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Amores da minha vida

Фандом: Novela cabocla

Создан: 23.04.2026

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O Aroma da Mata e o Brilho do Rio

A fumaça do trem de ferro cortava o céu azul de Vila da Mata, deixando para trás um rastro cinzento que logo se dissipava entre as copas das árvores centenárias. Quando Luís Jerônimo desceu no estribo do vagão, o ar pesado e úmido da roça o atingiu como um abraço inesperado. Ele, o dândi do Rio de Janeiro, acostumado com o barulho dos bondes e o aroma de alfazema das festas da alta sociedade, sentia-se um peixe fora d'água naquele cenário de terra vermelha.

Luís ajustou o chapéu de feltro e limpou o suor da testa com um lenço de seda. Seus olhos, de um castanho vívido e curioso, percorreram a estação. Ele veio por recomendação médica, para tratar de uma "fraqueza nos pulmões", mas o brilho em seu olhar denunciava que a sua verdadeira vitalidade não estava nos remédios, mas na sede de viver. O que ele não sabia era que, naquela terra de coronéis e valentes, ele seria o centro de uma tempestade que nenhum médico poderia curar.

— O senhor deve ser o primo do Coronel Boanerges — disse uma voz grave, vinda de trás dele.

Luís se virou e deu de cara com uma figura que parecia esculpida no próprio barro daquela terra. O homem era alto, de ombros largos, vestindo uma camisa de algodão rústico aberta no peito e um chapéu de couro enterrado até as sobrancelhas. Seus olhos eram escuros e penetrantes, carregando uma rusticidade que Luís nunca vira na capital.

— Sou eu mesmo. Luís Jerônimo, ao seu dispor — respondeu Luís, com um sorriso leve e charmoso que costumava desarmar qualquer um.

— Sou Tobias — o peão disse, sem devolver o sorriso, mas sem conseguir desviar o olhar do rosto delicado do recém-chegado. — O Coronel me mandou buscar o senhor. A mula já tá pronta.

Tobias estendeu a mão para pegar a mala de couro fino de Luís. Ao fazer isso, seus dedos roçaram a mão do rapaz da cidade. Luís sentiu um choque súbito, uma eletricidade que não vinha do clima seco, mas daquela presença bruta e magnética. Tobias, por sua vez, sentiu o coração tropeçar no peito. Ele já vira muitas moças bonitas na região, mas nunca tinha visto um homem com aquela aura, um brilho que parecia desafiar a poeira da estrada.

— É um caminho longo? — perguntou Luís, tentando quebrar o silêncio que se instalou enquanto caminhavam em direção aos animais.

— Depende da pressa do cavaleiro — Tobias respondeu, a voz rouca. — Mas com o senhor, eu não me importaria se a estrada desse a volta no mundo.

Luís riu, uma risada clara e cristalina que ecoou pela estação.

— Vejo que os caboclos daqui também são poetas.

— Não sou poeta, seu Luís — Tobias montou em seu cavalo com uma agilidade invejável. — Sou homem de pouca fala e muita ação. E o que eu ponho o olho, eu não costumo deixar escapar.

O tom de possessividade na voz de Tobias era sutil, mas estava lá, vibrando como uma corda de viola esticada. Luís sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a doença.

A viagem até a fazenda de Boanerges transcorria sob o sol da tarde, quando, ao passarem perto das terras de Justino, o rival político de Boanerges, um jovem montado em um alazão elegante se aproximou. Era Neco, filho de Justino, o rapaz que voltara recentemente dos estudos com a cabeça cheia de ideias novas e o coração transbordando coragem.

— Boa tarde, Tobias — disse Neco, parando o cavalo no meio da trilha. Seus olhos rapidamente se fixaram em Luís, e o brilho de admiração foi instantâneo. — E quem seria esse cavalheiro que embeleza a nossa estrada de terra?

Tobias fechou a cara imediatamente, as rédeas de seu cavalo se apertando em suas mãos calejadas.

— É o primo do Coronel Boanerges, Neco. Estamos de passagem.

Neco ignorou o tom hostil de Tobias e tirou o chapéu, fazendo uma reverência educada para Luís.

— Seja muito bem-vindo a Vila da Mata. Sou Manuel Junqueira, mas todos me chamam de Neco. É um prazer imenso ver que a nossa região agora conta com uma presença tão... distinta.

— Luís Jerônimo — respondeu Luís, sentindo-se lisonjeado. Neco tinha um rosto bonito, feições suaves mas decididas, e uma fala que demonstrava inteligência. — O prazer é todo meu, Neco. Pensei que encontraria apenas mato e onças por aqui, mas vejo que a civilização também deu o ar da graça.

— Se o senhor precisar de um guia que conheça não só os caminhos, mas também o futuro que essa terra merece, estou às suas ordens — disse Neco, fixando seus olhos nos de Luís com uma intensidade que beirava a insolência. — Diferente de alguns, eu prefiro o diálogo e o progresso à força bruta.

Tobias bufou, seu cavalo inquieto sob seu comando.

— O progresso não ensina a montar nem a domar o gado, Neco. O seu Luís está sob minha proteção.

Neco deu um sorriso de canto, desafiador.

— Proteção ou prisão, Tobias? Um homem como o seu Luís merece liberdade para escolher por onde quer caminhar.

Luís olhou de um para o outro, sentindo a tensão palpável entre os dois. Era uma rivalidade que ia além da política das famílias; era algo primitivo, um duelo de olhares que o tinha como prêmio. Ele, que sempre fora o conquistador no Rio de Janeiro, o rapaz que fugia de compromissos e buscava apenas o prazer efêmero, via-se agora no centro de uma disputa que prometia ser mais perigosa do que qualquer duelo de pistolas.

— Cavalheiros — interveio Luís, com o tom diplomático que aprendera nos salões. — Eu acabei de chegar e já sinto que Vila da Mata é um lugar de paixões fortes. Espero poder conhecer a ambos melhor, sem precisar causar uma guerra.

— Por mim, seu Luís — disse Neco, inclinando a cabeça —, a paz seria o melhor caminho, desde que eu possa ter a honra de sua companhia em breve.

— Vamos embora, seu Luís — cortou Tobias, tocando o cavalo para frente e forçando a montaria de Luís a segui-lo. — O sol tá baixando e o Coronel não gosta de espera.

Ao passarem por Neco, Tobias lançou um olhar de aviso, um olhar de quem marca território. Neco permaneceu parado, observando-os se afastar, com um sorriso que indicava que ele não desistiria tão fácil.

Quando chegaram à fazenda de Boanerges, a recepção foi calorosa. O Coronel, um homem de coração grande e voz tonitruante, abraçou o primo com força.

— Luís! Que alegria te ver, rapaz! Você está pálido demais, mas o ar daqui vai te criar bofe novo!

— Espero que sim, primo — disse Luís, sentindo o cansaço da viagem.

Naquela noite, após o jantar, Luís retirou-se para a varanda. O som dos grilos e o cheiro da dama-da-noite embriagavam seus sentidos. Ele pensava nos dois homens que encontrara. Tobias, com sua força bruta e aquele jeito de animal silvestre que parecia querer devorá-lo; e Neco, com seu idealismo e o olhar que prometia descobertas intelectuais e sensoriais.

De repente, uma sombra se aproximou na escuridão do jardim. Era Tobias. Ele não entrou na varanda, ficou ali embaixo, sob a luz do luar que filtrava pelas árvores.

— Achei que o senhor já estivesse dormindo — disse o peão.

— O silêncio daqui é barulhento demais para quem vem da cidade, Tobias — respondeu Luís, debruçando-se no parapeito.

Tobias deu um passo à frente, a luz da lua iluminando seu rosto severo.

— O senhor não dê ouvidos ao Neco. Ele fala bonito, mas não conhece o peso de uma responsabilidade.

— Ele pareceu ser um bom rapaz, Tobias. Por que tanto rancor?

Tobias subiu os degraus da varanda lentamente, parando a poucos centímetros de Luís. O cheiro de fumo de corda e suor honesto emanava dele, uma fragrância viril que fez Luís prender a respiração.

— Não é rancor, seu Luís — Tobias disse, a voz baixinha, perigosamente perto do ouvido do outro. — É que eu não gosto de dividir o que eu admiro. E eu nunca admirei nada tanto quanto o senhor desde que botou os pés naquela estação.

Luís sentiu o coração disparar.

— Você é muito direto, Tobias.

— Na roça a gente não tem tempo para rodeios. Se a gente quer a terra, a gente ara. Se a gente quer o fruto, a gente colhe.

Tobias estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com sua aparência, tocou o rosto de Luís, traçando a linha da mandíbula com o polegar. Luís não recuou. Pelo contrário, sentiu-se atraído por aquela força gravitacional.

— E o que você quer, Tobias? — sussurrou Luís.

— Quero que o senhor saiba que, enquanto eu estiver por perto, ninguém vai tocar num fio de cabelo seu. O senhor é meu convidado... e minha perdição.

Antes que Luís pudesse responder, Tobias se afastou e desapareceu na escuridão, deixando o rapaz da cidade trêmulo e confuso.

No dia seguinte, Luís decidiu caminhar pelos arredores da fazenda. Ele precisava de espaço para pensar. Acabou chegando a um riacho de águas límpidas que cortava a propriedade. Sentou-se em uma pedra e começou a observar o movimento da água.

— Sabia que encontraria o senhor aqui — disse uma voz suave.

Era Neco. Ele trazia um livro na mão e um sorriso sereno.

— Você me seguiu? — perguntou Luís, divertido.

— Digamos que eu conheço os melhores lugares para se pensar na vida, e imaginei que o senhor buscaria o mesmo. Posso me sentar?

Luís assentiu. Neco sentou-se ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, mas seus olhos nunca deixavam os de Luís.

— Tobias me disse para ficar longe de você — comentou Luís, jogando uma pedrinha na água.

— Tobias é um homem de outros tempos, Luís — Neco disse, usando o primeiro nome dele pela primeira vez. — Ele acredita que o mundo se resolve na base do grito e da posse. Eu acredito que o mundo se resolve na base da admiração e da liberdade.

— E o que você admira, Neco?

Neco abriu o livro, mas não leu. Ele olhou para o horizonte.

— Admiro a coragem de ser quem se é. Admiro a beleza que vem de fora para nos ensinar que a vida pode ser mais do que apenas trabalho e política. Desde ontem, Luís, eu não consigo pensar em outra coisa a não ser na luz que você trouxe para essa Vila.

Neco se aproximou um pouco mais, fechando a distância.

— Se Tobias quer te proteger do mundo, eu quero te mostrar o mundo. Quero que você veja que aqui, entre essas montanhas, pode existir um amor que não precisa ser escondido, um amor que nasce da alma.

Luís sentiu-se envolto pela retórica de Neco. Era tão diferente de Tobias, mas igualmente intenso. Enquanto o peão era o fogo que queimava, o filho de Justino era a água que envolvia.

— Vocês dois vão acabar me deixando louco — confessou Luís, rindo com um toque de nervosismo.

— A loucura é apenas o começo da paixão — Neco disse, e ousou pegar a mão de Luís, dando um beijo leve nos nós dos seus dedos. — E eu estou disposto a ser o mais louco de todos por você.

A disputa estava declarada. Luís Jerônimo, o rapaz que viera para Vila da Mata em busca de saúde, encontrara algo muito mais perigoso e excitante. Ele era o objeto de desejo de dois homens poderosos e opostos, em uma terra onde as leis eram ditadas pelo coração e pelo gatilho.

De um lado, a possessividade bruta de Tobias, que via em Luís um tesouro a ser guardado a sete chaves. Do outro, o idealismo romântico de Neco, que via nele a razão para lutar por um novo mundo. E no centro de tudo, Luís, que pela primeira vez na vida, não queria apenas um romance passageiro, mas sentia que seu destino estava irremediavelmente traçado por aquelas montanhas de Minas.

Enquanto voltava para a casa grande, Luís olhou para o céu. As nuvens se acumulavam no horizonte, prometendo uma tempestade. Ele sorriu. A calmaria do Rio de Janeiro nunca lhe parecera tão distante, e a aventura de sua vida estava apenas começando. Ali, entre o cheiro de terra molhada e o som do berrante ao longe, Luís Jerônimo descobria que não era mais o dono de seu próprio coração. Ele pertencia àquela terra, e aos homens que estavam dispostos a tudo para conquistá-lo.

— Que venha a chuva — murmurou para si mesmo. — Porque eu nunca me senti tão vivo.

E em Vila da Mata, as paredes tinham ouvidos e as árvores tinham olhos. A notícia de que o primo do Coronel era o novo centro das atenções correu célere. Homens nos armazéns comentavam, mulheres cochichavam nas janelas. Luís Jerônimo não era apenas um visitante; ele era a faísca que faltava para incendiar um barril de pólvora que há muito esperava para explodir.

Tobias, observando de longe o encontro de Luís com Neco, apertou o cabo de sua faca na cintura. Ele não aceitaria perder. Neco, guardando o beijo na mão como uma promessa, planejava seu próximo passo. A novela de suas vidas estava escrita nas estrelas e no sangue daquela terra cabocla. E o primeiro capítulo de uma paixão avassaladora acabara de ser selado pelo destino.
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