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Há coragem em amor
Fandom: Não tem
Criado: 10/04/2026
Tags
Fatias de VidaDramaHistória DomésticaEstudo de PersonagemRealismoRomanceCiúmes
O Som das Batidas e o Silêncio do Café
O despertador nem precisou insistir. Às 04:30 da manhã, o visor do celular iluminou o quarto ainda mergulhado na penumbra, mas eu já estava com os olhos abertos, encarando o teto. Havia algo de sagrado no silêncio da madrugada, um momento curto em que o mundo não exigia nada de mim além de existir. Suspirei, sentindo o peso do meu corpo — meus 1,80m de altura e a estrutura firme que eu cultivava com esforço — afundar levemente no colchão antes de finalmente me levantar.
O banho foi rápido, a água morna servindo como um abraço de boas-vindas ao novo ano letivo. Ao sair, encarei o espelho embaçado. Sequei o rosto, revelando as sardas marrons que pontilhavam minha pele caramelo, e levei as mãos à cabeça. Retirei a touca de cetim com cuidado, sentindo meus cachos castanhos e longos ganharem liberdade, caindo pesados sobre meus ombros.
Vesti meu uniforme de guerra: uma calça larga de sarja, uma camiseta oversized preta e meus tênis de cano alto. Eu gostava do conforto das roupas masculinas; elas me davam a mobilidade que minha rotina exigia. No corredor, o silêncio ainda reinava, mas eu sabia que era por pouco tempo.
Na cozinha, o ritual começou. Quebrei os ovos na frigideira com a precisão de quem faz isso há anos. Cortei as frutas — mamão, banana e maçã — em cubos perfeitos e despejei o suco de laranja natural nas jarras. Sem açúcar, como todos já estavam acostumados. Eu era a espinha dorsal daquela casa, e garantir que todos estivessem bem alimentados era minha forma silenciosa de dizer "eu amo vocês".
— Vivi, você viu meu tênis de futsal? — A voz de Lucas quebrou o encanto matinal.
Ele e Luara, os gêmeos de quinze anos, entraram na cozinha já em pé de guerra. Ambos tinham a mesma energia caótica, embora Luara fosse mais focada em estética e Lucas em esportes.
— No mesmo lugar de sempre, Lucas. Debaixo do banco do corredor — respondi, sem tirar os olhos dos ovos mexidos.
— Ele pegou meu gloss, Vivi! — Luara protestou, puxando a mochila do irmão.
— Eu não peguei nada, garota! Estava procurando minha meia! — Lucas rebateu, a voz engrossando pela puberdade.
— Parem os dois. Sentem e comam — ordenei, e o tom firme na minha voz foi o suficiente para que eles se acomodassem, embora ainda trocassem olhares mortais.
Logo, o restante do batalhão apareceu. Gabriel, aos quatorze anos, tateava o balcão da cozinha com os olhos semicerrados. Ele era o mais intelectual, mas perdia os óculos até dormindo.
— Aqui, Biel — disse, entregando a armação preta em suas mãos. — Estavam perto da fruteira.
— Obrigado, Vivi. Você é um anjo.
Alice, com seus oito anos e uma energia radiante, puxou a barra da minha camiseta.
— Vivi, faz aquela trança embutida? Por favor?
Enquanto eu terminava de montar o prato do Nathan, meu irmão de sete anos, fiz um sinal para Alice sentar no banquinho. Nathan, autista nível 2, estava sentado em seu lugar de costume, observando o movimento das sombras na parede. Ele era o meu porto seguro, o silêncio em meio ao barulho. Coloquei o prato à sua frente e ele me deu um leve sorriso de canto, o que para mim valia mais do que mil palavras.
Davi, de cinco anos, já devorava suas frutas, enquanto Felipe, o caçula de três anos, tentava escalar a cadeira. Felipe era a definição de esperteza; seus olhos brilhavam com cada nova descoberta.
— Lipe, senta direito ou vai cair — avisei, pegando-o no colo e o ajeitando.
A logística para sair de casa era quase militar. Entre conferir mochilas, limpar rostos sujos de ovo e garantir que ninguém esquecesse o lanche, meu coração batia num ritmo frenético, mas controlado. Eu era a capitã desse navio, e ninguém ficaria para trás.
A primeira parada foi a creche do Felipe. Dei um beijo no topo da cabeça dele, sentindo o cheiro de xampu de bebê que ele ainda conservava. Depois, deixei Alice em sua escola, vendo-a correr com suas tranças balançando até encontrar as amigas.
Finalmente, restamos eu, os gêmeos, Gabriel e Nathan. Nathan ficava em uma sala especializada na mesma unidade que a nossa. Quando entramos nos portões da escola estadual, o barulho de centenas de adolescentes conversando ao mesmo tempo me atingiu como uma onda. Os gêmeos e Gabriel mal se despediram, sumindo em direção aos seus respectivos grupos assim que cruzamos o pátio.
Respirei fundo, ajustando a alça da minha mochila. Caminhei pelo corredor principal, sentindo alguns olhares sobre mim. Sei que minha altura e meu estilo chamam atenção, mas eu caminhava com a cabeça erguida.
— Vivi! Aqui! — Larissa acenou, encostada em uma pilastra.
Ao lado dela estavam Diego e Felipe, meus amigos de longa data. Larissa era a expansividade em pessoa, enquanto Diego e Felipe eram mais contidos, mas igualmente leais.
— E aí, preparada para o último ano de tortura? — Diego perguntou, me dando um toque de ombros.
— Só quero sobreviver até dezembro — respondi, esboçando um sorriso cansado. — Como foram as férias de vocês?
— Curtas demais — Felipe reclamou. — Mas pelo menos estamos juntos na mesma sala de novo.
Caminhamos em direção à sala de aula, o burburinho aumentando à medida que nos aproximávamos. Como de costume, seguimos direto para as últimas fileiras. O fundo da sala era o nosso território, o lugar onde podíamos observar tudo sem sermos o centro das atenções.
Eu me acomodei na cadeira de madeira, sentindo o ar fresco que vinha da janela aberta. Tudo parecia estar sob controle. Eu estava relaxada, conversando com Larissa sobre uma série nova, até que a porta da sala se abriu novamente e o clima mudou instantaneamente.
Eu senti antes mesmo de ver. Um arrepio subiu pela minha nuca, um sinal de alerta que meu corpo já conhecia bem.
Cecília entrou na sala.
Ela caminhava com uma confiança que beirava a arrogância, o cabelo loiro perfeitamente alinhado e aquela postura de quem sabe que o mundo gira ao seu redor. Mas o que sempre me desarmava, e ao mesmo tempo me irritava profundamente, eram os olhos dela. Um azul tão intenso que parecia fora de lugar naquele ambiente escolar desgastado.
Ela parou no meio do caminho para falar com alguém, mas, como se sentisse meu olhar queimando em sua direção, ela virou o rosto.
Nossos olhos se cruzaram.
O tempo pareceu esticar. A tensão entre nós era quase palpável, uma corda esticada ao máximo, pronta para romper. Cecília não desviou o olhar; em vez disso, arqueou uma sobrancelha, um brilho de desafio surgindo naquelas íris azuladas.
— Perdeu alguma coisa aqui, Oliveira? — A voz dela, embora baixa, chegou até mim carregada de sarcasmo.
Eu dei um sorriso de lado, aquele sorriso irônico que eu reservava exclusivamente para ela.
— Estava só conferindo se o brilho no seu rosto era suor ou apenas excesso de maquiagem, Cecília. Pelo visto, é o segundo.
Ela trincou os dentes, os olhos faiscando.
— Pelo menos eu me dou ao trabalho de ter um espelho em casa. Você deveria tentar um dia desses, talvez descobrisse que esse estilo "acabei de sair de um brechó masculino" não te favorece tanto.
— Engraçado — retruquei, recostando-me na cadeira e cruzando os braços, sentindo meus bíceps tensionarem sob o tecido da camiseta. — Eu acho que a autenticidade incomoda quem vive de aparência. Mas não se preocupe, eu entendo que deve ser difícil olhar para algo real uma vez na vida.
Cecília deu um passo à frente, as bochechas levemente coradas de raiva, mas antes que ela pudesse disparar a próxima farpa, a figura alta e séria do professor de Literatura surgiu na porta.
— Todos em seus lugares, agora! — ele anunciou, batendo a pasta sobre a mesa.
Cecília sustentou meu olhar por mais um segundo — um segundo longo demais — antes de girar nos calcanhares e marchar para a frente da sala, sentando-se na primeira fileira, o oposto exato de onde eu estava.
— Um dia vocês duas ainda vão sair no soco ou se beijar, não é possível — Larissa sussurrou ao meu lado, segurando o riso.
— Prefiro o soco — murmurei, abrindo meu caderno na primeira página em branco.
O professor começou a falar sobre os planos para o semestre, mas minha mente ainda estava acelerada. Eu sentia o peso da responsabilidade de casa, o cansaço das poucas horas de sono e, agora, aquela irritação familiar que só Cecília conseguia provocar.
Olhei para a nuca dela, lá na frente. O ano mal tinha começado e eu já sabia que aquela trégua forçada pelo início das aulas não duraria muito tempo. A rotina estava de volta, e com ela, todas as minhas batalhas diárias.
Respirei fundo, sentindo o cheiro de giz e papel velho. Era apenas o primeiro dia. Eu tinha que manter o foco. Meus irmãos dependiam de mim, meu futuro dependia de mim, e eu não deixaria uma garota de olhos azuis e língua afiada me tirar do eixo.
Ou, pelo menos, era o que eu tentava dizer a mim mesma enquanto a aula começava.
O banho foi rápido, a água morna servindo como um abraço de boas-vindas ao novo ano letivo. Ao sair, encarei o espelho embaçado. Sequei o rosto, revelando as sardas marrons que pontilhavam minha pele caramelo, e levei as mãos à cabeça. Retirei a touca de cetim com cuidado, sentindo meus cachos castanhos e longos ganharem liberdade, caindo pesados sobre meus ombros.
Vesti meu uniforme de guerra: uma calça larga de sarja, uma camiseta oversized preta e meus tênis de cano alto. Eu gostava do conforto das roupas masculinas; elas me davam a mobilidade que minha rotina exigia. No corredor, o silêncio ainda reinava, mas eu sabia que era por pouco tempo.
Na cozinha, o ritual começou. Quebrei os ovos na frigideira com a precisão de quem faz isso há anos. Cortei as frutas — mamão, banana e maçã — em cubos perfeitos e despejei o suco de laranja natural nas jarras. Sem açúcar, como todos já estavam acostumados. Eu era a espinha dorsal daquela casa, e garantir que todos estivessem bem alimentados era minha forma silenciosa de dizer "eu amo vocês".
— Vivi, você viu meu tênis de futsal? — A voz de Lucas quebrou o encanto matinal.
Ele e Luara, os gêmeos de quinze anos, entraram na cozinha já em pé de guerra. Ambos tinham a mesma energia caótica, embora Luara fosse mais focada em estética e Lucas em esportes.
— No mesmo lugar de sempre, Lucas. Debaixo do banco do corredor — respondi, sem tirar os olhos dos ovos mexidos.
— Ele pegou meu gloss, Vivi! — Luara protestou, puxando a mochila do irmão.
— Eu não peguei nada, garota! Estava procurando minha meia! — Lucas rebateu, a voz engrossando pela puberdade.
— Parem os dois. Sentem e comam — ordenei, e o tom firme na minha voz foi o suficiente para que eles se acomodassem, embora ainda trocassem olhares mortais.
Logo, o restante do batalhão apareceu. Gabriel, aos quatorze anos, tateava o balcão da cozinha com os olhos semicerrados. Ele era o mais intelectual, mas perdia os óculos até dormindo.
— Aqui, Biel — disse, entregando a armação preta em suas mãos. — Estavam perto da fruteira.
— Obrigado, Vivi. Você é um anjo.
Alice, com seus oito anos e uma energia radiante, puxou a barra da minha camiseta.
— Vivi, faz aquela trança embutida? Por favor?
Enquanto eu terminava de montar o prato do Nathan, meu irmão de sete anos, fiz um sinal para Alice sentar no banquinho. Nathan, autista nível 2, estava sentado em seu lugar de costume, observando o movimento das sombras na parede. Ele era o meu porto seguro, o silêncio em meio ao barulho. Coloquei o prato à sua frente e ele me deu um leve sorriso de canto, o que para mim valia mais do que mil palavras.
Davi, de cinco anos, já devorava suas frutas, enquanto Felipe, o caçula de três anos, tentava escalar a cadeira. Felipe era a definição de esperteza; seus olhos brilhavam com cada nova descoberta.
— Lipe, senta direito ou vai cair — avisei, pegando-o no colo e o ajeitando.
A logística para sair de casa era quase militar. Entre conferir mochilas, limpar rostos sujos de ovo e garantir que ninguém esquecesse o lanche, meu coração batia num ritmo frenético, mas controlado. Eu era a capitã desse navio, e ninguém ficaria para trás.
A primeira parada foi a creche do Felipe. Dei um beijo no topo da cabeça dele, sentindo o cheiro de xampu de bebê que ele ainda conservava. Depois, deixei Alice em sua escola, vendo-a correr com suas tranças balançando até encontrar as amigas.
Finalmente, restamos eu, os gêmeos, Gabriel e Nathan. Nathan ficava em uma sala especializada na mesma unidade que a nossa. Quando entramos nos portões da escola estadual, o barulho de centenas de adolescentes conversando ao mesmo tempo me atingiu como uma onda. Os gêmeos e Gabriel mal se despediram, sumindo em direção aos seus respectivos grupos assim que cruzamos o pátio.
Respirei fundo, ajustando a alça da minha mochila. Caminhei pelo corredor principal, sentindo alguns olhares sobre mim. Sei que minha altura e meu estilo chamam atenção, mas eu caminhava com a cabeça erguida.
— Vivi! Aqui! — Larissa acenou, encostada em uma pilastra.
Ao lado dela estavam Diego e Felipe, meus amigos de longa data. Larissa era a expansividade em pessoa, enquanto Diego e Felipe eram mais contidos, mas igualmente leais.
— E aí, preparada para o último ano de tortura? — Diego perguntou, me dando um toque de ombros.
— Só quero sobreviver até dezembro — respondi, esboçando um sorriso cansado. — Como foram as férias de vocês?
— Curtas demais — Felipe reclamou. — Mas pelo menos estamos juntos na mesma sala de novo.
Caminhamos em direção à sala de aula, o burburinho aumentando à medida que nos aproximávamos. Como de costume, seguimos direto para as últimas fileiras. O fundo da sala era o nosso território, o lugar onde podíamos observar tudo sem sermos o centro das atenções.
Eu me acomodei na cadeira de madeira, sentindo o ar fresco que vinha da janela aberta. Tudo parecia estar sob controle. Eu estava relaxada, conversando com Larissa sobre uma série nova, até que a porta da sala se abriu novamente e o clima mudou instantaneamente.
Eu senti antes mesmo de ver. Um arrepio subiu pela minha nuca, um sinal de alerta que meu corpo já conhecia bem.
Cecília entrou na sala.
Ela caminhava com uma confiança que beirava a arrogância, o cabelo loiro perfeitamente alinhado e aquela postura de quem sabe que o mundo gira ao seu redor. Mas o que sempre me desarmava, e ao mesmo tempo me irritava profundamente, eram os olhos dela. Um azul tão intenso que parecia fora de lugar naquele ambiente escolar desgastado.
Ela parou no meio do caminho para falar com alguém, mas, como se sentisse meu olhar queimando em sua direção, ela virou o rosto.
Nossos olhos se cruzaram.
O tempo pareceu esticar. A tensão entre nós era quase palpável, uma corda esticada ao máximo, pronta para romper. Cecília não desviou o olhar; em vez disso, arqueou uma sobrancelha, um brilho de desafio surgindo naquelas íris azuladas.
— Perdeu alguma coisa aqui, Oliveira? — A voz dela, embora baixa, chegou até mim carregada de sarcasmo.
Eu dei um sorriso de lado, aquele sorriso irônico que eu reservava exclusivamente para ela.
— Estava só conferindo se o brilho no seu rosto era suor ou apenas excesso de maquiagem, Cecília. Pelo visto, é o segundo.
Ela trincou os dentes, os olhos faiscando.
— Pelo menos eu me dou ao trabalho de ter um espelho em casa. Você deveria tentar um dia desses, talvez descobrisse que esse estilo "acabei de sair de um brechó masculino" não te favorece tanto.
— Engraçado — retruquei, recostando-me na cadeira e cruzando os braços, sentindo meus bíceps tensionarem sob o tecido da camiseta. — Eu acho que a autenticidade incomoda quem vive de aparência. Mas não se preocupe, eu entendo que deve ser difícil olhar para algo real uma vez na vida.
Cecília deu um passo à frente, as bochechas levemente coradas de raiva, mas antes que ela pudesse disparar a próxima farpa, a figura alta e séria do professor de Literatura surgiu na porta.
— Todos em seus lugares, agora! — ele anunciou, batendo a pasta sobre a mesa.
Cecília sustentou meu olhar por mais um segundo — um segundo longo demais — antes de girar nos calcanhares e marchar para a frente da sala, sentando-se na primeira fileira, o oposto exato de onde eu estava.
— Um dia vocês duas ainda vão sair no soco ou se beijar, não é possível — Larissa sussurrou ao meu lado, segurando o riso.
— Prefiro o soco — murmurei, abrindo meu caderno na primeira página em branco.
O professor começou a falar sobre os planos para o semestre, mas minha mente ainda estava acelerada. Eu sentia o peso da responsabilidade de casa, o cansaço das poucas horas de sono e, agora, aquela irritação familiar que só Cecília conseguia provocar.
Olhei para a nuca dela, lá na frente. O ano mal tinha começado e eu já sabia que aquela trégua forçada pelo início das aulas não duraria muito tempo. A rotina estava de volta, e com ela, todas as minhas batalhas diárias.
Respirei fundo, sentindo o cheiro de giz e papel velho. Era apenas o primeiro dia. Eu tinha que manter o foco. Meus irmãos dependiam de mim, meu futuro dependia de mim, e eu não deixaria uma garota de olhos azuis e língua afiada me tirar do eixo.
Ou, pelo menos, era o que eu tentava dizer a mim mesma enquanto a aula começava.
