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Hilda furacão
Фандом: Hilda furacão
Создан: 07.05.2026
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РомантикаИсторические эпохиДрамаПовседневностьCharacter studyНуарРетеллингПублицистика
O Manifesto dos Olhos Azuis e do Café com Leite
Belo Horizonte, em 1959, era uma cidade que fingia dormir enquanto os seus fantasmas e amantes vagavam pelas ruas de ladeira. Roberto Drummond, com seus óculos invariavelmente equilibrados no nariz e o cinismo de quem já viu de tudo um pouco nas redações, ajustou o paletó antes de entrar no Café Nice. O cheiro de café torrado e fumo de corda misturava-se ao burburinho de homens que discutiam o destino do Brasil como se segurassem o mapa do mundo nas mãos.
Mas Roberto não estava ali pelo destino do Brasil. Ou melhor, estava, mas o seu "destino" pessoal tinha cabelos escuros com cachos nas pontas e olhos que pareciam ter sido roubados do céu de uma manhã de inverno.
— Você está atrasado, Roberto. O capital não espera e a revolução muito menos — disse Eva, sem tirar os olhos de um folheto clandestino que repousava sobre a mesa de mármore.
Roberto sorriu, puxando a cadeira de palhinha. Ele adorava a forma como ela conseguia ser séria e absolutamente encantadora ao mesmo tempo. As sardas próximas ao nariz de Eva pareciam pequenas constelações que ele, secretamente, desejava mapear.
— O atraso é um direito burguês que eu me dou ao luxo de exercer para manter as aparências, Eva — ele rebateu, fazendo um sinal para o garçom. — Além disso, o trânsito nesta cidade está virando uma lenda urbana. Quase fui atropelado por um bonde que, juro por Deus, parecia estar sendo dirigido pelo fantasma de um antigo prefeito.
Eva soltou uma risada curta, o som mais melodioso que Roberto ouvira em toda a semana.
— Deixe de ser dramático. Você veio para falar da Hilda ou para reclamar do urbanismo mineiro?
Roberto pigarreou. A desculpa. Ele precisava manter a fachada.
— De ambos. Hilda é o enigma que Belo Horizonte não consegue decifrar, e você é a chave. Como ela está? Soube que a última passagem dela pelo Minas Tênis Clube causou mais desmaios do que uma epidemia de gripe.
Eva suspirou, guardando o folheto na bolsa de couro desgastada.
— Hilda é um furacão, Roberto. O nome não é apenas um apelido carinhoso. Ela está... em transe. Aquele Frei Malthus a deixou de cabeça para baixo. Ela quer liberdade, quer o mundo, mas o coração dela resolveu se ancorar justamente num homem que fez votos de silêncio e castidade. É quase uma piada de mau gosto do destino.
— O destino é o maior humorista que eu conheço — comentou Roberto, observando o garçom depositar as xícaras de café. — Mas me diga, e você? Como uma comunista convicta, que sonha com a queda das estruturas sociais, acaba sendo a sombra de uma mulher que vive no epicentro do escândalo da elite?
Eva olhou para ele, e por um momento, a ironia de Roberto pareceu murchar diante da intensidade daqueles olhos azuis.
— Hilda não é a elite, Roberto. Ela é a rebelião contra ela. Ela usa as joias e os vestidos sofisticados como armaduras. Nós crescemos juntas, não tenho outra família além dela. Se ela decidir incendiar o mundo, eu serei a pessoa que vai segurar o fósforo para ela.
— E eu o jornalista que vai escrever a crônica do incêndio — ele completou, sentindo uma admiração genuína. — Mas mudando de assunto... ou melhor, aprofundando o tema. Haverá outra reunião na terça-feira? No porão daquela livraria?
Eva inclinou-se para frente, a voz baixando para um sussurro cúmplice que fez os pelos do braço de Roberto se arrepiarem.
— Sim. Vamos discutir a greve dos operários da contagem. Mas você precisa ser mais discreto, Roberto. Da última vez, seus óculos brilhavam tanto na penumbra que pareciam dois faróis da polícia.
— Eu nasci para ser visto, Eva. É um fardo — ele brincou, embora soubesse do perigo. — Mas irei. Pela causa, é claro.
— É claro — ela sorriu, um sorriso que indicava que ela sabia perfeitamente que a "causa" de Roberto estava começando a ganhar contornos muito específicos que nada tinham a ver com Marx ou Engels.
O jantar seguinte aconteceu dois dias depois, num restaurante pequeno e esfumaçado onde a elite não costumava colocar os pés. Roberto insistira que precisava de "detalhes psicológicos" sobre Hilda para sua grande reportagem, mas passou quarenta minutos ouvindo Eva falar sobre sua infância incerta e o mistério de sua origem.
— Às vezes eu acho que apareci em Belo Horizonte por geração espontânea — dizia ela, enquanto enrolava o macarrão no garfo. — Hilda diz que eu sou uma princesa russa exilada que se perdeu nos trópicos.
— Uma princesa russa comunista? Isso sim seria um furo de reportagem — Roberto comentou, limpando os óculos. — Mas eu prefiro a teoria de que você é uma entidade enviada para testar a sanidade dos jornalistas mineiros.
— Você é muito bobo, Roberto Drummond — Eva riu, as sardas se movendo com o gesto. — Por que você finge que é tão cínico? Eu vi o jeito que você olhou para aquele menino pedindo esmola na porta da reunião. Você deu a ele mais do que apenas moedas.
Roberto sentiu o rosto esquentar, algo raro para um homem de trinta anos que se orgulhava de sua carapaça de indiferença.
— Eu apenas estava redistribuindo a renda de forma direta e sem burocracia. Uma ação prática, entende?
— Entendo — ela disse, a voz subitamente suave. — Você é um bom homem, Roberto. Por trás de toda essa ironia e desses artigos ácidos, existe alguém que se importa.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso, carregado de uma eletricidade que nem mesmo o barulho dos pratos ao fundo conseguia dissipar. Roberto olhou para Eva e, pela primeira vez, a imagem de Hilda Furacão, a mulher mais desejada da cidade, pareceu uma fotografia em preto e branco comparada ao technicolor vibrante da jovem à sua frente.
— Eva... — ele começou, mas foi interrompido por um estrondo na porta.
Um grupo de estudantes entrou ruidosamente, trazendo consigo o ar frio da noite e notícias de uma nova manifestação. O momento quebrou. Eva voltou à sua postura de militante, seus olhos brilhando com a urgência da política.
— Precisamos ir — disse ela, levantando-se. — Hilda vai me esperar e eu ainda preciso passar as notas para o pessoal do diretório.
— Eu te acompanho — Roberto prontificou-se, pagando a conta rapidamente.
Caminharam pelas ruas de paralelepípedos, a sombra dos dois projetando-se longa sob a luz dos postes de ferro. Belo Horizonte parecia uma maquete de gesso sob o luar. Ao chegarem perto da casa onde Eva morava com Hilda, ele parou.
— Sobre a Hilda... — ele começou, tentando retomar a desculpa inicial.
— Roberto — Eva o interrompeu, colocando uma mão leve em seu braço. — Você não quer saber da Hilda. Você já sabe tudo o que precisa sobre ela para os seus artigos.
Roberto sentiu o coração falhar uma batida.
— Não? — ele perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
— Não. Você quer saber se eu vou ao café amanhã à tarde. E a resposta é sim.
Ela se aproximou e, num gesto rápido e audacioso como uma revolução bem planejada, depositou um beijo no canto da boca dele. O cheiro de Eva era uma mistura de sabonete de flores e papel antigo.
— Até amanhã, camarada — ela sussurrou, antes de desaparecer para dentro do portão.
Roberto ficou parado por um longo tempo, os óculos levemente embaçados pela respiração. Ele levou a mão ao rosto, sentindo o lugar onde os lábios dela haviam tocado.
— É — ele murmurou para a rua deserta —, o destino é definitivamente um humorista. E eu acabo de virar o alívio cômico da minha própria história.
Ele começou a caminhar de volta para sua pensão, assobiando uma melodia qualquer. A matéria sobre Hilda Furacão podia esperar. Afinal, ele tinha um manifesto muito mais urgente para escrever, um que começava e terminava nos olhos azuis de uma certa comunista que se recusava a ser apenas um detalhe na vida de outra pessoa.
Belo Horizonte continuava sua noite de lendas, mas para Roberto Drummond, a maior lenda de todas estava apenas começando a se tornar realidade entre uma xícara de café e um sonho de mudar o mundo.
Mas Roberto não estava ali pelo destino do Brasil. Ou melhor, estava, mas o seu "destino" pessoal tinha cabelos escuros com cachos nas pontas e olhos que pareciam ter sido roubados do céu de uma manhã de inverno.
— Você está atrasado, Roberto. O capital não espera e a revolução muito menos — disse Eva, sem tirar os olhos de um folheto clandestino que repousava sobre a mesa de mármore.
Roberto sorriu, puxando a cadeira de palhinha. Ele adorava a forma como ela conseguia ser séria e absolutamente encantadora ao mesmo tempo. As sardas próximas ao nariz de Eva pareciam pequenas constelações que ele, secretamente, desejava mapear.
— O atraso é um direito burguês que eu me dou ao luxo de exercer para manter as aparências, Eva — ele rebateu, fazendo um sinal para o garçom. — Além disso, o trânsito nesta cidade está virando uma lenda urbana. Quase fui atropelado por um bonde que, juro por Deus, parecia estar sendo dirigido pelo fantasma de um antigo prefeito.
Eva soltou uma risada curta, o som mais melodioso que Roberto ouvira em toda a semana.
— Deixe de ser dramático. Você veio para falar da Hilda ou para reclamar do urbanismo mineiro?
Roberto pigarreou. A desculpa. Ele precisava manter a fachada.
— De ambos. Hilda é o enigma que Belo Horizonte não consegue decifrar, e você é a chave. Como ela está? Soube que a última passagem dela pelo Minas Tênis Clube causou mais desmaios do que uma epidemia de gripe.
Eva suspirou, guardando o folheto na bolsa de couro desgastada.
— Hilda é um furacão, Roberto. O nome não é apenas um apelido carinhoso. Ela está... em transe. Aquele Frei Malthus a deixou de cabeça para baixo. Ela quer liberdade, quer o mundo, mas o coração dela resolveu se ancorar justamente num homem que fez votos de silêncio e castidade. É quase uma piada de mau gosto do destino.
— O destino é o maior humorista que eu conheço — comentou Roberto, observando o garçom depositar as xícaras de café. — Mas me diga, e você? Como uma comunista convicta, que sonha com a queda das estruturas sociais, acaba sendo a sombra de uma mulher que vive no epicentro do escândalo da elite?
Eva olhou para ele, e por um momento, a ironia de Roberto pareceu murchar diante da intensidade daqueles olhos azuis.
— Hilda não é a elite, Roberto. Ela é a rebelião contra ela. Ela usa as joias e os vestidos sofisticados como armaduras. Nós crescemos juntas, não tenho outra família além dela. Se ela decidir incendiar o mundo, eu serei a pessoa que vai segurar o fósforo para ela.
— E eu o jornalista que vai escrever a crônica do incêndio — ele completou, sentindo uma admiração genuína. — Mas mudando de assunto... ou melhor, aprofundando o tema. Haverá outra reunião na terça-feira? No porão daquela livraria?
Eva inclinou-se para frente, a voz baixando para um sussurro cúmplice que fez os pelos do braço de Roberto se arrepiarem.
— Sim. Vamos discutir a greve dos operários da contagem. Mas você precisa ser mais discreto, Roberto. Da última vez, seus óculos brilhavam tanto na penumbra que pareciam dois faróis da polícia.
— Eu nasci para ser visto, Eva. É um fardo — ele brincou, embora soubesse do perigo. — Mas irei. Pela causa, é claro.
— É claro — ela sorriu, um sorriso que indicava que ela sabia perfeitamente que a "causa" de Roberto estava começando a ganhar contornos muito específicos que nada tinham a ver com Marx ou Engels.
O jantar seguinte aconteceu dois dias depois, num restaurante pequeno e esfumaçado onde a elite não costumava colocar os pés. Roberto insistira que precisava de "detalhes psicológicos" sobre Hilda para sua grande reportagem, mas passou quarenta minutos ouvindo Eva falar sobre sua infância incerta e o mistério de sua origem.
— Às vezes eu acho que apareci em Belo Horizonte por geração espontânea — dizia ela, enquanto enrolava o macarrão no garfo. — Hilda diz que eu sou uma princesa russa exilada que se perdeu nos trópicos.
— Uma princesa russa comunista? Isso sim seria um furo de reportagem — Roberto comentou, limpando os óculos. — Mas eu prefiro a teoria de que você é uma entidade enviada para testar a sanidade dos jornalistas mineiros.
— Você é muito bobo, Roberto Drummond — Eva riu, as sardas se movendo com o gesto. — Por que você finge que é tão cínico? Eu vi o jeito que você olhou para aquele menino pedindo esmola na porta da reunião. Você deu a ele mais do que apenas moedas.
Roberto sentiu o rosto esquentar, algo raro para um homem de trinta anos que se orgulhava de sua carapaça de indiferença.
— Eu apenas estava redistribuindo a renda de forma direta e sem burocracia. Uma ação prática, entende?
— Entendo — ela disse, a voz subitamente suave. — Você é um bom homem, Roberto. Por trás de toda essa ironia e desses artigos ácidos, existe alguém que se importa.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso, carregado de uma eletricidade que nem mesmo o barulho dos pratos ao fundo conseguia dissipar. Roberto olhou para Eva e, pela primeira vez, a imagem de Hilda Furacão, a mulher mais desejada da cidade, pareceu uma fotografia em preto e branco comparada ao technicolor vibrante da jovem à sua frente.
— Eva... — ele começou, mas foi interrompido por um estrondo na porta.
Um grupo de estudantes entrou ruidosamente, trazendo consigo o ar frio da noite e notícias de uma nova manifestação. O momento quebrou. Eva voltou à sua postura de militante, seus olhos brilhando com a urgência da política.
— Precisamos ir — disse ela, levantando-se. — Hilda vai me esperar e eu ainda preciso passar as notas para o pessoal do diretório.
— Eu te acompanho — Roberto prontificou-se, pagando a conta rapidamente.
Caminharam pelas ruas de paralelepípedos, a sombra dos dois projetando-se longa sob a luz dos postes de ferro. Belo Horizonte parecia uma maquete de gesso sob o luar. Ao chegarem perto da casa onde Eva morava com Hilda, ele parou.
— Sobre a Hilda... — ele começou, tentando retomar a desculpa inicial.
— Roberto — Eva o interrompeu, colocando uma mão leve em seu braço. — Você não quer saber da Hilda. Você já sabe tudo o que precisa sobre ela para os seus artigos.
Roberto sentiu o coração falhar uma batida.
— Não? — ele perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
— Não. Você quer saber se eu vou ao café amanhã à tarde. E a resposta é sim.
Ela se aproximou e, num gesto rápido e audacioso como uma revolução bem planejada, depositou um beijo no canto da boca dele. O cheiro de Eva era uma mistura de sabonete de flores e papel antigo.
— Até amanhã, camarada — ela sussurrou, antes de desaparecer para dentro do portão.
Roberto ficou parado por um longo tempo, os óculos levemente embaçados pela respiração. Ele levou a mão ao rosto, sentindo o lugar onde os lábios dela haviam tocado.
— É — ele murmurou para a rua deserta —, o destino é definitivamente um humorista. E eu acabo de virar o alívio cômico da minha própria história.
Ele começou a caminhar de volta para sua pensão, assobiando uma melodia qualquer. A matéria sobre Hilda Furacão podia esperar. Afinal, ele tinha um manifesto muito mais urgente para escrever, um que começava e terminava nos olhos azuis de uma certa comunista que se recusava a ser apenas um detalhe na vida de outra pessoa.
Belo Horizonte continuava sua noite de lendas, mas para Roberto Drummond, a maior lenda de todas estava apenas começando a se tornar realidade entre uma xícara de café e um sonho de mudar o mundo.
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