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Entre Lençóis e Relâmpagos
Фандом: sleepy hallow 1999
Создан: 15.05.2026
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Sombras e Segredos sob o Rugido do Trovão
A tempestade que assolava Sleepy Hollow naquela noite parecia saída de um dos pesadelos mais sombrios de Ichabod Crane. O vento uivava entre as frestas das janelas de carvalho da mansão Van Tassel, e os relâmpagos rasgavam o céu, banhando os campos enevoados em uma luz azulada e fantasmagórica. Dentro da casa, o silêncio era uma ilusão alimentada pelo barulho da chuva contra o telhado, mas para a governanta, a Sra. Miller, o silêncio era suspeito.
Ela subia as escadas de madeira com passos calculados, a chama da pequena vela que carregava tremeluzindo violentamente a cada rajada de vento que penetrava pelas frestas. Seus olhos, pequenos e agudos como os de uma ave de rapina, estavam fixos no final do corredor. Ela já havia notado a ausência de Ichabod em seus aposentos e, mais do que isso, notara a forma como Katrina o olhava durante o jantar — um olhar que não pertencia a uma anfitriã dedicada, mas a uma mulher que guardava um segredo ardente.
Ao se aproximar do quarto de Katrina, a Sra. Miller parou. A porta não estava totalmente fechada; uma fresta de luz dourada escapava para o corredor escuro. No início, ela ouviu apenas o som da chuva. Então, entre um trovão e outro, vieram os sons que confirmaram suas piores suspeitas: risos abafados, vozes sussurradas em um tom de urgência e a respiração pesada de dois corpos em sintonia.
Com o coração batendo forte contra o peito, movida por uma mistura de indignação moral e uma curiosidade mórbida, ela se inclinou para a fresta.
O que viu a deixou paralisada.
O quarto de Katrina estava mergulhado em uma atmosfera quase sobrenatural. Velas de cera de abelha queimavam em candelabros de prata, projetando sombras gigantescas e dançantes pelas paredes de papel pintado. As cortinas de seda balançavam com o vento frio que entrava pela janela entreaberta, mas o frio não parecia afetar o casal na cama de dossel.
Lá estava Ichabod Crane. O homem que ela conhecia como um investigador racional, quase puritano em sua rigidez, estava agora irreconhecível. Seus cabelos negros, geralmente presos ou penteados com austeridade, caíam em desalinho sobre o rosto pálido. Ele estava rendido, sua guarda científica completamente destruída pela presença da mulher em seus braços. Suas mãos longas e nervosas, que costumavam segurar bisturis e lentes com precisão fria, agora tocavam a pele de Katrina com uma reverência desesperada.
Katrina, com seus cabelos dourados espalhados sobre os lençóis brancos como um halo de anjo caído, olhava para ele com uma devoção que beirava o misticismo. Não havia hesitação nela. Ela era o centro daquele furacão, o porto seguro onde o homem assombrado finalmente encontrava descanso.
A Sra. Miller sentiu o rosto queimar. Ela deveria gritar, deveria correr para chamar o Sr. Van Tassel, mas seus pés pareciam fincados no chão. Havia algo hipnótico na cena. Era como observar um ritual proibido. Ichabod inclinou-se e murmurou algo no ouvido de Katrina, um segredo compartilhado que fez a jovem fechar os olhos e sorrir — um sorriso que não era para o mundo, mas apenas para ele.
A intimidade era tão absoluta que o resto da mansão, a vila e até o Cavaleiro sem Cabeça pareciam ter deixado de existir. Eles eram os únicos habitantes de um universo composto apenas de pele, sombras e o som da chuva.
Minutos se passaram, ou talvez horas — a governanta não sabia dizer. O ato consumado deu lugar a um silêncio exausto. Ichabod e Katrina permaneceram abraçados, os peitos subindo e descendo em uníssono enquanto recuperavam o fôlego. Ichabod, com uma ternura que a Sra. Miller nunca imaginou que ele possuísse, beijou a testa de Katrina e acariciou uma mecha de seu cabelo dourado.
Foi nesse momento de vulnerabilidade total que o feitiço se quebrou.
Katrina, cujos sentidos pareciam sempre mais aguçados que os dos mortais comuns, sentiu uma presença. Seus olhos se abriram e se fixaram na porta. Através da fresta, ela encontrou o olhar horrorizado da governanta.
O sangue fugiu do rosto de Katrina instantaneamente. Ela não gritou, mas sua rigidez súbita alertou Ichabod.
— Katrina? — sussurrou ele, a voz ainda rouca. — O que foi?
Seguindo o olhar dela, ele se virou lentamente. Quando percebeu a figura da Sra. Miller parada no corredor, segurando a vela trêmula, o pânico tomou conta dele de forma avassaladora.
— Oh, céus! — exclamou Ichabod, saltando da cama com uma agilidade desajeitada que quase o fez cair.
No processo, ele esbarrou em uma pequena mesa lateral, derrubando um tinteiro e uma das velas, que se apagou com um chiado ao atingir o tapete. Ele tentou, de forma frenética e inútil, cobrir-se com sua camisa descartada, enquanto suas mãos tremiam tão violentamente que ele mal conseguia segurar o tecido.
— Sra. Miller! Eu... eu posso... a ciência... as circunstâncias... — Ele gaguejava, os olhos escuros arregalados de vergonha e terror. — Não é o que parece... ou melhor, é, mas há uma explicação lógica para o... o impulso...
Diferente dele, Katrina não se moveu com pressa. Ela sentou-se lentamente, puxando o lençol de seda sobre o busto com uma dignidade impressionante. Seu rosto, embora pálido, não demonstrava a culpa que Ichabod exalava por cada poro. Ela manteve o olhar fixo na governanta, uma força silenciosa emanando de sua postura.
A Sra. Miller finalmente recuperou a voz, embora ela saísse estridente e carregada de veneno moral.
— Pecado! — sibilou a mulher, dando um passo à frente, a luz da vela iluminando as rugas de desgosto em seu rosto. — Um escândalo que manchará este nome para sempre! Debaixo do teto do Sr. Van Tassel... com um convidado que julgávamos honrado!
— Por favor, eu lhe imploro — Ichabod interrompeu, tentando abotoar a camisa de forma errada enquanto se aproximava da porta com as mãos estendidas em um gesto de súplica. — A responsabilidade é inteiramente minha. Eu fui fraco, eu me deixei levar por... por afeições que minha mente não pôde conter. Não culpe a Srta. Katrina!
A governanta o ignorou, apontando o dedo trêmulo para Katrina.
— O mestre Baltus saberá disso antes do amanhecer. Ele expulsará este homem na tempestade e você, menina, conhecerá a vergonha de uma cela de convento ou coisa pior! Jamais vi tamanha depravação nesta mansão.
A Sra. Miller virou-se para sair, as saias pesadas sussurrando contra o chão, mas a voz de Katrina a deteve. Não era um grito, mas um comando calmo e gélido que cortou o ar mais do que qualquer trovão.
— Pare, Miller.
A governanta estacou. Ichabod olhou para Katrina, surpreso pela firmeza dela.
— Você não dirá nada a meu pai — continuou Katrina, levantando-se da cama, envolta no lençol como se fosse uma túnica real. Ela caminhou até a luz, sua beleza etérea parecendo ainda mais perigosa naquela penumbra. — E não dirá porque não há pecado no que você viu.
— Não há pecado? — a governanta riu, uma risada seca. — Vocês se entregaram como animais!
— Nós nos entregamos como dois seres que se amam — rebateu Katrina, e a palavra "amor" pareceu fazer Ichabod estremecer. — Eu amo este homem, Miller. E ele me ama. Não sinto vergonha. O que você viu foi a verdade que este mundo tenta esconder com regras e sombras.
— O Sr. Van Tassel não verá dessa forma — disse a governanta, embora sua voz tivesse perdido um pouco da força diante da convicção de Katrina.
— Meu pai me ama mais do que ama suas regras — Katrina deu mais um passo, ficando a poucos centímetros da mulher. — Mas se você falar, destruirá a paz desta casa. E eu lhe pergunto: o que ganha com isso? A senhora viu algo que era sagrado e transformou em algo sujo em sua mente.
Ichabod, que finalmente conseguira vestir o casaco, embora estivesse todo desalinhado, aproximou-se de Katrina, colocando uma mão hesitante em seu ombro. Ele ainda estava pálido, o medo de ser enforcado ou exilado brilhando em seus olhos, mas a coragem dela parecia infundir-lhe um pouco de brio.
— Sra. Miller — disse ele, recuperando um pouco de sua dicção de magistrado —, peço que considere. O escândalo não trará benefícios a ninguém. Eu... eu pretendo honrar a Srta. Katrina. Meus sentimentos não são levianos.
A governanta olhou de um para o outro. Ela via o medo em Ichabod, mas via algo muito mais inquietante em Katrina — uma determinação que beirava o sobrenatural. Por um momento, a Sra. Miller lembrou-se dos boatos sobre a mãe de Katrina, sobre a linhagem das mulheres Van Tassel e as coisas que se dizia que elas podiam fazer com o destino daqueles que as cruzavam.
O silêncio voltou a reinar no quarto, interrompido apenas pelo tique-taque de um relógio e pelo rugido distante da tempestade. A vela na mão da governanta estava chegando ao fim, a cera quente pingando sobre seus dedos, mas ela não parecia sentir.
— Vocês são loucos — murmurou a Sra. Miller, finalmente baixando o braço. — Loucos e perdidos. Este lugar já é amaldiçoado o suficiente sem que vocês tragam a luxúria para dentro destas paredes.
— Não é luxúria — disse Katrina suavemente, voltando-se para Ichabod e tocando seu rosto com as pontas dos dedos. — É a única coisa real em Sleepy Hollow.
A governanta deu um passo para trás, saindo da luz do quarto e voltando para a escuridão do corredor.
— Não direi nada esta noite — disse ela, sua voz vindo das sombras. — Mas Deus está observando. E o Cavaleiro também. Se o segredo de vocês trouxer sangue para esta casa, a culpa será de suas almas.
Ela se retirou, a luz de sua pequena vela desaparecendo lentamente enquanto ela descia as escadas.
Ichabod soltou um suspiro tão profundo que parecia ter expelido toda a alma. Ele se deixou cair em uma cadeira próxima, enterrando o rosto nas mãos.
— Estamos arruinados — murmurou ele entre os dedos. — Minha carreira, minha reputação... Katrina, eu a coloquei em perigo. Eu sou um tolo, um homem da ciência que se esqueceu de que o mundo é governado por olhos curiosos e mentes estreitas.
Katrina caminhou até ele, ajoelhando-se a seus pés. Ela puxou as mãos dele para longe do rosto e o forçou a olhá-la.
— Ichabod, olhe para mim.
Ele obedeceu, seus olhos cansados e assombrados encontrando a calma azul dos dela.
— Ela não dirá nada — afirmou Katrina. — Ela tem medo de mim. E tem medo do que o amor pode fazer com um homem como você.
— Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida — admitiu ele, a voz falhando. — Nem mesmo na floresta, quando as árvores pareciam ganhar vida. O pensamento de perdê-la, de vê-la humilhada por minha causa...
— Você não vai me perder — ela sorriu, um sorriso enigmático que sempre o deixava entre o encantamento e a inquietação. — A tempestade vai passar, Ichabod. E amanhã seremos apenas o investigador e a filha do fazendeiro novamente. Mas aqui, nestas sombras... nós sabemos a verdade.
Ichabod a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto em seu pescoço. Ele ainda tremia levemente, a lógica de sua mente tentando processar o perigo que acabaram de correr, enquanto seu coração clamava pela proteção que só ela oferecia.
Lá fora, um relâmpago iluminou o quarto por um breve segundo, revelando os dois abraçados no centro do caos de lençóis e velas apagadas. Por um instante, eles não pareciam mais um investigador e uma jovem rica, mas duas almas perdidas que se encontraram no meio de uma lenda de terror.
A Sra. Miller, em seu quarto, soprava sua própria vela, mas o brilho dos olhos de Katrina e o desespero de Ichabod permaneceriam gravados em sua mente. Ela sabia que, em Sleepy Hollow, alguns segredos eram enterrados na terra, mas outros, como aquele, eram tecidos na própria névoa que cercava a mansão, esperando o momento certo para sufocar a todos.
Mas, por enquanto, no quarto iluminado pelo que restava das velas douradas, Ichabod Crane permitiu-se esquecer a ciência, o dever e o medo. Ele apenas segurou Katrina com mais força, enquanto a chuva continuava a lavar o mundo lá fora, incapaz de tocar o fogo proibido que agora queimava entre eles.
Ela subia as escadas de madeira com passos calculados, a chama da pequena vela que carregava tremeluzindo violentamente a cada rajada de vento que penetrava pelas frestas. Seus olhos, pequenos e agudos como os de uma ave de rapina, estavam fixos no final do corredor. Ela já havia notado a ausência de Ichabod em seus aposentos e, mais do que isso, notara a forma como Katrina o olhava durante o jantar — um olhar que não pertencia a uma anfitriã dedicada, mas a uma mulher que guardava um segredo ardente.
Ao se aproximar do quarto de Katrina, a Sra. Miller parou. A porta não estava totalmente fechada; uma fresta de luz dourada escapava para o corredor escuro. No início, ela ouviu apenas o som da chuva. Então, entre um trovão e outro, vieram os sons que confirmaram suas piores suspeitas: risos abafados, vozes sussurradas em um tom de urgência e a respiração pesada de dois corpos em sintonia.
Com o coração batendo forte contra o peito, movida por uma mistura de indignação moral e uma curiosidade mórbida, ela se inclinou para a fresta.
O que viu a deixou paralisada.
O quarto de Katrina estava mergulhado em uma atmosfera quase sobrenatural. Velas de cera de abelha queimavam em candelabros de prata, projetando sombras gigantescas e dançantes pelas paredes de papel pintado. As cortinas de seda balançavam com o vento frio que entrava pela janela entreaberta, mas o frio não parecia afetar o casal na cama de dossel.
Lá estava Ichabod Crane. O homem que ela conhecia como um investigador racional, quase puritano em sua rigidez, estava agora irreconhecível. Seus cabelos negros, geralmente presos ou penteados com austeridade, caíam em desalinho sobre o rosto pálido. Ele estava rendido, sua guarda científica completamente destruída pela presença da mulher em seus braços. Suas mãos longas e nervosas, que costumavam segurar bisturis e lentes com precisão fria, agora tocavam a pele de Katrina com uma reverência desesperada.
Katrina, com seus cabelos dourados espalhados sobre os lençóis brancos como um halo de anjo caído, olhava para ele com uma devoção que beirava o misticismo. Não havia hesitação nela. Ela era o centro daquele furacão, o porto seguro onde o homem assombrado finalmente encontrava descanso.
A Sra. Miller sentiu o rosto queimar. Ela deveria gritar, deveria correr para chamar o Sr. Van Tassel, mas seus pés pareciam fincados no chão. Havia algo hipnótico na cena. Era como observar um ritual proibido. Ichabod inclinou-se e murmurou algo no ouvido de Katrina, um segredo compartilhado que fez a jovem fechar os olhos e sorrir — um sorriso que não era para o mundo, mas apenas para ele.
A intimidade era tão absoluta que o resto da mansão, a vila e até o Cavaleiro sem Cabeça pareciam ter deixado de existir. Eles eram os únicos habitantes de um universo composto apenas de pele, sombras e o som da chuva.
Minutos se passaram, ou talvez horas — a governanta não sabia dizer. O ato consumado deu lugar a um silêncio exausto. Ichabod e Katrina permaneceram abraçados, os peitos subindo e descendo em uníssono enquanto recuperavam o fôlego. Ichabod, com uma ternura que a Sra. Miller nunca imaginou que ele possuísse, beijou a testa de Katrina e acariciou uma mecha de seu cabelo dourado.
Foi nesse momento de vulnerabilidade total que o feitiço se quebrou.
Katrina, cujos sentidos pareciam sempre mais aguçados que os dos mortais comuns, sentiu uma presença. Seus olhos se abriram e se fixaram na porta. Através da fresta, ela encontrou o olhar horrorizado da governanta.
O sangue fugiu do rosto de Katrina instantaneamente. Ela não gritou, mas sua rigidez súbita alertou Ichabod.
— Katrina? — sussurrou ele, a voz ainda rouca. — O que foi?
Seguindo o olhar dela, ele se virou lentamente. Quando percebeu a figura da Sra. Miller parada no corredor, segurando a vela trêmula, o pânico tomou conta dele de forma avassaladora.
— Oh, céus! — exclamou Ichabod, saltando da cama com uma agilidade desajeitada que quase o fez cair.
No processo, ele esbarrou em uma pequena mesa lateral, derrubando um tinteiro e uma das velas, que se apagou com um chiado ao atingir o tapete. Ele tentou, de forma frenética e inútil, cobrir-se com sua camisa descartada, enquanto suas mãos tremiam tão violentamente que ele mal conseguia segurar o tecido.
— Sra. Miller! Eu... eu posso... a ciência... as circunstâncias... — Ele gaguejava, os olhos escuros arregalados de vergonha e terror. — Não é o que parece... ou melhor, é, mas há uma explicação lógica para o... o impulso...
Diferente dele, Katrina não se moveu com pressa. Ela sentou-se lentamente, puxando o lençol de seda sobre o busto com uma dignidade impressionante. Seu rosto, embora pálido, não demonstrava a culpa que Ichabod exalava por cada poro. Ela manteve o olhar fixo na governanta, uma força silenciosa emanando de sua postura.
A Sra. Miller finalmente recuperou a voz, embora ela saísse estridente e carregada de veneno moral.
— Pecado! — sibilou a mulher, dando um passo à frente, a luz da vela iluminando as rugas de desgosto em seu rosto. — Um escândalo que manchará este nome para sempre! Debaixo do teto do Sr. Van Tassel... com um convidado que julgávamos honrado!
— Por favor, eu lhe imploro — Ichabod interrompeu, tentando abotoar a camisa de forma errada enquanto se aproximava da porta com as mãos estendidas em um gesto de súplica. — A responsabilidade é inteiramente minha. Eu fui fraco, eu me deixei levar por... por afeições que minha mente não pôde conter. Não culpe a Srta. Katrina!
A governanta o ignorou, apontando o dedo trêmulo para Katrina.
— O mestre Baltus saberá disso antes do amanhecer. Ele expulsará este homem na tempestade e você, menina, conhecerá a vergonha de uma cela de convento ou coisa pior! Jamais vi tamanha depravação nesta mansão.
A Sra. Miller virou-se para sair, as saias pesadas sussurrando contra o chão, mas a voz de Katrina a deteve. Não era um grito, mas um comando calmo e gélido que cortou o ar mais do que qualquer trovão.
— Pare, Miller.
A governanta estacou. Ichabod olhou para Katrina, surpreso pela firmeza dela.
— Você não dirá nada a meu pai — continuou Katrina, levantando-se da cama, envolta no lençol como se fosse uma túnica real. Ela caminhou até a luz, sua beleza etérea parecendo ainda mais perigosa naquela penumbra. — E não dirá porque não há pecado no que você viu.
— Não há pecado? — a governanta riu, uma risada seca. — Vocês se entregaram como animais!
— Nós nos entregamos como dois seres que se amam — rebateu Katrina, e a palavra "amor" pareceu fazer Ichabod estremecer. — Eu amo este homem, Miller. E ele me ama. Não sinto vergonha. O que você viu foi a verdade que este mundo tenta esconder com regras e sombras.
— O Sr. Van Tassel não verá dessa forma — disse a governanta, embora sua voz tivesse perdido um pouco da força diante da convicção de Katrina.
— Meu pai me ama mais do que ama suas regras — Katrina deu mais um passo, ficando a poucos centímetros da mulher. — Mas se você falar, destruirá a paz desta casa. E eu lhe pergunto: o que ganha com isso? A senhora viu algo que era sagrado e transformou em algo sujo em sua mente.
Ichabod, que finalmente conseguira vestir o casaco, embora estivesse todo desalinhado, aproximou-se de Katrina, colocando uma mão hesitante em seu ombro. Ele ainda estava pálido, o medo de ser enforcado ou exilado brilhando em seus olhos, mas a coragem dela parecia infundir-lhe um pouco de brio.
— Sra. Miller — disse ele, recuperando um pouco de sua dicção de magistrado —, peço que considere. O escândalo não trará benefícios a ninguém. Eu... eu pretendo honrar a Srta. Katrina. Meus sentimentos não são levianos.
A governanta olhou de um para o outro. Ela via o medo em Ichabod, mas via algo muito mais inquietante em Katrina — uma determinação que beirava o sobrenatural. Por um momento, a Sra. Miller lembrou-se dos boatos sobre a mãe de Katrina, sobre a linhagem das mulheres Van Tassel e as coisas que se dizia que elas podiam fazer com o destino daqueles que as cruzavam.
O silêncio voltou a reinar no quarto, interrompido apenas pelo tique-taque de um relógio e pelo rugido distante da tempestade. A vela na mão da governanta estava chegando ao fim, a cera quente pingando sobre seus dedos, mas ela não parecia sentir.
— Vocês são loucos — murmurou a Sra. Miller, finalmente baixando o braço. — Loucos e perdidos. Este lugar já é amaldiçoado o suficiente sem que vocês tragam a luxúria para dentro destas paredes.
— Não é luxúria — disse Katrina suavemente, voltando-se para Ichabod e tocando seu rosto com as pontas dos dedos. — É a única coisa real em Sleepy Hollow.
A governanta deu um passo para trás, saindo da luz do quarto e voltando para a escuridão do corredor.
— Não direi nada esta noite — disse ela, sua voz vindo das sombras. — Mas Deus está observando. E o Cavaleiro também. Se o segredo de vocês trouxer sangue para esta casa, a culpa será de suas almas.
Ela se retirou, a luz de sua pequena vela desaparecendo lentamente enquanto ela descia as escadas.
Ichabod soltou um suspiro tão profundo que parecia ter expelido toda a alma. Ele se deixou cair em uma cadeira próxima, enterrando o rosto nas mãos.
— Estamos arruinados — murmurou ele entre os dedos. — Minha carreira, minha reputação... Katrina, eu a coloquei em perigo. Eu sou um tolo, um homem da ciência que se esqueceu de que o mundo é governado por olhos curiosos e mentes estreitas.
Katrina caminhou até ele, ajoelhando-se a seus pés. Ela puxou as mãos dele para longe do rosto e o forçou a olhá-la.
— Ichabod, olhe para mim.
Ele obedeceu, seus olhos cansados e assombrados encontrando a calma azul dos dela.
— Ela não dirá nada — afirmou Katrina. — Ela tem medo de mim. E tem medo do que o amor pode fazer com um homem como você.
— Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida — admitiu ele, a voz falhando. — Nem mesmo na floresta, quando as árvores pareciam ganhar vida. O pensamento de perdê-la, de vê-la humilhada por minha causa...
— Você não vai me perder — ela sorriu, um sorriso enigmático que sempre o deixava entre o encantamento e a inquietação. — A tempestade vai passar, Ichabod. E amanhã seremos apenas o investigador e a filha do fazendeiro novamente. Mas aqui, nestas sombras... nós sabemos a verdade.
Ichabod a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto em seu pescoço. Ele ainda tremia levemente, a lógica de sua mente tentando processar o perigo que acabaram de correr, enquanto seu coração clamava pela proteção que só ela oferecia.
Lá fora, um relâmpago iluminou o quarto por um breve segundo, revelando os dois abraçados no centro do caos de lençóis e velas apagadas. Por um instante, eles não pareciam mais um investigador e uma jovem rica, mas duas almas perdidas que se encontraram no meio de uma lenda de terror.
A Sra. Miller, em seu quarto, soprava sua própria vela, mas o brilho dos olhos de Katrina e o desespero de Ichabod permaneceriam gravados em sua mente. Ela sabia que, em Sleepy Hollow, alguns segredos eram enterrados na terra, mas outros, como aquele, eram tecidos na própria névoa que cercava a mansão, esperando o momento certo para sufocar a todos.
Mas, por enquanto, no quarto iluminado pelo que restava das velas douradas, Ichabod Crane permitiu-se esquecer a ciência, o dever e o medo. Ele apenas segurou Katrina com mais força, enquanto a chuva continuava a lavar o mundo lá fora, incapaz de tocar o fogo proibido que agora queimava entre eles.
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