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Fandom: One piece

Criado: 17/03/2026

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UA (Universo Alternativo)DramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraEstudo de Personagem
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O Peso das Mentiras e o Corte do Arrependimento

O pátio da Grand Line High School costumava ser o lugar favorito de Usopp. Era ali, sob a sombra da velha figueira, que o bando do Chapéu de Palha se reunia para planejar travessuras, dividir lanches e ouvir as histórias mirabolantes que ela inventava. Mas, naquela tarde de terça-feira, o ar parecia pesado, carregado com uma eletricidade estática que fazia os fios de seus cabelos cacheados arrepiarem.

Usopp apertava as alças da mochila com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. À sua frente, Luffy tinha uma expressão raramente séria, enquanto Nami cruzava os braços com um olhar de pura frustração.

— Eu já disse que não foi minha culpa! — exclamou Usopp, a voz falhando por um oitavo acima do normal. — Eu estava vigiando o laboratório de química, mas um exército de cinco mil homens me cercou! Eu tive que lutar para proteger o projeto do Merry!

— Usopp, para com isso — Nami interrompeu, a voz cortante. — Não teve exército nenhum. Você dormiu no posto e os valentões do terceiro ano destruíram a maquete que levamos um mês para construir. O professor Franky vai nos dar um zero bem grande.

— Eu não dormi! — mentiu Usopp, embora suas pálpebras pesadas a traíssem. — Eu fui atingido por uma doença rara, a "doença-que-te-faz-desmaiar-se-você-ver-muitos-inimigos"!

— Chega, Usopp — Luffy disse baixinho. O tom não era de raiva, mas de decepção, o que doía muito mais. — A gente contava com você. O Merry era importante para todo mundo.

— Ah, então é assim? — O peito de Usopp subiu e desceu com rapidez. A insegurança, aquele monstro que ela tentava esconder sob camadas de bravata, rugiu dentro dela. — Vocês acham que eu sou apenas um fardo, não é? A garota que só conta mentiras e estraga tudo!

— Ninguém disse isso — Sanji tentou intervir, saindo de trás de Luffy com um cigarro de chocolate na boca. — Mas você precisa assumir a responsabilidade, senhorita Usopp.

— Eu não preciso de sermão de vocês! — ela gritou, sentindo as lágrimas arderem no canto dos olhos. — Se eu sou tão inútil, talvez eu nem devesse estar nesse grupo!

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Usopp esperava que Luffy risse e dissesse que ela estava sendo boba, ou que Nami a abraçasse. Mas eles apenas ficaram ali, exaustos da rotina de desculpas.

— Se é assim que você se sente... — Luffy começou, mas Usopp não esperou o fim da frase.

Ela deu meia-volta e correu. Correu pelos corredores ladrilhados, passando pelos armários coloridos, ignorando os olhares curiosos de outros estudantes. Ela só parou quando chegou ao telhado do prédio leste, o lugar mais isolado da escola.

Ela se jogou no chão, escondendo o rosto entre os joelhos, e deixou o choro vir. O soluço era pesado, sacudindo seus ombros magros. Ela odiava ser assim. Odiava que sua primeira reação fosse sempre criar uma fantasia para proteger seu ego frágil.

— Você está fazendo barulho demais. Eu estava tentando dormir.

Usopp deu um pulo, o coração quase saindo pela boca. Sentado contra a mureta, com os braços cruzados e um fone de ouvido pendurado no pescoço, estava Zoro. O cabelo verde estava bagunçado e ele parecia ter acabado de acordar de um de seus lendários cochilos durante o intervalo.

— Zoro! — Ela limpou o rosto freneticamente com a manga do uniforme. — O que você está fazendo aqui? Vá embora!

— O telhado é público — respondeu ele, abrindo um olho apenas. Ele observou o estado dela por um momento antes de suspirar. — O que aconteceu? Deixe-me adivinhar: você falou demais e agora está arrependida.

Usopp sentiu uma nova onda de irritação misturada com tristeza.

— Eles não entendem! Eles acham que é fácil ser eu! Eu não sou forte como você, ou um gênio como a Nami, ou... ou um monstro de borracha como o Luffy! Eu só tenho as minhas histórias!

Zoro levantou-se lentamente, alongando os braços. Ele caminhou até ela com aquele passo pesado e deliberado que sempre impunha respeito.

— Suas histórias são o que mantém o grupo rindo, Usopp — disse ele, parando a poucos centímetros dela. — Mas mentir para seus amigos para esconder um erro não é ser um contador de histórias. É ser covarde.

— Você também? — ela murmurou, desviando o olhar. — Veio aqui para me chutar enquanto estou no chão?

— Não — Zoro disse, e sua voz suavizou um pouco, algo que ele raramente permitia que acontecesse. — Eu vim porque você esqueceu isso.

Ele estendeu a mão. Nela, estava o estilingue de bolso que Usopp vivia carregando, decorado com adesivos de girassóis. Ela devia ter derrubado durante a discussão.

— Obrigada — ela sussurrou, pegando o objeto. Os dedos dela roçaram nos dele, e ela sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o vento do telhado.

— Escute — Zoro continuou, encostando-se na mureta ao lado dela —, o Luffy é um idiota, mas ele não guarda rancor. E a Nami... bem, ela vai te cobrar o conserto da maquete com juros, mas ela não te quer fora do bando.

— Eu disse coisas horríveis, Zoro. Eu disse que queria sair.

— Eu sei. Eu ouvi de longe. — Ele deu um meio sorriso de canto. — Você tem um pulmão bem forte para alguém que diz estar sempre doente.

Usopp soltou uma risada curta e trêmula, limpando a última lágrima.

— O que eu faço agora?

— O que você sempre faz quando entra em uma confusão — respondeu Zoro, olhando para o horizonte da cidade. — Enfrente. Sem mentiras desta vez.

Usopp olhou para o perfil de Zoro. Ele sempre parecia tão sólido, tão inabalável. No fundo, ela sempre o admirou mais do que gostaria de admitir. Talvez fosse a disciplina dele, ou a forma como ele nunca precisava de desculpas para ser quem era.

— Zoro? — chamou ela, a voz pequena.

— Hum?

— Você... você acha que eu sou forte o suficiente para ser uma "brava guerreira da escola"?

Zoro finalmente olhou para ela. Ele viu a vulnerabilidade nos olhos grandes dela, a forma como ela mordia o lábio inferior, e sentiu algo estranho cutucar seu peito. Ele não era bom com palavras, mas sabia o que sentia.

— Você veio para esta escola vindo de outra cidade, sem conhecer ninguém, e conseguiu fazer o Luffy te ouvir — disse ele seriamente. — Isso exige mais coragem do que qualquer briga que eu já tive.

Usopp sentiu o rosto esquentar.

— Isso foi... um elogio? O grande Roronoa Zoro me elogiou?

— Não se acostume — retrucou ele, cruzando os braços novamente para esconder o leve rubor em suas próprias bochechas. — Agora, desça lá e peça desculpas. Se você não for, eu vou ter que te carregar, e eu provavelmente vou me perder no caminho para o pátio.

Usopp riu de verdade dessa vez, a tensão deixando seu corpo.

— Você se perde até em um corredor reto, Zoro.

— Cala a boca — resmungou ele, mas não havia raiva em seu tom.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas aproveitando a brisa. Usopp sentiu que, embora a briga com o resto do bando ainda precisasse ser resolvida, ela não estava mais sozinha.

— Zoro — ela disse, antes de se virar para a porta do telhado. — Obrigada por me encontrar.

— Eu não estava procurando por você — mentiu ele descaradamente, voltando a fechar os olhos.

Usopp sorriu. Ela sabia reconhecer uma mentira quando ouvia uma. Afinal, ela era a especialista.

— Sei... — disse ela, caminhando em direção à saída. — Vejo você no treino de kendo mais tarde?

— Estarei lá. Não se atrase para ver minha vitória.

— Só nos seus sonhos, espadachim! — gritou ela, já correndo escada abaixo.

Enquanto descia, Usopp sentia o peso no peito diminuir. Ela tinha um pedido de desculpas para fazer e uma maquete para reconstruir. Mas, acima de tudo, ela tinha a certeza de que, mesmo quando suas mentiras falhavam, havia alguém que enxergava a verdade por trás delas.

Lá no telhado, Zoro abriu um olho e observou a porta por onde ela tinha saído.

— Idiota — sussurrou ele para o vento, com um sorriso imperceptível nos lábios.

Ele se ajeitou para dormir novamente, mas desta vez, o sono veio acompanhado de uma tranquilidade que ele não sentia há horas. Ele sabia que, no dia seguinte, o bando estaria completo de novo. E que Usopp, com ou sem mentiras, continuaria sendo o coração barulhento que mantinha todos eles unidos.

No pátio, Luffy e Nami ainda estavam sentados no mesmo lugar quando Usopp apareceu, ofegante.

— Pessoal! — gritou ela, parando na frente deles.

Luffy levantou a cabeça, o chapéu de palha sombreando seus olhos.

— Usopp... — começou Nami.

— Não digam nada! — Usopp interrompeu, respirando fundo. — Eu sinto muito. Eu menti porque tive medo de vocês ficarem bravos por eu ter falhado. Eu dormi, sim. E o Merry quebrou por minha causa.

Houve um segundo de silêncio absoluto. Luffy abriu um sorriso imenso, aquele que parecia iluminar toda a escola.

— Tudo bem, Usopp! — exclamou ele, pulando e colocando a mão no ombro dela. — A gente faz outro! Um melhor ainda!

— Mas você vai ter que colar cada pedacinho — avisou Nami, embora um sorriso estivesse brincando em seus lábios. — E vai pagar o lanche de todo mundo por uma semana.

— Uma semana?! — Usopp empalideceu. — Mas eu sou apenas uma pobre estudante com uma mesada minguada! Eu tenho uma dívida de dez bilhões com um agiota internacional!

Nami revirou os olhos e riu.

— Lá vai ela de novo...

Usopp riu junto, sentindo-se em casa. Ela olhou para cima, em direção ao telhado do prédio leste, e embora não pudesse ver Zoro dali, ela sabia que ele estaria ouvindo. E, pela primeira vez, ela não precisava de uma história heróica para se sentir parte daquele mundo. Ser apenas Usopp era o suficiente.
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