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as batata

Fandom: as batata

Criado: 06/11/2026

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RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraEstudo de PersonagemRealismo MágicoBiopunkSátira
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Entre Brotos e Sacarias

O turno no Armazém Central nunca terminava antes da meia-noite, mas para Gabriel, o relógio era apenas uma convenção sem importância. Ele era um tubérculo talhado na lida bruta, de casca espessa, rugosa, marcada pelas intempéries da terra vermelha de onde fora arrancado ainda jovem. Gabriel vivia para o trabalho. Ensacava, pesava, empilhava e organizava caixotes de madeira sem jamais reclamar da poeira que se acumulava em suas frestas ou da umidade que ameaçava amolecer seu amido. Enquanto outras batatas sonhavam com o repouso na despensa ou temiam o vapor das panelas da cozinha humana, Gabriel encontrava dignidade no atrito constante de sua matéria sólida contra a lona áspera dos sacos de aniagem.

Naquela noite, a esteira mecânica havia enguiçado, deixando para trás um imenso monte de batatas inglesas no centro do galpão. Uma montanha colossal de irmãs tuberosas, pálidas e sonolentas, acumuladas sob a luz fraca de uma lâmpada pendurada por um fio descascado. Gabriel estava no sopé daquela pilha monumental, ajustando as pranchas de contenção com a determinação obstinada que lhe era peculiar. Ele transpirava amido, a casca coberta por uma fina película de terra seca, os músculos invisíveis tensos pelo esforço mecânico.

Foi quando ouviu o som arrastado, pesado e inconfundível.

— Mas que calor insuportável faz neste lugar! Será que ninguém tem a decência de abrir uma comporta de ventilação? Minha casca está ficando enrugada antes da hora!

Era Jhucy.

Gabriel respirou fundo, sentindo o ar denso da poeira invadir seu interior fértil. Jhucy era, em todos os sentidos possíveis da palavra, difícil. Era uma batata cheia, volumosa, arredondada com uma robustez que transbordava pelas bordas de qualquer prato em que tentassem colocá-la. Seu diâmetro avantajado conferia-lhe uma imponência quase esmagadora. E havia os seus olhos. Os famosos e perturbadores olhos de batata de Jhucy: múltiplos, escuros, atentos, pequenas concavidades circulares espalhadas por sua superfície bulbosa que pareciam enxergar não apenas Gabriel, mas todas as falhas estruturais do universo agrícola ao redor. Ela não possuía apenas dois olhos; possuía dezenas de pequenos pontos vegetativos capazes de julgar cada movimento com uma precisão gélida e irritante.

Ela rolou desajeitada para perto da pilha, parando a meio metro de Gabriel com um baque seco no chão de cimento.

— Gabriel, você ainda está aqui? — resmungou ela, estalando a casca em reprovação. — Não cansa de ser um capacho do agronegócio? O expediente acabou faz meia hora. Você fede a terra molhada e fertilizante barato.

Gabriel limpou a testa imaginária com a ponta de um rebento endurecido e não interrompeu seu ritmo de empilhamento.

— Alguém precisa organizar o lote para o transporte da madrugada, Jhucy. Se as batatas ficarem espalhadas, amassam. Batata amassada apodrece. Batata podre vai para o descarte.

— Pois que vão para o descarte! — bufou ela, inflamando ainda mais seu corpo bojudo. — Pelo menos lá ninguém precisa carregar peso. Olhe para você: uma batata respeitável, da melhor safra de inverno, rebaixada a mero peão de carga. É ridículo. E você nem para pra me ouvir! Eu subi aquela rampa inteira só para dizer que o setor de lavagem está um horror, e tudo o que recebo é essa sua indiferença empedernida!

— Eu não pedi para você subir rampa nenhuma — rebateu Gabriel, a voz grave e áspera como casca de batata-doce. — Você veio porque quis reclamar. Você vive reclamando. O ar está seco demais, o chão está inclinado demais, a luz é muito amarela, o adubo tem muito fósforo. Nada agrada você, Jhucy.

— Porque este lugar é medíocre! — Ela se aproximou, subindo desajeitadamente as primeiras camadas do grande monte de batatas. Os tubérculos menores cederam sob o peso imponente de sua figura avantajada. — Eu merecia estar numa salada nobre, com maionese caseira e cebolinha fresca! Eu sou uma batata de respeito, cheia, bem alimentada, sem nenhuma mancha escura de geada! E o que eu ganho? Um armazém poeirento e a companhia de um viciado em trabalho que não sabe nem dizer boa noite!

— Se não gosta da minha companhia, por que continua me seguindo até o turno da noite? — Gabriel deu a volta pelo monte, tentando ignorar a presença magnética e sufocante daquela fêmea tubércula.

— Eu não sigo você! — gritou Jhucy, seus muitos olhos faiscando de ultraje. — Eu venho fiscalizar! Alguém tem que garantir que você não vai virar purê de tanto esforço inútil!

— Então volte para o seu caixote e me deixe em paz. Tenho duas toneladas para catalogar.

— Não volto!

Ela deu mais um impulso para a frente, tentando impor sua autoridade corpórea, mas a física dos tubérculos empilhados era traiçoeira. O monte sob seus flancos arredondados cedeu. Centenas de batatas deslizaram como cascalho em uma avalanche silenciosa e fértil. Jhucy perdeu o ponto de apoio, soltou um grito rouco e começou a tombar ladeira acima, afundando entre suas semelhantes.

— Jhucy! — Gabriel largou a prancheta de madeira e saltou.

Ele escalou a encosta vegetal com a agilidade que apenas anos de trabalho pesado podiam proporcionar. Seus brotos fincaram-se nas brechas entre os tubérculos soltos; a poeira subiu em uma nuvem aromática de fécula e terra seca. Ele alcançou Jhucy bem no pico do monte, onde a pilha quase tocava as vigas de sustentação do teto de zinco. Com um movimento firme e decidido, Gabriel travou seu corpo robusto contra as batatas rolantes e segurou a companheira antes que ela despencasse do cume.

Os dois pararam ali, no topo do mundo de amido. Estavam aninhados no ápice do monte colossal, cercados por milhares de batatas adormecidas sob a penumbra amarelada do armazém.

Jhucy estava ofegante, sua casca brilhando com um leve calor interno. Seus inúmeros olhos piscaram em sucessão rápida, confusos, desarmados pela primeira vez em meses. Ela olhou para Gabriel, que estava colado a ela, a respiração pesada, a casca grossa roçando na textura suave e preenchida de seu flanco volumoso.

— Você... você me amassou — murmurou ela, tentando recuperar o habitual tom cortante, embora a voz tivesse vacilado vergonhosamente. — Seu bruto. Quase estragou a minha polpa.

— Cale a boca, Jhucy — rosnou Gabriel, exausto.

— Como ousa me mandar calar a...?

Gabriel não permitiu que ela terminasse a sentença.

Num rompante alimentado por semanas de tensão acumulada, madrugadas solitárias de trabalho e uma irritação que há muito havia se transmutado em desejo inconfessável, Gabriel avançou. Ele inclinou sua forma sólida contra a curvatura exuberante dela e a beijou.

Foi um beijo de tubérculo: rústico, profundo, impregnado do sabor puro da terra úmida e do sol que um dia os alimentara no campo aberto. Não havia delicadezas humanas ali, mas sim a colisão desesperada de duas cascas destinadas ao mesmo fim. Gabriel pressionou seu amido contra o dela com uma força ancestral, calando as lamúrias perpétuas de Jhucy com o calor incontido de sua própria matéria viva.

O monte de batatas estremeceu sob eles, alguns tubérculos rolando alguns centímetros para acomodar o peso esmagador daquela paixão tardia.

Jhucy arregalou cada um de seus incontáveis olhos de batata. Por um segundo aterrorizante, ela congelou. Parecia que suas fibras internas iam se desmanchar, transformar-se instantaneamente em amido solúvel sob a pressão dos lábios rudes de Gabriel. Mas então, com um suspiro que soou como o vento entre as folhas secas de uma plantação, ela cedeu. Seu corpo pesado e cheio relaxou contra a solidez dele. Ela respondeu ao beijo com uma avidez reprimida, seus brotos tenros enroscando-se sutilmente nas ranhuras da casca curtida de Gabriel.

O beijo pareceu durar safras inteiras. O tempo parou no topo daquela colina improvisada, sob as telhas de zinco que estalavam com o orvalho da madrugada.

Quando Gabriel finalmente recuou alguns milímetros, seus corpos ainda tremiam. Ele manteve a casca encostada na dela, os olhos fixos nas pequenas cavidades escuras do rosto tuberoso de Jhucy.

Jhucy piscou três, quatro, sete dos seus olhos, completamente desorientada. Sua cor habitual havia mudado para um tom levemente dourado, como se tivesse sido submetida a uma leve fritura de choque térmico.

— Gabriel... — sussurrou ela, a aspereza sumindo quase por completo de sua voz, restando apenas um fiapo de incredulidade. — O que foi isso?

— Foi para você parar de falar — respondeu ele, embora sua voz entregasse a ternura que vinha soterrada sob anos de jornadas duplas. — E porque você é a batata mais insuportável e mais cheia que já brotou nesta terra.

Jhucy tentou franzir a parte superior de sua casca, buscando resgatar a indignação que sempre fora seu escudo protetor.

— Insuportável? Eu quase caí e quebrei minha gema apical, seu inconsciente! E você me beija no meio dessa sujeira, em cima de um monte de refugo que vai para a Ceasa amanhã cedo?

— Este não é um monte de refugo — disse ele, passando a ponta de um rebento pela lateral arredondada dela com uma gentileza inesperada. — É o melhor lote da temporada. E você não é refugo, Jhucy. Nunca foi.

Jhucy calou-se. Seus olhos de batata marejaram com pequenas gotas de seiva condensada. Ela desviou o olhar para o vasto galpão vazio abaixo deles, as sombras dos caixotes projetadas como monólitos esquecidos.

— Você vive para essas caixas, Gabriel — disse ela baixinho, num tom que não carregava mais acidez, apenas uma melancolia pesada como saco de cinquenta quilos. — Você passa o dia todo arrastando peso, conferindo etiquetas, fingindo que não tem medo da panela de pressão. Mas a gente sabe o que acontece quando o caminhão chega. A gente sabe o nosso destino. Por que trabalhar tanto se no final tudo vira sopa?

Gabriel olhou para as próprias mãos calejadas, para as marcas de enxada que haviam cicatrizado em sua casca quando ainda estava debaixo da terra fresca. Ele suspirou, um som profundo que fez vibrar o ar ao redor deles.

— Eu trabalho porque é a única coisa que me impede de pensar nisso — confessou ele, revelando a ferida que nunca mostrara a nenhuma outra batata do silo. — Se eu parar, Jhucy, eu começo a escutar o chiado do óleo quente. Se eu me sentar no canto para descansar, eu vejo as lâminas dos descascadores reluzindo no escuro. Enquanto eu estiver erguendo sacos e organizando pilhas, eu ainda sou o dono do meu próprio amido. Eu ainda tenho um propósito.

Jhucy moveu seu corpo volumoso para mais perto dele, encostando seu flanco rechonchudo no ombro firme de Gabriel. A frieza do cimento lá embaixo não parecia alcançar aquele cume improvisado.

— Você é um tolo, Gabriel. Um tolo teimoso e com excesso de casca — murmurou ela, embora houvesse agora uma doçura velada em cada sílaba. — Mas... talvez você tenha razão. Ficar reclamando da poeira também não impede que ninguém nos descasque.

— Então por que você faz isso? — perguntou ele, fitando-a com curiosidade genuína.

— Porque quando eu grito, todo mundo me olha. E quando você me olha... — Ela hesitou, seus múltiplos olhos piscando em um padrão tímido e desajeitado. — Quando você me olha, eu sinto que não sou apenas mais uma batata no fundo do balaio.

Gabriel sorriu, uma fenda torta e carinhosa abrindo-se em sua matéria densa.

— Você nunca seria apenas mais uma, Jhucy. Não tem saco no mundo que consiga esconder o seu tamanho.

— Gabriel! Isso foi um elogio ou você está me chamando de gorda de novo?

— As batatas cheias são as mais doces — respondeu ele, sem hesitar. — Todo bom agricultor sabe disso.

Jhucy deu uma risadinha abafada, um som que fez seu corpo inteiro oscilar levemente, deslocando mais duas ou três batatas menores colina abaixo. Ela apoiou a base de seu tubérculo na dele, sentindo o calor compartilhado combater a friagem que descia pelas frestas do telhado.

Lá fora, a brisa da madrugada anunciava que as primeiras luzes do amanhecer não tardariam a pintar o horizonte rural. Logo os caminhões encostariam nas docas, seus motores a diesel rugindo como feras famintas, e o trabalho implacável recomeçaria. As pranchas tremeriam, os carregadores humanos gritariam ordens desconexas e a esteira mecânica voltaria a ranger suas engrenagens enferrujadas.

Mas ali, no topo daquela montanha efêmera de batatas, o tempo pertencia a eles.

— Gabriel? — chamou Jhucy em voz baixa, sem desviar os olhos da vastidão silenciosa do armazém.

— O que foi?

— Você ainda tem que organizar essas duas toneladas?

Gabriel olhou para a prancheta jogada lá embaixo, depois olhou para a silhueta voluptuosa de Jhucy acomodada ao seu lado, suas cascas unidas como se tivessem brotado da mesma raiz materna.

— O lote pode esperar até as cinco — respondeu ele.

Jhucy aconchegou-se mais, fechando a maioria de seus olhos para deixar apenas dois ou três vigiando a entrada do galpão.

— Ótimo — suspirou ela, com a casca completamente aquecida. — Porque se você tentasse descer agora, eu teria que empurrar você até lá embaixo, seu viciado em trabalho.

— Eu gostaria de ver você tentar, dona batata.

— Não me desafie, Gabriel. Eu tenho massa suficiente para causar uma catástrofe nesta safra.

Gabriel riu, um riso grave e solto que espantou a poeira ao redor. Ele passou a ponta de seu broto mais forte ao redor das curvas fartas dela, mantendo-a segura contra a inclinação do monte. E assim permaneceram, duas batatas imperfeitas, densas e vivas, dividindo o mesmo amido e a mesma bravura silenciosa, enquanto o mundo dos homens ainda dormia na ignorância daquela paixão que brotava da terra.

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