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Funeral

Фандом: Novelas

Создан: 20.03.2026

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Содержание

O Eco do Abandono Sob a Chuva de Cinzas

A atmosfera do cemitério era de uma opressão quase física, um amálgama de terra úmida, flores em decomposição e o silêncio cortante das despedidas definitivas. Demétrio Rivero, mantendo a postura impecável que seu sobrenome exigia, permanecia a alguns metros do epicentro da dor de Cecília. Ele conversava com Bruno em tons baixos, uma troca de palavras burocráticas sobre o cortejo, mas seus olhos — castanhos escuros, profundos e sempre vigilantes — nunca abandonavam a figura esguia e enlutada de sua amada. Para o mundo, ele era o padrasto, o pilar de sobriedade da família; para ela, ele era o único porto seguro em um oceano de hipocrisia.

O murmúrio da conversa entre Bruno e ele foi subitamente interrompido por uma alteração na estática do ambiente. Demétrio sentiu um arrepio na nuca, um instinto primal que o fez desviar o foco de Bruno e estreitar o olhar em direção à lápide de Ana Rosa. Lá, uma silhueta masculina se materializara atrás de Cecília. Demétrio forçou a visão, as sobrancelhas unindo-se em um vinco de concentração e estranhamento. O homem de terno preto e óculos de armação fina tinha uma postura que desencadeou uma avalanche de memórias amargas no peito de Demétrio.

O reconhecimento veio como um soco no estômago. Aquela inclinação de cabeça, o brilho azulado e cínico por trás das lentes... Era Miguel. O homem que, anos antes, Demétrio enfrentara em uma discussão homérica, desferindo palavras que eram como chicotes contra a covardia de quem abandonava duas crianças à própria sorte. O sangue de Demétrio ferveu instantaneamente. As feições do Rivero endureceram, transformando seu rosto em uma máscara de granito. Suas narinas inflaram levemente, e o maxilar se travou com tamanha força que os músculos da face saltaram. A audácia daquele homem em retornar justamente ali, no solo sagrado da dor que ele mesmo ajudara a semear, era uma afronta que Demétrio mal conseguia processar.

— Demétrio? Ei, Demétrio! — A voz de Bruno o resgatou do transe colérico. — Desculpe, eu estava dizendo que... — Bruno seguiu o olhar fixo do amigo e soltou um riso curto, desprovido de malícia. — Parece que a Cecília tem um pretendente novo. Um pouco mais velho, mas parece interessado.

Demétrio sequer piscou, mantendo os olhos cravados na interação tensa entre pai e filha.

— Não diga besteiras, Bruno — respondeu Demétrio, sua voz saindo em um tom baixo e perigoso, como o rosnar de um animal antes do ataque. — Aquele homem não é um pretendente. É Miguel, o pai dela.

A tensão no corpo de Demétrio era quase visível, uma energia estática que parecia afastar o ar ao seu redor. Por que agora? O oportunismo de Miguel era lendário, e Demétrio sabia que ele não viera pelo luto de Ana Rosa, mas sim como um abutre que fareja a vulnerabilidade de Cecília. Ele conhecia a natureza manipuladora daquele homem; sabia que Miguel usaria cada gota de remorso e cada lágrima de Cecília para tecer uma rede de mentiras em benefício próprio.

Bruno despediu-se com um aceno contido, percebendo que o clima havia mudado drasticamente. Assim que ficou sozinho, Demétrio não hesitou. Movido por um instinto protetor que ignorava convenções sociais ou o olhar atento dos poucos curiosos, ele caminhou em direção ao burburinho. Cada passo seu era pesado, deliberado, a personificação de uma tempestade iminente.

Ao chegar ao grupo, ele ignorou solenemente a figura histérica de Daniela, que pairava como uma sombra oportunista. Seus olhos castanhos, agora escurecidos pela fúria controlada, fixaram-se diretamente nos olhos azuis de Miguel.

— O que você está fazendo aqui, Miguel? — A pergunta foi direta, desprovida de qualquer cortesia. Sem esperar a resposta do intruso, Demétrio inclinou-se levemente para Cecília, sua voz suavizando apenas para ela. — Cecília, você está bem? Precisa de alguma coisa?

Cecília o olhou por um breve segundo, um lampejo de desespero verde cruzando seu olhar marejado antes de ela se virar e sair apressada, incapaz de suportar mais um segundo daquela encenação macabra. Daniela, sentindo-se ultrajada pela indiferença de Demétrio, tomou a frente com os braços cruzados.

— Eu o chamei, Demétrio! — exclamou Daniela, a voz aguda cortando o vento. — Miguel é o pai de Ana Rosa, ele tem todo o direito de estar aqui para se despedir da filha e consolar a que ficou!

Demétrio não desviou o olhar de Miguel, mantendo os olhos cerrados em um julgamento silencioso. Miguel, com um sorriso que tentava ser diplomático, mas que aos olhos de Demétrio não passava de uma careta de falsidade, estendeu a mão direita.

— Demétrio, quanto tempo — disse Miguel, a voz tingida de uma calma ensaiada. — Como Daniela disse, eu vim porque... bem, Ana Rosa era meu sangue. E eu quero o perdão da minha princesinha, a Cecília. Quero recuperar o tempo perdido.

Demétrio olhou para a mão estendida de Miguel como se fosse um objeto infectado. Ele manteve os braços ao lado do corpo, a recusa sendo um insulto silencioso e absoluto. Miguel recolheu a mão, guardando-as nos bolsos com um sorriso sem graça, um brilho de irritação cruzando seus olhos azuis por trás dos óculos.

— Parece um pouco tarde demais para você querer bancar o pai, Miguel — sentenciou Demétrio, a voz gélida. — Ana Rosa está morta. Você não esteve aqui para os erros dela, para as dores dela, e certamente não terá o direito de chorar sobre o túmulo dela agora. E quanto a Cecília... ela está muito bem protegida. Ela não precisa de um "pai" que só aparece quando o solo já está coberto de flores fúnebres.

— Você não entende, Demétrio — interveio Daniela, tentando recuperar o controle da situação —, a família precisa se unir agora, e Miguel...

— Chega, Daniela! — Demétrio a interrompeu com um gesto brusco da mão, sem sequer olhar para ela. — Miguel, escute bem o que vou lhe dizer e guarde cada palavra. Você não tem lugar nesta família. Você abdicou desse direito dez anos atrás. Cecília construiu uma vida, uma força que você não seria capaz de compreender. Não volte a procurá-la. Não tente se infiltrar na dor dela para aliviar a sua consciência imunda. Se você se aproximar dela novamente, terá que se ver comigo, e eu garanto que não serei tão diplomático quanto fui hoje.

Sem esperar por uma réplica, Demétrio deu as costas aos dois, deixando Miguel estático sob o céu de chumbo e Daniela balbuciando desculpas frenéticas ao homem que acabara de ser humilhado. O coração de Demétrio batia acelerado, não de medo, mas de uma urgência angustiante. Ele precisava encontrá-la. Sabia que as palavras de Miguel haviam agido como ácido sobre feridas que Cecília lutara anos para cicatrizar.

A chuva, que antes era apenas uma ameaça, começou a cair de forma amena, lavando a poeira das lápides e escurecendo o asfalto. Demétrio apressou o passo, avistando a figura de Cecília a poucos metros da saída do cemitério. Ela caminhava com uma rigidez que denunciava o esforço para não desmoronar.

— Cecília! — Ele chamou, sua voz carregada de uma ternura que só ela conhecia.

Ele correu os últimos metros, ultrapassando-a e parando diante dela, bloqueando seu caminho. O que ele viu o partiu em mil pedaços. O rosto de sua amada estava devastado; as lágrimas misturavam-se à chuva, o rubor da raiva e da mágoa tingia suas bochechas pálidas, e o olhar verde, antes tão altivo, estava mergulhado em uma agonia insuportável.

Sem dizer uma palavra, Demétrio a envolveu em seus braços. Foi um gesto instintivo, uma necessidade de protegê-la do mundo e de si mesma. Ele a aninhou contra seu peito, sentindo o corpo esguio dela tremer violentamente sob o vestido preto úmido. Ele não se importava se Daniela os veria da distância, se os fofoqueiros da capital teriam um novo escândalo para comentar. Naquele momento, só existiam os dois e o som da chuva batendo contra o guarda-chuva que ele sequer abrira.

— Chore, meu amor — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela, onde o cheiro de seus cabelos loiros se misturava ao odor da chuva. — Deixe tudo sair. Você não precisa ser forte agora. Eu estou aqui. Eu sempre vou estar aqui.

Sua mão subia e descia pelas costas dela em um movimento rítmico e incessante, um acalanto para a alma atormentada. Ele sentia os soluços dela contra seu peito, pequenos espasmos de uma dor antiga que finalmente encontrava um lugar seguro para transbordar.

— Tudo vai ficar bem, Cecília. Você tem a mim. Aquele homem não pode mais te tocar, eu não vou permitir.

A chuva tornou-se mais densa, as gotas agora pesadas e frias. Demétrio percebeu que o frio começava a castigar o corpo dela.

— Vamos para casa — disse ele suavemente, afastando-se apenas o suficiente para olhar em seus olhos. — Você precisa sair daqui, precisa de um banho quente e de silêncio. Lá você vai se sentir melhor.

Ele a envolveu pela cintura, guiando-a com firmeza e carinho até o carro estacionado logo além do portão. Durante todo o trajeto até a mansão, o silêncio no interior do veículo era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico dos limpadores de para-brisa. Cecília permanecia absorta, olhando para a janela, as luzes da cidade borrando-se em um caleidoscópio de cores tristes. Demétrio mantinha uma mão no volante e a outra estendida sobre o console, os dedos roçando levemente o joelho dela, uma âncora constante. Ele sabia que ela estava processando o turbilhão das últimas vinte e quatro horas: a morte da irmã, a expulsão, a culpa e, agora, o fantasma do pai.

Ao chegarem à mansão, o ambiente estava mergulhado em uma penumbra acolhedora. Demétrio a ajudou a descer, protegendo-a até a entrada. Já dentro do hall, sob a luz suave do lustre de cristal, ele parou diante dela. Cecília parecia mais calma, mas seus olhos ainda carregavam a opacidade de quem vira o abismo.

— Cecília... — começou ele, sua voz ecoando suavemente nas paredes de mármore. — Você passou por muita coisa hoje. Coisas que ninguém deveria carregar sozinha.

Ele a observou com uma mistura de respeito e adoração, sentindo o peso da dor dela como se fosse sua.

— Você quer que eu a deixe sozinha? — perguntou ele, a voz tingida de uma hesitação cuidadosa. — Eu posso ficar aqui, ou posso ir para o escritório... Vou respeitar o seu espaço e a sua dor, se for isso que você precisa agora. Só quero que saiba que, se precisar de um ombro, ou apenas de alguém para dividir o silêncio, eu não estarei a mais de um passo de distância.
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