
Rocinha, RJ 🔞📍
Fandom: Não tem
Criado: 07/11/2026
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No Compasso da Colina
O sol do meio-dia no Rio de Janeiro não dava trégua, castigando as lajes e fazendo o asfalto que cortava a Rocinha quase evaporar sob o calor escaldante de quase quarenta graus. Do alto da colina, onde o casarão de três andares dos Allegretti se impunha com vista panorâmica para o contraste vibrante entre a comunidade e o azul infinito da praia de São Conrado, o vento trazia o cheiro de maresia misturado com a fumaça de churrasco de alguma esquina próxima.
Na espaçosa cozinha gourmet de granito preto, o ambiente brilhava impecável. Letícia Allegretti nunca quis saber de empregada dentro de sua casa; desde que os trigêmeos tinham idade suficiente para segurar uma vassoura, cada um sabia exatamente sua função.
— Se eu ver uma marca de dedo nesse vidro da varanda, Kaelton, você não desce nem pra calibrar o pneu da moto — avisou Letícia, a voz firme e doce ao mesmo tempo, enquanto ajeitava os cabelos lisos na altura dos ombros.
Mesmo após parir quatro vezes, o corpo curvilíneo da morena clara continuava a parar o trânsito, vestindo apenas um short jeans desfiado e uma regata branca justa.
— Já tá limpo, mãe, pelo amor de Deus. A senhora é neurose pura — resmungou Kael, passando uma flanela seca com força antes de jogar o pano sobre o ombro largo.
Com um metro e oitenta e quatro, braços grossos cobertos por traços pretos de tatuagens e o maxilar sempre tenso, ele exibia a marra clássica herdada do pai. Usava uma bermuda tactel preta e um brinco discreto na orelha, encarando a mãe com os olhos verdes semicerrados.
— Neurose nada, moleque. Respeita a patroa da casa — rebateu Bernardo, saindo da sala com o aspirador de pó já enrolado.
Bê era o clone físico do irmão, mas o sorriso de canto canalha e zombeteiro entregava a diferença de postura em segundos.
— Se bem que o coroa já tá demorando lá embaixo, né? Daqui a pouco o homem chega com aquela cara de poucos amigos querendo almoço.
— Teu pai tá resolvendo uns assuntos com o tio Ricardo lá na curva do S — explicou Letícia, secando as mãos no pano de prato antes de pegar Luna no colo.
A bebê de nove meses, gordinha, muito branca e de grandes olhos verdes como os dos irmãos, abriu uma risada banguela assim que viu Bê se aproximar. Bernardo não perdeu tempo: esticou os braços tatuados, pegou a irmãzinha sob as axilas e a jogou para o alto com cuidado, fazendo a menina soltar um gritinho agudo de pura euforia.
— Para com isso, Bernardo! Ela acabou de mamar, porra, vai golfar em você todinho — disparou uma voz feminina vinda do corredor.
Violetta surgiu calçando um par de chinelos, terminando de prender o cabelo liso que quase batia na bunda em um rabo de cavalo alto. O corpo em formato de pera, com quadris largos e cintura finíssima, era uma cópia escancarada da mãe, assim como a pele clara e os mesmos olhos verdes da família. Ela vinha de cara fechada, as sobrancelhas desenhadas franzidas de irritação, mas a expressão derreteu em meio segundo quando estendeu os braços para Luna.
— Vem cá com a sua irmã, vem, meu pedaço de dengo. Deixa esse palhaço aí.
Luna imediatamente se jogou nos braços de Vi, aninhando a bochecha gorda no colo macio da irmã mais velha. Kael passou por elas, resmungando baixo enquanto dava um beijo no topo da cabeça da bebê e um tapa leve na nuca de Violetta.
— Ai, Kaelton! Vai se foder, garoto! — chiou Violetta, chutando o ar na direção do irmão.
— Abaixa a bola, mandona. Vai lavar a louça do café que sobrou na pia em vez de ficar me xingando — provocou Kael, sarcástico, já puxando a garrafa de água da geladeira.
— Lava você, seu cavalo! Eu já limpei os dois quartos de cima e passei pano no corredor.
— Chega, os dois! — Letícia interveio com autoridade, cortando a discussão antes que crescesse. — Parem de falar palavrão na frente da menina, caralho.
A porta pesada da entrada principal rangeu, e os passos firmes anunciaram a chegada do dono do pedaço. Guilherme Allegretti entrou preenchendo o espaço. Com um metro e noventa e dois de pura imponência, pele morena, ombros maciços e peitoral malhado destacados por uma camisa polo preta justa, o chefe da Rocinha carregava a postura pesada de quem comandava tudo ao redor. Os olhos verdes varreram o cômodo até travarem na esposa.
A expressão dura e o cavanhaque bem desenhado suavizaram imediatamente ao cruzar com Letícia.
— Bom dia pra quem tá em casa — disse Gui, a voz grossa ecoando na sala antes de puxar a mulher pela cintura com um braço só, colando seus lábios num beijo estalado e possessivo. — Tá cheirosa demais pra quem tá na cozinha, coração.
— Tava te esperando, meu rabugento — murmurou Letícia, sorrindo contra a boca dele antes de se afastar um palmo. — Deu tudo certo lá embaixo?
— Tudo em paz. Ricardo tá subindo aí com a Stefanne e o Renan. A mulher dele cismou que queria comer aquele teu bolo de fubá.
— Claro que ela quer, grávida de seis meses não perdoa nada — riu Letícia.
Gui se virou para os filhos. Kael e Bê mantiveram a postura, cumprimentando o pai com toques de mão firmes.
— Tranquilidade, coroa? — perguntou Bê.
— Na paz. Deram moral na casa ou tão de vadiagem?
— Casa tá brilhando, patrão — garantiu Kael.
Guilherme caminhou até Violetta, que ainda balançava Luna no colo. O chefe do morro passou a mão grande pela cabeça da filha mais velha, dando um beijo no topo da sua testa antes de puxar a bochecha da caçula, arrancando uma gargalhada manhosa da pequena.
— Bença, pai — pediu Violetta, a postura dura diminuindo só um pouco diante dele.
— Deus te abençoe, minha marrenta. Tá estressada por quê? Já começou o dia de cara feia?
— Teus filhos que são insuportáveis, só isso — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha para os gêmeos, que apenas riram.
Poucos minutos depois, a porta foi empurrada novamente sem cerimônia. Ricardo, vulgo Caveira, entrou na casa como quem entrava no próprio quarto. Braço direito de Guilherme e irmão mais velho de Letícia, ele compartilhava a mesma presença de respeito, seguido de perto por Stefanne, que ostentava com orgulho a barriga redonda da gestação de Ruan, e pelo filho do casal, Renan.
Renan tinha dezessete anos, a mesma altura e estrutura física avantajada dos primos e amigos de infância. Vestia uma bermuda preta, corrente de prata no pescoço e carregava nos olhos castanhos a mesma tranquilidade dissimulada de quem sabia andar por qualquer beco sem chamar atenção indesejada.
— Salve, família — Renan cumprimentou, batendo na palma de Kael e depois na de Bê com o estalo oco característico de quem cresceu junto.
— Coé, viado — soltou Kael, o maxilar relaxando. — Tava onde que demorou tanto?
— Tava na oficina desenrolando o freio da motoca, pô. Bicho tava chiando que nem panela de pressão — respondeu Renan, rindo baixo com aquela voz rouca.
Seus olhos encontraram os de Violetta por menos de dois segundos. Uma faísca silenciosa passou entre os dois — rápida, calculada, imperceptível até para o radar implacável de Guilherme ou a vigilância protetora dos gêmeos. Eles ficavam desde os quinze anos, dividindo mensagens na calada da noite, toques furtivos e beijos roubados nos cômodos com isolamento acústico da casa, sem que alma viva desconfiasse da tensão que os consumia.
— Ô, Vi — Renan falou, num tom perfeitamente casual, enquanto desviava o olhar para o bebê. — A tampinha tá crescendo rápido, hein? Já tá com cara de quem vai dar dor de cabeça pros três aí.
— Nem me fala — respondeu Violetta, mantendo a expressão neutra e cruzando os braços enquanto apoiava Luna no quadril. — Se depender desses dois zé ruelas aqui, ela vai aprender a empinar pipa antes de andar.
— Deixa a garota, Violetta — rebateu Kael, já pegando a chave da moto em cima da bancada. — Ô, Renan, bora descer pro campinho logo? Os moleques do Valão já tão mandando mensagem querendo fechar um contra hoje.
— Bora, tô pronto — Renan concordou. — Só vim ver se minha mãe não ia passar mal no meio da subida.
— Passar mal nada, menino atrevido — reclamou Stefanne, já sentada no sofá recebendo um prato de bolo das mãos de Letícia. — Rick me trouxe de carro, acha que eu vou subir esse morro a pé com essa melancia na barriga?
— Deixa que os moleques vão jogar, amor — Ricardo falou para a esposa, encostado no batente da cozinha enquanto trocava um olhar cúmplice com Guilherme sobre a tranquilidade do morro. — Só não vão arrumar confusão lá embaixo, ouviram?
— Confusão nada, pai. Nós só vai amassar eles na bola — garantiu Bernardo, pegando a bola de futebol debaixo da escada. — Bora descer, Vi? Tu disse que ia levar a Luna pra tomar vento na quadra antes de começar.
— Vou sim, só vou trocar a roupa dela — respondeu a garota, subindo as escadas em direção ao quarto.
Dez minutos depois, o grupo descia a ladeira principal do alto da Rocinha. O calor da tarde fervia as vielas estreitas, mas o movimento era animado. Mototáxis subiam acelerando, desviando com maestria dos pedestres; nas biroscas, o som alto de pagode antigo misturava-se aos bordões dos comerciantes locais.
— Fala aí, patrãozinho! — gritou um rapaz encostado numa borracharia, acenando para os gêmeos e para Renan.
— Tranquilo, DG? Mais tarde nós passa aí pra ver aquele negócio — respondeu Kael, erguendo a mão num gesto rápido sem parar o passo.
Violetta caminhava um pouco atrás, empurrando o carrinho espaçoso onde Luna ia sentada, protegida por um guarda-sol pequeno, segurando um mordedor de borracha. Violetta agora usava um shortinho de elástico cinza e um top de alça fina, o cabelo preso num coque despojado. Qualquer moleque que ousava olhar na direção dela rapidamente desviava a visão para o chão assim que notava Kael e Bernardo flanqueando o caminho com caras de poucos amigos.
— Molecada fica secando na cara dura, parece que nunca viu mulher, puta que pariu — rosnou Kael entre os dentes, fuzilando um grupo de três adolescentes sentados no muro com a camisa enrolada na cabeça.
— Deixa eles olharem, Kaelton, caralho. Não tão fazendo nada demais — Violetta bufou, revirando os olhos verdes. — Vocês são chatos pra cacete, já falei pra não ficarem de marra na rua.
— Cala a boca, Vi. Tu não sabe o que homem pensa, então fica quieta — cortou Bernardo, embora seu tom fosse mais de deboche do que a fúria bruta do gêmeo. — Se algum comédia der um pio torto, vai descer a ladeira rolando.
Renan caminhava ao lado deles em silêncio, as mãos nos bolsos da bermuda de tactel. Por fora, parecia completamente indiferente, mas cada músculo do seu corpo estava atento. Não à molecada da rua — sabia que ninguém ali era louco de mexer com a filha de Guilherme Allegretti —, mas ao próprio movimento ritmado do quadril de Violetta a cada passo que ela dava na descida. O celular no bolso dele vibrou duas vezes.
Ele puxou a tela discretamente, sem que ninguém percebesse.
Violetta: Para de me olhar pelo reflexo da vitrine, idiota. Meu irmão vai sacar.
Renan quase soltou uma risada nasalada. Guardou o aparelho sem responder, mantendo o semblante frio de sempre.
Chegaram ao campinho de grama sintética cercado por alambrados altos de ferro pintados de verde. O local estava cheio: garotos jogando descalços ou de meia, adolescentes dividindo garrafas de dois litros de refrigerante na mureta e algumas meninas assistindo sentadas nos degraus de concreto da arquibancada improvisada.
— Chegou a tropa! — gritou Pedrinho, um dos amigos da escola de São Conrado que também morava no morro, ajeitando as traves de ferro. — Pensei que o Magnata tinha trancado vocês no castelo, mané!
— Trancou tua mãe lá na sala, comédia — rebateu Bernardo, gargalhando alto e jogando a bola debaixo do braço para cumprimentar a galera no alambrado. — Qual vai ser a divisão hoje? Quem perder paga o açaí lá na praça.
— Demorô, pô. Nós contra vocês quatro aí — desafiou outro rapaz, já puxando a camisa para fora e jogando no chão.
Violetta estacionou o carrinho na sombra de uma árvore ao lado da grade, longe da linha de chute. Pegou Luna nos braços, aninhando a menina na cintura gordinha enquanto a pequena olhava maravilhada para o movimento das pessoas e o verde da grama. Kael se aproximou antes de tirar a regata, beijando a bochecha de Luna que esticava as mãozinhas gorduchas para tocar a corrente dele.
— Fica com a tua irmã aí, tampinha. Daqui a pouco o mano volta — murmurou Kael, a voz ganhando um tom incrivelmente doce que só existia para aquela bebê, antes de se virar para Vi com a carranca habitual. — Não sai daqui, ouviu? Se cansar, me avisa que nós sobe.
— Tá bom, seu chato. Vai lá jogar logo, vai.
Os rapazes entraram no campo, todos sem camisa sob o calor implacável da Rocinha, exibindo a musculatura definida que arrancava suspiros e cochichos imediatos de duas garotas sentadas no final da arquibancada. Bernardo e Kael nem sequer olharam na direção delas; estavam acostumados com a atenção, mas no meio do jogo só importava a bola rolando e a rivalidade de moleque carioca.
O jogo começou corrido, disputado no corpo e na sola.
— Toca essa porra, Bê! Tá segurando demais a bola, caralho! — gritou Kael, disparando pela lateral enquanto chamava o passe.
Bernardo deu uma caneta humilhante no adversário, tirando onda com um grito debochado antes de meter uma cavadinha precisa para Renan. O garoto dominou no peito com categoria, girou sobre o marcador e encheu o pé, acertando o ângulo direito do golzinho improvisado. A rede estufou, arrancando palmas dos que assistiam do lado de fora.
— Pega a visão, porra! Aprende como é que faz! — comemorou Renan, batendo no peito e trocando um toque de ombro com Bernardo.
No meio da comemoração rápida, os olhos castanhos de Renan buscaram a lateral do alambrado. Violetta estava lá, encostada na mureta com Luna distraída em seu colo. A garota mordia o lábio inferior, sustentando o olhar dele com uma intensidade que quase fez o ar faltar nos pulmões de Renan no meio do calor de quarenta graus. Aquele segredo ardia entre os dois como fogo na palha, sufocado pelas paredes da rotina, mas perigosamente vivo.
Quando o jogo finalmente pausou para a água, Renan caminhou até a beira do alambrado, estendendo o braço por entre a tela para pegar uma garrafa térmica que estava no chão, perto do carrinho do bebê. Ao se abaixar, seus dedos roçaram propositalmente a perna lisa de Violetta, coberta pelo tecido fino do short.
— Jogou bem, marrento — ela sussurrou tão baixo que o barulho dos gritos no campo cobriu perfeitamente suas palavras.
— Jogando pra plateia — respondeu ele no mesmo tom, a respiração pesada pelo esforço da corrida, lançando-lhe um meio sorriso carregado de promessa. — Mais tarde eu passo no teu quarto depois que o coroa apagar. Deixa a porta destrancada.
— Tá doido? O Kael vive rondando aquele corredor de madrugada pra pegar a Luna — advertiu ela, o coração disparando com a audácia dele.
— Eu sei me virar, preta. Confia — Renan piscou, pegou a água e voltou correndo para o centro da quadra, sem deixar rastro de hesitação.
Violetta soltou o ar que nem sabia que estava prendendo, arrumando o laço na cabeça de Luna, que começou a resmungar dengosa, pedindo colo.
— É, minha princesa... Eles pensam que mandam em alguma coisa aqui — murmurou Vi para a irmãzinha, com um sorriso mínimo brincando em seus lábios enquanto observava os três garotos continuarem a disputa ruidosa debaixo do céu azul do Rio.
A tarde ainda ia render, e a noite nas colinas da Rocinha prometia ser muito mais longa do que qualquer um deles imaginava.
