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Never know when to shut up
Fandom: One piece
Criado: 17/03/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoTentativa de SuicídioCenário CanônicoEstudo de PersonagemFofuraFatias de VidaHistória Doméstica
O Eco do Silêncio e o Peso das Marés
A oficina do Thousand Sunny era o único lugar onde Usopp sentia que podia respirar, mesmo que o ar estivesse saturado com o cheiro de pólvora, óleo de linhaça e serragem. Seus dedos ágeis trabalhavam em um novo lote de Pop Greens, mas sua mente, como sempre, era uma traidora. Desde Enies Lobby e o incidente em Water 7, algo havia quebrado. Sim, ela havia pedido desculpas. Sim, Luffy a aceitara de volta com lágrimas e braços abertos. Mas o olhar de Zoro... aquele olhar frio e analítico que ele manteve durante todo o seu retorno, parecia uma sentença de morte que nunca fora executada.
Ela era a atiradora. A mentirosa. A garota de cabelos pretos cacheados que se escondia atrás de histórias de oito mil subordinados porque a realidade de ser apenas "Usopp" parecia insuficiente.
Naquela noite, o silêncio do navio foi interrompido apenas pelo som rítmico das ondas contra o casco. Usopp sentiu o primeiro aperto no peito. Foi súbito. O oxigênio parecia ter se transformado em chumbo.
— Respira... só respira — sussurrou para si mesma, mas sua voz saiu embargada.
As paredes da oficina pareceram encolher. Cada erro que cometera, cada vez que sentira que era um fardo para a tripulação, começou a passar diante de seus olhos como um carretel de filme amaldiçoado. Eles não precisam de você. Você é fraca. Zoro tinha razão em querer te deixar para trás.
Ela caiu de joelhos, as mãos agarrando os cachos escuros, tentando arrancar os pensamentos da cabeça. O pânico era uma onda fria.
A porta da oficina rangeu.
— Usopp?
A voz era profunda, rouca de sono, mas alerta. Zoro estava parado no batente, a mão no punho da Shusui por instinto. Ele parou ao ver a figura pequena encolhida no chão, tremendo violentamente.
— Ei, o que... — Ele se aproximou, a hesitação rara em seus movimentos. — Você está ferida? Alguém invadiu?
Usopp não conseguia responder. Ela apenas soluçava, o rosto escondido entre os joelhos. Zoro, que entendia de cortes, espadas e sangue, não sabia nada de mentes quebras. Mas ele sabia de sobrevivência. Ele se ajoelhou ao lado dela, sem tocá-la a princípio.
— Usopp. Olhe para mim. — O tom era de comando, mas não era duro. — Expire. Agora.
Levou minutos, que pareceram horas, até que o ritmo cardíaco dela desacelerasse. Quando ela finalmente levantou os olhos úmidos, encontrou o olhar cinzento de Zoro. Não havia julgamento ali, apenas uma estranha e desconfortável quietude.
— Eu... eu sinto muito — ela murmurou, a voz quebrada. — Pode ir. Eu estou bem.
Zoro se levantou, limpando a poeira das calças.
— Você não está bem. Mas não é da minha conta se quer mentir para si mesma.
Ele saiu sem dizer mais nada. E, a partir daquela noite, Usopp passou a evitá-lo como se ele fosse uma maldição.
***
Semanas depois, o Sunny ancorou em uma ilha deserta para reparos e reabastecimento. O sol estava se pondo, pintando o céu de tons violentos de laranja e roxo. Franky e os outros tinham ido explorar, deixando Zoro e Usopp encarregados de vigiar o navio.
O silêncio entre eles era uma corda esticada ao máximo. Usopp fingia polir o canhão, mas suas mãos tremiam. Zoro estava sentado no convés, afiando suas espadas. O som do metal contra a pedra de amolar era o único diálogo entre eles.
— Você vai continuar fazendo isso? — Zoro perguntou subitamente, sem levantar os olhos.
Usopp saltou, quase derrubando o balde de polimento.
— Fazendo o quê? Eu estou trabalhando! O grande capitão Usopp tem muitas responsabilidades, sabe, e...
— Fugindo — interrompeu ele, levantando-se. Ele caminhou em direção a ela, cada passo exalando uma pressão que fazia o estômago de Usopp revirar. — Você entra em uma sala, eu estou lá, você sai. Eu tento falar, você começa a tagarelar sobre mentiras idiotas.
— Eu não estou fugindo! — Usopp gritou, a voz subindo uma oitava. — Talvez eu só não queira estar perto de alguém que me olha como se eu fosse um pedaço de lixo que deveria ter sido deixado em Water 7!
Zoro parou a poucos centímetros dela. Ele era muito mais alto, uma presença sólida e intimidadora.
— Eu nunca disse isso.
— Mas você pensou! — As lágrimas de frustração começaram a arder nos olhos dela. — Você foi o que mais insistiu que eu não voltasse! Você me odeia porque eu sou fraca, porque eu sou covarde, porque eu não sou como você ou o Sanji ou o Luffy!
— Você nunca sabe a hora de calar a boca — rosnou Zoro, com a respiração quente no rosto de Usopp.
O terror, intenso e eletrizante, percorreu as veias de Usopp. Ela se preparou para um soco, uma cabeçada, mais palavras duras. Estava pronta para a briga. Estava pronta para ser rejeitada de novo.
Ele não estava preparado para a língua afiada de Zoro.
A investida contra ele foi tão desesperada que lhe roubou o pouco fôlego que lhe restava. Não foi gentil. Foi uma invasão, uma reivindicação, um silenciamento brutal. Usopp congelou, sua mente gritando em protesto, uma cacofonia de "o quê?", "por quê?" e "este é Zoro".
Mas então… seu corpo respondeu.
Um calor baixo e traiçoeiro se desenrolou em seu estômago, espalhando-se por seus membros, derretendo o medo em algo incandescente e urgente. A pressão dos lábios de Zoro era insistente, exigindo uma resposta. E, céus, Usopp se viu dando-a. Seus lábios se entreabriram em um suspiro que Zoro engoliu por completo, e o beijo mudou.
A raiva se dissipou, deixando apenas uma sensação crua.
Zoro a empurrou contra o mastro principal, as mãos grandes encontrando o caminho para a cintura dela, apertando a pele sob a camisa curta. Usopp sentiu o mundo girar. O beijo tornou-se mais profundo, mais faminto. A mão de Zoro subiu, os dedos se enroscando nos cachos pretos dela, puxando levemente, arrancando um gemido baixo de sua garganta.
Por um momento, o desejo superou a insegurança. Zoro desceu os beijos para o pescoço dela, e Usopp sentiu o calor do corpo dele contra o seu, a força bruta que ele sempre emanava agora focada inteiramente nela.
Mas então, a voz na sua cabeça — aquela sombra que nunca morria — gritou mais alto. Ele só está fazendo isso por pena. Ele quer te calar. Ele não te ama.
— Não! — Usopp exclamou, empurrando o peito de Zoro com toda a força que tinha.
Zoro recuou, confuso, a respiração tão pesada quanto a dela. Seus olhos estavam escuros, nublados de luxúria e algo que parecia vulnerabilidade.
— Usopp?
— Eu... eu não posso. — Ela limpou a boca com as costas da mão, os olhos arregalados de pânico. — Você não... você não quer isso de verdade. Você só está com raiva.
— Do que você está falando? — Zoro tentou dar um passo à frente, mas ela recuou até a amurada.
— Me deixa em paz, Zoro! — Ela gritou, antes de sair correndo para o interior do navio, deixando-o sozinho sob o céu crepuscular.
***
Os dias que se seguiram foram um pesadelo. Usopp não dormia. A sombra maligna em sua mente, alimentada pela ansiedade, tornou-se um monstro. Ela via os companheiros rindo no convés e sentia-se uma intrusa. Luffy comia carne, Nami desenhava mapas, Sanji cozinhava... e ela? Ela apenas ocupava espaço.
A rejeição que ela impôs a Zoro pesava como uma âncora. Ela via o espadachim observando-a de longe, com uma expressão de mágoa contida que a estraçalhava.
Em uma noite de tempestade, o Sunny balançava violentamente. Usopp estava no convés de vigia, a chuva gelada lavando seu rosto. Os pensamentos eram gritos agora. Eles ficariam melhor sem você. Você só causa problemas. Se você sumisse, Zoro não teria que se preocupar em sentir pena de você.
O mar lá embaixo parecia um convite. Um silêncio eterno.
Sem pensar, movida por um desespero que não encontrava saída nas palavras, Usopp subiu na amurada. O vento chicoteava seus cabelos cacheados.
— Adeus... — ela sussurrou, e se atirou na escuridão das águas revoltas.
O choque da água fria foi imediato. O peso de suas roupas a puxava para baixo. Por um segundo, houve paz.
Então, algo a agarrou.
Braços fortes envolveram sua cintura, puxando-a para cima com uma força implacável. Usopp lutou fracamente, mas a consciência estava escapando.
Quando ela acordou, estava no convés, tossindo água salgada. O navio estava mais calmo, a tempestade diminuindo.
— Você é idiota?! — A voz de Zoro era um rugido, mas ele estava tremendo. Ele estava encharcado, o cabelo verde grudado na testa.
Usopp não respondeu. Ela se levantou cambaleando e correu. Correu para o lugar mais profundo do navio, escondendo-se atrás de barris de suprimentos no porão. Ela se encolheu, desejando desaparecer.
Passos pesados ecoaram na madeira. Zoro a encontrou em minutos. Ele não gritou desta vez. Ao ver a figura patética e trêmula da garota, ele simplesmente se sentou ao lado dela e a puxou para um abraço apertado.
— Me solta... — ela soluçou contra o peito dele. — Por que você me salvou?
— Porque eu não sou nada sem a minha atiradora — ele murmurou, a voz rouca.
Usopp parou de lutar. O calor dele começou a penetrar seus ossos gelados. Ela se apoiou nele, exausta demais para manter as barreiras. Zoro a levantou com facilidade, sentando-a em seu colo, ignorando o fato de ambos estarem molhados.
— Fale para mim — ele ordenou suavemente, passando a mão pelas costas dela. — Diga as coisas horríveis que essa sua cabeça está pensando.
Usopp hesitou, mas as palavras começaram a jorrar como uma represa quebrada.
— Eu sou inútil. Eu sinto que todos vocês estão apenas me tolerando. Eu sinto que... que você me beijou porque sentiu pena, porque eu sou tão carente que você achou que precisava me consolar. Eu me odeio, Zoro. Eu odeio o quanto eu tenho medo.
Zoro ouviu tudo. Ele não a interrompeu, não a chamou de mentirosa. Quando ela finalmente parou, soluçando baixinho, ele ergueu o queixo dela para que ela o olhasse nos olhos.
— Primeiro: você salvou nossas vidas mais vezes do que posso contar. Se Luffy é o rei, você é a voz que nos mantém reais. Segundo: eu não sinto pena de você. Eu nunca sentiria pena de alguém que admiro.
Usopp piscou, surpresa.
— Você me admira?
— Você tem medo de tudo — Zoro disse com um meio sorriso raro —, e mesmo assim, você luta. Isso é coragem de verdade. Eu não tenho medo de nada, então lutar é fácil para mim. Mas você... você é a pessoa mais brava que eu conheço.
Ele encostou a testa na dela.
— E sobre o beijo... eu não queria te consolar. Eu queria você. Toda você. A parte que conta mentiras, a parte que chora e a parte que acerta um alvo a quilômetros de distância.
Usopp sentiu uma lágrima solitária escorrer. Pela primeira vez em muito tempo, a sombra em sua mente recuou, afugentada pela luz da sinceridade dele.
— Você vai me ajudar? — ela perguntou, a voz pequena. — Quando os pensamentos ficarem ruins de novo?
— Vou — prometeu Zoro, apertando-a mais forte. — Eu vou ser a sua âncora. Sempre que você começar a flutuar para longe, eu te puxo de volta.
Naquela noite, no porão escuro do Thousand Sunny, não houve sexo, nem promessas grandiosas de piratas. Houve apenas dois corações tentando encontrar um ritmo comum.
Na manhã seguinte, Sanji estava na cozinha preparando o café quando os dois entraram. Usopp estava usando uma camisa de Zoro, que ficava enorme nela, e seus olhos ainda estavam um pouco inchados, mas ela estava sorrindo.
— Ei, sobrancelha de alvo — disse Zoro, sentando-se à mesa com uma calma incomum. — Faça algo com bastante vitamina para a Usopp. Ela teve uma noite longa.
Sanji parou com a espátula no ar, olhando de Zoro para Usopp, e depois para a camisa dele na garota.
— Marimo... se você fez algo para magoar a minha querida senhorita atiradora, eu vou te transformar em sashimi!
— Relaxa, Sanji! — Usopp riu, e o som foi como música para os ouvidos de Zoro. — Eu só... tive um pequeno problema com o mar. Mas o Zoro me ajudou a ver as coisas com mais clareza.
Luffy entrou correndo, pulando no banco ao lado de Usopp.
— Usopp! Você está bem? Zoro me disse que você caiu no sono na vigia e ele teve que te carregar! Que capitã preguiçosa você é!
Usopp olhou para Zoro. Ele deu um leve aceno de cabeça. Ele havia protegido a dignidade dela, inventando uma desculpa para os outros.
— É verdade, Luffy! — Usopp começou, recuperando seu tom vibrante. — Eu estava lutando contra um monstro marinho invisível em meus sonhos, e a batalha foi tão intensa que eu precisei de dez horas de recuperação!
Enquanto ela narrava sua "batalha" épica, Zoro tomava seu café em silêncio, observando-a. O caminho para a cura seria longo, e a ansiedade dela não desapareceria da noite para o dia. Mas agora, ele sabia o gosto dos lábios dela, e ela sabia que, não importava o quão fundo ela caísse, haveria sempre um par de mãos fortes pronto para segurá-la.
E, talvez, na próxima parada, quando estivessem sozinhos novamente, ele terminaria o que começou naquele mastro. Mas, por enquanto, vê-la sorrir era o suficiente.
Ela era a atiradora. A mentirosa. A garota de cabelos pretos cacheados que se escondia atrás de histórias de oito mil subordinados porque a realidade de ser apenas "Usopp" parecia insuficiente.
Naquela noite, o silêncio do navio foi interrompido apenas pelo som rítmico das ondas contra o casco. Usopp sentiu o primeiro aperto no peito. Foi súbito. O oxigênio parecia ter se transformado em chumbo.
— Respira... só respira — sussurrou para si mesma, mas sua voz saiu embargada.
As paredes da oficina pareceram encolher. Cada erro que cometera, cada vez que sentira que era um fardo para a tripulação, começou a passar diante de seus olhos como um carretel de filme amaldiçoado. Eles não precisam de você. Você é fraca. Zoro tinha razão em querer te deixar para trás.
Ela caiu de joelhos, as mãos agarrando os cachos escuros, tentando arrancar os pensamentos da cabeça. O pânico era uma onda fria.
A porta da oficina rangeu.
— Usopp?
A voz era profunda, rouca de sono, mas alerta. Zoro estava parado no batente, a mão no punho da Shusui por instinto. Ele parou ao ver a figura pequena encolhida no chão, tremendo violentamente.
— Ei, o que... — Ele se aproximou, a hesitação rara em seus movimentos. — Você está ferida? Alguém invadiu?
Usopp não conseguia responder. Ela apenas soluçava, o rosto escondido entre os joelhos. Zoro, que entendia de cortes, espadas e sangue, não sabia nada de mentes quebras. Mas ele sabia de sobrevivência. Ele se ajoelhou ao lado dela, sem tocá-la a princípio.
— Usopp. Olhe para mim. — O tom era de comando, mas não era duro. — Expire. Agora.
Levou minutos, que pareceram horas, até que o ritmo cardíaco dela desacelerasse. Quando ela finalmente levantou os olhos úmidos, encontrou o olhar cinzento de Zoro. Não havia julgamento ali, apenas uma estranha e desconfortável quietude.
— Eu... eu sinto muito — ela murmurou, a voz quebrada. — Pode ir. Eu estou bem.
Zoro se levantou, limpando a poeira das calças.
— Você não está bem. Mas não é da minha conta se quer mentir para si mesma.
Ele saiu sem dizer mais nada. E, a partir daquela noite, Usopp passou a evitá-lo como se ele fosse uma maldição.
***
Semanas depois, o Sunny ancorou em uma ilha deserta para reparos e reabastecimento. O sol estava se pondo, pintando o céu de tons violentos de laranja e roxo. Franky e os outros tinham ido explorar, deixando Zoro e Usopp encarregados de vigiar o navio.
O silêncio entre eles era uma corda esticada ao máximo. Usopp fingia polir o canhão, mas suas mãos tremiam. Zoro estava sentado no convés, afiando suas espadas. O som do metal contra a pedra de amolar era o único diálogo entre eles.
— Você vai continuar fazendo isso? — Zoro perguntou subitamente, sem levantar os olhos.
Usopp saltou, quase derrubando o balde de polimento.
— Fazendo o quê? Eu estou trabalhando! O grande capitão Usopp tem muitas responsabilidades, sabe, e...
— Fugindo — interrompeu ele, levantando-se. Ele caminhou em direção a ela, cada passo exalando uma pressão que fazia o estômago de Usopp revirar. — Você entra em uma sala, eu estou lá, você sai. Eu tento falar, você começa a tagarelar sobre mentiras idiotas.
— Eu não estou fugindo! — Usopp gritou, a voz subindo uma oitava. — Talvez eu só não queira estar perto de alguém que me olha como se eu fosse um pedaço de lixo que deveria ter sido deixado em Water 7!
Zoro parou a poucos centímetros dela. Ele era muito mais alto, uma presença sólida e intimidadora.
— Eu nunca disse isso.
— Mas você pensou! — As lágrimas de frustração começaram a arder nos olhos dela. — Você foi o que mais insistiu que eu não voltasse! Você me odeia porque eu sou fraca, porque eu sou covarde, porque eu não sou como você ou o Sanji ou o Luffy!
— Você nunca sabe a hora de calar a boca — rosnou Zoro, com a respiração quente no rosto de Usopp.
O terror, intenso e eletrizante, percorreu as veias de Usopp. Ela se preparou para um soco, uma cabeçada, mais palavras duras. Estava pronta para a briga. Estava pronta para ser rejeitada de novo.
Ele não estava preparado para a língua afiada de Zoro.
A investida contra ele foi tão desesperada que lhe roubou o pouco fôlego que lhe restava. Não foi gentil. Foi uma invasão, uma reivindicação, um silenciamento brutal. Usopp congelou, sua mente gritando em protesto, uma cacofonia de "o quê?", "por quê?" e "este é Zoro".
Mas então… seu corpo respondeu.
Um calor baixo e traiçoeiro se desenrolou em seu estômago, espalhando-se por seus membros, derretendo o medo em algo incandescente e urgente. A pressão dos lábios de Zoro era insistente, exigindo uma resposta. E, céus, Usopp se viu dando-a. Seus lábios se entreabriram em um suspiro que Zoro engoliu por completo, e o beijo mudou.
A raiva se dissipou, deixando apenas uma sensação crua.
Zoro a empurrou contra o mastro principal, as mãos grandes encontrando o caminho para a cintura dela, apertando a pele sob a camisa curta. Usopp sentiu o mundo girar. O beijo tornou-se mais profundo, mais faminto. A mão de Zoro subiu, os dedos se enroscando nos cachos pretos dela, puxando levemente, arrancando um gemido baixo de sua garganta.
Por um momento, o desejo superou a insegurança. Zoro desceu os beijos para o pescoço dela, e Usopp sentiu o calor do corpo dele contra o seu, a força bruta que ele sempre emanava agora focada inteiramente nela.
Mas então, a voz na sua cabeça — aquela sombra que nunca morria — gritou mais alto. Ele só está fazendo isso por pena. Ele quer te calar. Ele não te ama.
— Não! — Usopp exclamou, empurrando o peito de Zoro com toda a força que tinha.
Zoro recuou, confuso, a respiração tão pesada quanto a dela. Seus olhos estavam escuros, nublados de luxúria e algo que parecia vulnerabilidade.
— Usopp?
— Eu... eu não posso. — Ela limpou a boca com as costas da mão, os olhos arregalados de pânico. — Você não... você não quer isso de verdade. Você só está com raiva.
— Do que você está falando? — Zoro tentou dar um passo à frente, mas ela recuou até a amurada.
— Me deixa em paz, Zoro! — Ela gritou, antes de sair correndo para o interior do navio, deixando-o sozinho sob o céu crepuscular.
***
Os dias que se seguiram foram um pesadelo. Usopp não dormia. A sombra maligna em sua mente, alimentada pela ansiedade, tornou-se um monstro. Ela via os companheiros rindo no convés e sentia-se uma intrusa. Luffy comia carne, Nami desenhava mapas, Sanji cozinhava... e ela? Ela apenas ocupava espaço.
A rejeição que ela impôs a Zoro pesava como uma âncora. Ela via o espadachim observando-a de longe, com uma expressão de mágoa contida que a estraçalhava.
Em uma noite de tempestade, o Sunny balançava violentamente. Usopp estava no convés de vigia, a chuva gelada lavando seu rosto. Os pensamentos eram gritos agora. Eles ficariam melhor sem você. Você só causa problemas. Se você sumisse, Zoro não teria que se preocupar em sentir pena de você.
O mar lá embaixo parecia um convite. Um silêncio eterno.
Sem pensar, movida por um desespero que não encontrava saída nas palavras, Usopp subiu na amurada. O vento chicoteava seus cabelos cacheados.
— Adeus... — ela sussurrou, e se atirou na escuridão das águas revoltas.
O choque da água fria foi imediato. O peso de suas roupas a puxava para baixo. Por um segundo, houve paz.
Então, algo a agarrou.
Braços fortes envolveram sua cintura, puxando-a para cima com uma força implacável. Usopp lutou fracamente, mas a consciência estava escapando.
Quando ela acordou, estava no convés, tossindo água salgada. O navio estava mais calmo, a tempestade diminuindo.
— Você é idiota?! — A voz de Zoro era um rugido, mas ele estava tremendo. Ele estava encharcado, o cabelo verde grudado na testa.
Usopp não respondeu. Ela se levantou cambaleando e correu. Correu para o lugar mais profundo do navio, escondendo-se atrás de barris de suprimentos no porão. Ela se encolheu, desejando desaparecer.
Passos pesados ecoaram na madeira. Zoro a encontrou em minutos. Ele não gritou desta vez. Ao ver a figura patética e trêmula da garota, ele simplesmente se sentou ao lado dela e a puxou para um abraço apertado.
— Me solta... — ela soluçou contra o peito dele. — Por que você me salvou?
— Porque eu não sou nada sem a minha atiradora — ele murmurou, a voz rouca.
Usopp parou de lutar. O calor dele começou a penetrar seus ossos gelados. Ela se apoiou nele, exausta demais para manter as barreiras. Zoro a levantou com facilidade, sentando-a em seu colo, ignorando o fato de ambos estarem molhados.
— Fale para mim — ele ordenou suavemente, passando a mão pelas costas dela. — Diga as coisas horríveis que essa sua cabeça está pensando.
Usopp hesitou, mas as palavras começaram a jorrar como uma represa quebrada.
— Eu sou inútil. Eu sinto que todos vocês estão apenas me tolerando. Eu sinto que... que você me beijou porque sentiu pena, porque eu sou tão carente que você achou que precisava me consolar. Eu me odeio, Zoro. Eu odeio o quanto eu tenho medo.
Zoro ouviu tudo. Ele não a interrompeu, não a chamou de mentirosa. Quando ela finalmente parou, soluçando baixinho, ele ergueu o queixo dela para que ela o olhasse nos olhos.
— Primeiro: você salvou nossas vidas mais vezes do que posso contar. Se Luffy é o rei, você é a voz que nos mantém reais. Segundo: eu não sinto pena de você. Eu nunca sentiria pena de alguém que admiro.
Usopp piscou, surpresa.
— Você me admira?
— Você tem medo de tudo — Zoro disse com um meio sorriso raro —, e mesmo assim, você luta. Isso é coragem de verdade. Eu não tenho medo de nada, então lutar é fácil para mim. Mas você... você é a pessoa mais brava que eu conheço.
Ele encostou a testa na dela.
— E sobre o beijo... eu não queria te consolar. Eu queria você. Toda você. A parte que conta mentiras, a parte que chora e a parte que acerta um alvo a quilômetros de distância.
Usopp sentiu uma lágrima solitária escorrer. Pela primeira vez em muito tempo, a sombra em sua mente recuou, afugentada pela luz da sinceridade dele.
— Você vai me ajudar? — ela perguntou, a voz pequena. — Quando os pensamentos ficarem ruins de novo?
— Vou — prometeu Zoro, apertando-a mais forte. — Eu vou ser a sua âncora. Sempre que você começar a flutuar para longe, eu te puxo de volta.
Naquela noite, no porão escuro do Thousand Sunny, não houve sexo, nem promessas grandiosas de piratas. Houve apenas dois corações tentando encontrar um ritmo comum.
Na manhã seguinte, Sanji estava na cozinha preparando o café quando os dois entraram. Usopp estava usando uma camisa de Zoro, que ficava enorme nela, e seus olhos ainda estavam um pouco inchados, mas ela estava sorrindo.
— Ei, sobrancelha de alvo — disse Zoro, sentando-se à mesa com uma calma incomum. — Faça algo com bastante vitamina para a Usopp. Ela teve uma noite longa.
Sanji parou com a espátula no ar, olhando de Zoro para Usopp, e depois para a camisa dele na garota.
— Marimo... se você fez algo para magoar a minha querida senhorita atiradora, eu vou te transformar em sashimi!
— Relaxa, Sanji! — Usopp riu, e o som foi como música para os ouvidos de Zoro. — Eu só... tive um pequeno problema com o mar. Mas o Zoro me ajudou a ver as coisas com mais clareza.
Luffy entrou correndo, pulando no banco ao lado de Usopp.
— Usopp! Você está bem? Zoro me disse que você caiu no sono na vigia e ele teve que te carregar! Que capitã preguiçosa você é!
Usopp olhou para Zoro. Ele deu um leve aceno de cabeça. Ele havia protegido a dignidade dela, inventando uma desculpa para os outros.
— É verdade, Luffy! — Usopp começou, recuperando seu tom vibrante. — Eu estava lutando contra um monstro marinho invisível em meus sonhos, e a batalha foi tão intensa que eu precisei de dez horas de recuperação!
Enquanto ela narrava sua "batalha" épica, Zoro tomava seu café em silêncio, observando-a. O caminho para a cura seria longo, e a ansiedade dela não desapareceria da noite para o dia. Mas agora, ele sabia o gosto dos lábios dela, e ela sabia que, não importava o quão fundo ela caísse, haveria sempre um par de mãos fortes pronto para segurá-la.
E, talvez, na próxima parada, quando estivessem sozinhos novamente, ele terminaria o que começou naquele mastro. Mas, por enquanto, vê-la sorrir era o suficiente.
