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A Ética do Pecado
Фандом: Flowers (TV serie) e Original Character
Создан: 08.05.2026
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O Hábito de Pecar sob as Bênçãos de uma Falsa Batina
Gabriele alisou as dobras de sua saia de linho com uma fúria contida, os dedos longos e pálidos tremendo levemente. Ela ainda carregava o perfume de incenso e mofo das paredes do Convento de Santa Gertrudes, mas o ar daquela universidade cheirava a café barato, livros velhos e, especificamente ali naquela sala, a tabaco de corda e uma insolência pecaminosa.
— Eu me recuso — declarou ela, a voz saindo em um tom de soprano indignado que ela costumava usar para denunciar noviças que escondiam doces sob o colchão. — É uma abominação estética, moral e teológica. Eu sou uma mulher de princípios, Gabriel. Saí da clausura para encontrar a iluminação, não para me tornar isca para uma... uma caminhoneira que cita Santo Agostinho enquanto mexe no motor de uma picape.
Gabriel, sentado de forma desleixada na mesa da biblioteca, girou um estilete entre os dedos e deu um sorriso enviesado. O bigode dele, perfeitamente aparado, conferia-lhe um ar de vilão de novela das seis.
— Gabi, querida, entenda o contexto — disse ele, inclinando-se para frente. — A Professora Cristina está fungando no nosso pescoço. Ela acha que o "fundo de caridade" que você abriu na semana passada é um esquema de pirâmide. Precisamos dos registros do servidor central da universidade para limpar nossos rastros. E quem tem a chave da sala de servidores e o código de acesso? A "Padre" Hylda.
— Ela não é padre! — Gabriele quase gritou, recuperando a postura de santa ofendida logo em seguida. — Ela é uma mulher de modos rudes, com tatuagens de âncoras e um olhar que... que desrespeita o pudor alheio. Ela me olhou como se eu fosse um pedaço de pão bento em dia de jejum.
No canto da sala, Chung, escondida atrás de três monitores e um emaranhado de cabos, soltou uma risadinha seca sem tirar os olhos do código que corria na tela.
— Ela olhou para você como se quisesse te levar para o confessionário e cometer todos os sete pecados capitais em uma tarde só — comentou Chung, a voz monótona e precisa. — E, honestamente, Gabriele, você está adorando. Sua pulsação subiu dez batimentos só de eu mencionar o nome dela.
— Calúnia! — Gabriele levou a mão ao peito. — É taquicardia por desgosto. Eu não sou esse tipo de mulher. Eu fui educada para o silêncio e para a contemplação das virtudes.
— Você foi expulsa do convento porque tentou vender as relíquias de "ossos de santos" que na verdade eram de galinha frita, Gabriele — lembrou Stephanie, entrando na sala com um exagero de pulseiras barulhentas e um vestido justo demais para o ambiente acadêmico. — E falando em Hylda... ai, ela é tão rústica, não é? Tão... masculina de um jeito intelectual. Eu tentei pedir uma orientação sobre minha tese de "Drama e Existencialismo", e ela me mandou ler o rótulo de uma garrafa de gim e parar de ser chata. Eu quase desmaiei de emoção.
Gabriele sentiu uma pontada aguda de irritação no estômago. Olhou para Stephanie com um desprezo que beirava o ódio bíblico.
— Ela é vulgar, Stephanie. Falta-lhe a finura que apenas anos de oração — e um bom hidratante francês — podem proporcionar. Mas, se é pelo bem do nosso... empreendimento, eu farei o sacrifício. Vou falar com essa mulher.
A porta da sala se abriu com um estrondo suave, e o cheiro de couro e mentol invadiu o recinto antes mesmo da figura aparecer. Hylda entrou com as mãos nos bolsos de uma calça preta de alfaiataria gasta, uma camisa escura aberta nos dois primeiros botões revelando um vislumbre de uma tatuagem desbotada no pescoço. O cabelo grisalho estava perfeitamente curto, e o sorriso que ela portava era o de quem conhecia todos os segredos do submundo e alguns do céu.
— Alguém chamou pelo clero? — perguntou Hylda, a voz rouca, como se tivesse engolido cascalho e mel. — Ouvi vozes estridentes e um cheiro forte de perfume francês caro misturado com culpa católica. Só podia ser você, Gabriele.
Gabriele se levantou, a coluna tão reta que parecia prestes a estalar.
— Professora Hylda. Ou devo chamá-la de "Padre"? — O sarcasmo de Gabriele era tão afiado quanto uma navalha. — Soube que sua ordenação foi tão legítima quanto uma nota de três reais.
Hylda caminhou até ela, ignorando completamente os outros três no recinto. Parou a uma distância que Gabriele considerou perigosamente invasiva — e secretamente inebriante.
— A fé é uma questão de perspectiva, docinho — Hylda disse, inclinando a cabeça. — Eu ensino teologia, conserto corações partidos e sei exatamente onde os corpos estão enterrados nesta universidade. Informalmente, claro. O que uma criaturinha tão pura quanto você quer com uma velha pecadora como eu?
— Precisamos de acesso aos servidores — interrompeu Gabriel, tentando retomar o controle da situação. — E achamos que a senhora, com sua vasta rede de contatos e falta de escrúpulos, seria a parceira ideal.
Hylda nem desviou os olhos de Gabriele. Ela esticou a mão e tocou uma mecha do cabelo castanho da ex-noviça, deslizando os dedos com uma lentidão deliberada. Gabriele não recuou. Ela queria, mas seus pés pareciam colados ao chão por uma vontade divina — ou diabólica.
— Os servidores são território sagrado — murmurou Hylda, o tom de voz baixando para um registro íntimo. — Mas eu sou uma mulher de caridade. Posso ajudar. Mas o preço é alto. Quero que a Gabriele me ajude com uma... pesquisa de campo. Esta noite. No "Ovelha Negra".
— Aquele bar de motoqueiros? — Stephanie guinchou. — Mas eu conheço muito mais de bares do que ela! Ela nem sabe o que é um shot de tequila!
— Exatamente por isso — disse Hylda, finalmente dando um sorriso de lado que fez as pernas de Gabriele vacilarem por um milésimo de segundo. — Gosto de ensinar as escrituras para quem ainda não aprendeu a pecar direito.
— Eu não vou a um antro de perdição com você — Gabriele declarou, embora sua mão já estivesse procurando o batom na bolsa. — Seria uma mancha na minha reputação.
— Sua reputação está num beco escuro apanhando da Professora Cristina agora mesmo, Gabriele — Chung comentou, sem desviar os olhos da tela. — Vá com ela. Pegue os códigos. Salve nossas peles.
Hylda piscou para Gabriele, um gesto tão absurdamente charmoso e vulgar que a jovem sentiu um calor subir pelo pescoço.
— Às oito, Gabriele. Use algo que não pareça que você vai ser sacrificada num altar. Ou use. Eu gosto de um pouco de drama.
Quando Hylda saiu, o silêncio na sala foi absoluto por três segundos.
— Ela quer te pegar — disse Gabriel, cruzando os braços com um sorriso de satisfação. — E você vai deixar. Pelo bem do grupo.
— Eu sou uma mártir — suspirou Gabriele, sentando-se e tentando controlar a respiração. — Uma mártir da inteligência e da necessidade financeira. Aquela mulher é um demônio. Um demônio grisalho com mãos grandes e um vocabulário deplorável.
— E você está retocando o rímel — apontou Chung.
— É para que Deus veja minha beleza mesmo no meio da tragédia, sua abusada!
***
O "Ovelha Negra" era exatamente o que Gabriele temia: barulhento, escuro e cheio de pessoas que pareciam ter saído de um filme de baixo orçamento sobre gangues de rua. Hylda estava encostada no balcão, segurando um copo de uísque puro. Quando viu Gabriele entrar — usando um vestido preto justo que ela jurava ser "modesto", mas que abraçava cada curva de seus 27 anos —, a professora soltou um assobio baixo.
— Ora, ora. A santinha resolveu descer do vitral.
— Não comece, Hylda — Gabriele disse, sentando-se no banco ao lado com a elegância de uma rainha exilada. — Estou aqui estritamente por negócios. Onde estão os códigos?
Hylda aproximou-se, o calor de seu corpo irradiando através da jaqueta de couro preta.
— Os códigos estão guardados na minha memória, que é excelente para números e terrível para arrependimentos. Mas antes, vamos beber. Você parece tensa demais. Precisa relaxar esse cenho franzido, ou vai acabar com rugas antes dos trinta.
— Eu não me "relaxo" em ambientes que não foram santificados — rebateu Gabriele, mas aceitou o copo que Hylda empurrou em sua direção. — O que é isso?
— Sangue de dragão. Ou só Bourbon barato. Beba.
Gabriele tomou um gole, tossiu levemente e sentiu o líquido queimar até o estômago. Hylda riu, um som profundo e vibrante.
— Você é uma fraude deliciosa, Gabriele. Finge que odeia o mundo, mas está morrendo de vontade de morder um pedaço dele. Por que saiu do convento? Tédio ou as freiras descobriram que você estava desviando o vinho da missa?
— Eu buscava a perfeição — mentiu Gabriele, embora seus olhos brilhassem com a provocação. — E percebi que o mundo precisava mais da minha inteligência do que o céu das minhas preces.
— Você é convencida, arrogante e absurdamente bonita quando está tentando parecer superior — disse Hylda, inclinando-se tanto que seus lábios quase roçaram a orelha de Gabriele. — E eu adoro quebrar coisas bonitas para ver o que tem dentro.
Gabriele sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado quebrado do bar.
— Você se acha muito esperta, não é? — Gabriele virou-se para encará-la, os rostos a centímetros de distância. — Uma "padre" de araque, ex-viciada, que usa o intelecto para seduzir garotas incautas. Você é transparente, Hylda.
— E mesmo assim, você ainda não desviou o olhar — Hylda retrucou, o tom desafiador. — Você diz que "não é esse tipo de mulher", mas seus olhos estão gritando que você quer me levar para um canto escuro e me perguntar sobre a fenomenologia do desejo.
— Eu nunca diria algo tão cafona — Gabriele sussurrou, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
Nesse momento, o celular de Gabriele vibrou. Era uma mensagem de Gabriel: *"A Cristina está no bar. Escondam-se. Ela está com um binóculo e uma cara de quem vai prender todo mundo."*
Gabriele olhou em volta, em pânico. Viu a Professora Cristina, com seu casaco de tweed e uma expressão de detetive de filme noir de quinta categoria, entrando cautelosamente no bar.
— Merda — resmungou Gabriele, perdendo a postura refinada por um segundo. — A Cristina está aqui. Se ela me vir com você, ela vai saber que estamos tramando algo. Ela é obcecada em me desmascarar.
Hylda olhou para a porta e deu um sorriso predatório.
— Ela não é obcecada em te desmascarar, Gabriele. Ela é obcecada por você. A coitada morre de inveja dessa sua aura de "pecadora em negação". Quer despistá-la?
— Como?
Hylda agarrou a cintura de Gabriele com uma mão firme e a puxou para perto.
— Faça o que você faz de melhor: atue.
Antes que Gabriele pudesse protestar que "não era esse tipo de mulher", Hylda a beijou. Não foi um beijo de filme, mas algo real, com gosto de uísque, tabaco e uma autoridade que Gabriele nunca tinha experimentado. Por um segundo, o mundo de regras, conventos e pequenos golpes desapareceu. Gabriele, para seu próprio horror e deleite, retribuiu, segurando a lapela da jaqueta de Hylda com uma urgência que nada tinha de santa.
Do outro lado do bar, a Professora Cristina parou, deixou cair o caderninho de anotações e ficou boquiaberta, uma mistura de choque moral e ciúme evidente em seu rosto.
Hylda se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Gabriele, que estavam nublados e surpresos.
— E então? — Hylda perguntou, a voz mais rouca do que nunca. — Ainda acha que sou moralmente suspeita?
Gabriele ajeitou o cabelo, tentando recuperar a dignidade enquanto sua alma ainda dava cambalhotas.
— Absurdamente — disse Gabriele, recuperando o tom refinado, embora sua boca estivesse vermelha e inchada. — Você é uma transgressora, uma manipuladora e uma péssima influência.
Ela fez uma pausa, olhando para a Professora Cristina que ainda as observava de longe com o coração partido.
— Agora, por favor — continuou Gabriele, aproximando-se novamente de Hylda —, faça de novo. Para garantir que a Professora Cristina não desconfie de nada. Pelo bem do golpe, é claro.
Hylda soltou uma gargalhada que ecoou pelo bar.
— Amém, Gabriele. Amém.
— Eu me recuso — declarou ela, a voz saindo em um tom de soprano indignado que ela costumava usar para denunciar noviças que escondiam doces sob o colchão. — É uma abominação estética, moral e teológica. Eu sou uma mulher de princípios, Gabriel. Saí da clausura para encontrar a iluminação, não para me tornar isca para uma... uma caminhoneira que cita Santo Agostinho enquanto mexe no motor de uma picape.
Gabriel, sentado de forma desleixada na mesa da biblioteca, girou um estilete entre os dedos e deu um sorriso enviesado. O bigode dele, perfeitamente aparado, conferia-lhe um ar de vilão de novela das seis.
— Gabi, querida, entenda o contexto — disse ele, inclinando-se para frente. — A Professora Cristina está fungando no nosso pescoço. Ela acha que o "fundo de caridade" que você abriu na semana passada é um esquema de pirâmide. Precisamos dos registros do servidor central da universidade para limpar nossos rastros. E quem tem a chave da sala de servidores e o código de acesso? A "Padre" Hylda.
— Ela não é padre! — Gabriele quase gritou, recuperando a postura de santa ofendida logo em seguida. — Ela é uma mulher de modos rudes, com tatuagens de âncoras e um olhar que... que desrespeita o pudor alheio. Ela me olhou como se eu fosse um pedaço de pão bento em dia de jejum.
No canto da sala, Chung, escondida atrás de três monitores e um emaranhado de cabos, soltou uma risadinha seca sem tirar os olhos do código que corria na tela.
— Ela olhou para você como se quisesse te levar para o confessionário e cometer todos os sete pecados capitais em uma tarde só — comentou Chung, a voz monótona e precisa. — E, honestamente, Gabriele, você está adorando. Sua pulsação subiu dez batimentos só de eu mencionar o nome dela.
— Calúnia! — Gabriele levou a mão ao peito. — É taquicardia por desgosto. Eu não sou esse tipo de mulher. Eu fui educada para o silêncio e para a contemplação das virtudes.
— Você foi expulsa do convento porque tentou vender as relíquias de "ossos de santos" que na verdade eram de galinha frita, Gabriele — lembrou Stephanie, entrando na sala com um exagero de pulseiras barulhentas e um vestido justo demais para o ambiente acadêmico. — E falando em Hylda... ai, ela é tão rústica, não é? Tão... masculina de um jeito intelectual. Eu tentei pedir uma orientação sobre minha tese de "Drama e Existencialismo", e ela me mandou ler o rótulo de uma garrafa de gim e parar de ser chata. Eu quase desmaiei de emoção.
Gabriele sentiu uma pontada aguda de irritação no estômago. Olhou para Stephanie com um desprezo que beirava o ódio bíblico.
— Ela é vulgar, Stephanie. Falta-lhe a finura que apenas anos de oração — e um bom hidratante francês — podem proporcionar. Mas, se é pelo bem do nosso... empreendimento, eu farei o sacrifício. Vou falar com essa mulher.
A porta da sala se abriu com um estrondo suave, e o cheiro de couro e mentol invadiu o recinto antes mesmo da figura aparecer. Hylda entrou com as mãos nos bolsos de uma calça preta de alfaiataria gasta, uma camisa escura aberta nos dois primeiros botões revelando um vislumbre de uma tatuagem desbotada no pescoço. O cabelo grisalho estava perfeitamente curto, e o sorriso que ela portava era o de quem conhecia todos os segredos do submundo e alguns do céu.
— Alguém chamou pelo clero? — perguntou Hylda, a voz rouca, como se tivesse engolido cascalho e mel. — Ouvi vozes estridentes e um cheiro forte de perfume francês caro misturado com culpa católica. Só podia ser você, Gabriele.
Gabriele se levantou, a coluna tão reta que parecia prestes a estalar.
— Professora Hylda. Ou devo chamá-la de "Padre"? — O sarcasmo de Gabriele era tão afiado quanto uma navalha. — Soube que sua ordenação foi tão legítima quanto uma nota de três reais.
Hylda caminhou até ela, ignorando completamente os outros três no recinto. Parou a uma distância que Gabriele considerou perigosamente invasiva — e secretamente inebriante.
— A fé é uma questão de perspectiva, docinho — Hylda disse, inclinando a cabeça. — Eu ensino teologia, conserto corações partidos e sei exatamente onde os corpos estão enterrados nesta universidade. Informalmente, claro. O que uma criaturinha tão pura quanto você quer com uma velha pecadora como eu?
— Precisamos de acesso aos servidores — interrompeu Gabriel, tentando retomar o controle da situação. — E achamos que a senhora, com sua vasta rede de contatos e falta de escrúpulos, seria a parceira ideal.
Hylda nem desviou os olhos de Gabriele. Ela esticou a mão e tocou uma mecha do cabelo castanho da ex-noviça, deslizando os dedos com uma lentidão deliberada. Gabriele não recuou. Ela queria, mas seus pés pareciam colados ao chão por uma vontade divina — ou diabólica.
— Os servidores são território sagrado — murmurou Hylda, o tom de voz baixando para um registro íntimo. — Mas eu sou uma mulher de caridade. Posso ajudar. Mas o preço é alto. Quero que a Gabriele me ajude com uma... pesquisa de campo. Esta noite. No "Ovelha Negra".
— Aquele bar de motoqueiros? — Stephanie guinchou. — Mas eu conheço muito mais de bares do que ela! Ela nem sabe o que é um shot de tequila!
— Exatamente por isso — disse Hylda, finalmente dando um sorriso de lado que fez as pernas de Gabriele vacilarem por um milésimo de segundo. — Gosto de ensinar as escrituras para quem ainda não aprendeu a pecar direito.
— Eu não vou a um antro de perdição com você — Gabriele declarou, embora sua mão já estivesse procurando o batom na bolsa. — Seria uma mancha na minha reputação.
— Sua reputação está num beco escuro apanhando da Professora Cristina agora mesmo, Gabriele — Chung comentou, sem desviar os olhos da tela. — Vá com ela. Pegue os códigos. Salve nossas peles.
Hylda piscou para Gabriele, um gesto tão absurdamente charmoso e vulgar que a jovem sentiu um calor subir pelo pescoço.
— Às oito, Gabriele. Use algo que não pareça que você vai ser sacrificada num altar. Ou use. Eu gosto de um pouco de drama.
Quando Hylda saiu, o silêncio na sala foi absoluto por três segundos.
— Ela quer te pegar — disse Gabriel, cruzando os braços com um sorriso de satisfação. — E você vai deixar. Pelo bem do grupo.
— Eu sou uma mártir — suspirou Gabriele, sentando-se e tentando controlar a respiração. — Uma mártir da inteligência e da necessidade financeira. Aquela mulher é um demônio. Um demônio grisalho com mãos grandes e um vocabulário deplorável.
— E você está retocando o rímel — apontou Chung.
— É para que Deus veja minha beleza mesmo no meio da tragédia, sua abusada!
***
O "Ovelha Negra" era exatamente o que Gabriele temia: barulhento, escuro e cheio de pessoas que pareciam ter saído de um filme de baixo orçamento sobre gangues de rua. Hylda estava encostada no balcão, segurando um copo de uísque puro. Quando viu Gabriele entrar — usando um vestido preto justo que ela jurava ser "modesto", mas que abraçava cada curva de seus 27 anos —, a professora soltou um assobio baixo.
— Ora, ora. A santinha resolveu descer do vitral.
— Não comece, Hylda — Gabriele disse, sentando-se no banco ao lado com a elegância de uma rainha exilada. — Estou aqui estritamente por negócios. Onde estão os códigos?
Hylda aproximou-se, o calor de seu corpo irradiando através da jaqueta de couro preta.
— Os códigos estão guardados na minha memória, que é excelente para números e terrível para arrependimentos. Mas antes, vamos beber. Você parece tensa demais. Precisa relaxar esse cenho franzido, ou vai acabar com rugas antes dos trinta.
— Eu não me "relaxo" em ambientes que não foram santificados — rebateu Gabriele, mas aceitou o copo que Hylda empurrou em sua direção. — O que é isso?
— Sangue de dragão. Ou só Bourbon barato. Beba.
Gabriele tomou um gole, tossiu levemente e sentiu o líquido queimar até o estômago. Hylda riu, um som profundo e vibrante.
— Você é uma fraude deliciosa, Gabriele. Finge que odeia o mundo, mas está morrendo de vontade de morder um pedaço dele. Por que saiu do convento? Tédio ou as freiras descobriram que você estava desviando o vinho da missa?
— Eu buscava a perfeição — mentiu Gabriele, embora seus olhos brilhassem com a provocação. — E percebi que o mundo precisava mais da minha inteligência do que o céu das minhas preces.
— Você é convencida, arrogante e absurdamente bonita quando está tentando parecer superior — disse Hylda, inclinando-se tanto que seus lábios quase roçaram a orelha de Gabriele. — E eu adoro quebrar coisas bonitas para ver o que tem dentro.
Gabriele sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado quebrado do bar.
— Você se acha muito esperta, não é? — Gabriele virou-se para encará-la, os rostos a centímetros de distância. — Uma "padre" de araque, ex-viciada, que usa o intelecto para seduzir garotas incautas. Você é transparente, Hylda.
— E mesmo assim, você ainda não desviou o olhar — Hylda retrucou, o tom desafiador. — Você diz que "não é esse tipo de mulher", mas seus olhos estão gritando que você quer me levar para um canto escuro e me perguntar sobre a fenomenologia do desejo.
— Eu nunca diria algo tão cafona — Gabriele sussurrou, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
Nesse momento, o celular de Gabriele vibrou. Era uma mensagem de Gabriel: *"A Cristina está no bar. Escondam-se. Ela está com um binóculo e uma cara de quem vai prender todo mundo."*
Gabriele olhou em volta, em pânico. Viu a Professora Cristina, com seu casaco de tweed e uma expressão de detetive de filme noir de quinta categoria, entrando cautelosamente no bar.
— Merda — resmungou Gabriele, perdendo a postura refinada por um segundo. — A Cristina está aqui. Se ela me vir com você, ela vai saber que estamos tramando algo. Ela é obcecada em me desmascarar.
Hylda olhou para a porta e deu um sorriso predatório.
— Ela não é obcecada em te desmascarar, Gabriele. Ela é obcecada por você. A coitada morre de inveja dessa sua aura de "pecadora em negação". Quer despistá-la?
— Como?
Hylda agarrou a cintura de Gabriele com uma mão firme e a puxou para perto.
— Faça o que você faz de melhor: atue.
Antes que Gabriele pudesse protestar que "não era esse tipo de mulher", Hylda a beijou. Não foi um beijo de filme, mas algo real, com gosto de uísque, tabaco e uma autoridade que Gabriele nunca tinha experimentado. Por um segundo, o mundo de regras, conventos e pequenos golpes desapareceu. Gabriele, para seu próprio horror e deleite, retribuiu, segurando a lapela da jaqueta de Hylda com uma urgência que nada tinha de santa.
Do outro lado do bar, a Professora Cristina parou, deixou cair o caderninho de anotações e ficou boquiaberta, uma mistura de choque moral e ciúme evidente em seu rosto.
Hylda se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Gabriele, que estavam nublados e surpresos.
— E então? — Hylda perguntou, a voz mais rouca do que nunca. — Ainda acha que sou moralmente suspeita?
Gabriele ajeitou o cabelo, tentando recuperar a dignidade enquanto sua alma ainda dava cambalhotas.
— Absurdamente — disse Gabriele, recuperando o tom refinado, embora sua boca estivesse vermelha e inchada. — Você é uma transgressora, uma manipuladora e uma péssima influência.
Ela fez uma pausa, olhando para a Professora Cristina que ainda as observava de longe com o coração partido.
— Agora, por favor — continuou Gabriele, aproximando-se novamente de Hylda —, faça de novo. Para garantir que a Professora Cristina não desconfie de nada. Pelo bem do golpe, é claro.
Hylda soltou uma gargalhada que ecoou pelo bar.
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