abraço em Diana e, talvez, pela primeira vez, tentar conversar com o pai quando ele ligasse. A jornada era longa, mas ele não estava mais caminhando sozinho.

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