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1 curtida
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Fandom: É a realidade
Criado: 21/03/2026
Tags
DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoRealismoEstudo de PersonagemTranstornos AlimentaresAutomutilaçãoTentativa de SuicídioUso de DrogasRomanceHistória DomésticaDismorfia CorporalSombrio
O Silêncio de Vidro e o Peso do Sangue
**Clara**
O silêncio daquela casa em Portugal era ensurdecedor. Meus colegas de treino tinham saído para o mercado, outros para uma última corrida leve antes do campeonato. Faltavam quatro dias. Quatro dias para eu subir no ringue e ser julgada por cada grama de gordura que eu ainda sentia sob a pele, por cada movimento que meu mestre, Bruno, observava com aqueles olhos verdes que pareciam ler minha alma e meu corpo de uma forma que me deixava tonta.
Eu me olhei no espelho do banheiro. Meus cachos pretos com as mechas vermelhas estavam bagunçados. Eu me sentia imensa, um monstro de carne que não merecia o espaço que ocupava. A paranoia com a comida tinha voltado com força total na última semana; cada caloria parecia um pecado mortal. Eu queria sumir. Não era apenas uma vontade passageira; era uma necessidade de silenciar as vozes que gritavam que eu nunca seria boa o suficiente, que eu era apenas um objeto de desejo para garotos como o Tiago, da academia, para quem eu tinha me exposto na semana passada só para sentir que alguém me olhava com algo além de pena. Bruno descobriu, eu vi o brilho de raiva e algo mais em seus olhos, mas não falamos sobre isso.
A dor física era a única coisa que calava a mente. Começou com os comprimidos. Um, dois, cinco, dez... perdi a conta de quantos relaxantes e analgésicos engoli. Depois, a lâmina.
— Só para parar o barulho — sussurrei para o meu reflexo.
O primeiro corte no braço foi como abrir uma válvula de escape. O sangue quente começou a escorrer, um contraste vívido com a minha pele branca. Mas não foi o suficiente. Cortei as coxas, a barriga, em um frenesi de ódio e alívio. Eu queria rasgar a imagem de "menina prodígio do kickboxing" e revelar o rastro de destruição que eu era por dentro. A dor, porém, veio mais forte do que o esperado. Um grito agudo escapou da minha garganta quando a lâmina afundou mais fundo na coxa.
— Droga... — eu solucei, caindo sentada no chão frio do banheiro, o sangue sujando os azulejos brancos.
**Bruno**
Esqueci o protetor bucal da equipe na mesa da cozinha. Voltei sozinho, deixando os outros no centro da vila. Assim que abri a porta da frente, o silêncio da casa foi quebrado por um som que fez meu sangue gelar. Um grito. Abafado, mas carregado de uma agonia que eu reconheceria em qualquer lugar.
— Clara? — chamei, já correndo em direção ao corredor dos quartos.
A porta do banheiro estava trancada.
— Clara, abre essa porta agora! — bati com força. Nada. Apenas o som de respiração falha e algo batendo no chão. — Clara!
Não esperei. Lembrei-me da chave reserva que o proprietário havia deixado no quadro da entrada. Corri, peguei-a e, em segundos, a porta se abriu. O cheiro de ferro e remédios me atingiu como um soco.
— Meu Deus... menina, o que você fez?
Clara estava no chão, um rastro de sangue ao redor dela. Seus olhos castanhos estavam dilatados, vidrados. Ela segurava a lâmina com força. Quando me viu, ela tentou se afastar, arrastando-se para o canto, deixando um rastro vermelho atrás de si.
— Sai daqui! — ela gritou, a voz falhando. — Me deixa em paz! Eu só quero sumir!
**Clara**
Ele era tão grande. A figura do Bruno preenchia todo o vão da porta, os músculos dos braços tensos, a barba rala e os olhos verdes transbordando uma mistura de pânico e autoridade. Eu tive medo. Ele era o mestre, o homem que me ensinou a bater, que poderia me quebrar com uma mão se quisesse. Mas, ao mesmo tempo, vê-lo ali me trouxe uma vontade desesperada de ser carregada, de ser protegida da minha própria mente.
— Você precisa vomitar, Clara. Quantos você tomou? — Ele se aproximou, e eu me bati contra a parede, balançando a cabeça.
— Não! Me deixa! Eu não quero ficar aqui! — Eu me debati quando ele tentou segurar meus pulsos. A força dele era esmagadora, mas ele me segurava com uma delicadeza que me fazia chorar ainda mais.
— Clara, olha para mim — ele ordenou, a voz grave vibrando no meu peito. — Você vai vomitar esses remédios agora. Ou eu te levo para o hospital e sua carreira acaba hoje. Escolha.
Eu solucei, perdendo as forças. Ele me puxou para o vaso sanitário. O processo foi humilhante, doloroso. Ele segurou meu cabelo, massageando minhas costas enquanto eu expelia tudo o que tinha ingerido. Eu chorava de forma desesperada, um choro que vinha do fundo de dez anos de automutilação.
— Isso, coloca para fora — ele murmurava, o tom de voz agora mais calmo, embora eu pudesse sentir seu coração batendo forte quando ele me puxou para perto da pia.
Ele pegou uma toalha limpa e começou a molhar. Eu tremia tanto que meus dentes batiam.
— Vai arder — avisou ele, ajoelhando-se entre minhas pernas no chão do banheiro.
Quando a toalha úmida tocou os cortes no meu braço, eu soltei um ganido de dor e tentei puxar o membro de volta.
— Shhh... fica parada. Eu estou aqui.
Ele limpava cada corte com uma precisão cirúrgica. Seus olhos verdes estavam fixos na tarefa, mas vi uma lágrima solitária cair sobre sua barba. Ele sentia empatia. Ele não estava com raiva por causa do treino perdido, ele estava sofrendo por mim. Aquilo acabou com minhas últimas defesas. Eu me inclinei para frente e escondi o rosto no ombro dele, soluçando até que minha garganta ardesse. Bruno me abraçou com força, seus braços musculosos me envolvendo como uma armadura.
— Por que, Clara? Por que tanta dor? — ele sussurrou contra meu cabelo.
— Eu sou pesada... eu sou errada... as vozes não param... — eu balbuciei, sentindo o efeito dos remédios que sobraram no meu organismo começar a me apagar.
Meus olhos pesaram. O mundo começou a girar. A última coisa que senti foi ele me pegando no colo, como se eu não pesasse absolutamente nada, e me tirando daquele cenário de horror.
**Bruno**
Ela desmaiou nos meus braços. O corpo de Clara, geralmente tão forte e ágil no tatame, parecia frágil como vidro quebrado. Eu a levei para o quarto dela, colocando-a cuidadosamente sobre a cama. Peguei o kit de primeiros socorros e terminei de limpar os cortes. Ver as marcas antigas misturadas às novas partiu algo dentro de mim. Dez anos. Ela lutava contra isso desde os seis anos de idade. Como eu não percebi a profundidade desse abismo?
Eu a observei enquanto ela dormia, o rosto pálido contrastando com os cachos escuros. Ela se expôs para aquele garoto porque queria amor, queria ser vista. E eu... eu a olhava todos os dias com um desejo que tentava esconder sob a máscara de mestre, mas que agora se transformava em uma necessidade visceral de protegê-la.
Fiquei ali por horas, limpando o sangue dela de minhas próprias mãos, até que ela começou a se mexer.
**Clara**
Acordei com a luz fraca da tarde entrando pela janela. Minha mente estava nublada, mas o peso no meu corpo era diferente. Eu estava enfaixada. Braços, coxas e barriga.
Bruno estava sentado na beira da cama, de costas para mim, mas virou-se assim que ouvi o lençol farfalhar. Ele se posicionou de frente para mim, enquanto eu me sentava devagar, ficando meio na diagonal, sem coragem de encará-lo de frente.
— Você me deu o maior susto da minha vida — disse ele, a voz rouca.
Eu mudei minha posição, sentando em "perninha de índio", puxando o cobertor para cobrir minhas pernas enfaixadas. Finalmente olhei para ele.
— Eu só queria que o barulho parasse, Mestre. As vozes dizem que eu sou um fracasso, que eu devia sumir. Elas falam sobre o meu peso, sobre como eu nunca serei boa o suficiente para o Kickboxing ou para... para qualquer pessoa.
Minha voz começou a falhar. Senti o início de uma crise. Meu pescoço começou a dar espasmos, tiques involuntários que sempre vinham quando o desespero voltava.
— Ei, olha para mim — Bruno disse, aproximando-se. Ele estendeu a mão e segurou meu queixo com firmeza, mas com uma doçura que me paralisou. — Você não é um fracasso. Você é a garota mais forte que eu já conheci, e não estou falando de socos ou chutes. Estou falando de carregar esse fardo por tanto tempo e ainda estar de pé.
Os tiques diminuíram enquanto ele falava. Ele deslizou a mão do meu queixo para a minha bochecha.
— Eu não quero que você suma. O mundo ficaria muito mais escuro sem você. Eu ficaria sem chão.
— Você viu o que eu fiz... — eu sussurrei, as lágrimas voltando. — Eu sou toda marcada. Eu sou feia.
— Você é linda, Clara. — A mão dele desceu lentamente pelo meu pescoço e pousou na minha coxa, na parte interna, um pouco acima de onde as faixas terminavam. O toque era quente, possessivo e protetor ao mesmo tempo. — Cada marca dessas é uma batalha que você sobreviveu. Mas agora, você não vai mais lutar sozinha.
O toque dele na minha coxa fez meu coração disparar, mas não de medo. Era uma eletricidade que me ancorava no presente. Eu me senti vista, não como um objeto, mas como alguém que merecia ser cuidada.
— Fica comigo? — pedi, a voz quase inaudível. — Não me deixa sozinha agora.
Ele não hesitou. Bruno contornou a cama e deitou-se atrás de mim. Eu me encaixei no corpo dele, sentindo seus músculos firmes contra minhas costas. Ele me puxou para uma "conchinha" apertada, uma mão repousando sobre as minhas no meu peito, a outra acariciando meu braço por cima das faixas.
— Eu não vou a lugar nenhum — ele prometeu.
Enquanto ele fazia carinho no meu braço, o ritmo lento de sua respiração começou a me acalmar. O silêncio da casa não era mais ensurdecedor; era preenchido pela presença dele. Pela primeira vez em dez anos, o barulho na minha mente silenciou, não por causa da dor ou do sangue, mas porque, naquele momento, eu me senti segura o suficiente para simplesmente existir. E, sob o toque cuidadoso do meu mestre, eu finalmente consegui dormir um sono sem fantasmas.
O silêncio daquela casa em Portugal era ensurdecedor. Meus colegas de treino tinham saído para o mercado, outros para uma última corrida leve antes do campeonato. Faltavam quatro dias. Quatro dias para eu subir no ringue e ser julgada por cada grama de gordura que eu ainda sentia sob a pele, por cada movimento que meu mestre, Bruno, observava com aqueles olhos verdes que pareciam ler minha alma e meu corpo de uma forma que me deixava tonta.
Eu me olhei no espelho do banheiro. Meus cachos pretos com as mechas vermelhas estavam bagunçados. Eu me sentia imensa, um monstro de carne que não merecia o espaço que ocupava. A paranoia com a comida tinha voltado com força total na última semana; cada caloria parecia um pecado mortal. Eu queria sumir. Não era apenas uma vontade passageira; era uma necessidade de silenciar as vozes que gritavam que eu nunca seria boa o suficiente, que eu era apenas um objeto de desejo para garotos como o Tiago, da academia, para quem eu tinha me exposto na semana passada só para sentir que alguém me olhava com algo além de pena. Bruno descobriu, eu vi o brilho de raiva e algo mais em seus olhos, mas não falamos sobre isso.
A dor física era a única coisa que calava a mente. Começou com os comprimidos. Um, dois, cinco, dez... perdi a conta de quantos relaxantes e analgésicos engoli. Depois, a lâmina.
— Só para parar o barulho — sussurrei para o meu reflexo.
O primeiro corte no braço foi como abrir uma válvula de escape. O sangue quente começou a escorrer, um contraste vívido com a minha pele branca. Mas não foi o suficiente. Cortei as coxas, a barriga, em um frenesi de ódio e alívio. Eu queria rasgar a imagem de "menina prodígio do kickboxing" e revelar o rastro de destruição que eu era por dentro. A dor, porém, veio mais forte do que o esperado. Um grito agudo escapou da minha garganta quando a lâmina afundou mais fundo na coxa.
— Droga... — eu solucei, caindo sentada no chão frio do banheiro, o sangue sujando os azulejos brancos.
**Bruno**
Esqueci o protetor bucal da equipe na mesa da cozinha. Voltei sozinho, deixando os outros no centro da vila. Assim que abri a porta da frente, o silêncio da casa foi quebrado por um som que fez meu sangue gelar. Um grito. Abafado, mas carregado de uma agonia que eu reconheceria em qualquer lugar.
— Clara? — chamei, já correndo em direção ao corredor dos quartos.
A porta do banheiro estava trancada.
— Clara, abre essa porta agora! — bati com força. Nada. Apenas o som de respiração falha e algo batendo no chão. — Clara!
Não esperei. Lembrei-me da chave reserva que o proprietário havia deixado no quadro da entrada. Corri, peguei-a e, em segundos, a porta se abriu. O cheiro de ferro e remédios me atingiu como um soco.
— Meu Deus... menina, o que você fez?
Clara estava no chão, um rastro de sangue ao redor dela. Seus olhos castanhos estavam dilatados, vidrados. Ela segurava a lâmina com força. Quando me viu, ela tentou se afastar, arrastando-se para o canto, deixando um rastro vermelho atrás de si.
— Sai daqui! — ela gritou, a voz falhando. — Me deixa em paz! Eu só quero sumir!
**Clara**
Ele era tão grande. A figura do Bruno preenchia todo o vão da porta, os músculos dos braços tensos, a barba rala e os olhos verdes transbordando uma mistura de pânico e autoridade. Eu tive medo. Ele era o mestre, o homem que me ensinou a bater, que poderia me quebrar com uma mão se quisesse. Mas, ao mesmo tempo, vê-lo ali me trouxe uma vontade desesperada de ser carregada, de ser protegida da minha própria mente.
— Você precisa vomitar, Clara. Quantos você tomou? — Ele se aproximou, e eu me bati contra a parede, balançando a cabeça.
— Não! Me deixa! Eu não quero ficar aqui! — Eu me debati quando ele tentou segurar meus pulsos. A força dele era esmagadora, mas ele me segurava com uma delicadeza que me fazia chorar ainda mais.
— Clara, olha para mim — ele ordenou, a voz grave vibrando no meu peito. — Você vai vomitar esses remédios agora. Ou eu te levo para o hospital e sua carreira acaba hoje. Escolha.
Eu solucei, perdendo as forças. Ele me puxou para o vaso sanitário. O processo foi humilhante, doloroso. Ele segurou meu cabelo, massageando minhas costas enquanto eu expelia tudo o que tinha ingerido. Eu chorava de forma desesperada, um choro que vinha do fundo de dez anos de automutilação.
— Isso, coloca para fora — ele murmurava, o tom de voz agora mais calmo, embora eu pudesse sentir seu coração batendo forte quando ele me puxou para perto da pia.
Ele pegou uma toalha limpa e começou a molhar. Eu tremia tanto que meus dentes batiam.
— Vai arder — avisou ele, ajoelhando-se entre minhas pernas no chão do banheiro.
Quando a toalha úmida tocou os cortes no meu braço, eu soltei um ganido de dor e tentei puxar o membro de volta.
— Shhh... fica parada. Eu estou aqui.
Ele limpava cada corte com uma precisão cirúrgica. Seus olhos verdes estavam fixos na tarefa, mas vi uma lágrima solitária cair sobre sua barba. Ele sentia empatia. Ele não estava com raiva por causa do treino perdido, ele estava sofrendo por mim. Aquilo acabou com minhas últimas defesas. Eu me inclinei para frente e escondi o rosto no ombro dele, soluçando até que minha garganta ardesse. Bruno me abraçou com força, seus braços musculosos me envolvendo como uma armadura.
— Por que, Clara? Por que tanta dor? — ele sussurrou contra meu cabelo.
— Eu sou pesada... eu sou errada... as vozes não param... — eu balbuciei, sentindo o efeito dos remédios que sobraram no meu organismo começar a me apagar.
Meus olhos pesaram. O mundo começou a girar. A última coisa que senti foi ele me pegando no colo, como se eu não pesasse absolutamente nada, e me tirando daquele cenário de horror.
**Bruno**
Ela desmaiou nos meus braços. O corpo de Clara, geralmente tão forte e ágil no tatame, parecia frágil como vidro quebrado. Eu a levei para o quarto dela, colocando-a cuidadosamente sobre a cama. Peguei o kit de primeiros socorros e terminei de limpar os cortes. Ver as marcas antigas misturadas às novas partiu algo dentro de mim. Dez anos. Ela lutava contra isso desde os seis anos de idade. Como eu não percebi a profundidade desse abismo?
Eu a observei enquanto ela dormia, o rosto pálido contrastando com os cachos escuros. Ela se expôs para aquele garoto porque queria amor, queria ser vista. E eu... eu a olhava todos os dias com um desejo que tentava esconder sob a máscara de mestre, mas que agora se transformava em uma necessidade visceral de protegê-la.
Fiquei ali por horas, limpando o sangue dela de minhas próprias mãos, até que ela começou a se mexer.
**Clara**
Acordei com a luz fraca da tarde entrando pela janela. Minha mente estava nublada, mas o peso no meu corpo era diferente. Eu estava enfaixada. Braços, coxas e barriga.
Bruno estava sentado na beira da cama, de costas para mim, mas virou-se assim que ouvi o lençol farfalhar. Ele se posicionou de frente para mim, enquanto eu me sentava devagar, ficando meio na diagonal, sem coragem de encará-lo de frente.
— Você me deu o maior susto da minha vida — disse ele, a voz rouca.
Eu mudei minha posição, sentando em "perninha de índio", puxando o cobertor para cobrir minhas pernas enfaixadas. Finalmente olhei para ele.
— Eu só queria que o barulho parasse, Mestre. As vozes dizem que eu sou um fracasso, que eu devia sumir. Elas falam sobre o meu peso, sobre como eu nunca serei boa o suficiente para o Kickboxing ou para... para qualquer pessoa.
Minha voz começou a falhar. Senti o início de uma crise. Meu pescoço começou a dar espasmos, tiques involuntários que sempre vinham quando o desespero voltava.
— Ei, olha para mim — Bruno disse, aproximando-se. Ele estendeu a mão e segurou meu queixo com firmeza, mas com uma doçura que me paralisou. — Você não é um fracasso. Você é a garota mais forte que eu já conheci, e não estou falando de socos ou chutes. Estou falando de carregar esse fardo por tanto tempo e ainda estar de pé.
Os tiques diminuíram enquanto ele falava. Ele deslizou a mão do meu queixo para a minha bochecha.
— Eu não quero que você suma. O mundo ficaria muito mais escuro sem você. Eu ficaria sem chão.
— Você viu o que eu fiz... — eu sussurrei, as lágrimas voltando. — Eu sou toda marcada. Eu sou feia.
— Você é linda, Clara. — A mão dele desceu lentamente pelo meu pescoço e pousou na minha coxa, na parte interna, um pouco acima de onde as faixas terminavam. O toque era quente, possessivo e protetor ao mesmo tempo. — Cada marca dessas é uma batalha que você sobreviveu. Mas agora, você não vai mais lutar sozinha.
O toque dele na minha coxa fez meu coração disparar, mas não de medo. Era uma eletricidade que me ancorava no presente. Eu me senti vista, não como um objeto, mas como alguém que merecia ser cuidada.
— Fica comigo? — pedi, a voz quase inaudível. — Não me deixa sozinha agora.
Ele não hesitou. Bruno contornou a cama e deitou-se atrás de mim. Eu me encaixei no corpo dele, sentindo seus músculos firmes contra minhas costas. Ele me puxou para uma "conchinha" apertada, uma mão repousando sobre as minhas no meu peito, a outra acariciando meu braço por cima das faixas.
— Eu não vou a lugar nenhum — ele prometeu.
Enquanto ele fazia carinho no meu braço, o ritmo lento de sua respiração começou a me acalmar. O silêncio da casa não era mais ensurdecedor; era preenchido pela presença dele. Pela primeira vez em dez anos, o barulho na minha mente silenciou, não por causa da dor ou do sangue, mas porque, naquele momento, eu me senti segura o suficiente para simplesmente existir. E, sob o toque cuidadoso do meu mestre, eu finalmente consegui dormir um sono sem fantasmas.
