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Mentes perigosas

Fandom: Livros.

Criado: 17/03/2026

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DistopiaPós-ApocalípticoFicção CientíficaAçãoSobrevivênciaPsicológicoDramaAngústiaDiscriminação
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O Silêncio das Velas Apagadas

O sol de Virginia costumava ser um aliado, uma luz quente que entrava pela janela do meu quarto e me despertava com a promessa de um dia comum. Mas, na manhã do meu décimo sétimo aniversário, a luz parecia doente. Pálida. Como se o próprio mundo tivesse acordado com febre.

Eu me olhei no espelho por um longo tempo. Os cabelos castanhos escuros estavam emaranhados, e meus olhos azuis — que minha mãe sempre dizia serem a cor do oceano em um dia de tempestade — pareciam cansados. Eu deveria estar animada. Dezessete anos era o limiar da liberdade, ou pelo menos era o que eu pensava antes do IAAN começar.

A Involução Adolescente Aguda Neurodegenerativa. Um nome pomposo para o pesadelo que estava varrendo o país. Primeiro, foram as crianças pequenas. Elas simplesmente paravam de respirar no meio do sono. Depois, os pré-adolescentes começaram a cair nas salas de aula, em campos de futebol, em mesas de jantar. O país estava mergulhado em um luto silencioso e histérico.

— Ruby? — A voz da minha mãe veio do outro lado da porta, fina e quebradiça. — Você está pronta? Fiz panquecas.

— Já vou, mãe — respondi, tentando injetar algum entusiasmo na voz.

Desci as escadas sentindo um peso estranho no peito. Não era tristeza, era uma vibração. Como se meus nervos estivessem ligados a uma tomada de alta voltagem. Na cozinha, meu pai lia o jornal com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o papel. As manchetes eram sempre as mesmas: "Estado de Emergência", "Número de Vítimas Sobe", "Cientistas Buscam Respostas".

— Parabéns, querida — disse ele, sem conseguir me olhar nos olhos.

Eu me sentei à mesa. O cheiro das panquecas, que costumava ser meu favorito, me deu náuseas. Eu estendi a mão para pegar o xarope de bordo, mas antes que meus dedos tocassem o frasco, algo aconteceu.

Não foi um movimento. Foi um estalo.

Em um segundo, eu estava ali. No segundo seguinte, eu estava *dentro* da cabeça da minha mãe.

Vi suas memórias como se fossem fotografias sendo queimadas. Vi o medo que ela sentia de mim, o terror de acordar e me encontrar morta, ou pior, de me encontrar... mudada. O pânico dela era uma substância viscosa e cinzenta que me sufocava.

— Ruby? — ela gritou, mas sua voz soava como se estivesse debaixo d'água.

O frasco de xarope explodiu. Não porque eu o derrubei, mas porque o ar ao meu redor pareceu se contrair violentamente. Os cacos de vidro voaram, e a mente da minha mãe se tornou um grito branco em minha consciência. Eu entrei em pânico. Tentei empurrar o que quer que estivesse saindo de mim de volta para dentro, mas só consegui piorar as coisas.

— Afaste-se dela! — meu pai rugiu, levantando-se tão rápido que a cadeira tombou.

— Eu não fiz por querer! — tentei dizer, mas as palavras saíram como um chiado estático.

O que aconteceu a seguir foi um borrão de traição. Lembro-me de ser empurrada para a garagem, do som da tranca pesada sendo batida por fora. Lembro-me do choro da minha mãe, que não era de tristeza, mas de puro horror, como se eu fosse um monstro que tivesse devorado a filha dela e usado sua pele.

— Por favor! — eu gritava, esmurrando a porta de metal. — Pai, abre a porta! É o meu aniversário!

Mas eles não abriram. Eles chamaram a polícia. E a polícia chamou os FEPs — as Forças Especiais de Psi.

***

Dois meses depois.

Thurmond não era um acampamento. Era um abatedouro de almas.

O uniforme cinza que eu usava era áspero contra a pele, mas o que realmente incomodava era o silêncio. Em Thurmond, o silêncio era a única forma de sobrevivência. Eu aprendi isso rápido. Aprendi a baixar a cabeça, a esconder o brilho nos meus olhos e, acima de tudo, a esconder o que eu era.

No sistema de cores do governo, eu era uma Laranja. A cor mais perigosa. A cor daqueles que podiam invadir mentes, alterar memórias, destruir psiquês com um pensamento. Laranjas eram "eliminados" na chegada. Mas eu tinha sido esperta. Ou talvez apenas estivesse com muito medo de morrer. No dia da triagem, eu entrei na mente do examinador e sussurrei uma única palavra: *Verde*.

Verdes eram inofensivos. Inteligentes, mas controláveis. E assim eu sobrevivi por dois meses, escondida à vista de todos, enquanto via meus colegas desaparecerem nas sombras dos blocos de segurança máxima.

A melancolia era minha única companhia constante, temperada por um sarcasmo que eu guardava para minhas conversas mentais. *Cozinha maravilhosa hoje*, eu pensava enquanto mastigava o que parecia ser papelão molhado no refeitório. *Cinco estrelas no guia Michelin para prisioneiros.*

Mas o disfarce estava rachando. Eu sentia o poder borbulhando sob minha pele, uma pressão constante que ameaçava explodir a qualquer momento. E, em uma tarde de inspeção, a verdade finalmente transbordou.

Um dos guardas, um homem com olhos de tubarão chamado Miller, decidiu que eu não estava sendo rápida o suficiente para limpar o chão. Ele chutou o balde, espalhando água suja pelas minhas botas.

— Limpe, Verde — ele sibilou, segurando o bastão elétrico.

Eu olhei para ele. Só por um segundo. Mas foi o suficiente. Minhas barreiras caíram e eu vi tudo: a crueldade dele, o prazer doentio que sentia em nos machucar, e o medo escondido lá no fundo de que nós, as "aberrações", um dia revidássemos.

— Você tem medo de nós — eu disse, minha voz saindo mais firme do que eu pretendia.

— O que você disse?

— Você tem medo de que a gente perceba que vocês são apenas homens pequenos com armas grandes — completei, o sarcasmo agindo como um mecanismo de defesa suicida.

Ele avançou, mas antes que pudesse me tocar, eu o joguei contra a parede. Não com as mãos. Com a mente. O impacto foi seco, e o guarda desabou como um saco de batatas.

O alarme começou a berrar, um som estridente que parecia rasgar meus tímpanos. Eu sabia o que aquilo significava. Eu não era mais uma Verde aos olhos deles. Eu era um alvo.

A fuga foi um caos de sombras e gritos. Eu não sabia para onde estava indo, apenas que precisava sair dali. Corri pelos corredores esterilizados, desviando de guardas e de outros adolescentes em pânico, até que me vi no pátio externo, onde a cerca de alta tensão brilhava sob a lua.

Foi lá que eu o vi.

Uma van preta estava atravessada no portão principal, que fora arrombado. Um garoto estava em pé sobre o capô, chutando um dos guardas que tentava subir. Ele tinha cabelos claros, meio dourados, que brilhavam mesmo sob as luzes de busca, e quando ele se virou para olhar na minha direção, vi olhos de um azul tão intenso que quase me fizeram parar de correr.

— Ei, Garota Cinza! — ele gritou, estendendo a mão. — Se você quer viver para ver o café da manhã, eu sugiro que corra mais rápido!

Eu não pensei. Eu corri. Saltei para dentro da van no exato momento em que ele acelerava. O motor roncou como uma besta enfurecida enquanto deixávamos Thurmond para trás, transformando o acampamento em apenas um borrão de luzes de advertência no retrovisor.

— Você está bem? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada. Ele tinha um sorriso de lado, um ar de quem achava que a vida era uma grande piada, apesar do perigo.

— Eu acabei de explodir a mente de um guarda e fugir de uma prisão federal — respondi, tentando controlar minha respiração ofegante. — Estou ótima. Nunca estive melhor.

Ele soltou uma risada curta e genuína.

— Gostei de você. Sarcasmo é a melhor arma contra o apocalipse. Eu sou o Liam.

— Ruby — eu disse, encolhendo-me no banco.

— Bem-vinda ao Expresso da Liberdade, Ruby.

Eu olhei para o banco de trás e percebi que não estávamos sozinhos. Havia um garoto negro de óculos, que parecia estar tentando hackear um satélite em um laptop velho; uma menina loira incrivelmente bonita com um olhar doce; uma garotinha coreana que não devia ter mais de doze anos, mas que segurava uma faca de caça com uma destreza assustadora; e um garoto que parecia estar tentando fazer a menina loira rir, apesar de estarmos sendo caçados.

— Esses são Lucas, Emma, Sayori e Michael — Liam apresentou, fazendo um gesto vago com a mão. — O fã-clube oficial dos fugitivos.

— Oi — disse Emma com um sorriso pequeno e gentil. — Que bom que você conseguiu sair.

— É — resmungou Sayori, sem largar a faca. — Mais uma boca para alimentar.

— Ignora ela — Michael interveio, piscando para mim. — Ela é um amendoim azedo, mas a gente ama ela. E aí, Emma, já te contei aquela sobre o guarda e o donut?

Liam revirou os olhos, mas havia um brilho de afeto ali. Ele parecia carregar o peso do mundo nos ombros, escondido sob aquela fachada de garoto charmoso e despreocupado. Eu senti uma pontada de curiosidade — o que ele estava escondendo? O que havia por trás daqueles olhos azuis que pareciam ter visto coisas demais para alguém de dezoito anos?

— Para onde estamos indo? — perguntei, abraçando meus próprios joelhos.

— Para o único lugar onde não vão nos colocar em caixas — Liam respondeu, e sua voz perdeu um pouco da brincadeira. — Existe um refúgio. Um lugar para gente como nós.

— E você confia nisso? — perguntei, sentindo o cinismo de Thurmond ainda impregnado em meus ossos.

Liam olhou para mim pelo espelho.

— Eu não confio em muita coisa, Ruby. Mas confio neles — ele gesticulou para o grupo no banco de trás. — E, por algum motivo, acho que posso confiar em você.

Eu queria acreditar nele. Queria acreditar que tinha encontrado uma família, um lar, uma saída. Mas enquanto a van seguia pela estrada escura, eu sentia a energia laranja vibrando em minhas mãos.

Eu era perigosa. Eu era uma bomba-relógio. E em um mundo onde as crianças morriam ou se tornavam monstros, eu sabia que a segurança era uma ilusão que eu não podia me dar ao luxo de ter. Eu não podia confiar neles. Eu não podia confiar em Liam.

E, acima de tudo, eu não podia confiar em mim mesma.

— Não tenha tanta certeza — sussurrei, mas o som do motor abafou minhas palavras, levando-nos em direção ao desconhecido.
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