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O que é meu

Фандом: Sleepy hollow 1999

Создан: 16.05.2026

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O Perfume dos Lírios e o Sangue nas Sombras

A névoa de Sleepy Hollow nunca fora tão espessa quanto naquela semana de novembro. Ela se arrastava pelos campos como um lençol de seda cinzenta, abraçando as árvores retorcidas e filtrando a luz pálida da lua. Dentro da mansão Van Tassel, o calor das lareiras não era suficiente para dissipar o frio que se instalara no peito de Katrina.

Ela estava parada diante da janela de seu quarto, observando a silhueta esguia de Ichabod Crane no pátio abaixo. Ele não estava sozinho. Ao lado dele, envolta em veludo negro e rendas de um luto impecável, estava Lady Elizabeth, a jovem viúva que chegara ao vilarejo há apenas duas semanas.

Katrina apertou o parapeito de madeira até que seus nós dos dedos ficassem brancos. Elizabeth era uma visão de elegância melancólica; sua pele era tão pálida quanto a de Ichabod, e seus olhos possuíam um brilho de inteligência que parecia hipnotizar o detetive. Eles falavam sobre medicina forense, sobre as propriedades químicas do arsênico e sobre os rituais de proteção do velho mundo. Ichabod, geralmente tão retraído e nervoso, parecia fascinado. Ele gesticulava com suas mãos longas e finas, os cabelos pretos caindo sobre o rosto enquanto explicava algum novo método científico.

O que mais feria Katrina, porém, não era a conversa. Era o cheiro. Mesmo dali de cima, ela podia jurar que sentia o perfume de Elizabeth: lírios brancos. Um aroma doce, fúnebre e persistente que parecia impregnar as roupas de Ichabod toda vez que ele retornava de suas caminhadas "investigativas".

— Você vai acabar quebrando a madeira, minha querida.

A voz de Katrina saiu como um sussurro seco, mas não havia ninguém no quarto além dela e de sua própria imagem refletida no espelho de moldura prateada. Ela se virou para o reflexo. Seus olhos castanhos, geralmente doces, pareciam mais escuros, como se a luz que sempre a acompanhara estivesse sendo tragada por uma sombra interior.

Nas noites que se seguiram, o ciúme de Katrina deixou de ser uma pontada aguda para se tornar uma obsessão silenciosa. Ela passou a vigiar. Movia-se pelos corredores da mansão como um fantasma, seus pés descalços não emitindo som algum sobre os tapetes pesados. Ela ouvia atrás das portas entreabertas da biblioteca.

— O senhor possui uma mente extraordinária, Inspetor Crane — a voz de Elizabeth ecoou, suave e aveludada, vinda da sala de estar. — É raro encontrar um homem que não tema o que a ciência e o oculto têm a dizer quando andam de mãos dadas.

— A ciência é a luz que dissipa as trevas, milady — Ichabod respondeu, sua voz carregando aquela cadência ansiosa e intelectual que Katrina tanto amava. — Embora... ultimamente, as trevas nesta cidade pareçam ter uma substância que desafia até os meus melhores reagentes.

— Talvez o senhor precise de uma perspectiva diferente — disse a viúva. — Meu falecido marido deixou manuscritos sobre a anatomia da alma que poderiam... interessá-lo profundamente.

Katrina, escondida na penumbra do corredor, sentiu o estômago revirar. Ela imaginou a mão de Elizabeth tocando o braço de Ichabod. Imaginou os dedos daquela mulher, que cheiravam a lírios, traçando o contorno dos mapas e livros de Ichabod. Uma fúria fria e antiga, algo que ela nem sabia que possuía, começou a borbulhar em seu sangue.

Naquela madrugada, Katrina saiu para o jardim sob uma chuva fina e gélida. O canteiro de lírios brancos que Elizabeth trouxera como presente para a propriedade brilhava sob a luz da lua. Katrina não usou ferramentas. Ela se ajoelhou na lama, sujando seu vestido de seda clara, e começou a arrancar as flores com as mãos nuas. Ela puxava as raízes com uma força animalesca, sentindo a seiva viscosa em seus dedos.

— Não aqui — sibilou ela para as flores mortas. — Não na minha casa. Não perto dele.

Na manhã seguinte, Ichabod a encontrou na mesa do desjejum. Ele parecia mais exausto do que o normal, seus olhos grandes e escuros marcados por olheiras profundas.

— Katrina — disse ele, sentando-se à mesa com sua habitual agitação nervosa, ajeitando o lenço no pescoço. — Você parece... pálida. Dormiu bem?

— Tive sonhos inquietos, Ichabod — respondeu ela, servindo-lhe chá com uma calma que beirava o sobrenatural. — Sonhei com flores que apodreciam antes de desabrochar.

Ichabod franziu a testa, observando-a.

— É a atmosfera deste lugar. A névoa... ela entra nos pulmões, altera o humor. Lady Elizabeth mencionou que sente o mesmo.

Ao ouvir o nome da outra, a mão de Katrina parou por um segundo sobre a xícara. Ela forçou um sorriso, um movimento labial que não alcançou seus olhos.

— Lady Elizabeth é uma mulher muito... presente, não é?

— Ela é uma mente brilhante — Ichabod admitiu, distraído, mexendo em seus instrumentos de medição que sempre levava à mesa. — Seus conhecimentos sobre botânica medicinal são... fascinantes.

— Fascinantes — repetiu Katrina, a palavra soando como uma maldição em sua boca.

O ápice da tensão ocorreu durante um jantar formal na mansão Van Tassel. A mesa estava posta com a melhor prataria, e velas de cera de abelha iluminavam os rostos dos convidados. Lady Elizabeth estava sentada ao lado de Ichabod, usando um vestido de veludo tão escuro que parecia absorver a luz das velas.

— Inspetor — disse Elizabeth, inclinando-se para ele de modo que o aroma de lírios inundasse o espaço entre eles —, há uma mancha de tinta em sua bochecha. Permita-me...

Com uma lentidão calculada, a viúva estendeu a mão e tocou o rosto de Ichabod com as pontas dos dedos, limpando uma mancha imaginária perto de sua mandíbula. Ichabod congelou, sua pele clara tornando-se subitamente rosada de embaraço e surpresa. Ele era um homem de lógica, mas a proximidade física sempre o deixava vulnerável.

Do outro lado da mesa, o tempo pareceu parar para Katrina. Ela sentiu uma pressão insuportável no peito, como se o ar tivesse sido sugado do salão. Ela não desviou o olhar. Seus olhos castanhos estavam fixos na mão de Elizabeth, que ainda roçava a pele de Ichabod.

Um som agudo de estilhaço cortou a conversa educada da mesa.

A taça de cristal de Katrina havia se partido em sua mão.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Baltus Van Tassel e os outros convidados olharam horrorizados para a cabeceira da mesa. Katrina não soltou os pedaços de vidro. Ela continuou segurando a base da taça, enquanto o vinho tinto se misturava ao sangue escarlate que começava a escorrer por entre seus dedos, pingando sobre a toalha de linho branco.

— Katrina! — Ichabod exclamou, levantando-se tão rápido que quase derrubou sua cadeira. Sua expressão era de puro pânico e horror à vista do sangue. — Meu Deus, você está ferida!

Katrina não se moveu. Ela permaneceu olhando diretamente para Lady Elizabeth. O sangue escorria por seu pulso, mas ela não demonstrava dor. Havia apenas uma calma gélida e aterrorizante em seu rosto.

— Foi apenas um acidente — disse Katrina, sua voz soando clara e fria como o gelo de um lago no inverno. — Às vezes, as coisas mais delicadas são as mais perigosas quando se quebram. Não concorda, milady?

Elizabeth empalideceu, retirando a mão de perto de Ichabod como se tivesse sido queimada. Pela primeira vez, a viúva viu algo nos olhos de Katrina que a fez tremer: uma promessa de escuridão que nenhuma ciência poderia explicar.

— Deixe-me ver isso — Ichabod gaguejou, aproximando-se de Katrina com um lenço branco, suas mãos tremendo visivelmente. Ele tinha horror ao sangue, mas o amor por ela o forçava a agir. — Katrina, por favor, solte o vidro...

Ela finalmente abriu a mão, deixando os cacos caírem no prato com um tinido metálico. Ela permitiu que Ichabod envolvesse sua mão ferida, mas seus olhos nunca deixaram a rival.

Naquela noite, a tempestade desabou sobre Sleepy Hollow. O vento uivava através das frestas da mansão, e os espelhos nos corredores pareciam refletir vultos que não estavam lá. Elizabeth, recolhida em seu quarto de hóspedes, sentia-se sufocada. O cheiro de lírios que ela tanto amava agora parecia ter um odor de terra molhada e decomposição.

Ela tentou apagar as velas, mas, no momento em que soprou a última chama, viu um vulto parado ao pé de sua cama. Era uma mulher, envolta em um véu preto, cujos olhos brilhavam na escuridão com uma intensidade febril. Elizabeth tentou gritar, mas sua voz morreu na garganta. A figura não se moveu, apenas ficou ali, uma presença silenciosa e premonitória que parecia drenar o calor do quarto. Quando Elizabeth acendeu uma luz trêmula, o vulto havia desaparecido, mas um dos espelhos da penteadeira estava rachado de cima a baixo.

Na noite seguinte, a viúva decidiu que sua estadia em Sleepy Hollow havia chegado ao fim. Ela estava arrumando suas malas apressadamente quando uma mensagem foi entregue por baixo de sua porta: "Encontre-me na estufa. Preciso falar sobre o Inspetor Crane."

A estufa dos Van Tassel era um lugar de beleza estranha, cheia de plantas exóticas e ervas medicinais que a mãe de Katrina cultivara anos atrás. Sob a chuva torrencial, o teto de vidro vibrava com o impacto da água.

Elizabeth entrou, protegendo-se com uma capa. No fundo da estufa, entre as sombras de samambaias gigantes, Katrina estava parada. Ela não usava capa, e seu cabelo loiro estava úmido, colado ao rosto, dando-lhe uma aparência etérea e selvagem.

— Você veio — disse Katrina, sem se virar.

— O que você quer, Katrina? — Elizabeth tentou manter a voz firme, mas falhou. — Se é sobre o Inspetor, eu apenas...

— O Inspetor Crane é um homem de razão — interrompeu Katrina, virando-se lentamente. — Ele acredita em evidências, em lógica, em coisas que podem ser medidas. Ele é frágil, Elizabeth. Ele tem uma alma sensível que foi ferida por este mundo muito antes de chegar aqui.

Katrina deu um passo à frente. O brilho das velas espalhadas pela estufa refletia em seus olhos, e Elizabeth notou que a mão de Katrina ainda estava enfaixada, o sangue seco manchando o tecido.

— Ele não precisa de uma "mente brilhante" que o desafie com mistérios fúnebres — continuou Katrina, sua voz agora um sussurro perigoso. — Ele precisa de proteção. Ele precisa de alguém que conheça as sombras deste lugar e que esteja disposta a caminhar nelas por ele.

— Você está sendo irracional — Elizabeth recuou, tropeçando em um vaso.

— Há homens que uma mulher deseja para exibir em salões... — Katrina aproximou-se, seu rosto a centímetros do de Elizabeth. O cheiro de lírios que emanava da viúva parecia murchar diante da presença de Katrina. — E há homens pelos quais uma mulher mataria.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo tamborilar da chuva no vidro. Elizabeth viu, pela primeira vez, a verdadeira natureza da mulher à sua frente. Katrina não era apenas a filha doce de um fazendeiro rico; ela era a herdeira de uma linhagem que entendia o sangue, a terra e os sacrifícios necessários para manter o que se ama.

— Vá embora de Sleepy Hollow, Elizabeth — disse Katrina com uma calma absoluta. — Parta amanhã ao amanhecer. Se você ficar, temo que a névoa desta cidade a encontre de uma maneira que nenhum médico poderá remediar.

Elizabeth não esperou por uma segunda advertência. Ela saiu da estufa correndo, deixando para trás o perfume de lírios e a pretensão de conquistar o detetive.

Horas depois, Ichabod encontrou Katrina sentada na biblioteca, lendo um antigo tomo de botânica. A luz da lareira dançava em seu rosto, devolvendo-lhe a aparência de doçura e luz que ele tanto admirava.

— Soube que Lady Elizabeth partiu às pressas — disse Ichabod, aproximando-se dela com sua curiosidade habitual, embora houvesse uma nota de cautela em sua voz. — Ela parecia... perturbada. Disse algo sobre o clima não ser saudável para seus pulmões.

Katrina fechou o livro e olhou para ele. Ela se levantou e caminhou até Ichabod, colocando suas mãos — a ferida e a sã — sobre o peito dele. Ela podia sentir o coração dele batendo rápido, aquela pulsação ansiosa de um homem que sempre esperava pelo pior.

— Sleepy Hollow não é para todos, Ichabod — disse ela suavemente. — É um lugar que exige uma certa... dedicação.

Ichabod olhou para as mãos dela, depois para os olhos de Katrina. Ele não era tolo. Ele vira a taça quebrar. Ele vira o olhar dela no jantar. Ele sentia a mudança na atmosfera, a possessividade que agora emanava dela como um calor invisível.

Um homem comum teria fugido. Um herói corajoso teria feito perguntas. Mas Ichabod Crane, o homem que desmaiava diante de cadáveres e buscava lógica no impossível, sentiu algo diferente. Pela primeira vez em sua vida de solidão, pesadelos e repressão, ele percebeu que alguém o amava com uma intensidade que beirava a escuridão. Alguém o considerava precioso o suficiente para lutar contra o mundo — ou contra qualquer mulher — por ele.

Ele se inclinou, encostando sua testa na dela. Seu suspiro foi de rendição.

— Você é o meu único porto seguro nesta cidade de sombras, Katrina — sussurrou ele, fechando os olhos.

Katrina sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso. Ela o abraçou, sentindo o cheiro de sabão e pergaminho que agora substituíra completamente o odor fétido dos lírios.

— Eu sempre cuidarei de você, Ichabod — prometeu ela. — Custe o que custar.

Lá fora, a névoa continuava a girar, mas dentro da biblioteca, o fogo ardia alto, protegendo o que era deles. E se as flores no jardim haviam morrido e os espelhos estavam rachados, Ichabod decidiu que eram apenas mistérios que a ciência, algum dia, talvez pudesse explicar. Ou talvez, apenas talvez, ele preferisse não saber a resposta.
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