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Jejfneg

Fandom: Assistente do vilão

Criado: 06/11/2026

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RomanceFantasiaAngústiaDor/ConfortoDramaNoir GóticoEstudo de Personagem
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O Peso de um Quase

A névoa espessa que envolvia os portões de ferro forjado da mansão do Vilão parecia viva, contorcendo-se como serpentes cinzentas em volta dos muros pontiagudos. Qualquer pessoa sã daria meia-volta e correria na direção oposta, mas Clara não tinha o luxo da covardia. Não naquele dia.

Ela apertou a capa de veludo escuro contra o corpo, sentindo o papel dobrado no fundo do bolso queimar contra seus dedos trêmulos. A ameaça havia chegado ao amanhecer, deixada na soleira de sua porta com um bilhete explícito demais para ser ignorado e um símbolo que fez o sangue de Clara gelar. Tatianna, sua melhor amiga e a única pessoa que entendia a loucura de sua vida, fora categórica ao telefone mágico de espelho: “Você precisa ir até ele, Clara. Não seja teimosa. Ele vai queimar o reino inteiro antes de deixar um fio de cabelo seu ser tocado.”

Clara respirou fundo, tentando acalmar os batimentos descompassados. Olhou para o imponente castelo de pedra escura que se erguia contra o céu cinzento. Conhecia cada torre, cada parapeito e cada detalhe arquitetônico daquele lugar. Afinal, antes de tudo ruir, aquele projeto havia sido desenhado para os dois.

Com um metro e sessenta e oito de altura e seus oitenta e cinco quilos distribuídos em curvas fartas, belas e perfeitamente harmônicas, Clara caminhava com uma postura altiva que disfarçava o caos em seu peito. Ela ajeitou a gola do vestido que abraçava seu corpo curvilíneo com elegância e empurrou a pesada aldrava da porta principal.

O som ecoou como um trovão pelo hall de entrada cavernoso.

Segundos depois, uma porta lateral se abriu e uma jovem de cabelos claros e uma prancheta reluzente nos braços surgiu em passos rápidos. Sage, a recém-contratada assistente pessoal do Vilão, parecia ter saído de um manual de eficiência burocrática, embora seus olhos guardassem a costumeira cautela de quem lida com decapitadores profissionais.

— Posso ajudar? — perguntou Sage, erguendo o queixo e examinando Clara com desconfiança clínica. — Se você é do departamento de suprimentos de venenos, a entrega é pelos fundos. Se veio implorar por misericórdia em nome de algum nobre, sinto informar que o chefe não atende sem horário marcado e a agenda dele para torturas está lotada até o próximo solstício.

Clara piscou, surpresa com a torrente de palavras da garota, mas manteve a voz calma e aveludada:

— Não sou de nenhum dos dois. Preciso falar com ele imediatamente. É urgente.

Sage franziu o cenho, ajustando os óculos e bloqueando a passagem para o corredor principal com firmeza quase cômica.

— Todo mundo diz que é urgente, senhorita. Mas as regras do escritório são rígidas. Sem nome na lista, sem audiência. E o chefe está de um humor particularmente espinhoso hoje. Eu realmente não recomendo que você...

— Sage, pelo amor de tudo o que é profano, cala a boca!

Uma voz rouca e exasperada cortou o ar vinda da escadaria. Becky descia os degraus de mármore carregando uma pilha de relatórios ensanguentados, mas estancou no meio do caminho. Seus olhos se arregalaram e a pilha de papéis quase despencou no chão.

— Clara?! — exclamou Becky, a voz transbordando um misto genuíno de alegria e puro pavor.

— Olá, Becky — disse Clara, oferecendo um sorriso suave e cansado. — Desculpe aparecer assim, sem avisar.

Becky praticamente desceu o restante dos degraus aos tropeços, empurrando Sage para o lado sem cerimônia alguma.

— Entrar? Você pode entrar a hora que quiser, você sabe disso! Céus, mulher, olhe para você, está pálida! — Becky pegou as mãos de Clara, inspecionando-a com afeto palpável. — O que aconteceu? Você está bem?

— Preciso conversar com ele. Aconteceu uma coisa.

— Claro, imediatamente. Ele está no escritório principal — disse Becky, já gesticulando para o corredor sem qualquer hesitação. — Vá, suba. A porta está aberta.

Clara agradeceu com um aceno respeitoso e seguiu pelo corredor à esquerda. Ela não fez questão alguma de dar carteirada, de proclamar quem era ou de diminuir a jovem assistente. Clara nunca fora mulher de ostentar títulos, muito menos aquele que carregava como uma cicatriz invisível: o de mulher mais amada e devastada pelo senhor daquele império sombrio.

Assim que Clara virou a esquina do corredor e seus passos ecoaram ao longe, Sage se voltou para Becky com uma expressão indignada e completamente atordoada.

— Você perdeu o juízo, Becky?! — sibilou a assistente novata, gesticulando freneticamente com a prancheta. — O chefe deu ordens expressas para não ser incomodado hoje! Ele literalmente desintegrou uma cadeira há meia hora porque o café estava morno! Você sabe o que ele vai fazer comigo se aquela mulher entrar lá sem permissão?

Becky respirou fundo, cruzando os braços e olhando para o final do corredor onde Clara havia desaparecido. O afeto em seu rosto deu lugar a uma sombra de profunda preocupação.

— Aquela mulher — disse Becky, em um tom baixo e solene — não precisa de permissão, Sage. Nunca precisou.

— E quem ela pensa que é? A rainha de algum lugar?

— Ela é a ex dele — sussurrou Becky, fazendo os olhos de Sage dobrarem de tamanho. — A única. A mulher que quase usou o anel dele. Ele mandou construir esta mansão inteira para ela, Sage. Cada detalhe que você vê aqui foi planejado para que eles morassem juntos depois do casamento.

Sage engoliu em seco, olhando para os lustres de cristal e as tapeçarias requintadas.

— Eles... quase se casaram? E o que aconteceu?

— Ele terminou com ela — respondeu Becky com um suspiro pesado, a voz carregada de uma dor que pertencia a toda a equipe. — Ele achou que o mundo dele a destruiria. Achou que era monstruoso demais, perigoso demais para ela. Foi uma idiotice nobre que custou a alma dos dois. Clara nunca o odiou, mas ele nunca se perdoou. Eles ainda se amam desesperadamente, qualquer idiota consegue ver a milhas de distância.

— Mas... se eles se amam tanto, por que você parecia tão assustada quando ela chegou? — perguntou a novata.

Becky olhou para o teto, como se esperasse que o gesso desabasse a qualquer momento.

— Porque todos nós amamos a Clara. Ela é um anjo, trata todo mundo aqui como gente de verdade. O problema nunca é quando ela chega. O problema é quando ela vai embora.

Sage franziu a testa.

— Como assim?

— Toda vez que ela aparece aqui — explicou Becky, com um tremor involuntário nos ombros —, ele se lembra do que jogou fora. Ele a trata como uma divindade enquanto ela está na frente dele, nunca levantou a voz para a Clara na vida. Mas no instante em que a carruagem dela cruza os portões... o chefe entra em um estado de fúria cega. É puro ódio dele mesmo. Ele se odeia tanto por ter terminado com ela que perde o controle e desconta no castelo inteiro. Semana passada, porque viu uma fita que ela esqueceu há três anos, ele congelou a ala leste e fez a equipe de limpeza chorar sangue. Então, reze, Sage. Reze para que essa conversa acabe bem, ou este castelo não vai sobreviver à noite.


Clara parou diante das portas duplas de carvalho maciço do escritório principal. Seu coração batia tão forte que ela podia ouvi-lo ressoar nos ouvidos. Respirando fundo mais uma vez, ela ergueu a mão e empurrou as portas.

O escritório era vasto, banhado pela luz fria que entrava através de enormes vitrais góticos. Ele estava lá, de pé junto à janela, com as mãos cruzadas atrás das costas. A aura sombria e imponente do homem mais temido do continente parecia dobrar as sombras ao seu redor. Seus ombros eram largos, envoltos em um manto escuro perfeitamente cortado.

— Eu disse que não queria ser interrompido, Sage — declarou ele, com uma voz gutural, fria como uma lâmina de gelo. — Se não for um relatório sobre a queda da capital, você tem exatamente três segundos para sair antes que eu transforme sua prancheta em cinzas.

— Não sou a Sage, Trystan.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, tão denso que o tempo pareceu congelar no ar.

O Vilão estacou. Seus ombros travaram sob o tecido pesado da capa. Lentamente, como se temesse que um movimento brusco quebrasse uma ilusão frágil demais para suportar a realidade, ele se virou.

Quando os olhos dele pousaram em Clara, a máscara de soberania implacável ruiu em um microssegundo.

A respiração de Trystan falhou. O vislumbre daquela mulher — a curva suave de seus quadris, a força elegante de sua postura, a beleza arrebatadora que o assombrava todas as noites em seus piores pesadelos e nos sonhos mais doces — fez o peito dele doer com uma violência física. O amor que ele tentava enterrar sob montanhas de cadáveres e conquistas ressurgiu com a força de um maremoto.

Mas, em questão de frações de segundo, o choque de vê-la deu lugar a um pânico puro e absoluto. Clara nunca ia até ali por capricho. Ela nunca invadia seus domínios sem um motivo de vida ou morte.

— Clara? — Ele deu dois passos rápidos à frente, o controle de sua magia quase vacilando ao redor dos punhos. — O que você está fazendo aqui? Você está ferida? Alguém tocou em você?

A urgência e o medo na voz dele desarmaram qualquer resquício de formalidade que Clara planejava manter. Ele nunca, jamais usara aquele tom cruel com ela. Diante de Clara, o monstro temido por reis se desfazia em um homem aterrorizado com a mera hipótese de perdê-la.

— Eu estou bem, Trystan — disse ela, embora a voz tivesse vacilado levemente no final. — Pelo menos fisicamente.

Trystan já estava perto demais. O cheiro dele — couro, sândalo e magia antiga — invadiu os sentidos de Clara, trazendo uma enxurrada de memórias de noites em que ela adormecia com a cabeça aninhada em seu peito, ouvindo promessas que ele não tivera coragem de sustentar.

Ele ergueu a mão enluvada, os dedos tremendo levemente a centímetros do rosto dela, hesitando em tocá-la como se soubesse que perdera esse direito há muito tempo. A dor nos olhos dele era um reflexo espelhado da dela.

— Diga-me o que houve — exigiu ele em um sussurro rouco, desesperado. — Por favor, Clara.

Clara puxou o pedaço de pergaminho do bolso da capa e estendeu para ele.

— Deixaram na minha porta hoje cedo. Sabem onde eu moro. Sabem da minha rotina. E disseram que o próximo recado seria a minha cabeça em uma bandeja para provocar você.

No momento em que Trystan pegou o papel e seus olhos correram pelas linhas escritas em tinta vermelha, a temperatura do escritório despencou abruptamente. Geada começou a se espalhar pelas bordas do vidro da janela. O símbolo impresso no verso fez a mandíbula dele se contrair com tanta força que um estalo ecoou pelo cômodo.

Era uma facção rebelde. Tolos que achavam que poderiam atingi-lo destruindo aquilo que ele mantinha escondido do mundo. Aquilo que ele sacrificara sua própria felicidade para proteger.

— Eles ousaram... — A voz de Trystan não passava de um rosnado primordial, os olhos faiscando com chamas escuras. — Eles acham que podem respirar o mesmo ar que você depois de colocar as mãos sujas na sua porta?

Ele amassou o papel, e o pergaminho virou cinzas negras entre seus dedos em um instante.

— Trystan — Clara o chamou suavemente, dando um passo adiante. Sem pensar, ela colocou a mão sobre o braço dele, sobre o tecido firme da manga.

O toque fez Trystan estremecer. Toda a fúria apocalíptica que estava prestes a explodir no castelo se conteve em um piscar de olhos, domada unicamente pelo calor da mão dela sobre a sua.

— Eu não sabia para onde ir — admitiu ela, os olhos brilhando com lágrimas contidas. — Tatianna disse que eu deveria vir. Tive medo, Trystan.

A confissão foi como uma adaga cravada diretamente no coração dele. Ver Clara vulnerável, com medo, e saber que a culpa era indiretamente de sua reputação e de suas guerras sangrentas... Trystan sentiu o peso do fracasso esmagá-lo. Ele havia se afastado dela justamente para evitar aquilo. Destruíra o coração de ambos para que ela tivesse uma vida segura, pacífica e longe de seus inimigos.

E, no fim, seu sacrifício não servira de nada.

— Você está segura aqui — disse ele, a voz quebrando ligeiramente pela emoção. Ele não resistiu; ergueu a outra mão e tocou suavemente a maçã do rosto dela, acariciando a pele macia com as pontas dos dedos enluvados. Os olhos dele percorreram o rosto lindo de Clara, descendo para a curva de seus lábios e o brilho firme de seu olhar. — Ninguém neste mundo vai tocar em você. Eu juro pela minha vida, Clara. Eu vou caçar cada um dos envolvidos nisso. Antes do pôr do sol, as cinzas deles serão espalhadas ao vento.

— Eu não vim aqui pedir um massacre, Trystan — disse ela, sentindo o calor do toque dele queimar sua pele e reavivar um amor que nunca havia diminuído, nem por um segundo.

— Mas é o que eles vão ter — replicou ele com uma ternura assustadora, os olhos fixos nela, transbordando uma adoração quase devocional. — Porque você é a única coisa boa que eu já tive, Clara. E eu preferiria ver o inferno congelar antes de deixar que tirem você de mim... mesmo que você não me pertença mais.

Clara sentiu o nó na garganta apertar. O espaço entre eles parecia carregar todos os "e se", todas as promessas de casamento quebradas, todos os sonhos da casa que nunca chegou a ser o lar deles.

— Você me afastou, Trystan — sussurrou ela, com a dor do passado sangrando na voz. — Foi você quem decidiu que nós nunca poderíamos ser.

— E foi a pior decisão da minha existência medíocre — respondeu ele, a voz carregada de um autodesprezo visceral que fez o peito dela se contrair de pena e saudade. — Eu me odeio por isso a cada segundo do dia. Mas enquanto eu respirar, você estará sob a minha proteção.

Ele se afastou relutante, apenas o suficiente para respirar o ar rarefeito da sala, e caminhou até a porta, abrindo-a com um movimento brusco.

— Sage! Becky! — chamou ele, a voz autoritária e gélida ecoando pelo corredor, embora não houvesse o menor resquício de fúria direcionado a Clara.

As duas apareceram em questão de segundos na soleira. Becky mantinha uma expressão atenta, enquanto Sage parecia pronta para ser executada a qualquer instante.

— Preparem a suíte principal na ala oeste — ordenou Trystan, sem desviar o olhar protetor de Clara. — As melhores acomodações, com reforço de guardas e encantamentos de selamento pessoal. Clara vai ficar aqui por tempo indeterminado. E se faltar uma única fruta ou um único lençol de seda do agrado dela, eu vou pendurar os responsáveis pelas muralhas. Entendido?

— Perfeitamente, chefe — respondeu Becky, esboçando um discreto alívio ao perceber que o massacre pós-visita havia sido adiado pela estadia de Clara.

— Sage — continuou o Vilão, com os olhos estreitados —, convoque os capitães do esquadrão de elite. Temos traidores e vermes para exterminar antes do jantar.

— S-sim, senhor! Imediatamente! — gaguejou Sage, anotando freneticamente na prancheta antes de sair correndo pelo corredor.

Trystan virou-se novamente para Clara. Toda a rigidez de seu corpo pareceu derreter quando seus olhares se cruzaram outra vez. Aquele castelo sombrio, construído sobre alicerces de guerra e segredos, finalmente parecia ter um propósito de novo.

Ele sabia que a dor de vê-la ali, tão perto e ao mesmo tempo inalcançável, iria torturá-lo até a loucura. Sabia que a fúria e o ódio por seus próprios erros explodiriam assim que ele ficasse sozinho nas sombras. Mas, por enquanto, enquanto Clara estivesse sob o teto que um dia fora desenhado para ser deles, Trystan enfrentaria o próprio inferno para mantê-la a salvo.

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