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Amor
Фандом: Any
Создан: 18.04.2026
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Teoremas de Berlim e Outras Geometrias
O teto do Centro de Congressos de Berlim parecia excessivamente alto, uma estrutura de aço e vidro que, em dias cinzentos como aquele, refletia a luz pálida do outono alemão. Luana ajeitou os óculos e apertou a alça da pasta de couro contra o corpo. Aos 32 anos, ela já não era a menina que tremia antes de entrar no palco em Goiânia, mas o eco daquela ansiedade ainda vivia em algum lugar entre suas costelas. O crachá no peito dizia seu nome e sua filiação acadêmica, mas não mencionava os quilômetros de reconstrução interna que ela percorrera para chegar ali.
O simpósio sobre "Fronteiras da Neurociência e Inteligência Artificial" estava lotado. Luana se sentou em uma das fileiras laterais, buscando a discrição que seu lado INFJ tanto prezava. Foi quando a viu pela primeira vez.
No palco, uma mulher de postura impecável e cabelos loiros escuros presos em um coque rigoroso apresentava dados sobre neuroplasticidade. Anna Müller falava com uma precisão que beirava o cortante. Não havia "talvez" em seu vocabulário.
— A falha diagnóstica não é apenas um erro de sistema, é uma negligência da lógica — disse Anna, sua voz ecoando com uma autoridade que fez Luana inclinar o corpo para frente, fascinada.
Ao final da palestra, durante o intervalo para o café, Luana se viu impulsionada por uma curiosidade acadêmica que superava sua timidez. Ela se aproximou da mesa de bufê, onde a Dra. Müller examinava uma xícara de café expresso como se estivesse analisando uma amostra de tecido cerebral.
— Sua abordagem sobre a reabilitação sináptica foi brilhante — disse Luana, em inglês, a língua franca que as uniria. — Embora eu discorde da sua premissa de que a lógica pode prever todas as variáveis da dor.
Anna levantou o olhar. Seus olhos verdes eram frios, mas não hostis; eram apenas analíticos. Ela mediu a mulher brasileira à sua frente — pequena, de cabelos cacheados e um olhar que parecia ver além da superfície.
— A dor é um impulso elétrico, senhorita...? — Anna fez uma pausa, lendo o crachá. — Oliveira. Se pudermos mapear o impulso, podemos prever a resposta.
— Sou biomédica — Luana sorriu levemente, sem se deixar intimidar pela rigidez da outra. — E eu lido com os marcadores moleculares dessa dor. Às vezes, o corpo mantém a memória do trauma mesmo quando a lógica diz que a ferida já cicatrizou.
Anna arqueou uma sobrancelha. Antes que pudesse responder, um homem alto, de traços asiáticos e movimentos extremamente contidos, aproximou-se com um tablet em mãos.
— Dra. Müller, desculpe interromper — disse ele, com uma voz suave e rítmica. — Eu sou Kim Min-jun, da equipe de desenvolvimento de IA de Seul. Estava ouvindo o final da sua palestra e acredito que os algoritmos que estamos desenvolvendo para análise preditiva podem oferecer a ponte que vocês duas estão discutindo.
Luana observou Min-jun. Havia algo nele que a fez sentir uma pontada de reconhecimento imediato. Não era algo físico, mas uma aura de "perfeição performada". Ele estava impecável, mas seus olhos pareciam cansados, como se ele estivesse carregando o peso de mil expectativas que não eram suas.
— Inteligência Artificial — murmurou Anna, finalmente bebendo o café. — Útil, se não for viciada por dados subjetivos.
— O código é puro — respondeu Min-jun, com um sorriso educado que não chegava aos olhos. — As pessoas é que são complexas.
O trio permaneceu ali, uma pequena ilha de tensão intelectual no meio do salão barulhento. A conversa, que deveria ser puramente técnica, começou a derivar para os desafios da pesquisa internacional. Luana sentia a eletricidade da mente de Anna e a contenção cuidadosa de Min-jun.
— O problema de Berlim nesta época do ano — uma voz profunda e calma surgiu às costas deles — é que as pessoas esquecem de olhar para o exterior e se trancam demais em definições.
Eles se viraram para encontrar um homem que parecia ter sido esculpido em granito sueco. Lars Andersson era, de longe, o mais alto do grupo. Vestia um suéter de lã cinza sob um blazer casual, exalando uma tranquilidade que destoava da urgência acadêmica do ambiente.
— Lars Andersson — ele se apresentou, estendendo uma mão grande. — Engenharia Ambiental. Estou aqui para o painel de sustentabilidade em infraestrutura médica, mas me perdi e acabei atraído pelo cheiro do café e por essa discussão acalorada.
— Luana Oliveira — ela respondeu, apertando a mão dele. A pele de Lars era quente e o aperto, seguro. — Estávamos tentando decidir se a ciência é capaz de explicar tudo o que sentimos.
Lars soltou uma risada curta e genuína.
— Como engenheiro, eu diria que se você não pode medir, não pode consertar. Mas como alguém que cresceu no meio das florestas, eu sei que há coisas que simplesmente... existem. Sem medição.
— Uma visão pouco científica — comentou Anna, embora houvesse um lampejo de interesse em sua expressão.
— Talvez — Lars deu de ombros, sem se ofender. — Mas é uma visão equilibrada.
O encontro poderia ter terminado ali, como tantos outros em congressos internacionais. No entanto, o destino — ou a falta de opções gastronômicas decentes perto do centro — fez com que, horas depois, após o encerramento do primeiro dia, os quatro se encontrassem novamente na saída, sob uma chuva fina e gelada.
— O transporte público para o meu hotel está com atraso — disse Min-jun, consultando o celular com uma expressão de leve frustração.
— Eu conheço um restaurante de massas a duas quadras daqui — sugeriu Anna, surpreendendo a si mesma. Ela geralmente jantava sozinha no quarto do hotel para revisar notas. — É silencioso. E a comida é aceitável.
— Eu aceito qualquer coisa que envolva carboidratos e abrigo da chuva — Luana brincou, encolhendo-se em seu casaco.
Lars apenas assentiu, oferecendo seu guarda-chuva imenso para que Luana e Anna pudessem se proteger, enquanto ele e Min-jun caminhavam logo atrás.
O restaurante era pequeno, com mesas de madeira escura e luzes baixas. Ali, longe dos pódios e dos projetores, a fachada profissional começou a trincar, revelando as pessoas por trás dos títulos.
— Você disse que a memória do trauma permanece no corpo — Anna começou, enquanto esperavam os pratos. Ela olhava diretamente para Luana. — Isso soa como algo pessoal para uma cientista.
Luana sentiu o peso da pergunta. Ela poderia dar uma resposta técnica, citar artigos sobre epigenética. Mas olhou para Min-jun, que observava a conversa com uma atenção silenciosa, e para Lars, que parecia uma âncora de estabilidade ao seu lado.
— Eu fui bailarina — confessou Luana. — Antes da biomedicina. O ambiente era... destrutivo. Meu corpo quebrou antes que minha mente pudesse entender o que estava acontecendo. Levei anos para parar de sentir dor nos tornozelos sempre que ficava nervosa, mesmo sem nenhuma lesão física restante.
Houve um silêncio na mesa. Min-jun baixou o olhar para as próprias mãos.
— Eu entendo o que é ter o corpo em um lugar e a mente tentando sobreviver em outro — ele disse, tão baixo que quase foi abafado pelo som dos talheres nas outras mesas. — Meus pais esperam que eu seja o líder da próxima geração de tecnologia na Coreia. Às vezes, sinto que sou apenas um algoritmo executando uma função.
Lars inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— E qual função você escolheria, se o código fosse seu?
Min-jun hesitou.
— Eu... eu gosto de música. Componho algumas coisas. Mas não serve para nada na medicina, não é?
— Serve para manter você vivo — disse Anna, sua voz perdendo um pouco da rigidez habitual. — Eu perdi um paciente no meu segundo ano de residência. Um erro de julgamento sobre a pressão intracraniana. Por meses, eu não conseguia ler um prontuário sem que minhas mãos tremessem. A lógica foi o que me trouxe de volta. Eu me tornei rígida para não falhar.
— Todos nós estamos tentando controlar o caos de formas diferentes — observou Lars. — Vocês três com a mente e a ciência, e eu... eu apenas tento garantir que o ambiente ao redor não colapse.
— E você, Lars? — Luana perguntou, sentindo uma conexão crescente com aquele homem que parecia não ter cicatrizes visíveis. — Qual é o seu caos?
Lars sorriu, mas era um sorriso melancólico.
— O meu caos é o vazio. Eu passo tanto tempo buscando o equilíbrio e evitando conflitos que, às vezes, percebo que não me aprofundei em nada. Minha vida é estável, mas é solitária. Eu não deixo as coisas me afetarem.
Luana olhou para os três. Anna, a fortaleza de gelo que temia o erro. Min-jun, o filho perfeito que buscava a própria voz. Lars, o porto seguro que tinha medo de ancorar de verdade. E ela, a sobrevivente que ainda estava aprendendo que não precisava carregar o mundo nas costas.
Naquele momento, não havia romance. Não havia a complicação das relações poliamorosas que viriam a definir suas vidas anos depois. Havia apenas quatro estranhos em uma cidade fria, ligados por uma honestidade súbita e desarmada.
— Acho que — começou Luana, levantando sua taça de vinho tinto — que este congresso vai ser muito mais interessante do que eu previ.
— Concordo — disse Anna, batendo sua taça na de Luana com um tilintar cristalino.
— Pela primeira vez em anos — Min-jun admitiu, levantando sua taça também —, eu não estou pensando no relatório de amanhã.
Lars completou o brinde, seus olhos azuis refletindo a luz das velas.
— Ao caos — ele propôs.
— E à coragem de enfrentá-lo — finalizou Luana.
Nos dias que se seguiram, o grupo tornou-se inseparável dentro do cronograma do congresso. O que começou como uma necessidade de companhia evoluiu para uma dinâmica complexa.
Luana e Anna passavam horas em cafés discutindo ética médica, as faíscas intelectuais entre elas tornando-se cada vez mais frequentes. Anna, que sempre desprezara a "intuição", via-se fascinada pela forma como Luana humanizava os dados.
— Você é irritante — Anna disse um dia, enquanto caminhavam pelo Tiergarten sob as folhas caídas. — Você me faz questionar diagnósticos que eu já considerava fechados.
— É o meu trabalho, Anna — Luana riu, o som leve e livre. — O cérebro não é um computador. Ele é um ecossistema.
Ao mesmo tempo, Luana encontrava em Min-jun um confidente para as dores do passado. Uma noite, em um bar de jazz escondido em Kreuzberg, ele finalmente mostrou a ela uma de suas composições no celular, usando fones de ouvido compartilhados. A música era triste, complexa e profundamente humana.
— É linda, Min-jun — Luana sussurrou, devolvendo o fone. — Por que você a esconde?
— Porque ela não tem lugar no mundo que construíram para mim — ele respondeu, e Luana pegou sua mão por cima da mesa, um gesto de apoio que ele não afastou.
Lars, por sua vez, tornou-se o observador atento. Ele era quem percebia quando Anna estava exausta demais para continuar discutindo, ou quando Min-jun precisava de um momento de silêncio longe das multidões. Ele e Min-jun começaram a sair para caminhadas matinais, onde quase não falavam, compartilhando apenas o ritmo dos passos e o frescor do ar de Berlim.
— Você não se sente compelido a preencher o silêncio — Min-jun comentou certa manhã. — É reconfortante.
— O silêncio é necessário para o equilíbrio — Lars respondeu, colocando a mão no ombro do mais novo. — Não há pressa, Min-jun.
No último dia do congresso, o sentimento de despedida era palpável. Eles estavam sentados em um café na Potsdamer Platz, as malas já prontas em seus respectivos hotéis.
— Então, é isso? — perguntou Luana, olhando para cada um deles. — Voltamos para nossas vidas em quatro continentes diferentes e fingimos que Berlim foi apenas um surto de cafeína?
Anna, a mulher que não permitia sentimentos, foi a primeira a falar.
— Eu não pretendo esquecer nossas discussões, Luana. Na verdade, meu hospital está buscando consultoria externa para um novo projeto de pesquisa.
Min-jun olhou para cima, um brilho de decisão em seus olhos.
— Eu posso configurar um servidor seguro. Para compartilharmos dados. E... outras coisas.
Lars sorriu, cruzando os braços.
— Eu viajo muito a trabalho. A Suécia é perto da Alemanha, e eu sempre quis conhecer Seul. E o Brasil... bem, dizem que o clima é melhor do que o de Gotemburgo.
Luana sentiu um calor no peito que não tinha nada a ver com o café. Ela percebeu que, pela primeira vez desde que deixara a dança, não sentia que precisava ser a protagonista de sua própria cura. Havia ali uma rede. Uma geometria nova, onde os pontos se conectavam de formas que ela ainda não compreendia totalmente, mas que sentia serem legítimas.
— Nós não precisamos de um plano — Luana disse, sua voz firme. — Só precisamos da disposição de continuar a conversa.
— Eu posso lidar com isso — Anna afirmou, e pela primeira vez, ela não parecia uma neurologista dando um veredito, mas uma mulher se abrindo para uma possibilidade.
— Eu também — concordou Min-jun.
Lars apenas acenou com a cabeça, seu olhar capturando o de cada um deles.
Enquanto se despediam na estação de trem, Luana observou Anna apertar a mão de Lars com um respeito novo, e Min-jun abraçar Luana com uma vulnerabilidade que ele nunca permitira em Seul. Não havia promessas de amor eterno, nem as definições de um relacionamento convencional. Havia apenas o início de algo.
Luana entrou no trem para o aeroporto, sentando-se perto da janela. Ela viu Berlim passar por ela, uma mancha de cinza e história. Ela ainda era Luana, a biomédica com cicatrizes de bailarina. Mas agora, ela não estava mais dançando sozinha no escuro.
Ela abriu o celular e viu a primeira mensagem no grupo recém-criado.
"Anna: Luana, li o artigo que você mencionou. Você estava certa sobre o marcador inflamatório. Mas ainda discordo da conclusão."
Luana sorriu, os dedos voando sobre o teclado. A dança tinha mudado de forma, mas o ritmo... o ritmo nunca fora tão bom.
Ela não precisava ser o centro. Ela só precisava pertencer. E ali, naquele espaço digital entre Berlim, Seul, Gotemburgo e o Brasil, ela finalmente encontrara seu lugar no palco.
O simpósio sobre "Fronteiras da Neurociência e Inteligência Artificial" estava lotado. Luana se sentou em uma das fileiras laterais, buscando a discrição que seu lado INFJ tanto prezava. Foi quando a viu pela primeira vez.
No palco, uma mulher de postura impecável e cabelos loiros escuros presos em um coque rigoroso apresentava dados sobre neuroplasticidade. Anna Müller falava com uma precisão que beirava o cortante. Não havia "talvez" em seu vocabulário.
— A falha diagnóstica não é apenas um erro de sistema, é uma negligência da lógica — disse Anna, sua voz ecoando com uma autoridade que fez Luana inclinar o corpo para frente, fascinada.
Ao final da palestra, durante o intervalo para o café, Luana se viu impulsionada por uma curiosidade acadêmica que superava sua timidez. Ela se aproximou da mesa de bufê, onde a Dra. Müller examinava uma xícara de café expresso como se estivesse analisando uma amostra de tecido cerebral.
— Sua abordagem sobre a reabilitação sináptica foi brilhante — disse Luana, em inglês, a língua franca que as uniria. — Embora eu discorde da sua premissa de que a lógica pode prever todas as variáveis da dor.
Anna levantou o olhar. Seus olhos verdes eram frios, mas não hostis; eram apenas analíticos. Ela mediu a mulher brasileira à sua frente — pequena, de cabelos cacheados e um olhar que parecia ver além da superfície.
— A dor é um impulso elétrico, senhorita...? — Anna fez uma pausa, lendo o crachá. — Oliveira. Se pudermos mapear o impulso, podemos prever a resposta.
— Sou biomédica — Luana sorriu levemente, sem se deixar intimidar pela rigidez da outra. — E eu lido com os marcadores moleculares dessa dor. Às vezes, o corpo mantém a memória do trauma mesmo quando a lógica diz que a ferida já cicatrizou.
Anna arqueou uma sobrancelha. Antes que pudesse responder, um homem alto, de traços asiáticos e movimentos extremamente contidos, aproximou-se com um tablet em mãos.
— Dra. Müller, desculpe interromper — disse ele, com uma voz suave e rítmica. — Eu sou Kim Min-jun, da equipe de desenvolvimento de IA de Seul. Estava ouvindo o final da sua palestra e acredito que os algoritmos que estamos desenvolvendo para análise preditiva podem oferecer a ponte que vocês duas estão discutindo.
Luana observou Min-jun. Havia algo nele que a fez sentir uma pontada de reconhecimento imediato. Não era algo físico, mas uma aura de "perfeição performada". Ele estava impecável, mas seus olhos pareciam cansados, como se ele estivesse carregando o peso de mil expectativas que não eram suas.
— Inteligência Artificial — murmurou Anna, finalmente bebendo o café. — Útil, se não for viciada por dados subjetivos.
— O código é puro — respondeu Min-jun, com um sorriso educado que não chegava aos olhos. — As pessoas é que são complexas.
O trio permaneceu ali, uma pequena ilha de tensão intelectual no meio do salão barulhento. A conversa, que deveria ser puramente técnica, começou a derivar para os desafios da pesquisa internacional. Luana sentia a eletricidade da mente de Anna e a contenção cuidadosa de Min-jun.
— O problema de Berlim nesta época do ano — uma voz profunda e calma surgiu às costas deles — é que as pessoas esquecem de olhar para o exterior e se trancam demais em definições.
Eles se viraram para encontrar um homem que parecia ter sido esculpido em granito sueco. Lars Andersson era, de longe, o mais alto do grupo. Vestia um suéter de lã cinza sob um blazer casual, exalando uma tranquilidade que destoava da urgência acadêmica do ambiente.
— Lars Andersson — ele se apresentou, estendendo uma mão grande. — Engenharia Ambiental. Estou aqui para o painel de sustentabilidade em infraestrutura médica, mas me perdi e acabei atraído pelo cheiro do café e por essa discussão acalorada.
— Luana Oliveira — ela respondeu, apertando a mão dele. A pele de Lars era quente e o aperto, seguro. — Estávamos tentando decidir se a ciência é capaz de explicar tudo o que sentimos.
Lars soltou uma risada curta e genuína.
— Como engenheiro, eu diria que se você não pode medir, não pode consertar. Mas como alguém que cresceu no meio das florestas, eu sei que há coisas que simplesmente... existem. Sem medição.
— Uma visão pouco científica — comentou Anna, embora houvesse um lampejo de interesse em sua expressão.
— Talvez — Lars deu de ombros, sem se ofender. — Mas é uma visão equilibrada.
O encontro poderia ter terminado ali, como tantos outros em congressos internacionais. No entanto, o destino — ou a falta de opções gastronômicas decentes perto do centro — fez com que, horas depois, após o encerramento do primeiro dia, os quatro se encontrassem novamente na saída, sob uma chuva fina e gelada.
— O transporte público para o meu hotel está com atraso — disse Min-jun, consultando o celular com uma expressão de leve frustração.
— Eu conheço um restaurante de massas a duas quadras daqui — sugeriu Anna, surpreendendo a si mesma. Ela geralmente jantava sozinha no quarto do hotel para revisar notas. — É silencioso. E a comida é aceitável.
— Eu aceito qualquer coisa que envolva carboidratos e abrigo da chuva — Luana brincou, encolhendo-se em seu casaco.
Lars apenas assentiu, oferecendo seu guarda-chuva imenso para que Luana e Anna pudessem se proteger, enquanto ele e Min-jun caminhavam logo atrás.
O restaurante era pequeno, com mesas de madeira escura e luzes baixas. Ali, longe dos pódios e dos projetores, a fachada profissional começou a trincar, revelando as pessoas por trás dos títulos.
— Você disse que a memória do trauma permanece no corpo — Anna começou, enquanto esperavam os pratos. Ela olhava diretamente para Luana. — Isso soa como algo pessoal para uma cientista.
Luana sentiu o peso da pergunta. Ela poderia dar uma resposta técnica, citar artigos sobre epigenética. Mas olhou para Min-jun, que observava a conversa com uma atenção silenciosa, e para Lars, que parecia uma âncora de estabilidade ao seu lado.
— Eu fui bailarina — confessou Luana. — Antes da biomedicina. O ambiente era... destrutivo. Meu corpo quebrou antes que minha mente pudesse entender o que estava acontecendo. Levei anos para parar de sentir dor nos tornozelos sempre que ficava nervosa, mesmo sem nenhuma lesão física restante.
Houve um silêncio na mesa. Min-jun baixou o olhar para as próprias mãos.
— Eu entendo o que é ter o corpo em um lugar e a mente tentando sobreviver em outro — ele disse, tão baixo que quase foi abafado pelo som dos talheres nas outras mesas. — Meus pais esperam que eu seja o líder da próxima geração de tecnologia na Coreia. Às vezes, sinto que sou apenas um algoritmo executando uma função.
Lars inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— E qual função você escolheria, se o código fosse seu?
Min-jun hesitou.
— Eu... eu gosto de música. Componho algumas coisas. Mas não serve para nada na medicina, não é?
— Serve para manter você vivo — disse Anna, sua voz perdendo um pouco da rigidez habitual. — Eu perdi um paciente no meu segundo ano de residência. Um erro de julgamento sobre a pressão intracraniana. Por meses, eu não conseguia ler um prontuário sem que minhas mãos tremessem. A lógica foi o que me trouxe de volta. Eu me tornei rígida para não falhar.
— Todos nós estamos tentando controlar o caos de formas diferentes — observou Lars. — Vocês três com a mente e a ciência, e eu... eu apenas tento garantir que o ambiente ao redor não colapse.
— E você, Lars? — Luana perguntou, sentindo uma conexão crescente com aquele homem que parecia não ter cicatrizes visíveis. — Qual é o seu caos?
Lars sorriu, mas era um sorriso melancólico.
— O meu caos é o vazio. Eu passo tanto tempo buscando o equilíbrio e evitando conflitos que, às vezes, percebo que não me aprofundei em nada. Minha vida é estável, mas é solitária. Eu não deixo as coisas me afetarem.
Luana olhou para os três. Anna, a fortaleza de gelo que temia o erro. Min-jun, o filho perfeito que buscava a própria voz. Lars, o porto seguro que tinha medo de ancorar de verdade. E ela, a sobrevivente que ainda estava aprendendo que não precisava carregar o mundo nas costas.
Naquele momento, não havia romance. Não havia a complicação das relações poliamorosas que viriam a definir suas vidas anos depois. Havia apenas quatro estranhos em uma cidade fria, ligados por uma honestidade súbita e desarmada.
— Acho que — começou Luana, levantando sua taça de vinho tinto — que este congresso vai ser muito mais interessante do que eu previ.
— Concordo — disse Anna, batendo sua taça na de Luana com um tilintar cristalino.
— Pela primeira vez em anos — Min-jun admitiu, levantando sua taça também —, eu não estou pensando no relatório de amanhã.
Lars completou o brinde, seus olhos azuis refletindo a luz das velas.
— Ao caos — ele propôs.
— E à coragem de enfrentá-lo — finalizou Luana.
Nos dias que se seguiram, o grupo tornou-se inseparável dentro do cronograma do congresso. O que começou como uma necessidade de companhia evoluiu para uma dinâmica complexa.
Luana e Anna passavam horas em cafés discutindo ética médica, as faíscas intelectuais entre elas tornando-se cada vez mais frequentes. Anna, que sempre desprezara a "intuição", via-se fascinada pela forma como Luana humanizava os dados.
— Você é irritante — Anna disse um dia, enquanto caminhavam pelo Tiergarten sob as folhas caídas. — Você me faz questionar diagnósticos que eu já considerava fechados.
— É o meu trabalho, Anna — Luana riu, o som leve e livre. — O cérebro não é um computador. Ele é um ecossistema.
Ao mesmo tempo, Luana encontrava em Min-jun um confidente para as dores do passado. Uma noite, em um bar de jazz escondido em Kreuzberg, ele finalmente mostrou a ela uma de suas composições no celular, usando fones de ouvido compartilhados. A música era triste, complexa e profundamente humana.
— É linda, Min-jun — Luana sussurrou, devolvendo o fone. — Por que você a esconde?
— Porque ela não tem lugar no mundo que construíram para mim — ele respondeu, e Luana pegou sua mão por cima da mesa, um gesto de apoio que ele não afastou.
Lars, por sua vez, tornou-se o observador atento. Ele era quem percebia quando Anna estava exausta demais para continuar discutindo, ou quando Min-jun precisava de um momento de silêncio longe das multidões. Ele e Min-jun começaram a sair para caminhadas matinais, onde quase não falavam, compartilhando apenas o ritmo dos passos e o frescor do ar de Berlim.
— Você não se sente compelido a preencher o silêncio — Min-jun comentou certa manhã. — É reconfortante.
— O silêncio é necessário para o equilíbrio — Lars respondeu, colocando a mão no ombro do mais novo. — Não há pressa, Min-jun.
No último dia do congresso, o sentimento de despedida era palpável. Eles estavam sentados em um café na Potsdamer Platz, as malas já prontas em seus respectivos hotéis.
— Então, é isso? — perguntou Luana, olhando para cada um deles. — Voltamos para nossas vidas em quatro continentes diferentes e fingimos que Berlim foi apenas um surto de cafeína?
Anna, a mulher que não permitia sentimentos, foi a primeira a falar.
— Eu não pretendo esquecer nossas discussões, Luana. Na verdade, meu hospital está buscando consultoria externa para um novo projeto de pesquisa.
Min-jun olhou para cima, um brilho de decisão em seus olhos.
— Eu posso configurar um servidor seguro. Para compartilharmos dados. E... outras coisas.
Lars sorriu, cruzando os braços.
— Eu viajo muito a trabalho. A Suécia é perto da Alemanha, e eu sempre quis conhecer Seul. E o Brasil... bem, dizem que o clima é melhor do que o de Gotemburgo.
Luana sentiu um calor no peito que não tinha nada a ver com o café. Ela percebeu que, pela primeira vez desde que deixara a dança, não sentia que precisava ser a protagonista de sua própria cura. Havia ali uma rede. Uma geometria nova, onde os pontos se conectavam de formas que ela ainda não compreendia totalmente, mas que sentia serem legítimas.
— Nós não precisamos de um plano — Luana disse, sua voz firme. — Só precisamos da disposição de continuar a conversa.
— Eu posso lidar com isso — Anna afirmou, e pela primeira vez, ela não parecia uma neurologista dando um veredito, mas uma mulher se abrindo para uma possibilidade.
— Eu também — concordou Min-jun.
Lars apenas acenou com a cabeça, seu olhar capturando o de cada um deles.
Enquanto se despediam na estação de trem, Luana observou Anna apertar a mão de Lars com um respeito novo, e Min-jun abraçar Luana com uma vulnerabilidade que ele nunca permitira em Seul. Não havia promessas de amor eterno, nem as definições de um relacionamento convencional. Havia apenas o início de algo.
Luana entrou no trem para o aeroporto, sentando-se perto da janela. Ela viu Berlim passar por ela, uma mancha de cinza e história. Ela ainda era Luana, a biomédica com cicatrizes de bailarina. Mas agora, ela não estava mais dançando sozinha no escuro.
Ela abriu o celular e viu a primeira mensagem no grupo recém-criado.
"Anna: Luana, li o artigo que você mencionou. Você estava certa sobre o marcador inflamatório. Mas ainda discordo da conclusão."
Luana sorriu, os dedos voando sobre o teclado. A dança tinha mudado de forma, mas o ritmo... o ritmo nunca fora tão bom.
Ela não precisava ser o centro. Ela só precisava pertencer. E ali, naquele espaço digital entre Berlim, Seul, Gotemburgo e o Brasil, ela finalmente encontrara seu lugar no palco.
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