Fanfy
.studio
Загрузка...
Фоновое изображение
← Назад
0 лайков

A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

Фандом: Flowers (TV serie) e Original Character

Создан: 06.05.2026

Теги

ДрамаАнгстHurt/ComfortПсихологияCharacter studyЗанавесочная историяНуарная готикаУпотребление наркотиковЗлоупотребление алкоголемРомантикаПовседневностьРеализм
Содержание

Entre o Terço e o Tabaco

O ar úmido da residência dos Flowers parecia carregar o peso de séculos de excentricidade britânica, mas para Gabriele, o problema não era a arquitetura gótica ou o cheiro de mofo e tinta a óleo. O problema atendia pelo nome de Hylda.

Gabriele ajeitou a saia de lã cinza, sentindo-se deslocada. Seus cabelos castanhos, cortados com precisão pouco abaixo dos ombros, estavam impecáveis, assim como sua postura. Ela aprendera no convento que o silêncio era uma prece, mas ali, naquela sala de estar caótica, o silêncio era impossível.

— Então a ovelhinha resolveu sair do aprisco? — A voz de Hylda era como lixa sobre madeira, rouca e carregada de um sarcasmo que fazia Gabriele cerrar os dentes.

Hylda estava largada em uma poltrona de veludo puído, vestindo uma camisa de flanela aberta sobre uma regata branca que deixava à mostra as tatuagens desbotadas em seus braços fortes. O cabelo grisalho, curto e espetado, parecia desafiar a gravidade. Ela segurava um cachimbo apagado entre os dentes, apesar de se autodenominar "Padre".

— Eu não sou uma ovelha, senhora. — Gabriele respondeu, a voz fria e polida. — E agradeceria se mantivesse o respeito. A vida religiosa exige uma disciplina que, pelo que vejo, lhe é completamente estranha.

Hylda soltou uma gargalhada curta e seca, levantando-se com uma agilidade que desmentia seus quase sessenta anos.

— Disciplina? Minha filha, eu já dei aula em faculdade e já saí do fundo do poço de braços dados com o diabo enquanto você ainda estava aprendendo a rezar o Pai Nosso. — Ela caminhou até Gabriele, invadindo seu espaço pessoal. — Você tem cara de quem chora se vir uma mancha de café na blusa. Fútil e engomada.

Gabriele sentiu o rosto esquentar. O motivo de sua saída do convento — a imagem da Madre Mestra sob a luz das velas, o desejo proibido que a consumira até não restar mais fé, apenas carne — queimava em sua memória como uma ferida aberta.

— E a senhora tem o aspecto de uma caminhoneira que roubou a batina de algum pobre coitado. — Gabriele rebateu, os olhos faiscando. — Uma velha safada que usa a religião como piada.

— Ora, ora! A santinha tem garras! — Hylda sorriu, revelando dentes que já tinham visto dias melhores.

Gabriel, que observava a cena de longe com uma taça de vinho na mão, resolveu intervir antes que o sangue fosse derramado. Ele se aproximou com seu charme habitual, o sorriso aberto que fazia todos no vilarejo pensarem que ele e Gabriele eram o par perfeito.

— Meninas, vamos manter a civilidade? — Gabriel disse, passando o braço pelos ombros de Gabriele. — Hylda, não assuste a Gabi. Ela ainda está se acostumando com o mundo exterior. E Gabi, a Hylda é... bom, ela é uma instituição local. Um pouco rústica, mas necessária.

— Ela é um pesadelo. — Gabriele murmurou, esquivando-se gentilmente do abraço de Gabriel.

— E ela é uma boneca de porcelana que vai quebrar na primeira chuva. — Hylda retrucou, pegando um isqueiro no bolso e finalmente acendendo o cachimbo.

A ironia do destino não tardou a se manifestar. O céu, que estivera nublado o dia todo, decidiu desabar em uma tempestade torrencial. Relâmpagos cortavam o horizonte e o som do trovão sacudia as janelas da velha casa de campo onde o grupo se reunira para um jantar que agora parecia uma péssima ideia.

— A estrada inundou perto da ponte. — Maurice Flowers anunciou, entrando na sala com as roupas levemente úmidas e o olhar perdido de sempre. — Ninguém sai daqui esta noite. Deborah já está organizando os quartos.

Gabriele sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com a temperatura.

— Infelizmente, tivemos um vazamento no sótão e o quarto de hóspedes principal está ensopado. — Deborah Flowers surgiu logo atrás do marido, gesticulando dramaticamente. — Gabriel, você fica no sofá do estúdio. Gabriele e Hylda, vocês terão que dividir o quarto azul. É o único com uma cama de casal grande o suficiente e espaço para as duas.

— O quê? — As duas mulheres exclamaram em uníssono.

— Nem pensar. — Gabriele disse, a voz trêmula. — Eu posso dormir no chão da cozinha.

— Deixe de ser mártir, garota. — Hylda revirou os olhos. — Eu não mordo. A menos que você peça com jeitinho, o que eu duvido muito que esteja no seu repertório de orações.

O quarto azul era opressor. Papéis de parede com padrões florais desgastados, uma estante cheia de livros de botânica e uma cama de carvalho maciço que parecia um altar fúnebre. O som da chuva batendo no teto de zinco criava um ritmo hipnótico e claustrofóbico.

Gabriele estava sentada na beira da cama, vestindo um pijama de seda fechado até o pescoço, as mãos entrelaçadas no colo. Hylda, por outro lado, estava sem camisa, apenas com a regata branca, sentada em uma cadeira de balanço no canto do quarto, limpando suas botas de couro.

— Você não vai dormir? — Gabriele perguntou, sem olhar para ela.

— O sono é para os inocentes ou para os mortos. — Hylda respondeu sem parar o que estava fazendo. — Eu sou ex-viciada, ovelhinha. Meu cérebro não desliga fácil. E você? Está rezando para que eu não te ataque no meio da noite?

— Estou apenas pensando.

— Pensando na Madre que te fez pular o muro? — Hylda soltou a frase como se fosse um comentário sobre o clima.

Gabriele congelou. Seu coração disparou, martelando contra as costelas.

— Como você... quem te contou?

— Ninguém precisou contar. — Hylda parou de limpar a bota e olhou diretamente para ela. Seus olhos, antes zombeteiros, agora tinham uma profundidade analítica, quase clínica. — Eu conheço esse olhar. É o olhar de quem descobriu que o sagrado e o profano moram na mesma cama. Você não saiu de lá porque perdeu a fé em Deus. Você saiu porque descobriu que Deus não era o suficiente para preencher o que aquela mulher despertou em você.

Gabriele sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas a limpou rapidamente com as costas da mão.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Eu sei tudo sobre você. — Hylda levantou-se e caminhou lentamente até a cama. Ela não parecia mais a "velha caminhoneira" agressiva de antes. Havia uma autoridade nela, a autoridade de quem já sobreviveu a muitas tempestades. — Você é exigente e séria porque tem medo de que, se relaxar um segundo, todo esse desejo acumulado vá te transformar em algo que você não conhece. Você se veste como uma freira de luxo para esconder que é humana.

Hylda sentou-se na ponta da cama, mantendo uma distância respeitosa, mas os olhos fixos em Gabriele.

— Eu era professora de ética. — Hylda continuou, a voz mais baixa. — Perdi tudo para a heroína. Perdi minha carreira, minha dignidade. Quando eu digo que sou "Padre", não é porque eu acredito em dogmas. É porque eu entendi que a única confissão que importa é a que fazemos para nós mesmos.

Gabriele olhou para Hylda. Pela primeira vez, não viu a mulher vulgar e implicante, mas alguém que carregava cicatrizes tão profundas quanto as suas, apenas expostas de forma diferente.

— Ela era linda. — Gabriele sussurrou, a voz quebradiça. — Ela falava sobre a alma como se estivesse tocando a minha pele. Eu me senti... suja. E ao mesmo tempo, foi o único momento em que me senti viva em vinte e sete anos.

— O desejo não é sujeira, Gabriele. É combustível. — Hylda estendeu a mão e, por um momento, Gabriele achou que ela a tocaria, mas Hylda apenas apontou para o travesseiro. — Deite-se. A tempestade não vai parar tão cedo, e você precisa descansar dessa guerra que está travando contra si mesma.

Gabriele obedeceu, deitando-se e puxando as cobertas até o queixo. Hylda apagou o abajur e deitou-se por cima das cobertas, do outro lado da cama, as mãos atrás da cabeça, olhando para o teto escuro.

— Hylda? — Gabriele chamou após alguns minutos de silêncio, apenas com o som da chuva ao fundo.

— Hum?

— Por que você me provoca tanto?

Ouviu-se um riso abafado no escuro.

— Porque você é fácil de provocar. E porque, no fundo, você gosta de ser desafiada. O Gabriel é um bom rapaz, mas ele te olha como se você fosse uma estátua em um museu. Eu te olho e vejo o incêndio.

Gabriele fechou os olhos. O coração ainda batia rápido, mas o peso no peito parecia um pouco mais leve.

— Você é uma mulher muito estranha. — Gabriele murmurou.

— E você é uma ovelhinha muito complicada. Durma logo, antes que eu resolva te ensinar alguns palavrões novos.

A tempestade lá fora continuava a rugir, mas dentro do quarto azul, entre o cheiro de lavanda das roupas de Gabriele e o aroma de tabaco que emanava da pele de Hylda, um novo tipo de paz começava a se formar. Uma paz feita de verdades ditas no escuro e da compreensão inesperada entre duas almas que, de formas diferentes, tinham sido exiladas do paraíso.

Na manhã seguinte, Gabriel as encontraria na cozinha. Gabriele estaria tomando seu chá com a elegância de sempre, mas com um brilho novo nos olhos. Hylda estaria roubando um pedaço de bacon do prato de Maurice, soltando uma piada obscena.

— Dormiram bem? — Gabriel perguntaria, curioso.

Gabriele olharia para Hylda por cima da xícara de porcelana.

— O silêncio foi... instrutivo. — Gabriele diria com um meio sorriso.

— A santinha ronca. — Hylda retrucaria, piscando para ela.

E pela primeira vez, Gabriele não se sentiria ofendida. Ela apenas sentiria que, finalmente, tinha começado a sair do convento.
Содержание

Хотите создать свой фанфик?

Зарегистрируйтесь на Fanfy и создавайте свои собственные истории!

Создать свой фанфик