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Fandom: Nenhum

Criado: 07/11/2026

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Linhas Cruzadas e Laços de Seda

O tilintar dos cabides de acrílico contra as araras douradas era o único som ritmado no interior da loja. O espaço exalava um aroma doce de baunilha importada, intercalado pelo brilho imponente dos espelhos bisotados e pela luz quente dos lustres de cristal. Para qualquer um que entrasse, aquele ambiente era a personificação exata de Sara: extravagante, luminoso, impossível de ignorar.

Espalhado na poltrona de veludo escuro no canto reservado da loja, Emanuel mantinha os olhos fixos na tela do celular. Respondia a mensagens urgentes de um de seus estúdios de tatuagem em Berlim, intercalando os orçamentos com a aprovação de reformas no estúdio central de São Paulo. Aos vinte e cinco anos, o peso de gerenciar múltiplos negócios pelo mundo havia esculpido nele uma postura firme, quase imperturbável. Vestia uma camiseta preta básica de algodão pesado, que deixava entrever os desenhos intrincados que cobriam seus braços fortes, calça escura e um relógio robusto no pulso. Ele era a sobriedade em meio ao excesso daquele lugar.

— Amor, olha isso aqui! — A voz de Sara ecoou pelo salão, vibrante e sem qualquer modéstia. — Se esse vestido não valorizar o meu decote e a barriga da Ágata ao mesmo tempo, eu não sei o que vai!

Emanuel ergueu o olhar da tela, e o cenho tenso suavizou-se de imediato. Um sorriso sutil, genuíno, curvou os cantos de seus lábios.

Sara vinha desfilando sobre saltos grossos — que ele já havia mandado ela tirar pelo menos três vezes naquela manhã. O vestido colado de malha canelada rosa-chiclete não escondia absolutamente nada: marcava o silicone generoso, as curvas acentuadas e a curva evidente de sua barriga de cinco meses de gestação. O cabelo loiro platinado caía em ondas impecáveis sobre os ombros, e a maquiagem marcante destacava seus olhos expressivos e a boca volumosa.

— Você está linda, loira — disse ele, a voz grave e calma contrastando com a agitação dela. — Mas eu já falei sobre esse salto. Você vai acabar torcendo o tornozelo e me matando de preocupação.

Sara parou diante dele, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha bem delineada. O brilho provocador nos olhos dela era o mesmo pelo qual ele havia se apaixonado.

— Deixa de ser controlador, Emanuel! Eu estou grávida, não inválida — retrucou ela, soltando uma risada gostosa antes de se inclinar e plantar um beijo estalado nos lábios dele. — Além do mais, a Ágata gosta quando a mãe dela fica gostosa. Ela chuta de felicidade, juro pra você.

Emanuel pousou uma das mãos grandes e calejadas sobre o ventre dela, sentindo o calor através do tecido fino. A ligação entre os dois era visceral, construída em uma cumplicidade sem amarras, onde a sensualidade escancarada de Sara encontrava abrigo seguro na maturidade protetora dele.

— Ela chuta porque você não para quieta nem por cinco minutos — rebateu ele com ternura, deslizando o polegar com carinho. — Você precisa descansar um pouco antes de elas chegarem.

— Nada disso! — Sara deu um tapinha na mão dele, dando uma rodopiadinha animada. — Minha tia e minha mãe devem estar estacionando agora. E eu mal posso esperar para ver a Duda. Faz meses que a gente não se encontra direito! Com ela dando aulas de balé, a faculdade e toda essa confusão da gravidez, a gente só se fala por chamada de vídeo.

Emanuel acenou com a cabeça, lembrando-se das conversas que tivera com a namorada nas últimas semanas. Sabia da história: a prima de Sara também estava grávida de cinco meses, esperando uma menina chamada Maya. Mas, ao contrário de Sara, que tinha o apoio incondicional de um homem apaixonado e bem-sucedido, Eduarda havia sido covardemente deixada para trás pelo namorado assim que o teste deu positivo. Felizmente, a família era muito rica e estruturada, dando a ela todo o suporte necessário, mas Emanuel não podia deixar de sentir um desprezo natural pelo sujeito que abandonara a própria responsabilidade. Para um homem como ele, honra e proteção eram inegociáveis.

O som do sino de latão sobre a porta de vidro anunciou novas entradas.

— Chegamos, meus amores! — anunciou uma voz elegante.

Duas mulheres maduras, impecavelmente vestidas em conjuntos de alfaiataria de linho e joias discretas, entraram primeiro. Eram as irmãs: a mãe de Sara, com os mesmos traços exuberantes da filha, e a mãe de Eduarda, de postura polida e aristocrática.

E logo atrás delas, quase como se hesitasse em invadir o espaço alheio, surgiu Eduarda.

O ar nos pulmões de Emanuel simplesmente congelou.

A conversa que começava a se formar entre Sara e as mães transformou-se em um ruído distante de fundo. Por alguns segundos que pareceram durar horas, a mente analítica e sempre no controle de Emanuel sofreu um apagão repentino.

Eduarda parecia ter saído de uma pintura renascentista. Ao contrário da presença solar e barulhenta de Sara, Eduarda trazia consigo a placidez serena de uma manhã de névoa. Era esguia, com uma postura impecável herdada dos anos de dedicação ao balé, mas havia uma maciez doce em suas formas. Vestia um vestido fluido em tom pastel de lavanda, com mangas bufantes transparentes e um decote delicado em coração, que acomodava perfeitamente o colo alvo e o volume arredondado de seus seios médios.

Os cabelos castanho-escuros eram longos, ondulando naturalmente até a metade das costas, com um aspecto brilhante e descomplicado. Mas foram os olhos dela que desarmaram o tatuador. Grandes, castanhos e incrivelmente expressivos, eles transmitiam uma vulnerabilidade tímida, quase palpável, como se o mundo fosse ligeiramente barulhento demais para ela. E, sob o tecido esvoaçante da saia, destacava-se a pequena saliência de sua barriga de cinco meses — tão redonda, tão idêntica no tempo à de Sara, mas embalada de uma forma completamente diferente.

— Duda! — Sara gritou, quebrando o transe momentâneo.

Ela marchou até a prima sem qualquer cerimônia e a envolveu em um abraço apertado e caloroso. Eduarda soltou uma risadinha suave, escondendo o rosto por um instante no ombro de Sara antes de retribuir com afeto, os braços finos abraçando a loira com cuidado para não prensar demais os ventres volumosos.

— Cuidado com as meninas, Sara! — repreendeu a mãe de Eduarda, rindo com leveza. — Vocês duas vão acabar esmagando as próprias filhas antes da hora.

— Que nada, tia! A Ágata e a Maya já estão se cumprimentando desde agora — Sara se afastou apenas o suficiente para segurar as mãos de Eduarda, examinando-a de cima a baixo com um sorriso largo. — Mulher, você está linda! Olha essa barriga, parece que engoliu uma melancia pequena. A minha parece que tomou fermento, estou imensa!

— Você está maravilhosa, Sarinha — respondeu Eduarda, a voz doce, baixa e aveludada, carregada de uma doçura quase infantil. As bochechas dela ganharam um rubor suave ao ser o centro das atenções. — A sua barriga está linda e bem redondinha. Eu... às vezes ainda acho que a minha está pequena demais, fico preocupada.

— Tá nada, boba! Tá perfeita. Gravidez de bailarina deve ser assim mesmo, toda fina — Sara brincou, puxando-a para dentro da loja.

Foi nesse momento que os olhos de Eduarda, vagueando pelo ambiente sofisticado, encontraram a figura estática de Emanuel. Ela piscou, surpresa ao notar o homem imponente em pé junto à poltrona escura. O contraste dele com o restante do ambiente era evidente: alto, ombros largos, os braços tatuados e um rosto de feições fortes, rígidas, dominado por um par de olhos escuros que a fitavam com uma intensidade desconcertante.

Eduarda encolheu ligeiramente os ombros, tomada pela timidez típica de quem não gostava de ser observada tão de perto. Levou a mão livre à base da barriga, em um gesto quase inconsciente de buscar segurança.

Sara, percebendo a direção do olhar da prima, bateu palmas e deu uma risada.

— Ai, que cabeça a minha! Meninas, vocês já conhecem o Emanuel das fotos, mas deixa eu apresentar direito. Amor, vem cá!

Emanuel moveu-se. Cada passo seu parecia pesado, calculado, mas por dentro seus pensamentos corriam em uma velocidade perigosa. O coração, geralmente tão controlado pelo pragmatismo, batia com uma força estranha contra as costelas. Ele parou ao lado de Sara, colocando a mão de forma instintiva e protetora sobre a cintura da namorada. Sentir a textura familiar do corpo de Sara o ancorou, mas não impediu que seus olhos fossem puxados de volta para a morena diante de si.

— Essa aqui é a Duda, minha prima que eu tanto te falei — Sara apresentou, cheia de orgulho. — Duda, esse é o Emanuel. Meu homem, o amor da minha vida e o pai da Ágata.

— É um prazer, Eduarda — disse Emanuel. Sua voz saiu um tom mais grave do que o normal, ressoando com uma firmeza que tentava mascarar o impacto visual que acabara de sofrer.

Ele estendeu a mão grande em direção a ela.

Eduarda olhou para a mão tatuada, depois ergueu os olhos delicados para encará-lo. Havia uma solenidade no semblante dele que a intimidou um pouco, mas a calma que emanava de sua presença trouxe um alívio inesperado. Ela tocou a palma dele, deslizando seus dedos pequenos e macios contra a pele áspera e desenhada de Emanuel.

— O prazer é meu, Emanuel — murmurou ela, oferecendo-lhe um sorriso tímido, quase infantil em sua candura. — A Sara fala muito de você. Muito mesmo. Disse que você cuida muito bem dela.

O toque durou apenas dois segundos, mas foi o suficiente para enviar uma corrente elétrica silenciosa pela espinha do homem. A pele dela era fria e extremamente suave, como veludo. Ao soltar a mão dela, Emanuel cerrou levemente os dedos, como se tentasse reter resquícios daquela maciez.

— Tento fazer o meu melhor — respondeu ele, mantendo a postura austera, embora por dentro sentisse o chão oscilar. — Fico feliz que tenham vindo. A Sara não falava de outra coisa a semana inteira.

— Ah, Emanuel é um santo, Duda! — interveio a mãe de Sara, rindo enquanto olhava as araras de roupas. — Aguenta todos os caprichos dessa menina mimada. Quero ver quando a bebê nascer, vai virar duas para mandar nele.

— Eu não mando, mãe, eu sugiro com charme — rebateu Sara, piscando um olho para Emanuel e acariciando o braço dele.

Eduarda soltou uma risadinha discreta, ainda parecendo ligeiramente acanhada. Ela deu um passo para trás e apoiou o peso do corpo sobre uma das pernas, uma postura típica de repouso de dançarina. Emanuel, atento a cada detalhe com seu olhar observador, notou a leve sombra de cansaço sob os olhos amendoados dela e a maneira como ela massageava a lombar de forma quase imperceptível.

— Você está com dor? — perguntou ele de repente, quebrando a barreira da conversa geral.

A pergunta direta e atenta fez com que todas as mulheres olhassem para ele. Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa, mas sem qualquer sombra de incômodo. Eduarda congelou, as bochechas esquentando instantaneamente até ficarem de um tom escarlate vivo.

— Ah... não, quer dizer, só um pouquinho — confessou ela, olhando para os próprios pés calçados em sapatilhas de couro macio. O tom manhoso de sua voz transpareceu involuntariamente. — Eu dei aula para as turmas infantis hoje de manhã na academia. Fiquei muito tempo em pé demonstrando os passos e a Maya resolveu pesar bastante hoje.

— Você devia ter descansado, meu amor — interveio a mãe de Eduarda com um suspiro afetuoso. — Eu avisei que você precisava parar com essas aulas durante a gravidez.

— Mas mamãe, as meninas estavam ensaiando para a apresentação de fim de ano... — defendeu-se Eduarda, manhosa, fazendo um bico involuntário que fez o peito de Emanuel apertar de uma forma inteiramente nova. Era uma fragilidade tão pura, tão contrastante com a autossuficiência provocante de Sara, que ativou nele uma urgência quase primitiva de cuidar, amparar e fechar o mundo ao redor dela para que nada a machucasse.

— Senta aqui — disse Emanuel, apontando com a cabeça para o sofá espaçoso onde estivera sentado minutos antes. Sua voz não admitia recusas, carregada daquela autoridade protetora que Sara conhecia tão bem. — Ficar em pé com salto ou muito tempo no mesmo lugar não faz bem nem para você nem para a bebê. Eu pego uma água para você.

Eduarda piscou, desarmada pela gentileza firme do homem. Olhou para Sara como quem pede permissão, e a loira apenas deu uma risadinha descontraída, empurrando a prima de leve pelos ombros.

— Vai logo, bobinha, aproveita o mimo. Quando o Emanuel entra no modo 'pai de família protetor', é melhor obedecer, senão ele te carrega no colo e te amarra no sofá.

Eduarda soltou um suspiro aliviado e caminhou delicadamente até o estofado, afundando nas almofadas macias.

— Muito obrigada, Emanuel... Se tiver água com gás e limão, eu prefiro. Mas se não tiver, pode ser normal — pediu ela em voz baixa, juntando as mãos sobre o colo, o olhar doce fixo nele.

— Tem sim. Vou buscar — confirmou ele, mantendo a expressão neutra, embora sentisse o sangue pulsar forte nas têmporas.

Emanuel caminhou até a copa nos fundos da loja. Ao fechar a porta de madeira e ficar sozinho diante do frigobar, ele apoiou as duas mãos na bancada de mármore e respirou fundo, tentando reorganizar os próprios pensamentos.

Ele amava Sara. Disso não tinha a menor sombra de dúvida. Amava a ousadia dela, a gargalhada escandalosa, a lealdade inabalável, o calor da pele dourada e o fruto do amor deles que crescia dentro dela. Sara era o seu fogo, a mulher que o desafiava todos os dias e que ele protegeria com a própria vida.

Mas o que havia sido aquilo que acabara de acontecer?

A imagem de Eduarda sentada no veludo, com seu vestido lilás, os olhos castanhos transbordando uma timidez carinhosa e o pequeno biquinho manhoso ao falar do cansaço... aquilo havia atingido uma parte diferente, quase adormecida, de sua alma. Não era um desejo passageiro e carnal que diminuía o que sentia por Sara; era algo que parecia se somar, expandir, um instinto avassalador de recolher aquela mulher delicada sob sua asa e nunca mais deixá-la desamparada.

Ele pegou uma garrafa de água, fatiou uma rodela de limão com precisão cirúrgica e colocou em uma taça com gelo. Enquanto observava as bolhas subirem pelo vidro, Emanuel percebeu, com uma clareza fria e racional, que o controle que tanto prezava havia acabado de ruir.

Ele estava fascinado pela prima de sua mulher.

Ao empurrar a porta da copa e retornar ao salão, Emanuel encontrou as quatro mulheres conversando alegremente. Sara estava encostada na beirada da poltrona de Eduarda, gesticulando com as unhas compridas pintadas de vermelho e fazendo a prima rir de alguma piada atrevida. Eduarda ria com a mão cobrindo os lábios, os olhos brilhando de diversão, os pés descansando confortavelmente sobre um pufe que a mãe havia arrastado para ela.

A harmonia entre as duas era perfeita. O sol e a lua no mesmo cômodo.

Emanuel se aproximou, estendendo a taça com cuidado.

— Aqui está. Água com gás e uma rodela de limão.

Eduarda levantou os olhos para ele. A doçura no olhar dela quase fez a mão firme do tatuador vacilar.

— Obrigada, Emanuel — sussurrou ela, pegando o copo com os dedos graciosos. — Você é muito gentil.

— Não precisa agradecer. Qualquer coisa que você precisar, é só falar — respondeu ele, a voz firme e protetora, olhando bem dentro dos olhos dela antes de desviar a atenção para Sara.

Emanuel pousou a mão livre na nuca de Sara, acariciando os fios loiros e puxando a namorada para perto, beijando-lhe o topo da cabeça com um carinho imenso e verdadeiro. Sara suspirou contra o toque dele, sorrindo e acomodando-se ao seu lado com total confiança.

Eduarda tomou um gole da água, alheia à tempestade que acabara de desencadear. Para ela, aquele era apenas o namorado atencioso e perfeito de sua prima favorita. Ela não fazia ideia de que, sob aquela fachada calma e racional, Emanuel acabara de traçar um destino irreversível: ele queria aquele pedaço de céu tanto quanto já pertencia ao fogo de Sara. E, custasse o que custasse, ele não pretendia abrir mão de nenhuma das duas.

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