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Droga Fiore
Фандом: Bts jikook
Создан: 04.02.2026
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РомантикаДрамаНецензурная лексикаCharacter studyРеализмЮмор
O Desafio Rosa e o Retorno Inesperado
A festa já estava acontecendo quando Jungkook entrou de vez no lugar.
Não era exatamente uma casa.
Era grande demais, escura demais, barulhenta demais — parecia uma boate montada dentro de uma mansão cara. Luz baixa, neon espalhado pelas paredes, música alta vibrando no peito. Bebida passando de mão em mão como se ninguém ali precisasse acordar cedo no dia seguinte.
Era o tipo de lugar onde dinheiro não fazia barulho.
Só presença.
Os amigos se espalharam rápido, como sempre.
San sumiu em direção ao bar improvisado, já trocando sorriso com alguém que Jungkook nem tentou identificar. Bangchan foi logo atrás, decidido demais pra quem dizia que só ia beber. Hoseok… Hoseok já estava dançando no meio da pista, sem vergonha nenhuma, corpo solto, rindo alto, como se aquele fosse o habitat natural dele.
Yoongi foi o único previsível.
Sentou num banquinho perto da lateral, copo na mão, observando tudo com aquela cara de quem julgava todo mundo em silêncio.
Jungkook ficou parado por um segundo, só olhando.
Tinha mulher bonita pra caralho.
Gente bem vestida, maquiagem impecável, roupa cara, perfume forte. Olhares que iam e vinham, avaliando, medindo, escolhendo. Ele sentiu alguns se prenderem nele por tempo demais.
Normal.
Passou a mão no cabelo, ajeitou a jaqueta e começou a andar pelo ambiente com calma, como quem não tinha pressa nenhuma. Ele não precisava correr atrás. Sempre funcionou assim.
Foi então que viu ela.
Cabelos escuros com reflexo loiro, pele pálida, maquiagem bem feita demais pra parecer casual. Vestia vermelho. Um vermelho chamativo, daquele que não pede atenção — exige. Estava com outras três meninas, todas bonitas, todas bem arrumadas… mas nenhuma delas segurava o olhar como ela.
Jungkook diminuiu o passo sem perceber.
— Caralho… — murmurou baixo.
Ela ria de alguma coisa que uma das amigas disse, jogando o cabelo pro lado, confortável demais com os olhares ao redor. Sabia exatamente o efeito que causava. Aquilo ele reconhecia de longe.
Pensou, sem filtro nenhum:
Vou logo começar com essa maravilha.
Deu alguns passos na direção dela, já calculando o tempo, a aproximação, o sorriso que ia usar. Já estava quase perto o suficiente quando sentiu o celular vibrar no bolso da calça.
Ignorou.
Mais dois passos.
O celular vibrou de novo.
— Porra… — murmurou, incomodado.
Parou. Enfiou a mão no bolso, mais por irritação do que curiosidade. Achou que fosse a mãe, talvez perguntando se ele tinha comido, essas coisas inúteis de sempre.
A tela acendeu.
Ji-a.
Jungkook fechou os olhos por um segundo.
— Ah não… — sussurrou — de novo não.
Bloqueou a tela e guardou o celular de volta no bolso. Deu mais alguns passos, decidido a ignorar. Não ia estragar a noite por causa daquela merda.
O celular começou a vibrar de novo.
Agora era ligação.
— Porra… — rosnou.
Olhou em volta. A música estava alta demais, gente demais por perto. Se atendesse ali, todo mundo ia ouvir. Xingou em silêncio, virou de costas e começou a andar pra fora da casa, passando pelo corredor até sair numa área externa mais escura e silenciosa.
Encostou na parede, respirou fundo e atendeu.
— Alô.
— JK! Onde você tá, mlk?! — a voz veio alta do outro lado.
Jungkook revirou os olhos.
— Mlk? Ji-a, fala logo. Por que você tá me ligando?
Do outro lado, a voz mudou. Do nada.
Doce demais. Forçada demais.
— Meu amor… vi sua localização. Por que você tá nessa cidade?
O estômago dele revirou.
Que?
— Como caralhos você tem a minha localização, Ji-a?
— Não importa, meu amor — respondeu, rindo baixo. — Tô indo aí, tá bom? Fica bem aí.
Antes que ele pudesse responder, ela mandou um beijo estalado no áudio e desligou.
Jungkook ficou alguns segundos parado, olhando pra tela apagada do celular.
— Filha da puta… — murmurou, passando a mão no rosto.
Guardou o celular no bolso com força demais e voltou pra dentro da casa, agora com o maxilar travado e a paciência no chão.
Os amigos perceberam na hora.
Bangchan foi o primeiro a se aproximar.
— Qual foi, JJ? — perguntou, franzindo a testa.
Jungkook bufou, passando a mão no cabelo.
— A caralha da Ji-a tá com minha localização… — disse, irritado. — E tá vindo pra cá.
Hoseok quase engasgou de rir.
— AAAA, TÁ FUDIDO — falou alto demais. — FALEI PRA NÃO NAMORAR, PORRA!
Yoongi levantou o olhar devagar, sério.
— Tu deu localização pra ela?
— Nunca — Jungkook respondeu, seco. — Nunca dei nada.
San apareceu do lado deles, interessado.
— Só o seu GRANDE amor pra ela né?
Jungkook soltou um riso sem humor.
— Mulher do demônio.
---
Fiquei encarando a Ji-a por dois segundos longos demais. O sorriso dela não combinava com o lugar, nem com a situação, nem comigo. Era bonito, mas pesado. Daqueles que vêm com cobrança embutida.
— Não vai me dar um abraço? — ela perguntou, inclinando a cabeça, voz mansa demais pra ser sincera.
— Não começa, Ji-a — respondi baixo, já cansado.
Ela olhou em volta, analisando a casa cheia, as luzes, a música alta, as pessoas dançando.
— Então era isso que você chamava de “ficar na sua”? — perguntou.
— Eu nunca disse isso — retruquei.
Ela riu pelo nariz, cruzando os braços.
— Some, ignora minhas mensagens, não atende ligação… eu tive que vir atrás.
— Esse é exatamente o problema — falei, firme — você não tinha que vir atrás.
O clima entre a gente ficou pesado. Gente passando, música estourando, mas parecia que só nós dois existíamos naquele espaço pequeno.
Do outro lado da pista, vi a menina de vermelho de novo. Ela observava de longe, curiosa, claramente percebendo que tinha entrado numa confusão que não era dela. Quando nossos olhares se cruzaram, ela arqueou a sobrancelha, como quem pergunta “é sério isso?”.
Eu suspirei.
— Ji-a, a gente precisa conversar em outro lugar.
— Ah, agora você quer conversar? — ela ironizou — Engraçado, né? Antes você não queria nem responder.
Antes que eu pudesse responder, Hoseok apareceu do meu lado, totalmente sem noção.
— Eita, climão… — comentou, rindo — Querem bebida?
— SOME — eu e Ji-a falamos juntos.
Hoseok levantou as mãos.
— Ok, ok, fui — saiu rindo.
Ji-a voltou a me encarar.
— Quem é ela? — perguntou, apontando discretamente pra menina de vermelho.
— Ninguém — respondi rápido demais.
Ela sorriu, daquele jeito que dizia que não acreditava em uma palavra.
— Claro.
Nesse momento, a menina de vermelho decidiu agir. Caminhou até a gente, confiante, sem hesitar. Parou do meu lado, perto o suficiente pra deixar claro que tinha interesse.
— Tá tudo bem? — perguntou pra mim, ignorando completamente a Ji-a.
Ji-a ficou rígida.
— Ele tá ocupado — respondeu por mim, seca.
A garota de vermelho sorriu, calma.
— Ele não pareceu ocupado quando tava comigo agora há pouco.
O ar ficou ainda mais pesado. Meu maxilar travou.
— Chega — falei, colocando-me entre as duas — já deu.
Olhei pra garota de vermelho.
— Desculpa por isso. Não era pra sua noite virar isso.
Ela me analisou por alguns segundos, depois deu um meio sorriso.
— Pena. Tava interessante.
Ela se afastou sem drama, sumindo de novo no meio da multidão.
Ji-a me encarou, incrédula.
— Você viu isso? — perguntou — Ela tava te provocando!
— Não, Ji-a. — passei a mão no rosto — Quem tá provocando essa situação é você.
Ela ficou em silêncio por um momento. O barulho da festa parecia distante agora.
— Então é assim — disse, voz mais baixa — Você vive como se ninguém importasse. Usa as pessoas e depois joga fora.
Aquilo bateu mais fundo do que eu queria admitir.
— Eu nunca prometi nada — respondi — Você sabia exatamente com quem tava se envolvendo.
Ela engoliu seco.
— Mesmo assim… — a voz falhou — dói.
Não respondi. Porque qualquer coisa que eu dissesse ali só pioraria.
Yoongi apareceu atrás de mim.
— JK — chamou — a gente vai dar uma volta. Se quiser ir…
Olhei pra Ji-a. Depois pra pista. Depois pra saída.
A festa já tinha perdido o gosto.
— Eu vou — falei.
Ji-a me encarou, surpresa.
— Vai embora?
— Vou — respondi.
Eu ainda tava do lado de fora da casa, encostado na moto, capacete pendurado no braço, pensando seriamente em ir embora de vez, quando ouvi passos vindo atrás de mim.
— Ei. — Yoongi.
Nem precisei virar pra saber.
— Se veio me convencer a voltar lá dentro, nem tenta.
— Não vim — ele respondeu, calmo — vim te sequestrar.
Franzi a testa e virei pra ele.
— Como é?
San apareceu logo depois, sorriso largo, já meio bêbado.
— Mudança de planos, irmão. Aquela festa já morreu.
— Morreu nada — resmunguei — tá cheia lá dentro.
— Tá cheia de drama — Hoseok corrigiu, surgindo do nada, braço jogado no ombro do Chan — e a gente não saiu de casa pra lidar com ex possessiva.
Chan assentiu.
— Jin mandou mensagem. Restaurante tá aberto só pra conhecidos hoje. Bebida boa. Comida decente. Tá ligado?
Isso me fez parar.
— O Jin? — perguntei.
— O próprio — Yoongi confirmou — falou pra a gente aparecer la.
Olhei pra casa uma última vez. Pela janela dava pra ver Ji-a andando de um lado pro outro, claramente me procurando. Suspirei fundo.
— Foda-se — falei — vamo.
O clima mudou na hora.
— AEEEE — Hoseok gritou — SABIA!
Subimos nas motos e carros, combo improvisado, rindo alto, música estourando, como se a noite ainda tivesse chance de ser salva.
O restaurante do Jin ficava numa rua mais afastada, iluminação quente, fachada elegante pra quem conhece ele de verdade. Quando chegamos, a porta já tava meio fechada.
Jin limpando uma das mesas logo virou.
— Olha só quem resolveu aparecer — disse, sorriso debochado — os marginalizados da noite.
— Amor, abre logo — Namjoon apareceu atrás dele — antes que eles mudem de ideia.
Jin abriu a porta de vez.
— Entra, cafajestes. Hoje eu tô generoso.
O lugar tava diferente de restaurante comum. Luz baixa, música boa, mesas afastadas, gente bonita, bem vestida, rindo baixo. Nada de gritaria, nada de empurra-empurra.
— Porra… — murmurei — isso aqui tá bom.
— Sempre esteve — Jin respondeu — você que só anda em lugar caótico.
Sentamos numa mesa grande. Bebida chegou rápido. Comida melhor ainda. Pela primeira vez naquela noite, senti os ombros relaxarem.
— Agora sim — San disse, levantando o copo — noite salva.
— Ainda não — Yoongi respondeu — mas tá no caminho.
Hoseok já tava em pé de novo, conversando com duas pessoas na mesa ao lado, rindo alto como se conhecesse há anos.
— Esse aí nunca cansa — Chan comentou.
— Nem quando devia — respondi, rindo pela primeira vez de verdade naquela noite.
Namjoon me olhou por cima do copo.
— E você, JK. Tá melhor?
Pensei por um segundo.
— Tô — respondi — aqui tá silencioso o suficiente pra não dar dor de cabeça.
Jin cruzou os braços, me analisando.
— Você tem talento pra estragar a própria noite — disse — mas também tem amigos bons o suficiente pra te puxar de volta.
Não respondi. Só dei um meio sorriso.
Enquanto a conversa rolava, risadas surgiam, copos se enchiam, gente nova aparecia. Olhei em volta. Nenhuma cobrança. Nenhum drama. Só aquele caos organizado que funcionava.
Talvez a noite não tivesse acabado.
E, sem eu saber ainda,
aquele lugar — calmo demais pro meu normal —
ia ser exatamente onde tudo começaria a mudar depois.
A mesa tava finalmente tranquila.
Copos meio cheios, comida boa espalhada, conversa atravessada entre risada e zoeira. Hoseok contava alguma história exagerada — como sempre — gesticulando tanto que quase derrubou o próprio drink.
— Eu JURO que o segurança me olhou e pensou “esse aí é problema” — ele disse.
— Ele pensou certo — Yoongi respondeu seco, arrancando risada geral.
Meu celular vibrava sem parar no bolso. Vibração curta, insistente. Tirei ele e a tela parecia um campo minado de notificação.
Mensagem.
Ligação perdida.
Mensagem.
Mensagem.
Mensagem.
— Caralho… — murmurei.
— Ainda é a Ji-a? — Chan perguntou.
— E outras variações do mesmo erro — respondi.
Sem paciência nenhuma, segurei o botão lateral.
Desliguei.
A paz foi imediata.
— Pronto — falei — oficialmente fora do ar.
— Orgulho de você — Jin disse, batendo palmas devagar — evolução emocional em tempo recorde.
— Não exagera — respondi — é só sobrevivência.
Foi quando o sino da porta do restaurante chacoalhou.
Plim-plim.
Automaticamente, levantei o olhar.
Um garoto de cabelo loiro passou primeiro. Alto, postura solta, sorriso fácil. Ria alto de alguma coisa enquanto falava com Namjoon, claramente à vontade, como se conhecesse o lugar há tempos. Parecia aquele tipo de pessoa que entra num ambiente e já pertence a ele.
Eu só registrei isso.
Porque logo atrás…
Veio o outro.
E foi como se o resto do restaurante tivesse dado um passo pra trás.
Cabelo rosa.
Não um rosa chamativo. Um tom elegante, quase brilhante sob a luz quente do lugar. O look todo branco contrastava de um jeito absurdo: calça jeans boca de sino colada nas coxas, marcando cada movimento, uma blusa caída de um lado, deixando parte do ombro exposto de forma totalmente sem esforço.
E o tênis vermelho.
Detalhe pequeno, mas impossível de ignorar.
Ele andava com calma, postura ereta, expressão contida. Sorria — mas pouco. Um sorriso educado, quase distante, como se estivesse ali fisicamente, mas a cabeça em outro lugar.
E quando ele virou de lado pra ir em direção ao caixa…
— …porra.
Não falei alto. Nem precisei.
A bunda dele devia ter CEP próprio.
Yoongi me olhou de canto.
— Não comenta.
— Eu não comentei — respondi.
— Pensou alto.
— Problema é seu.
Os dois seguiram andando. O loiro falava animado com Namjoon no caixa, rindo, gesticulando. O de cabelo rosa só observava, mãos no bolso, olhar atento, sério demais pra alguém tão… chamativo.
Alguma coisa nele não combinava com o resto.
Não era timidez.
Não era arrogância.
Era controle.
E isso me deixou curioso pra caralho.
Quando eles passaram perto da nossa mesa pra sair, fiz o que eu sempre fazia sem pensar muito.
Olhei direto pra ele.
Ele não olhou de volta.
Inclinei um pouco a cabeça e pisquei.
Confiante. Simples.
Nada.
Ele seguiu andando como se eu não existisse.
— Oi? — murmurei, incrédulo.
— IGNORADO — Hoseok cochichou, segurando o riso.
— Viu isso? — perguntei.
— Vi — Chan respondeu — foi bonito até.
— Foi humilhante — corrigi.
Os dois chegaram à porta. O loiro ainda rindo alto. O de rosa abriu a porta, o sino tocou de novo, e pronto.
Sumiram.
Fiquei alguns segundos olhando pra porta fechada.
— Jin — chamei.
— Hm?
— Quem era o de cabelo rosa?
Jin ergueu a sobrancelha, devagar demais pra ser coincidência.
— Por quê?
— Curiosidade científica — respondi.
Ele riu pelo nariz.
— Park Fiere.
O nome bateu diferente.
— Estuda arquitetura. Filho de gente importante. Rico. Educado. E não dá moral pra qualquer um — Jin completou, olhando direto pra mim.
Yoongi soltou um riso baixo.
— Principalmente pra você.
Cruzei os braços, ainda encarando a porta.
— A gente vê.
Por que cara. Não é possível.
Ser ignorado?
Ele deve estar só me testando.
Interessante pra caralho.
Fingi que voltei pra conversa.
Fingi.
Porque minha cabeça ficou presa naquela porta por tempo demais pra alguém que “não liga”.
— Tá me olhando assim por quê? — San perguntou.
— Não tô — respondi rápido demais.
Yoongi levantou o copo, olhando pra mim por cima da borda.
— Você piscou pra um desconhecido, foi ignorado e agora tá em negação. Clássico.
— Cala a boca — rosnei.
— Ihhh, doeu — Hoseok riu.
Dei um gole longo no drink, tentando engolir a sensação estranha que tinha ficado. Não era rejeição. Eu já tinha sido ignorado antes. Era o jeito.
Ele não desviou o olhar. Não acelerou o passo. Não reagiu.
Como se eu fosse… comum.
— Ridículo — murmurei.
— O quê? — Chan perguntou.
— Nada.
Cinco minutos depois, Jin se levantou.
— Vou buscar uma coisa no estoque — disse — quem quiser sobremesa, é agora.
— Eu vou — falei, rápido demais de novo.
— Aham — Yoongi comentou — sobremesa.
Ignorei.
Caminhei até o fundo do restaurante, passando pelo corredor lateral que levava ao estoque — e ao banheiro. Foi quando ouvi vozes.
— Hyung, você esqueceu o casaco — uma voz animada, masculina.
O loiro.
Parei por reflexo.
— Não esqueci — respondeu outra voz.
Mais baixa. Controlada.
O rosa.
Eles estavam parados perto da saída lateral, luz mais fria ali. O loiro segurava um casaco claro, falando rápido demais. O de cabelo rosa ajeitava a manga da blusa caída no ombro, expressão tranquila, mas distante.
— Você sempre diz isso — o loiro reclamou — depois passa frio e—
— Taehyung — ele interrompeu, sem elevar a voz — tá tudo bem.
Então ele virou.
E me viu.
Por um segundo — só um — nossos olhares se cruzaram.
Dessa vez, ele me viu.
Senti aquele impacto seco no peito. Não era atração comum. Era atenção sendo finalmente reconhecida.
Levantei a sobrancelha, confiante.
— Eae — falei, simples.
O loiro olhou de mim pro amigo, curioso.
O de cabelo rosa me analisou. Sem pressa. Dos pés à cabeça. Como quem mede algo antes de decidir se vale o tempo.
— Oi — respondeu.
Educado. Neutro.
— Você piscou pra mim antes — completei, meio sorriso — achei que tivesse sido um bug.
O loiro arregalou os olhos.
— Não pisquei de volta — ele disse, calmo.
Silêncio.
Depois o loiro caiu na risada.
— MEU DEUS — Taehyung falou — ele te cortou na paz!
Cruzei os braços, rindo de canto.
— Gosto de gente direta.
— Ótimo — ele respondeu — eu odeio gente insistente.
Aquilo devia ter me afastado.
Não afastou.
— Jungkook — me apresentei.
— Sério? — ele disse.
Arregalei os olhos. Fodeu. Por isso ele não caiu... eu acho.
— Como?
— VOCÊ barulhento — respondeu, olhando por cima do meu ombro, na direção da mesa — e seus amigos também.
Taehyung segurava o riso.
— A gente vai indo — Fiore completou — boa noite.
Passou por mim sem encostar, cheiro limpo, discreto, nada doce demais. Quando a porta lateral fechou atrás deles, fiquei parado.
— Ok — murmurei — isso tá estranho.
Voltei para a mesa, a mente ainda girando em torno do encontro inesperado. Meus amigos me olharam com curiosidade, mas eu apenas me joguei na cadeira, pegando meu copo e bebendo de uma vez.
— Que cara é essa? — San perguntou, notando minha expressão.
— Nada — respondi, tentando soar casual.
Yoongi, como sempre, me desmascarou sem esforço.
— O “nada” dele tem nome, sobrenome e cabelo rosa.
Hoseok e Chan explodiram em risadas. Eu revirei os olhos, mas não pude evitar um sorriso de canto. A verdade é que Park Fiere tinha me pegado de surpresa. A confiança dele, a forma como me ignorou e depois me cortou… era algo que eu não estava acostumado.
— Ele me chamou de barulhento — contei, ainda incrédulo.
— E seus amigos também — Chan completou, imitando a voz de Fiore.
— Ele não está errado — Jin comentou, servindo mais bebida para todos. — Vocês fazem um barulho do caralho.
— Mas me chamar de barulhento? Como se eu fosse um bicho? — protestei.
— Ele não te chamou de bicho, JK — Yoongi disse, com um tom de quem sabia mais do que falava. — Ele só te descreveu de um jeito que você não está acostumado a ouvir.
Aquilo me fez pensar. Eu era o cara que sempre tinha o controle, que jogava o jogo e sempre vencia. Mas Fiore… ele não parecia estar jogando o mesmo jogo. Ele estava em outro nível, com outras regras. E isso me instigava de um jeito que eu não sentia há muito tempo.
— E o que ele quis dizer com “odeio gente insistente”? — perguntei, mais para mim mesmo do que para eles.
— Ah, isso é fácil — Hoseok respondeu, com um sorriso malicioso. — Ele te deu um aviso. Tipo: “Não me enche o saco, cafajeste”.
— Eu não sou insistente — protestei.
— Não? — Jin arqueou a sobrancelha. — Lembro de uma vez que você ligou para uma garota dezessete vezes em uma hora.
— Aquilo foi diferente — me defendi. — Ela tinha pegado meu carregador.
— Ah, claro — Yoongi ironizou. — O carregador.
A conversa continuou, mas minha mente estava longe. Park Fiere. O nome ecoava na minha cabeça. Ele não era como as outras pessoas que eu conhecia. Ele não caiu nos meus truques, não se intimidou com meu olhar, não se importou com a minha reputação. Pelo contrário, ele me desafiou.
E eu adorava um desafio.
Olhei para a porta por onde ele tinha saído, um sorriso lento se formando nos meus lábios. Aquela noite, que começou com a irritação da Ji-a e a frustração de uma festa estragada, tinha acabado de ganhar um novo tempero.
Eu não sabia o que Park Fiere era, mas sabia que ele era diferente. E isso era exatamente o que eu precisava.
— Jin — chamei de novo.
— Que foi agora? — ele perguntou, já prevendo algo.
— O Park Fiere… ele vem muito aqui?
Jin me olhou com um sorriso de quem sabia de tudo.
— Ele é meu primo. E sim, ele vem sempre. Por quê?
Um arrepio percorreu minha espinha. Primo do Jin. Isso explicava a familiaridade com Namjoon, a postura à vontade, mas também a indiferença. Ele já estava acostumado com pessoas como eu.
— Nada — respondi, disfarçando. — Só curiosidade.
Yoongi pigarreou.
— Curiosidade científica, né?
— Exatamente — confirmei, piscando para ele.
Aquela noite, que parecia ter sido salva pela intervenção dos meus amigos, agora tinha um novo propósito. Park Fiere não tinha me dado moral. Ele tinha me ignorado. Ele tinha me chamado de barulhento. E isso, de alguma forma, só me fez querer mais.
Eu não sabia como, mas eu faria com que Park Fiere me notasse. E não apenas isso, eu faria com que ele me quisesse.
Afinal, eu era Jeon Jungkook. E eu sempre conseguia o que queria.
O jogo tinha acabado de começar. E eu já sentia que ia ser o meu jogo favorito.
Não era exatamente uma casa.
Era grande demais, escura demais, barulhenta demais — parecia uma boate montada dentro de uma mansão cara. Luz baixa, neon espalhado pelas paredes, música alta vibrando no peito. Bebida passando de mão em mão como se ninguém ali precisasse acordar cedo no dia seguinte.
Era o tipo de lugar onde dinheiro não fazia barulho.
Só presença.
Os amigos se espalharam rápido, como sempre.
San sumiu em direção ao bar improvisado, já trocando sorriso com alguém que Jungkook nem tentou identificar. Bangchan foi logo atrás, decidido demais pra quem dizia que só ia beber. Hoseok… Hoseok já estava dançando no meio da pista, sem vergonha nenhuma, corpo solto, rindo alto, como se aquele fosse o habitat natural dele.
Yoongi foi o único previsível.
Sentou num banquinho perto da lateral, copo na mão, observando tudo com aquela cara de quem julgava todo mundo em silêncio.
Jungkook ficou parado por um segundo, só olhando.
Tinha mulher bonita pra caralho.
Gente bem vestida, maquiagem impecável, roupa cara, perfume forte. Olhares que iam e vinham, avaliando, medindo, escolhendo. Ele sentiu alguns se prenderem nele por tempo demais.
Normal.
Passou a mão no cabelo, ajeitou a jaqueta e começou a andar pelo ambiente com calma, como quem não tinha pressa nenhuma. Ele não precisava correr atrás. Sempre funcionou assim.
Foi então que viu ela.
Cabelos escuros com reflexo loiro, pele pálida, maquiagem bem feita demais pra parecer casual. Vestia vermelho. Um vermelho chamativo, daquele que não pede atenção — exige. Estava com outras três meninas, todas bonitas, todas bem arrumadas… mas nenhuma delas segurava o olhar como ela.
Jungkook diminuiu o passo sem perceber.
— Caralho… — murmurou baixo.
Ela ria de alguma coisa que uma das amigas disse, jogando o cabelo pro lado, confortável demais com os olhares ao redor. Sabia exatamente o efeito que causava. Aquilo ele reconhecia de longe.
Pensou, sem filtro nenhum:
Vou logo começar com essa maravilha.
Deu alguns passos na direção dela, já calculando o tempo, a aproximação, o sorriso que ia usar. Já estava quase perto o suficiente quando sentiu o celular vibrar no bolso da calça.
Ignorou.
Mais dois passos.
O celular vibrou de novo.
— Porra… — murmurou, incomodado.
Parou. Enfiou a mão no bolso, mais por irritação do que curiosidade. Achou que fosse a mãe, talvez perguntando se ele tinha comido, essas coisas inúteis de sempre.
A tela acendeu.
Ji-a.
Jungkook fechou os olhos por um segundo.
— Ah não… — sussurrou — de novo não.
Bloqueou a tela e guardou o celular de volta no bolso. Deu mais alguns passos, decidido a ignorar. Não ia estragar a noite por causa daquela merda.
O celular começou a vibrar de novo.
Agora era ligação.
— Porra… — rosnou.
Olhou em volta. A música estava alta demais, gente demais por perto. Se atendesse ali, todo mundo ia ouvir. Xingou em silêncio, virou de costas e começou a andar pra fora da casa, passando pelo corredor até sair numa área externa mais escura e silenciosa.
Encostou na parede, respirou fundo e atendeu.
— Alô.
— JK! Onde você tá, mlk?! — a voz veio alta do outro lado.
Jungkook revirou os olhos.
— Mlk? Ji-a, fala logo. Por que você tá me ligando?
Do outro lado, a voz mudou. Do nada.
Doce demais. Forçada demais.
— Meu amor… vi sua localização. Por que você tá nessa cidade?
O estômago dele revirou.
Que?
— Como caralhos você tem a minha localização, Ji-a?
— Não importa, meu amor — respondeu, rindo baixo. — Tô indo aí, tá bom? Fica bem aí.
Antes que ele pudesse responder, ela mandou um beijo estalado no áudio e desligou.
Jungkook ficou alguns segundos parado, olhando pra tela apagada do celular.
— Filha da puta… — murmurou, passando a mão no rosto.
Guardou o celular no bolso com força demais e voltou pra dentro da casa, agora com o maxilar travado e a paciência no chão.
Os amigos perceberam na hora.
Bangchan foi o primeiro a se aproximar.
— Qual foi, JJ? — perguntou, franzindo a testa.
Jungkook bufou, passando a mão no cabelo.
— A caralha da Ji-a tá com minha localização… — disse, irritado. — E tá vindo pra cá.
Hoseok quase engasgou de rir.
— AAAA, TÁ FUDIDO — falou alto demais. — FALEI PRA NÃO NAMORAR, PORRA!
Yoongi levantou o olhar devagar, sério.
— Tu deu localização pra ela?
— Nunca — Jungkook respondeu, seco. — Nunca dei nada.
San apareceu do lado deles, interessado.
— Só o seu GRANDE amor pra ela né?
Jungkook soltou um riso sem humor.
— Mulher do demônio.
---
Fiquei encarando a Ji-a por dois segundos longos demais. O sorriso dela não combinava com o lugar, nem com a situação, nem comigo. Era bonito, mas pesado. Daqueles que vêm com cobrança embutida.
— Não vai me dar um abraço? — ela perguntou, inclinando a cabeça, voz mansa demais pra ser sincera.
— Não começa, Ji-a — respondi baixo, já cansado.
Ela olhou em volta, analisando a casa cheia, as luzes, a música alta, as pessoas dançando.
— Então era isso que você chamava de “ficar na sua”? — perguntou.
— Eu nunca disse isso — retruquei.
Ela riu pelo nariz, cruzando os braços.
— Some, ignora minhas mensagens, não atende ligação… eu tive que vir atrás.
— Esse é exatamente o problema — falei, firme — você não tinha que vir atrás.
O clima entre a gente ficou pesado. Gente passando, música estourando, mas parecia que só nós dois existíamos naquele espaço pequeno.
Do outro lado da pista, vi a menina de vermelho de novo. Ela observava de longe, curiosa, claramente percebendo que tinha entrado numa confusão que não era dela. Quando nossos olhares se cruzaram, ela arqueou a sobrancelha, como quem pergunta “é sério isso?”.
Eu suspirei.
— Ji-a, a gente precisa conversar em outro lugar.
— Ah, agora você quer conversar? — ela ironizou — Engraçado, né? Antes você não queria nem responder.
Antes que eu pudesse responder, Hoseok apareceu do meu lado, totalmente sem noção.
— Eita, climão… — comentou, rindo — Querem bebida?
— SOME — eu e Ji-a falamos juntos.
Hoseok levantou as mãos.
— Ok, ok, fui — saiu rindo.
Ji-a voltou a me encarar.
— Quem é ela? — perguntou, apontando discretamente pra menina de vermelho.
— Ninguém — respondi rápido demais.
Ela sorriu, daquele jeito que dizia que não acreditava em uma palavra.
— Claro.
Nesse momento, a menina de vermelho decidiu agir. Caminhou até a gente, confiante, sem hesitar. Parou do meu lado, perto o suficiente pra deixar claro que tinha interesse.
— Tá tudo bem? — perguntou pra mim, ignorando completamente a Ji-a.
Ji-a ficou rígida.
— Ele tá ocupado — respondeu por mim, seca.
A garota de vermelho sorriu, calma.
— Ele não pareceu ocupado quando tava comigo agora há pouco.
O ar ficou ainda mais pesado. Meu maxilar travou.
— Chega — falei, colocando-me entre as duas — já deu.
Olhei pra garota de vermelho.
— Desculpa por isso. Não era pra sua noite virar isso.
Ela me analisou por alguns segundos, depois deu um meio sorriso.
— Pena. Tava interessante.
Ela se afastou sem drama, sumindo de novo no meio da multidão.
Ji-a me encarou, incrédula.
— Você viu isso? — perguntou — Ela tava te provocando!
— Não, Ji-a. — passei a mão no rosto — Quem tá provocando essa situação é você.
Ela ficou em silêncio por um momento. O barulho da festa parecia distante agora.
— Então é assim — disse, voz mais baixa — Você vive como se ninguém importasse. Usa as pessoas e depois joga fora.
Aquilo bateu mais fundo do que eu queria admitir.
— Eu nunca prometi nada — respondi — Você sabia exatamente com quem tava se envolvendo.
Ela engoliu seco.
— Mesmo assim… — a voz falhou — dói.
Não respondi. Porque qualquer coisa que eu dissesse ali só pioraria.
Yoongi apareceu atrás de mim.
— JK — chamou — a gente vai dar uma volta. Se quiser ir…
Olhei pra Ji-a. Depois pra pista. Depois pra saída.
A festa já tinha perdido o gosto.
— Eu vou — falei.
Ji-a me encarou, surpresa.
— Vai embora?
— Vou — respondi.
Eu ainda tava do lado de fora da casa, encostado na moto, capacete pendurado no braço, pensando seriamente em ir embora de vez, quando ouvi passos vindo atrás de mim.
— Ei. — Yoongi.
Nem precisei virar pra saber.
— Se veio me convencer a voltar lá dentro, nem tenta.
— Não vim — ele respondeu, calmo — vim te sequestrar.
Franzi a testa e virei pra ele.
— Como é?
San apareceu logo depois, sorriso largo, já meio bêbado.
— Mudança de planos, irmão. Aquela festa já morreu.
— Morreu nada — resmunguei — tá cheia lá dentro.
— Tá cheia de drama — Hoseok corrigiu, surgindo do nada, braço jogado no ombro do Chan — e a gente não saiu de casa pra lidar com ex possessiva.
Chan assentiu.
— Jin mandou mensagem. Restaurante tá aberto só pra conhecidos hoje. Bebida boa. Comida decente. Tá ligado?
Isso me fez parar.
— O Jin? — perguntei.
— O próprio — Yoongi confirmou — falou pra a gente aparecer la.
Olhei pra casa uma última vez. Pela janela dava pra ver Ji-a andando de um lado pro outro, claramente me procurando. Suspirei fundo.
— Foda-se — falei — vamo.
O clima mudou na hora.
— AEEEE — Hoseok gritou — SABIA!
Subimos nas motos e carros, combo improvisado, rindo alto, música estourando, como se a noite ainda tivesse chance de ser salva.
O restaurante do Jin ficava numa rua mais afastada, iluminação quente, fachada elegante pra quem conhece ele de verdade. Quando chegamos, a porta já tava meio fechada.
Jin limpando uma das mesas logo virou.
— Olha só quem resolveu aparecer — disse, sorriso debochado — os marginalizados da noite.
— Amor, abre logo — Namjoon apareceu atrás dele — antes que eles mudem de ideia.
Jin abriu a porta de vez.
— Entra, cafajestes. Hoje eu tô generoso.
O lugar tava diferente de restaurante comum. Luz baixa, música boa, mesas afastadas, gente bonita, bem vestida, rindo baixo. Nada de gritaria, nada de empurra-empurra.
— Porra… — murmurei — isso aqui tá bom.
— Sempre esteve — Jin respondeu — você que só anda em lugar caótico.
Sentamos numa mesa grande. Bebida chegou rápido. Comida melhor ainda. Pela primeira vez naquela noite, senti os ombros relaxarem.
— Agora sim — San disse, levantando o copo — noite salva.
— Ainda não — Yoongi respondeu — mas tá no caminho.
Hoseok já tava em pé de novo, conversando com duas pessoas na mesa ao lado, rindo alto como se conhecesse há anos.
— Esse aí nunca cansa — Chan comentou.
— Nem quando devia — respondi, rindo pela primeira vez de verdade naquela noite.
Namjoon me olhou por cima do copo.
— E você, JK. Tá melhor?
Pensei por um segundo.
— Tô — respondi — aqui tá silencioso o suficiente pra não dar dor de cabeça.
Jin cruzou os braços, me analisando.
— Você tem talento pra estragar a própria noite — disse — mas também tem amigos bons o suficiente pra te puxar de volta.
Não respondi. Só dei um meio sorriso.
Enquanto a conversa rolava, risadas surgiam, copos se enchiam, gente nova aparecia. Olhei em volta. Nenhuma cobrança. Nenhum drama. Só aquele caos organizado que funcionava.
Talvez a noite não tivesse acabado.
E, sem eu saber ainda,
aquele lugar — calmo demais pro meu normal —
ia ser exatamente onde tudo começaria a mudar depois.
A mesa tava finalmente tranquila.
Copos meio cheios, comida boa espalhada, conversa atravessada entre risada e zoeira. Hoseok contava alguma história exagerada — como sempre — gesticulando tanto que quase derrubou o próprio drink.
— Eu JURO que o segurança me olhou e pensou “esse aí é problema” — ele disse.
— Ele pensou certo — Yoongi respondeu seco, arrancando risada geral.
Meu celular vibrava sem parar no bolso. Vibração curta, insistente. Tirei ele e a tela parecia um campo minado de notificação.
Mensagem.
Ligação perdida.
Mensagem.
Mensagem.
Mensagem.
— Caralho… — murmurei.
— Ainda é a Ji-a? — Chan perguntou.
— E outras variações do mesmo erro — respondi.
Sem paciência nenhuma, segurei o botão lateral.
Desliguei.
A paz foi imediata.
— Pronto — falei — oficialmente fora do ar.
— Orgulho de você — Jin disse, batendo palmas devagar — evolução emocional em tempo recorde.
— Não exagera — respondi — é só sobrevivência.
Foi quando o sino da porta do restaurante chacoalhou.
Plim-plim.
Automaticamente, levantei o olhar.
Um garoto de cabelo loiro passou primeiro. Alto, postura solta, sorriso fácil. Ria alto de alguma coisa enquanto falava com Namjoon, claramente à vontade, como se conhecesse o lugar há tempos. Parecia aquele tipo de pessoa que entra num ambiente e já pertence a ele.
Eu só registrei isso.
Porque logo atrás…
Veio o outro.
E foi como se o resto do restaurante tivesse dado um passo pra trás.
Cabelo rosa.
Não um rosa chamativo. Um tom elegante, quase brilhante sob a luz quente do lugar. O look todo branco contrastava de um jeito absurdo: calça jeans boca de sino colada nas coxas, marcando cada movimento, uma blusa caída de um lado, deixando parte do ombro exposto de forma totalmente sem esforço.
E o tênis vermelho.
Detalhe pequeno, mas impossível de ignorar.
Ele andava com calma, postura ereta, expressão contida. Sorria — mas pouco. Um sorriso educado, quase distante, como se estivesse ali fisicamente, mas a cabeça em outro lugar.
E quando ele virou de lado pra ir em direção ao caixa…
— …porra.
Não falei alto. Nem precisei.
A bunda dele devia ter CEP próprio.
Yoongi me olhou de canto.
— Não comenta.
— Eu não comentei — respondi.
— Pensou alto.
— Problema é seu.
Os dois seguiram andando. O loiro falava animado com Namjoon no caixa, rindo, gesticulando. O de cabelo rosa só observava, mãos no bolso, olhar atento, sério demais pra alguém tão… chamativo.
Alguma coisa nele não combinava com o resto.
Não era timidez.
Não era arrogância.
Era controle.
E isso me deixou curioso pra caralho.
Quando eles passaram perto da nossa mesa pra sair, fiz o que eu sempre fazia sem pensar muito.
Olhei direto pra ele.
Ele não olhou de volta.
Inclinei um pouco a cabeça e pisquei.
Confiante. Simples.
Nada.
Ele seguiu andando como se eu não existisse.
— Oi? — murmurei, incrédulo.
— IGNORADO — Hoseok cochichou, segurando o riso.
— Viu isso? — perguntei.
— Vi — Chan respondeu — foi bonito até.
— Foi humilhante — corrigi.
Os dois chegaram à porta. O loiro ainda rindo alto. O de rosa abriu a porta, o sino tocou de novo, e pronto.
Sumiram.
Fiquei alguns segundos olhando pra porta fechada.
— Jin — chamei.
— Hm?
— Quem era o de cabelo rosa?
Jin ergueu a sobrancelha, devagar demais pra ser coincidência.
— Por quê?
— Curiosidade científica — respondi.
Ele riu pelo nariz.
— Park Fiere.
O nome bateu diferente.
— Estuda arquitetura. Filho de gente importante. Rico. Educado. E não dá moral pra qualquer um — Jin completou, olhando direto pra mim.
Yoongi soltou um riso baixo.
— Principalmente pra você.
Cruzei os braços, ainda encarando a porta.
— A gente vê.
Por que cara. Não é possível.
Ser ignorado?
Ele deve estar só me testando.
Interessante pra caralho.
Fingi que voltei pra conversa.
Fingi.
Porque minha cabeça ficou presa naquela porta por tempo demais pra alguém que “não liga”.
— Tá me olhando assim por quê? — San perguntou.
— Não tô — respondi rápido demais.
Yoongi levantou o copo, olhando pra mim por cima da borda.
— Você piscou pra um desconhecido, foi ignorado e agora tá em negação. Clássico.
— Cala a boca — rosnei.
— Ihhh, doeu — Hoseok riu.
Dei um gole longo no drink, tentando engolir a sensação estranha que tinha ficado. Não era rejeição. Eu já tinha sido ignorado antes. Era o jeito.
Ele não desviou o olhar. Não acelerou o passo. Não reagiu.
Como se eu fosse… comum.
— Ridículo — murmurei.
— O quê? — Chan perguntou.
— Nada.
Cinco minutos depois, Jin se levantou.
— Vou buscar uma coisa no estoque — disse — quem quiser sobremesa, é agora.
— Eu vou — falei, rápido demais de novo.
— Aham — Yoongi comentou — sobremesa.
Ignorei.
Caminhei até o fundo do restaurante, passando pelo corredor lateral que levava ao estoque — e ao banheiro. Foi quando ouvi vozes.
— Hyung, você esqueceu o casaco — uma voz animada, masculina.
O loiro.
Parei por reflexo.
— Não esqueci — respondeu outra voz.
Mais baixa. Controlada.
O rosa.
Eles estavam parados perto da saída lateral, luz mais fria ali. O loiro segurava um casaco claro, falando rápido demais. O de cabelo rosa ajeitava a manga da blusa caída no ombro, expressão tranquila, mas distante.
— Você sempre diz isso — o loiro reclamou — depois passa frio e—
— Taehyung — ele interrompeu, sem elevar a voz — tá tudo bem.
Então ele virou.
E me viu.
Por um segundo — só um — nossos olhares se cruzaram.
Dessa vez, ele me viu.
Senti aquele impacto seco no peito. Não era atração comum. Era atenção sendo finalmente reconhecida.
Levantei a sobrancelha, confiante.
— Eae — falei, simples.
O loiro olhou de mim pro amigo, curioso.
O de cabelo rosa me analisou. Sem pressa. Dos pés à cabeça. Como quem mede algo antes de decidir se vale o tempo.
— Oi — respondeu.
Educado. Neutro.
— Você piscou pra mim antes — completei, meio sorriso — achei que tivesse sido um bug.
O loiro arregalou os olhos.
— Não pisquei de volta — ele disse, calmo.
Silêncio.
Depois o loiro caiu na risada.
— MEU DEUS — Taehyung falou — ele te cortou na paz!
Cruzei os braços, rindo de canto.
— Gosto de gente direta.
— Ótimo — ele respondeu — eu odeio gente insistente.
Aquilo devia ter me afastado.
Não afastou.
— Jungkook — me apresentei.
— Sério? — ele disse.
Arregalei os olhos. Fodeu. Por isso ele não caiu... eu acho.
— Como?
— VOCÊ barulhento — respondeu, olhando por cima do meu ombro, na direção da mesa — e seus amigos também.
Taehyung segurava o riso.
— A gente vai indo — Fiore completou — boa noite.
Passou por mim sem encostar, cheiro limpo, discreto, nada doce demais. Quando a porta lateral fechou atrás deles, fiquei parado.
— Ok — murmurei — isso tá estranho.
Voltei para a mesa, a mente ainda girando em torno do encontro inesperado. Meus amigos me olharam com curiosidade, mas eu apenas me joguei na cadeira, pegando meu copo e bebendo de uma vez.
— Que cara é essa? — San perguntou, notando minha expressão.
— Nada — respondi, tentando soar casual.
Yoongi, como sempre, me desmascarou sem esforço.
— O “nada” dele tem nome, sobrenome e cabelo rosa.
Hoseok e Chan explodiram em risadas. Eu revirei os olhos, mas não pude evitar um sorriso de canto. A verdade é que Park Fiere tinha me pegado de surpresa. A confiança dele, a forma como me ignorou e depois me cortou… era algo que eu não estava acostumado.
— Ele me chamou de barulhento — contei, ainda incrédulo.
— E seus amigos também — Chan completou, imitando a voz de Fiore.
— Ele não está errado — Jin comentou, servindo mais bebida para todos. — Vocês fazem um barulho do caralho.
— Mas me chamar de barulhento? Como se eu fosse um bicho? — protestei.
— Ele não te chamou de bicho, JK — Yoongi disse, com um tom de quem sabia mais do que falava. — Ele só te descreveu de um jeito que você não está acostumado a ouvir.
Aquilo me fez pensar. Eu era o cara que sempre tinha o controle, que jogava o jogo e sempre vencia. Mas Fiore… ele não parecia estar jogando o mesmo jogo. Ele estava em outro nível, com outras regras. E isso me instigava de um jeito que eu não sentia há muito tempo.
— E o que ele quis dizer com “odeio gente insistente”? — perguntei, mais para mim mesmo do que para eles.
— Ah, isso é fácil — Hoseok respondeu, com um sorriso malicioso. — Ele te deu um aviso. Tipo: “Não me enche o saco, cafajeste”.
— Eu não sou insistente — protestei.
— Não? — Jin arqueou a sobrancelha. — Lembro de uma vez que você ligou para uma garota dezessete vezes em uma hora.
— Aquilo foi diferente — me defendi. — Ela tinha pegado meu carregador.
— Ah, claro — Yoongi ironizou. — O carregador.
A conversa continuou, mas minha mente estava longe. Park Fiere. O nome ecoava na minha cabeça. Ele não era como as outras pessoas que eu conhecia. Ele não caiu nos meus truques, não se intimidou com meu olhar, não se importou com a minha reputação. Pelo contrário, ele me desafiou.
E eu adorava um desafio.
Olhei para a porta por onde ele tinha saído, um sorriso lento se formando nos meus lábios. Aquela noite, que começou com a irritação da Ji-a e a frustração de uma festa estragada, tinha acabado de ganhar um novo tempero.
Eu não sabia o que Park Fiere era, mas sabia que ele era diferente. E isso era exatamente o que eu precisava.
— Jin — chamei de novo.
— Que foi agora? — ele perguntou, já prevendo algo.
— O Park Fiere… ele vem muito aqui?
Jin me olhou com um sorriso de quem sabia de tudo.
— Ele é meu primo. E sim, ele vem sempre. Por quê?
Um arrepio percorreu minha espinha. Primo do Jin. Isso explicava a familiaridade com Namjoon, a postura à vontade, mas também a indiferença. Ele já estava acostumado com pessoas como eu.
— Nada — respondi, disfarçando. — Só curiosidade.
Yoongi pigarreou.
— Curiosidade científica, né?
— Exatamente — confirmei, piscando para ele.
Aquela noite, que parecia ter sido salva pela intervenção dos meus amigos, agora tinha um novo propósito. Park Fiere não tinha me dado moral. Ele tinha me ignorado. Ele tinha me chamado de barulhento. E isso, de alguma forma, só me fez querer mais.
Eu não sabia como, mas eu faria com que Park Fiere me notasse. E não apenas isso, eu faria com que ele me quisesse.
Afinal, eu era Jeon Jungkook. E eu sempre conseguia o que queria.
O jogo tinha acabado de começar. E eu já sentia que ia ser o meu jogo favorito.
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