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E se fosse outra pessoa

Fandom: Pursuit of Jade

Criado: 06/04/2026

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O Corte do Destino e a Sombra do Príncipe

O vilarejo de Qingshan, usualmente mergulhado no aroma de ervas silvestres e no som rítmico do riacho, estava agora sufocado pelo cheiro metálico de sangue e pela fumaça negra que subia das cabanas incendiadas. O caos havia chegado sem aviso, sob o som de cascos de cavalos que martelavam o solo seco como trovões de um apocalipse iminente.

Fan Changyu apertou o cabo de seu cutelo de açougueira com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ela não era uma dama de seda e poesia; suas mãos eram calejadas pelo trabalho duro, e seu coração, embora gentil com os necessitados, era feito de ferro quando se tratava de proteger os seus. Atrás dela, encolhida entre os cestos de vime da cozinha, estava Changning. A menina tremia, os olhos arregalados de terror, segurando a barra da túnica de Changyu.

— Fique atrás de mim, Ning’er — sussurrou Changyu, sua voz firme apesar do suor que escorria por sua têmpora. — Não importa o que aconteça, não saia do meu lado.

— Irmã... são os soldados da capital? — a voz de Changning falhou. — Eles estão procurando por Yan Zheng?

Changyu sentiu um aperto no peito ao ouvir o nome do marido. Para ela, ele era Yan Zheng, o homem que ela resgatara e com quem construíra uma vida simples, sem saber que ele era, na verdade, o Marquês Xie Zheng. Para os invasores lá fora, ela e a menina eram apenas peças de um tabuleiro de xadrez sangrento: a esposa e a filha do inimigo.

A porta da cabana foi escancarada com um estrondo. A luz do sol poente inundou o recinto, silhuetando uma figura alta e elegante que contrastava violentamente com a brutalidade dos soldados ao seu redor.

Sui Yuanqing entrou no recinto com a graça de um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. Suas vestes de seda fina, em tons de azul profundo e prata, não tinham um único respingo de lama, apesar do massacre que ocorria do lado de fora. Ele carregava um sorriso leve, quase entediado, mas seus olhos brilhavam com uma malícia afiada.

— Então, é aqui que o grande Marquês Xie esconde seus tesouros mais preciosos? — A voz de Yuanqing era melodiosa, mas carregava um veneno sutil. — Uma açougueira de vilarejo e uma criança. Devo admitir, o gosto dele por simplicidade é... fascinante.

Changyu deu um passo à frente, brandindo o cutelo. Sua postura era defensiva, mas agressiva. Ela não parecia uma camponesa indefesa; parecia uma leoa protegendo a cria.

— Saia da minha casa — sibilou ela, os olhos em chamas. — Não sei quem você é, nem o que quer com o meu marido, mas se der mais um passo, eu vou te retalhar como faço com os porcos no mercado.

Yuanqing parou, ligeiramente surpreso. Ele inclinou a cabeça para o lado, observando Changyu com um interesse renovado. Ele esperava súplicas, lágrimas, talvez um desmaio dramático. Em vez disso, encontrou uma mulher que o olhava nos olhos com um ódio palpável e uma arma na mão.

— Que temperamento fascinante — disse ele, dando um passo lento para o lado, circulando-as. — Você é Fan Changyu, não é? A mulher que transformou um leão em um gatinho doméstico. E a pequena... Changning. Dizem que ela é a filha dele.

— Ela é minha irmã! — corrigiu Changyu, a voz ríspida. — E Yan Zheng é apenas um homem comum. Você está cometendo um erro.

Yuanqing soltou uma risada curta e seca, um som que fez os pelos do braço de Changyu se arrepiarem.

— Erro? Não, minha cara. Eu não cometo erros. O homem que você chama de Yan Zheng é Xie Zheng, o homem que destruiu os planos da minha família. E se ele valoriza você o suficiente para se esconder neste buraco infestado de moscas, então você é exatamente o que eu preciso para trazê-lo até mim.

Ele fez um sinal casual com a mão para os guardas atrás dele.

— Peguem-nas. Tentem não estragar muito o rosto da moça. Ela tem uma vivacidade que eu gostaria de estudar mais de perto.

— Não encostem nela! — gritou Changyu.

Quando o primeiro guarda avançou, Changyu não hesitou. Com um movimento fluido e preciso, fruto de anos cortando carcaças pesadas, ela girou o cutelo. O metal brilhou no ar e atingiu o braço do soldado com um impacto surdo. O homem urrou de dor, recuando enquanto o sangue manchava sua armadura.

Yuanqing arqueou uma sobrancelha, visivelmente impressionado.

— Oh? Ela morde.

— Eu vou fazer mais do que morder se você não nos deixar em paz! — Changyu avançou, tentando abrir caminho para a porta, empurrando Changning para frente.

No entanto, a superioridade numérica era esmagadora. Antes que ela pudesse atingir um segundo soldado, um golpe pesado de uma bainha de espada atingiu seu pulso, fazendo o cutelo voar longe e tilintar no chão de terra batida. Dois guardas a agarraram pelos braços, prendendo-a contra a parede. Outro pegou Changning, que começou a chorar desesperadamente.

— Solte ela! — Changyu lutava, chutando e se contorcendo, sua força surpreendendo os homens que a seguravam. — Sua aberração de seda! Enfrente-me você mesmo!

Yuanqing aproximou-se dela, ignorando os insultos. Ele parou a poucos centímetros do rosto de Changyu, sentindo o calor da respiração ofegante dela. Ele estendeu a mão e, com as pontas dos dedos, tocou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.

— Você tem olhos lindos quando está com raiva — comentou ele em um tom quase íntimo. — Tanta força em um corpo tão pequeno. É uma pena que Xie Zheng não esteja aqui para ver como você luta. Ele ficaria orgulhoso... antes de ver você ser levada.

Changyu cuspiu no rosto dele.

O silêncio que se seguiu foi gélido. Os guardas prenderam a respiração, esperando que o príncipe Sui explodisse em fúria. Yuanqing permaneceu imóvel por um momento, o líquido escorrendo por sua bochecha pálida. Lentamente, ele tirou um lenço de seda do bolso e limpou o rosto, seus olhos nunca deixando os dela.

Em vez de raiva, um brilho de excitação perversa surgiu em seu olhar.

— Levem-nas para a carruagem — ordenou ele, sua voz agora baixa e perigosa. — E amarrem bem as mãos dela. Não quero que nossa pequena açougueira tente degolar meus cocheiros durante a viagem.

— Você vai pagar por isso — prometeu Changyu, enquanto era arrastada para fora da cabana. — Yan Zheng vai encontrar você, e eu mesma vou garantir que você não tenha um caixão para ser enterrado.

Yuanqing observou-as serem levadas, um sorriso brincando em seus lábios.

— Yan Zheng não existe, minha querida — murmurou ele para si mesmo. — E quando eu terminar com você, talvez você nem queira que o Marquês Xie a encontre.

***

A viagem até a propriedade fortificada da família Sui foi um borrão de solavancos e o choro abafado de Changning. Changyu passara o tempo todo tentando desamarrar as cordas em seus pulsos, mas os nós eram profissionais e apertados. Ela observava a paisagem mudar através da pequena fresta da carruagem, sentindo o coração afundar à medida que se distanciavam das montanhas familiares.

Quando finalmente chegaram, foram jogadas em uma cela que, embora limpa e provida de camas simples, ainda era uma prisão. As paredes eram de pedra fria e a única janela era uma fresta alta demais para alcançar.

— Irmã... o que vai acontecer com a gente? — Changning perguntou, soluçando em um canto. — Aquele homem... ele é mau. Eu vi o jeito que ele olhou para você.

Changyu sentou-se ao lado da menina, puxando-a para um abraço apertado, apesar das mãos amarradas à frente do corpo.

— Ele é apenas um covarde que se esconde atrás de soldados, Ning’er. Yan Zheng vai nos encontrar. Ele prometeu que sempre voltaria para casa.

Mas, no fundo de sua mente, as palavras de Yuanqing ecoavam: *Yan Zheng não existe.* Quem era o homem com quem ela se casara? O que ele estava escondendo?

A porta da cela se abriu horas depois, rangendo nos eixos de ferro. Não era um guarda trazendo comida, mas o próprio Sui Yuanqing. Ele trazia uma bandeja com frutas e um bule de chá, agindo como se estivesse visitando convidados em um salão de festas, e não prisioneiras em uma masmorra.

— Pensei que estariam com fome — disse ele, colocando a bandeja sobre uma mesa rústica. — A culinária da capital é muito superior àquela lama que vocês comem no campo. Experimente.

Changyu não se moveu.

— O que você quer, Sui Yuanqing? Se é dinheiro, Yan Zheng não tem nada. Se é poder, você está perdendo seu tempo com a gente.

Yuanqing sentou-se em uma cadeira em frente a ela, cruzando as pernas de forma elegante.

— Eu quero ver até onde a lealdade de uma mulher pode ir antes de quebrar. E quero ver a cara de Xie Zheng quando ele perceber que a "esposa" dele está sob meus cuidados.

— Ele é Yan Zheng — insistiu ela, a voz falhando ligeiramente.

— Ele mentiu para você, Changyu — disse Yuanqing, inclinando-se para frente, a voz suave e manipuladora. — Ele é o Marquês de ferro, um homem que enviou milhares para a morte. Ele usou o seu vilarejo como um esconderijo e usou você como um disfarce. Você acha que ele realmente ama uma açougueira? Ou você foi apenas uma conveniência para ele manter a cabeça sobre os ombros?

— Cala a boca! — Changyu levantou-se, a fúria superando o medo. — Você não sabe nada sobre ele! Ele é bom, ele é gentil...

— Ele é um mentiroso — interrompeu Yuanqing, levantando-se também. Ele caminhou até ela, a diferença de altura tornando-o imponente. — Mas eu... eu sou honesto sobre minhas intenções. Eu quero destruir ele. E você é a ferramenta perfeita.

Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo desalinhado de Changyu. Ela tentou recuar, mas as costas bateram na parede de pedra.

— Sabe o que é mais engraçado? — sussurrou ele, o rosto a centímetros do dela. — Eu esperava encontrar uma camponesa chorosa. Mas encontrei algo muito mais... interessante. Você tem fogo, Fan Changyu. E eu sempre gostei de brincar com o fogo.

Changyu olhou fixamente nos olhos escuros dele. Ela viu a loucura ali, mas também uma solidão distorcida e uma curiosidade quase infantil.

— Se você brincar comigo — disse ela, sua voz soando como o fio de uma navalha —, você vai acabar se queimando. Eu não sou uma ferramenta. Eu sou a mulher que vai ver você cair.

Yuanqing soltou uma risada genuína, um som que ecoou pelas paredes da cela.

— Maravilhoso! — exclamou ele. — Por favor, continue me odiando. Isso torna tudo muito mais divertido.

Ele se virou para sair, mas parou na porta, olhando por cima do ombro.

— Coma a comida. Amanhã começaremos as "negociações" com o seu marido. E Changyu... tente não morrer de fome. Eu odiaria perder minha nova diversão tão cedo.

A porta se fechou e o som da tranca ecoou como um veredito. Changyu desabou no chão, as pernas tremendo. Ela olhou para Changning, que a observava com pavor.

— Ele está mentindo, Ning’er — disse Changyu, embora a semente da dúvida tivesse sido plantada. — Yan Zheng é quem ele diz ser. Ele tem que ser.

No entanto, enquanto ela olhava para as próprias mãos calejadas, pensou na elegância fria de Sui Yuanqing e na autoridade natural de Yan Zheng. O mundo que ela conhecia estava desmoronando, e ela estava presa no centro de uma tempestade entre dois homens poderosos.

Ela pegou uma maçã da bandeja, não porque estivesse com fome, mas porque precisava de forças. Se Sui Yuanqing queria uma luta, ela daria a ele uma que ele jamais esqueceria. Ela era Fan Changyu, a açougueira de Qingshan, e ninguém, nem mesmo um príncipe da família Sui, a manteria enjaulada por muito tempo.

Do lado de fora da cela, Sui Yuanqing permanecia encostado na parede, um sorriso ainda brincando em seus lábios. Ele tocou a bochecha onde o cuspe dela havia caído. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentia algo além de tédio. Aquela mulher era um enigma, uma mistura de doçura camponesa e ferocidade selvagem.

— Xie Zheng... — murmurou ele para o corredor vazio. — Você realmente encontrou um tesouro. É uma pena que eu pretenda roubá-lo para mim.

A química entre o captor e a prisioneira era um campo minado de tensão e ódio, mas sob a superfície, uma curiosidade perigosa começava a florescer. O jogo estava apenas começando, e as peças estavam dispostas de uma forma que nenhum deles poderia prever. O destino de Qingshan, do Marquês e da família Sui agora dependia da força de uma mulher que sabia manejar um cutelo tão bem quanto os homens manejavam espadas. E Fan Changyu estava pronta para cortar qualquer um que ficasse em seu caminho.
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