
Verdade ou desafio-Amorpio
Fandom: Odpd(O diário de uma princesa desastrada)
Criado: 05/11/2026
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Confissões, Caos e Cabelos Espetados
A sala de convivência da Academia de Magia estava estranhamente silenciosa, o que, tratando-se daquele grupo específico, era sempre um sinal de perigo iminente. O sol da tarde entrava pelas janelas altas, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar, mas o foco de toda a energia caótica estava concentrado em um círculo no tapete felpudo.
Amora estava sentada de pernas cruzadas, ajeitando nervosamente as mangas de seu moletom rosa choque. Sua saia azul anil estava um pouco amassada, e uma mecha de seu cabelo roxo teimava em cair sobre os olhos. Ao lado dela, Lila não conseguia parar quieta. A garota de cabelos azuis vibrantes balançava o corpo no ritmo de uma música que só ela ouvia, segurando um pequeno hamster mágico que parecia tão animado quanto a dona.
Do outro lado, Scorpio mantinha sua pose clássica: braços cruzados, um sorriso de canto que exalava uma confiança quase maléfica e seu cabelo espetado desafiando as leis da gravidade. E, completando o quarteto, estava Olívia. A fada tinha um brilho travesso no olhar que Amora já conhecia bem demais. Quando Olívia sorria daquele jeito, alguém acabava transformado em sapo ou, no mínimo, passando uma vergonha monumental.
— Minha vez de girar a garrafa de poção vazia! — exclamou Olívia, as asas batendo com rapidez.
A garrafa girou no centro do círculo, emitindo um som metálico contra o chão de madeira. Amora sentiu um frio na espinha. Ela tentou mentalizar "Lila, Lila, Lila", esperando que a garrafa apontasse para a amiga dos animais, que certamente adoraria qualquer desafio que envolvesse correr pelo pátio. Mas o destino, ou talvez a magia duvidosa de Olívia, tinha outros planos.
O gargalo da garrafa parou, lenta e cruelmente, apontando para Amora. A base, por sua vez, estava direcionada para Olívia.
— Verdade ou desafio, Amora? — perguntou a fada, com uma voz doce que escondia uma armadilha.
Amora engoliu em seco. Se escolhesse desafio, Olívia provavelmente a faria tentar voar sem vassoura ou cozinhar algo sem explodir a cozinha — o que, dada a sua natureza desastrada, era impossível.
— Verdade — respondeu Amora, a voz saindo um pouco mais aguda do que o planejado.
Olívia inclinou a cabeça para o lado, um brilho de pura malícia brilhando em seus olhos. Ela olhou para Scorpio, que parecia subitamente muito interessado nas unhas, e depois voltou para Amora.
— Amora... você gosta do Scorpio? — perguntou Olívia, soltando as palavras como se fossem confetes.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com uma das adagas rituais de Scorpio. Lila parou de balançar e arregalou os olhos, abafando um gritinho de excitação. Scorpio, por sua vez, congelou. O garoto que se orgulhava de saber tudo e ter resposta para tudo parecia ter esquecido como se respira.
Amora sentiu o rosto esquentar instantaneamente, atingindo um tom de vermelho que competia com a cor de seu moletom.
— Eu... eu... — gaguejou Amora, as mãos tremendo tanto que ela quase derrubou um vaso de flores que estava em uma mesinha próxima. — Por que você perguntaria algo assim, Olívia? Isso é... é... contra as regras da amizade!
— Não tem regra nenhuma que proíba perguntas interessantes — rebateu Olívia, rindo. — E você escolheu verdade. Se mentir, seu nariz vai brilhar verde por uma semana, lembra do feitiço que a gente colocou na garrafa?
Amora olhou desesperada para a garrafa. Ela realmente não queria passar a semana parecendo um farol de trânsito. Ela olhou de relance para Scorpio. Ele estava olhando para ela agora, uma expressão ilegível no rosto, embora as pontas de suas orelhas estivessem levemente rosadas sob o cabelo espetado.
— Bem — começou Amora, mexendo em um fio solto da saia —, o Scorpio é... ele é muito inteligente. E ele sabe de tudo. E ele tem esse jeito de "sou malvado mas ajudo meus amigos" que é... legal.
— Isso não foi uma resposta, Amora — cantarolou Lila, inclinando-se para frente. — A pergunta foi se você gosta dele. Do tipo "gostar-gostar".
Antes que Amora pudesse responder, a porta da sala de convivência se abriu suavemente. A Senhorita Yara entrou, carregando uma bandeja com biscoitos de mel e chá de camomila. A presença dela sempre trazia uma aura de calma, e ela parecia adorar ajudar seus alunos a resolverem qualquer dilema, fosse ele acadêmico ou emocional.
— Alguém aceita um lanche? — perguntou a Senhorita Yara, sorrindo para o grupo. Ela percebeu imediatamente a tensão no ar. — Oh, me desculpem. Eu interrompi algo importante?
— A Amora ia confessar o amor dela pelo Scorpio! — exclamou Olívia, batendo palmas.
— Não ia, não! — gritou Amora, levantando-se tão rápido que acabou tropeçando nos próprios pés.
Ela cambaleou para trás, os braços girando como moinhos de vento. No processo, sua mão atingiu a bandeja da Senhorita Yara.
— Cuidado! — avisou Scorpio, levantando-se em um reflexo rápido.
Mas já era tarde. A bandeja tombou, os biscoitos voaram pelo ar e o bule de chá começou a cair. Em um momento de puro instinto, Scorpio saltou para frente, agarrando a bandeja antes que ela atingisse o chão, enquanto Lila, com sua agilidade de quem lida com animais rápidos, pegou o bule no ar.
Amora, no entanto, não teve a mesma sorte. Ela caiu sentada no tapete, com um biscoito de mel aterrissando perfeitamente em cima de sua cabeça, preso entre os fios roxos.
A Senhorita Yara soltou uma risadinha suave e se aproximou, estendendo a mão para ajudar Amora a se levantar.
— Parece que a gravidade ainda é sua maior rival, Amora — disse a professora com carinho. — Mas não se preocupe, os desastres costumam ser o tempero da vida.
— Obrigada, Senhorita Yara — murmurou Amora, aceitando a ajuda. Ela tirou o biscoito do cabelo e o comeu, tentando disfarçar o constrangimento.
Scorpio colocou a bandeja sobre a mesa, limpando a poeira invisível de sua túnica escura. Ele evitou olhar diretamente para Amora, mas sua voz estava menos sarcástica do que o habitual quando falou.
— Você devia olhar por onde anda, Amora. Um dia você ainda vai derrubar a escola inteira.
— E você estaria lá para saber exatamente como reconstruir, não é? — retrucou Olívia, piscando para ele.
Scorpio revirou os olhos, mas não negou.
— Senhorita Yara — disse Lila, aproximando-se com o bule —, a senhora acha que é errado gostar de alguém que é... bem, o oposto de você?
A Senhorita Yara sentou-se na beirada de uma poltrona, olhando para os quatro jovens com um olhar sábio.
— Na magia, assim como na vida, os opostos criam o equilíbrio mais forte — explicou ela. — O fogo precisa do ar para queimar, e a terra precisa da água para florescer. Ser diferente de alguém não é um impedimento, é uma oportunidade de aprender o que nos falta.
Amora sentiu seu coração desacelerar um pouco. Ela olhou para Scorpio, que agora estava sentado novamente, observando a Senhorita Yara com atenção. Ele sempre respeitara muito a professora, provavelmente porque ela era uma das poucas pessoas que conseguia desafiar o intelecto dele.
— Mas e se a pessoa for... sabe, meio malvada? — perguntou Amora em voz baixa, sem conseguir evitar.
Scorpio ergueu uma sobrancelha.
— Eu não sou malvado, Amora. Eu sou apenas estrategicamente pragmático.
— Viu? — disse Amora, apontando para ele. — Quem usa palavras como "estrategicamente pragmático" em um jogo de verdade ou desafio?
— Alguém que não quer ser confundido com um idiota — respondeu Scorpio, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos.
A Senhorita Yara sorriu e se levantou.
— Vou deixar vocês com os biscoitos. E Amora, querida, lembre-se: a verdade não precisa ser dita em voz alta para ser real. Às vezes, nossas ações dizem muito mais do que nossas palavras.
Assim que a professora saiu, o silêncio voltou, mas desta vez era menos tenso. Olívia parecia pronta para retomar o interrogatório, mas Lila interveio.
— Chega de perguntas difíceis por hoje! Vamos fazer desafios. Scorpio, eu te desafio a deixar a Amora arrumar o seu cabelo!
O silêncio voltou, mas desta vez foi interrompido por uma gargalhada de Olívia.
— Isso é impossível! O cabelo dele tem um feitiço de proteção permanente — disse a fada.
Scorpio passou a mão pelos fios espetados, parecendo orgulhoso.
— Nem a força de mil tempestades derruba esse penteado.
Amora, sentindo-se um pouco mais corajosa depois das palavras da Senhorita Yara, deu um passo à frente.
— Eu aceito o desafio. Se eu conseguir abaixar um fio que seja, você tem que admitir que eu sou a princesa menos desastrada da academia.
Scorpio deu um sorriso desafiador.
— Feito. Mas se você falhar, vai ter que limpar o laboratório de poções por uma semana. Sozinha.
— Combinado! — exclamou Amora.
Ela se aproximou dele com cautela. Lila e Olívia observavam com os olhos arregalados. Amora estendeu a mão, tentando tocar o topo da cabeça de Scorpio. Assim que seus dedos roçaram os fios rígidos, uma pequena faísca de eletricidade estática saltou entre eles.
Amora deu um pulo para trás, tropeçando novamente, mas desta vez Scorpio estendeu a mão e segurou seu pulso para evitar a queda.
— Cuidado, desastrada — murmurou ele.
Os dois ficaram parados por um segundo, próximos demais. Amora podia ver os reflexos azuis nos olhos de Scorpio, e ele parecia notar cada sarda no nariz dela.
— Eu... eu acho que senti o cabelo mexer — mentiu Lila, tentando quebrar o gelo.
— Não mexeu nada! — protestou Olívia. — Mas o clima aqui ficou mais quente que um dragão com azia.
Amora se soltou, sentindo o rosto queimar novamente. Ela voltou para o seu lugar no círculo, tentando agir com naturalidade, embora seu coração estivesse batendo como as asas de um beija-flor.
— Tudo bem, eu perdi — admitiu Amora. — O laboratório é meu por uma semana.
— Eu ajudo você — disse Scorpio, de forma tão casual que quase passou despercebida. — Sabe como é, você provavelmente confundiria o pó de fada com sal de dragão e transformaria a escola em um pudim gigante. É puramente por segurança.
Olívia e Lila trocaram olhares cúmplices.
— Claro, Scorpio. Segurança — disse Olívia, com um sorriso largo. — Vamos continuar o jogo? Minha vez de girar!
Desta vez, quando a garrafa girou, Amora não sentiu medo. Ela olhou para Scorpio e percebeu que, embora ele soubesse tudo sobre livros e feitiços antigos, ele era péssimo em esconder o quanto se importava. E ela, apesar de todos os seus tropeços e desastres, talvez tivesse acabado de encontrar o equilíbrio que a Senhorita Yara mencionara.
O jogo continuou até o sol se pôr, entre risadas, pequenos feitiços que deram errado e a certeza de que, naquela academia, a maior magia não estava nos livros, mas nas amizades improváveis que floresciam entre um tropeço e outro.
